Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 17
Como em outras ocasiões, o nervosismo me deu uma vontade urgente de ir ao banheiro. Entrei na Antigua Perla del Once e me dirigi ao toalete. É curioso que neste país o único lugar onde se fala de Damas e Cavalheiros seja o lugar onde invariavelmente eles deixam de sê-lo. Às vezes penso que é uma das tantas formas da irônica descrença argentina. Enquanto me instalava no cubículo infecto, confirmando minha velha teoria de que o banheiro é o único lugar filosófico em estado puro que nos resta, comecei a decifrar as emaranhadas pichações. Sobre o inevitável e básico viva perón alguém tinha riscado violentamente a palavra viva e substituído por morra, palavra que, por sua vez, tinha sido riscada e substituída por um novo viva, neto do primeiro, e assim alternadamente, dando ao conjunto a forma de um pagode, ou melhor, de um trêmulo edifício em construção. À esquerda e à direita, em cima e embaixo, com setas indicadoras e sinais de admiração ou desenhos alusivos, a expressão original parecia decorada, enriquecida e comentada (por uma raça de exegetas violentos e pornográficos) com observações diversas sobre a mãe de Perón, as características sociais e anatômicas de Eva Duarte Perón, sobre o que faria o comentarista desconhecido e defecante se tivesse a sorte de se encontrar com ela numa cama, numa poltrona ou até no próprio banheiro da Antigua Perla del Once. Frases e expressões de desejos que, por sua vez, eram riscados parcial ou totalmente, obliterados, tergiversados ou enriquecidos com a inclusão de um advérbio perverso ou glorificante, incrementados ou atenuados pela intervenção de um adjetivo, com lápis e giz de todas as cores, com desenhos ilustrativos que pareciam ter sido feitos por um professor de anatomia bêbado e bobalhão. E nos diversos espaços livres, acima ou ao lado, às vezes (como no caso dos anúncios importantes dos jornais) com frisos em redor, em letras de diversos tipos (aflitas ou lânguidas, esperançosas ou cínicas, obstinadas ou frívolas, caligráficas ou grotescas), pedidos e ofertas de telefone para homens que tivessem tais e quais atributos, que se dispusessem a realizar tais ou quais arranjos ou façanhas, artifícios ou fantasias, atrocidades masoquistas ou sádicas. Ofertas e pedidos que, por sua vez, eram modificados por comentários irônicos ou insultantes, agressivos ou humorísticos de outras pessoas, que por algum motivo não estavam dispostas a intervir naquele arranjo exato, mas, de alguma maneira (e seus comentários provavam), também queriam participar, e participavam, da magia lasciva e alucinante. E no meio do caos, com setas indicativas, a resposta cheia de desejo e esperança de alguém que explicava como e quando esperaria o Príncipe Cacográfico e Anal, às vezes com uma anotação carinhosa e, tudo indica, inadequada para o noticiário de banheiro: estarei com uma flor na mão.
“O mundo pelo avesso”, pensei.
Como nas páginas policiais, ali parecia se revelar a verdade última da raça.
“O amor e os excrementos”, pensei.
E, enquanto me abotoava, também pensei: “Damas e Cavalheiros”.