Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 48 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 28

 

Andou sem rumo durante horas. E de repente se viu na praça da Inmaculada Concepción, em Belgrano. Sentou-se num dos bancos. Na frente dele, a igreja circular ainda parecia viver o pavor daquele dia. Um silêncio sinistro e a luz mortiça, a garoa, davam àquele canto de Buenos Aires um aspecto funesto: parecia que na velha construção colada à igreja escondia-se um enigma poderoso e temível, e uma espécie de fascinação inexplicável mantinha o olhar de Martín cravado naquele canto que via pela primeira vez na vida.

De repente, quase deu um grito: Alejandra atravessava a praça em direção daquele velho edifício.

No escuro, debaixo das árvores, Martín estava protegido do olhar dela. Aliás, ela ia andando com jeito de sonâmbula, com o automatismo que ele percebera muitas vezes, mas que agora lhe parecia mais acentuado. Alejandra avançava em linha reta, por cima dos canteiros, como quem caminha em sonhos para um destino traçado por forças superiores. Era evidente que não via nem ouvia nada. Avançava com a decisão mas também com o alheamento de uma hipnótica.

Logo chegou à marquise e, dirigindo-se sem titubear a uma daquelas portas fechadas e silenciosas, abriu-a e entrou.

Martín pensou que talvez estivesse sonhando ou tendo uma visão: nunca tinha estado antes naquela pracinha de Buenos Aires, nada de consciente o fizera andar até lá na noite funesta, nada podia levá-lo a prever um encontro tão fantástico. Eram acasos demais e era natural que, por instantes, ele pensasse numa alucinação ou num sonho.

Mas as longas horas de espera defronte daquela porta não lhe deixaram dúvidas: Alejandra tinha de fato entrado e permanecia lá dentro, sem que ele conseguisse entender o motivo.

Chegou a manhã, e Martín não se atreveu a esperar mais, pois receava ser visto por Alejandra na luz do dia. Aliás, o que ganharia em vê-la sair?

Com uma tristeza que se manifestava na dor física, andou até o Cabildo.

Um dia nublado e cinza, cansado e melancólico, despertava do seio da noite alucinante.