Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 5
A “esperança” de revê-la (Bruno refletiu com melancólica ironia). E também pensou: não serão todas as esperanças dos homens tão grotescas como esta? De fato, dada a natureza do mundo, temos esperanças em acontecimentos que, caso se produzissem, só nos causariam frustrações e amargura; por isso os pessimistas são recrutados entre os ex-esperançados, pois para ter uma visão negra do mundo há que antes ter acreditado nele e em suas possibilidades. E é ainda mais curioso e paradoxal que os pessimistas, uma vez decepcionados, não estejam constante e sistematicamente desesperançados e que, de certo modo, pareçam dispostos a renovar sua esperança a cada instante, embora o dissimulem sob seu negro invólucro de amargos universais, devido a um certo pudor metafísico, como se o pessimismo, para manter-se forte e sempre vigoroso, precisasse de vez em quando de novo impulso produzido por uma nova e brutal decepção.
E o próprio Martín (pensava ao olhá-lo, ali, na sua frente), o próprio Martín, pessimista em formação, como convém a todo ser puríssimo e preparado para esperar Grandes Coisas dos homens em particular e da Humanidade em geral, já não tentara se suicidar por causa da cloaca que era sua mãe? Isso já não revelaria que ele esperara daquela mulher algo diferente e, com toda a certeza, maravilhoso? Mas (o que era mais espantoso ainda) ele não voltara, após tamanho desastre, a ter confiança nas mulheres ao encontrar-se com Alejandra?
Agora ali estava o pequeno desamparado, um dos tantos nesta cidade de desamparados. Pois Buenos Aires era uma cidade onde eles pululavam, como aliás em todas as gigantescas e pavorosas babilônias.
O que acontece (pensou) é que à primeira vista não os percebemos, pois boa parte deles não parece sê-lo, e outra parte não quer parecer. E também porque, inversamente, uma profusão de criaturas que pretendem sê-lo contribuem para complicar mais ainda o problema, de tal forma que, no final, acredita-se que não há desamparados de verdade.
Pois, é claro, se um homem perdeu as pernas ou os dois braços, todos nós sabemos ou pensamos saber que esse homem é um inválido. E no mesmo instante esse homem começa a sê-lo menos, pois o notamos e temos pena dele, de quem compramos pentes inúteis ou fotos coloridas de Carlos Gardel. E então o mutilado sem pernas ou dois braços deixa de ser parcial ou totalmente o desamparado absoluto em quem estamos pensando, a tal ponto que depois chegamos a ter um obscuro sentimento de rancor, talvez pelos infinitos desamparados absolutos que nesse mesmo instante (por não terem a audácia ou a segurança e nem mesmo a agressividade dos vendedores de pentes e retratos coloridos) sofrem em silêncio e com extrema dignidade sua sorte de autênticos desgraçados.
Como esses homens calados e solitários que não pedem nada a ninguém e não falam com ninguém, sentados e pensativos nos bancos das grandes praças e parques da cidade: alguns, velhos (obviamente os mais desvalidos, a tal ponto que já devem nos preocupar menos, e pelas mesmas razões que os vendedores de pentes), esses velhos com bengalas de aposentados, que vêem o mundo passar como uma lembrança, esses velhos que meditam e a seu jeito talvez reexaminem os grandes problemas examinados pelos grandes pensadores sobre o sentido geral da vida, sobre o porquê e o para quê de tudo: casamentos, filhos, navios de guerra, lutas políticas, dinheiro, reis e corridas de cavalos ou de automóveis; esses velhos que olham ou parecem olhar infinitamente as pombas que comem grãozinhos de aveia ou milho, ou os ativíssimos pardais, ou, em geral, os diferentes tipos de pássaros que aparecem na praça ou vivem nas árvores dos grandes parques. Em virtude dessa notável capacidade de independência e justaposição do universo, enquanto isso um banqueiro propõe realizar a mais formidável operação com divisas fortes jamais realizada no Rio da Prata (afundando de passagem o Grupo X Y ou a terrível Sociedade Anônima ), um passarinho, a cem passos de distância do Poderoso Escritório, anda aos pulinhos na relva do parque Colón, procurando uma palhinha para seu ninho, um grão perdido de trigo ou aveia, uma minhoquinha de interesse alimentício para ele ou seus filhotes; ao passo que, em outro estrato mais insignificante ainda e em certo sentido mais alheio a tudo (não mais ao Grandioso Banqueiro, mas à pequena bengala de aposentado), seres mais minúsculos, mais anônimos e secretos vivem uma existência independente e às vezes ativíssima: vermes, formigas (não só as grandes e pretas, mas as avermelhadas pequenininhas e inclusive outras menores, quase invisíveis) e uma profusão de outros bichinhos mais insignificantes, de cores variadas e costumes muito diversos. Todos esses seres vivem em mundos distintos, alheios uns aos outros, exceto quando se produzem as Grandes Catástrofes, quando os Homens, armados de Fumígenos e Pás, se lançam na Luta contra as Formigas (luta, diga-se de passagem, absolutamente inútil, já que sempre se conclui com o triunfo das formigas), ou quando os Banqueiros detonam suas Guerras pelo Petróleo; assim, os infinitos bichinhos que até então viviam nos vastos prados verdes ou em sossegados submundos dos parques, são aniquilados por bombas e gases; ao passo que outros mais sortudos, da raça invariavelmente vencedora dos Vermes, fazem a festa e se proliferam com enorme rapidez, ao mesmo tempo que medram, lá em cima, os Comerciantes e Fabricantes de Armas.
Mas, a não ser nessas fases de intercâmbio e confusão, é milagroso que seres de tantas espécies possam nascer, desenvolver-se e morrer sem se conhecer, sem se odiar nem estimar, nas mesmas regiões do universo, como essas múltiplas mensagens telefônicas que, dizem, podem ser enviadas por um só cabo sem se misturarem nem se alterarem, graças a engenhosos mecanismos.
Assim (pensava Bruno), temos, em primeiro lugar, os homens sentados e pensativos nas praças e nos parques. Uns olham o chão e se distraem por minutos e até por horas com as inúmeras e anônimas atividades dos bichinhos já mencionados: examinando as formigas, observando suas diversas espécies, calculando a carga que são capazes de transportar, de que maneira colaboram, duas ou três delas, para trabalhos mais difíceis etc. Às vezes, com um pauzinho, com um galhinho seco, desses que facilmente se encontram no chão dos parques, os homens se distraem em desviar as formigas de suas apressadas trajetórias, conseguem que uma delas, mais desorientada, suba pelo pauzinho e corra até a ponta, de onde, depois de pequenas acrobacias cautelosas, ela recua e corre até o extremo oposto; e assim por diante, em inúteis idas e vindas, até que o homem solitário se cansa da brincadeira e, de pena, ou mais comumente de tédio, larga o pauzinho no chão, ocasião em que a formiga se apressa em buscar suas companheiras, mantém uma breve e agitada conversa com as primeiras que encontra a fim de explicar seu atraso ou se inteirar do Andamento Geral do Trabalho durante sua ausência, e em seguida retoma sua tarefa, reincorporando-se à longa e enérgica fila indiana. Enquanto isso, o homem solitário e pensativo retorna à sua meditação geral e meio errática, sem fixar demais sua atenção em alguma coisa: olhando ora uma árvore, ora um menino que brinca por ali, ora rememorando, graças a esse garoto, dias longínquos e agora inacreditáveis na Floresta Negra ou numa ruelinha de Pontevedra; e seus olhos se embaçam um pouco mais, acentuando o brilho lacrimoso que há nos olhos dos anciãos e que nunca se saberá se tem causas puramente fisiológicas ou se, de alguma maneira, é conseqüência da recordação, da saudade, do sentimento de frustração, da idéia de morte, ou dessa vaga mas irresistível melancolia que sempre provoca nos homens a palavra fim, escrita ao término de uma história que nos apaixonou por seu mistério e sua tristeza. O que é o mesmo que contar a história de qualquer homem, pois qual ser humano não teve uma história, no fundo, triste ou misteriosa?
Mas nem sempre os homens sentados e pensativos são velhos ou aposentados.
Às vezes são homens relativamente moços, indivíduos de trinta ou quarenta anos. E, coisa curiosa e digna de reflexão (pensava Bruno), parecem tão mais patéticos e desvalidos quanto mais jovens são. Pois o que pode haver de mais pavoroso do que um rapaz sentado e pensativo num banco de praça, angustiado por seus pensamentos, calado e alheio ao mundo a seu redor? Às vezes, o homem ou o rapaz é um marinheiro; outras vezes, talvez seja um emigrante que gostaria de regressar à pátria e não pode; volta e meia são criaturas abandonadas pela mulher amada; outras vezes, criaturas incapazes para a vida, ou que deixaram a casa para sempre ou meditam sobre sua solidão e seu futuro. Ou pode ser um rapazinho como o próprio Martín, que começa a ver com horror que o absoluto não existe.
Ou também pode ser um homem que perdeu o filho e que, de volta do cemitério, se encontra sozinho e sente que agora sua existência carece de sentido, refletindo que, enquanto isso, há homens por aí que riem ou são felizes (mesmo sendo apenas momentaneamente felizes), meninos que brincam no parque, ali (está vendo-os), enquanto seu próprio filho está debaixo da terra, num caixão pequeno adequado ao tamanhinho de seu corpo que, quem sabe, finalmente deixará de lutar contra um inimigo atroz e desproporcional. E esse homem sentado e pensativo medita de novo, ou pela primeira vez, sobre o sentido geral do mundo, pois não consegue entender por que seu filho precisou morrer assim, por que teve de pagar por um pecado de outros, com sofrimentos imensos, com seu coraçãozinho torturado pela asfixia ou paralisia, lutando desesperadamente, sem saber por quê, contra as sombras negras que começam a se abater sobre ele.
E este, sim, é um homem desamparado. E, coisa curiosa, pode não ser pobre, é até possível que seja rico, e até poderia ser o Grande Banqueiro que planejava a formidável Operação com divisas fortes, evocada antes com ironia e desdém. Desdém e ironia (agora era fácil entender) que, como sempre, eram excessivos e definitivamente injustos. Não há homem que, em última instância, mereça o desdém e a ironia, já que, cedo ou tarde, com divisas fortes ou não, ele é atingido pelas desgraças, pelas mortes dos filhos, ou irmãos, por sua própria velhice e solidão diante da morte. Terminando, enfim, mais inválido que ninguém, pela mesma razão que é mais indefeso o homem de guerra flagrado sem sua cota de malhas do que o insignificante homem de paz que, por nunca ter tido essa proteção, tampouco sente sua falta.