Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 36 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 16

 

Até que, involuntariamente, foi parar defronte do café de Chichín, e ao entrar ouviu o Louco Barragán, que, como sempre, bebia uma pinga sem parar de pregar, dizendo Vêm tempos de sangue e fogo, rapazes, ameaçando, admoestando e profetizando, com o indicador direito, os marmanjos que caçoavam dele, incapazes de levar a sério nada que não fosse Perón ou o jogo de domingo do Ferrocaril Oeste, enquanto Martín pensava que Alejandra havia empalidecido na hora em que se encontraram, mas era bem provável que fosse impressão dele, já que não era fácil enxergá-la ali entre os dois, debaixo da capota: dado de suma importância, é claro, pois indicaria que o encontro com Bordenave não era casual, e sim combinado, mas, como e quando, meu Deus? Como e quando? Tempos de vingança, rapazes e, fingindo escrever letras enormes com a mão direita no ar, prosseguia: está escrito, no que a rapaziada rolava de rir, e Martín refletia que o fato de ter empalidecido também não era um dado inequívoco, pois podia corresponder à vergonha de ser flagrada por Martín ao lado de um indivíduo que ela demonstrara desprezar. E, além disso, como podiam ter marcado um encontro se ela ignorava onde Bordenave morava e se lhe parecia inimaginável até para a imaginação mais fértil que ela tivesse procurado na lista o endereço ou o número de telefone dele e tivesse ligado? Tempos de sangue e fogo, porque o fogo terá de purificar esta cidade maldita, esta nova Babilônia, porque somos todos pecadores embora restasse a possibilidade de que houvessem se encontrado no bar do Plaza, bar que evidentemente Alejandra freqüentava ou tinha freqüentado antes, como revelava a precisão com que o guiou naquele encontro, de modo que teria entrado no bar (mas para fazer o quê, meu Deus? Para fazer o quê?) e, ao encontrar Bordenave, podia ter surgido uma conversa, casual, mais provavelmente por iniciativa dele, já que era, sem a menor dúvida, um mulherengo e um mundano. Sim, riam, bando de vagabundos, mas eu lhes digo que temos de passar pelo sangue e pelo fogo e embora todos rissem, e até o próprio Barragán de vez em quando parecesse acompanhá-los na chacota, pois era um boa-praça, seus olhos adquiriram um fulgor ao se fixarem em Martín, fulgor talvez profético, mesmo sendo o de um modesto profeta de bairro, bêbado e rude (mas, como pensaria Bruno, o que sabemos sobre os instrumentos que o destino escolhe para insinuar obscuramente suas intenções? E será que, dada a ambígua perversidade com que costuma proceder, não poderia enviar suas mensagens ardilosas por criaturas que raramente levamos a sério, como os loucos e as crianças?), e como se outra pessoa falasse, e não a que brincava com os rapazes do bar, acrescentou mas você, garoto, você não, porque você tem de salvar a todos nós e todos se calaram, e um silêncio cercou as palavras inesperadas do louco, embora os rapazes logo voltassem à carga e lhe perguntassem ei, louco, diga que número vai dar amanhã, mas Barragán, balançando a cabeça, tomando sua cachacinha, respondia riam, sim, mas vocês já vão ver o que lhes digo, vão ver já, já, com seus próprios olhos, porque esta cidade corrompida precisa ser castigada e Alguém tem de vir porque o mundo não pode continuar assim momento em que Martín, impressionado, olhando fixamente, ligou suas palavras a outras de Alejandra a respeito de sonhos premonitórios e de purificação pelo fogo.

— Tiraram-nos Cristo, e o que nos deram, em troca? Carros, aviões, geladeiras. Mas você, Chichín, e pego-o por acaso, você é mais feliz agora que tem geladeira elétrica do que quando vinha o coxo Acuña com as barras de gelo? Vamos supor, é uma suposição, que amanhã você, Loiácono, possa ir à Lua — frase que foi saudada com risadinhas —, mas estou lhes dizendo, seus imbecis, que é uma suposição, ora essa! Você vai ser mais feliz do que agora por causa disso?

— Mas tu está falando de que felicidade, ô cara — Loiácono retrucou com raiva —, se eu nunca fui feliz nesta vida filha-da-puta?

— Bom, tudo bem, estou dizendo que é uma suposição. Mas eu pergunto: você seria mais feliz se fosse à Lua?

— E eu sei lá — Loiácono respondeu, zangado.

Mas o Louco Barragán prosseguia sua pregação, sem ouvi-lo, já que sua pergunta era retórica:

— Por isso eu lhes digo, rapazes, que a felicidade a gente tem de procurar dentro do coração. Mas para isso Cristo precisa voltar. A gente se esqueceu Dele, se esqueceu de Seus ensinamentos, se esqueceu de que Ele sofreu o martírio por nossa culpa e para nossa salvação. Somos um bando de mal-agradecidos e uns canalhas. E, se Ele vier de novo, pode ser que a gente nem o reconheça e até o leve na galhofa.

— Quem te garante — Díaz retrucou — que você não é Cristo, e que agora a gente esteja tirando sarro com a sua cara?

Todos riram, comemorando a sacada de Díaz, mas Barragán, balançando a cabeça com um bom sorriso de bêbado, prosseguiu, com a língua cada vez mais pastosa:

— Estamos todos tristes.

Alguns protestaram, disseram eu não, violão etc.

— Estamos todos tristes, rapazes. Não nos enganemos. E por que estamos todos tristes? Porque nosso coração está insatisfeito, porque sabemos que somos uns miseráveis, uns canalhas. Porque somos injustos, ladrões, porque temos a alma cheia de ódio. E todos correm. Para quê?, eu lhes pergunto. Para onde? Todos lutam para juntar uns trocados: para quê? Será que nós todos não vamos morrer? E para que desejamos a vida se não acreditamos em Deus?

— Bem, chega, termina logo isso — Loiácono declarou. — Você também faz das suas, louco. Muito Deus pra cá, muito Cristo pra lá, muito disso aqui, ó — e apontava os próprios lábios —, mas deixa a tua mulher trabalhar feito um burro de carga para te sustentar, enquanto você, aqui, ó, dá-lhe de conversa-fiada.

O Louco Barragán observou-o com um olhar bondoso. Bebeu um golinho de pinga e perguntou:

— E quem te disse que eu não sou um patife?

Mostrou seu copinho de pinga queimada e continuou, em tom de tristeza:

— Eu, minha gente, sou um bêbado e um maluco. Me chamam de Louco Barragán. Eu encho a cara, passo o dia zanzando por aí e pensando, enquanto a patroa dá duro de sol a sol. Que é que eu vou fazer? Nasci assim e vou morrer assim. Eu sou um patife, não nego. Mas não é disso que eu estou falando com vocês, minha gente. Não se diz que as crianças e os loucos falam a verdade? Bem, eu sou louco, e muitas vezes, juro por esta cruz, nem sei do que eu estou falando.

Todos riram.

— Riam, sim. Mas eu lhes digo que Jesus Cristo me apareceu uma noite e me disse: Louco, o mundo precisa ser purgado com sangue e fogo, uma coisa muito grande tem de acontecer, o fogo cairá sobre todos os homens, e digo-lhe que não ficará pedra sobre pedra. Isso o Cristo me disse.

Os rapazes rolavam de rir, menos Loiácono.

— É, minha gente, continuem, vão em frente. Riam e depois me contem. Aqui só tem um que sabe o que eu digo.

As risadas cessaram, e um silêncio cercou estas últimas palavras. Mas logo todos voltaram às gozações e depois começaram a fazer apostas para o jogo do domingo.

Mas Martín olhava o Louco, enquanto voltavam à sua memória as outras palavras de Alejandra sobre o fogo.