Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 33 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 13

 

No dia seguinte Martín ligou para a única pessoa que podia ver, em vez de Alejandra: a única ponte para o território desconhecido, ponte acessível mas terminando numa região brumosa e melancólica. Sem falar que seu pudor, e o de Bruno, não o deixava conversar sobre o único assunto que lhe interessava.

Marcou encontro com ele no La Helvética.

— Preciso ver o padre Rinaldini, mas iremos juntos.

Bruno lhe explicou que o padre estava muito doente e que ele acabava de fazer uma gestão ao monsenhor Gentile para ver se lhe permitiam voltar para La Rioja. Mas os bispos o odiavam, e era verdade que Rinaldini fazia todo o possível para ser odiado.

— Um dia, quando morrer, vai se falar muito dele. É o mesmo caso de Galli Mainini. Neste país de rancorosos só se começa a ter um grande nome quando se deixa de sê-lo.

Andavam pela rua Perú; apertando seu braço, Bruno apontou-lhe um homem que caminhava na frente deles, ajudado por uma bengala.

— Borges.

Quando estavam perto, Bruno o cumprimentou. Martín viu-se apertando aquela mão pequena, quase sem ossos e sem vigor. Seu rosto parecia ter sido desenhado e, em seguida, meio apagado, com uma borracha. Tartamudeava.

— Este é um amigo de Alejandra Vidal Olmos.

— Caramba... caramba... Alejandra... muito bem.

Levantava as sobrancelhas, observava-o com olhos azuis e aquosos, com uma cordialidade abstrata e sem destinatário preciso, ausente.

Bruno perguntou-lhe o que estava escrevendo.

— Bem, caramba... — tartamudeou, sorrindo de um jeito entre o culpado e o malicioso, desse jeito que costumam ter os homens do campo na Argentina, ironicamente modesto, mescla de secreta arrogância e aparente acanhamento, toda vez que examinam um pingo ou que avaliam a habilidade de alguém trançar tentos. — Caramba... bem... tentando escrever uma página que seja mais que um rascunho... hã, hã!...

E tartamudeava fazendo com o rosto uma série de tiques brincalhões.

E, enquanto caminhavam para a casa de Rinaldini, Bruno revia Méndez dizendo com sarcasmo: Conferencista para senhoras da oligarquia! Mas tudo era muito mais complexo do que Méndez imaginava.

— É curioso a qualidade e a importância que tem neste país a literatura fantástica — disse Bruno. — A que se deve isso?

Timidamente Martín lhe perguntou se não podia ser conseqüência de nossa desagradável realidade, uma evasão.

— Não. A realidade norte-americana também é desagradável. Deve haver outra explicação. Quanto ao que Méndez pensa de Borges...

Sorriu.

— Dizem que é pouco argentino — Martín comentou.

— O que poderia ser senão argentino? É um típico produto nacional. Até seu europeísmo é nacional. Um europeu não é europeísta: é europeu, simplesmente.

— Acha que ele é um grande escritor?

Bruno ficou pensando.

— Não sei. Só sei que sua prosa é a mais notável que hoje se escreve em castelhano. Mas ele é preciosista demais para ser um grande escritor. Você imagina Tolstoi tentando deslumbrar com um advérbio, quando está em jogo a vida ou a morte de um personagem? Mas não vá pensar que tudo nele é bizantino. Tem algo muito argentino em suas melhores coisas: certa nostalgia, certa tristeza metafísica...

Andou um trecho em silêncio.

— Na verdade, dizem muitas bobagens sobre o que deve ser a literatura argentina. O importante é que seja profunda. Tudo o mais é acréscimo. E, se não

for profunda, não adianta nada pôr em cena gaúchos ou compadritos.* O escritor mais representativo da Inglaterra elisabetana foi Shakespeare. Contudo, muitas de suas peças nem sequer se passam na Inglaterra.

Depois acrescentou:

— ... E o que eu acho mais engraçado é que Méndez repudia a influência européia em nossos escritores: baseado em quê? E isso é o mais divertido: numa doutrina filosófica elaborada pelo judeu Marx, o alemão Engels e o grego Heráclito. Se fôssemos conseqüentes, segundo esses críticos, teríamos de escrever em querandí sobre a caça ao avestruz. Tudo o mais seria adventício e antinacional. Nossa cultura vem de lá: como podemos evitar? E por que evitar? Não me lembro de quem disse que não lia para não perder a originalidade. Já imaginou? Se alguém nasceu para fazer ou dizer coisas originais, não vai se perder lendo livros. Se não nasceu para isso, nada perderá lendo livros... Além do mais, e isso é a novidade, estamos num continente diferente e forte, tudo se passa num sentido diferente. Faulkner também leu Joyce e Huxley, Dostoievski e Proust. O que querem? Uma originalidade total e absoluta? Não existe. Nem em arte nem em nada. Tudo se constrói sobre o que havia antes. Não há pureza em nada humano. Os deuses gregos também eram híbridos e estavam infectados (é modo de dizer) por religiões orientais e egípcias. Há um fragmento de O moinho à beira-rio em que uma mulher experimenta um chapéu diante do espelho: é puro Proust. Quer dizer, é o germe de Proust. Tudo o mais é desenvolvido por Eliot. Um desenvolvimento genial, quase canceroso, mas, ainda assim, desenvolvimento. O mesmo se passa num conto de Melville, acho que se chama Bertleby ou Bartleby ou algo parecido. Quando o li, impressionou-me um certo clima kafkiano. E tudo é assim. Nós, por exemplo, somos argentinos até quando renegamos o país, como Borges costuma fazer. Sobretudo quando renegamos com verdadeira raiva, como Unamuno faz com a Espanha; tal como esses ateus violentos que põem bombas numa igreja, o que é uma forma de acreditar em Deus. Os verdadeiros ateus são os indiferentes, os cínicos. E o que poderíamos chamar de ateísmo da pátria são os cosmopolitas, esses indivíduos que vivem aqui como poderiam viver em Paris ou em Londres. Vivem num país como num hotel. Mas sejamos justos: Borges não é um desses, acho que este país lhe dói, de alguma maneira, embora, é claro, não tenha a sensibilidade ou a generosidade para que lhe doa o mesmo país que dói a um peão do campo ou ao operário de um frigorífico. E aí ele demonstra a sua falta de grandeza, a incapacidade para entender e sentir a totalidade da pátria, até em sua imunda complexidade. Quando lemos Dickens ou Faulkner ou Tolstoi sentimos essa compreensão total da alma humana.

— E Güiraldes?

— Em que sentido?

— Quero dizer, esse negócio do europeísmo.

— Bem, sim. Em certo sentido e em alguns momentos, Don Segundo Sombra parece ter sido escrito por um francês que tivesse vivido no pampa. Mas, veja bem, Martín, observe que eu disse “em certo sentido”, “em alguns momentos”... O que significa que esse romance não poderia ter sido escrito por um francês. Acho que é fundamentalmente argentino, embora os gaúchos de Lynch sejam mais verdadeiros que os de Güiraldes. Don Segundo é um gaúcho mitológico, mas ainda assim é tudo menos um mito. E a prova de que é um mito autêntico é que se entranhou na alma do nosso povo. Sem falar que Güiraldes é argentino por sua preocupação metafísica. Isso é típico: em Hernández, Quiroga, Roberto Arlt.

— Roberto Arlt?

— Não há a menor dúvida. Muitos tolos acreditam que ele é importante por seu gosto pelo pitoresco. Não, Martín, quase tudo o que nele é pitoresco é um defeito. É grande apesar disso. É grande pela formidável tensão metafísica e religiosa dos monólogos de Erdosain. Los siete locos está cheio de defeitos. Não falo de erros estilísticos ou gramaticais, que não teriam importância. Digo que está cheio de literatura entre aspas, de personagens pretensiosos ou apócrifos, como o Astrólogo. É grande apesar de tudo isso.

Sorriu.

— Mas... o destino dos grandes artistas é bastante triste: quando o admiram é, em geral, por suas fraquezas e seus defeitos.

O próprio Rinaldini abriu-lhes a porta.

Era um homem alto, de cabelo branquíssimo, perfil aquilino e austero. Em sua expressão havia uma intrincada combinação de bondade, ironia, inteligência, modéstia e orgulho.

O apartamento era muito pobre, abarrotado de livros. Quando chegaram, ao lado dos papéis e de uma máquina de escrever havia restos de pão e queijo. Timidamente, disfarçadamente, Rinaldini tentou tirá-los.

— Só posso oferecer um copo de vinho de Cafayate. — Pegou uma garrafa.

— Acabamos de ver Borges na rua, padre — Bruno comentou.

Enquanto arrumava os copos, Rinaldini sorriu. Bruno explicou então a Martín que ele tinha escrito coisas muito importantes sobre Borges.

— Bem, mas já passou muita água debaixo da ponte — Rinaldini comentou.

— Como? O senhor se retificaria?

— Não — respondeu com um gesto ambíguo —, mas agora diria outras coisas. Cada dia suporto menos os contos dele.

— Mas gostava muito dos poemas, padre.

— Bem, é, de alguns. Mas há muito bagulho.

Bruno disse que se comovia com os poemas que lembravam a infância, a Buenos Aires de antigamente, os velhos pátios, o passar do tempo.

— É — Rinaldini admitiu. — O que não tolero são seus divertimentos filosóficos, se bem que seria mais certo dizer pseudofilosóficos. É um escritor engenhoso, pseudo-edificante. Ou, como dizem os ingleses, sofisticado.

— Mas, padre, um jornal francês fala da profundidade filosófica de Borges.

Rinaldini ofereceu cigarros, enquanto sorria, mefistotélico.

— Não me diga...

Acendeu os cigarros e disse:

— Veja, pegue qualquer desses divertimentos. A biblioteca de Babel, por exemplo. Ali ele sofistica o conceito de infinito, que confunde com o de indefinido. Uma distinção elementar, há vinte e cinco séculos está em qualquer tratadozinho. E, naturalmente, de um absurdo pode-se inferir qualquer coisa. Ex absurdo sequitur quodlibet. E dessa confusão pueril ele tira a sugestão de um universo incompreensível, uma espécie de parábola ímpia. Qualquer estudante sabe, e até me atreveria a conjecturar (como diria Borges), que a realização de todos os possíveis ao mesmo tempo é impossível. Posso estar de pé e posso estar sentado, mas não ao mesmo tempo.

— E o conto sobre Judas?

— Um padre irlandês me disse um dia: Borges é um escritor inglês que vai blasfemar nos subúrbios. Conviria acrescentar: nos subúrbios de Buenos Aires e da filosofia. O raciocínio teológico que apresenta o senhor Borges-Sörensen, essa espécie de centauro escandinavo-portenho, praticamente não tem nem a aparência de um raciocínio. É teologia pintada. Eu também, se fosse pintor da escola abstrata, poderia pintar uma galinha com um triângulo e uns pontinhos, mas daí não poderia tirar caldo de galinha. Pois bem: esse jogo em Borges é intencional ou natural? Quer dizer, ele é um sofista ou um sofisticado? Essa burla é intolerável em qualquer homem honrado, embora se diga que é pura literatura.

— No caso de Borges, é pura literatura. Ele mesmo lhe diria.

— Azar o dele.

Agora estava indignado.

— Essas fantasias benevolentes com Judas denotam uma tendência à frouxidão e à covardia. Recua-se diante das coisas supremas, diante da bondade e diante da maldade suprema. Assim, hoje um mentiroso não é um mentiroso: é um político. Trata-se, elegantemente, de salvar o diabo: o diabo não é tão negro como o pintam, ora essa!

Olhou-os como que pedindo satisfação.

— Na verdade, é o contrário: o diabo é mais negro do que essa gente pinta. Não são maus filósofos, o pior para eles é que são maus escritores. Porque não percebem nem sequer essa realidade psicológica capital que Aristóteles já enxergara. Isso que Edgar Poe chamou the imp of perversity. Os grandes escritores do século passado já viram isso com lucidez: desde Blake até Dostoievski. Mas, claro...

Não completou a frase. Olhou um momento pela janela e depois concluiu dizendo, com seu sorriso sutil:

— Por isso Judas anda solto na Argentina... É o patrono dos ministros da Fazenda, pois tirou dinheiro de onde não tinha ocorrido a ninguém tirar. Entretanto, pobre alma, Judas não sonhou em governar. E agora em nosso país parece que está prestes a obter ou já obteve postos do governo. Bem, com governo ou sem governo, Judas termina sempre enforcado.

Depois Bruno lhe explicou suas gestões com o monsenhor Gentile. Rinaldini fez um movimento com a mão e sorriu com certa ironia resignada e bondosa.

— Não se desgaste à toa, Bassán. Os bispos não me largarão. E quanto a esse monsenhor Gentile, que infelizmente é seu parente, em vez de fazer politicagem eclesiástica, seria melhor que lesse o Evangelho de vez em quando.

Foram embora.

Ali ele fica, sozinho, pobre, com sua batina puída, Martín pensou.

* Tipo popular, fanfarrão, provocador, afetado no comportamento e no modo de vestir, retratado no tango Bailarín compadrito como um “dândi, penteado com gomalina, dançando milonga com ares de importância e exibindo sua elegância”. (N. T.)