Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 12
Nessa noite, enquanto fazia o balanço e passava em revista os acontecimentos, como toda noite, me alarmei: por que Norma trouxera a senhorita González Iturrat? Tampouco podia ser mera coincidência a discussão que me obrigaram a ter sobre a existência do mal. Pensando bem, achei que a professora tinha todas as características de uma sócia da Biblioteca para Cegos. E a suspeita logo se estendeu à própria Norma Pugliese, por quem, no final das contas, eu me interessara porque seu pai era um socialista que dedicava duas horas diárias a transcrever livros no sistema braile.
Freqüentemente dou uma idéia equivocada de mim, e é provável que os leitores deste Relatório se surpreendam com esse tipo de leviandade. A verdade é que, apesar de meu lado sistemático, sou capaz dos atos mais inesperados e, portanto, perigosos, dada a natureza da atividade que exerço. E cometi os disparates mais inqualificáveis por causa de mulheres. Tentarei explicar o que acontece comigo, pois não é tão amalucado como poderia parecer à primeira vista, já que sempre considerei a mulher um subúrbio do mundo dos cegos; de modo que minha ligação com elas não é tão desatinada nem gratuita como um observador superficial poderia imaginar. Não é isso que estou me criticando neste momento, e sim a quase inconcebível falta de precauções a que me exponho de repente, como no caso de Norma Pugliese; fato perfeitamente lógico do ponto de vista do destino, já que o destino cega quem quer perder, porém absurdo e imperdoável do meu próprio ponto de vista. Mas é que a uma fase de radiante lucidez sucede-se em mim uma fase em que meus atos parecem ordenados e feitos por outra pessoa, e de repente me vejo no meio de trapalhadas perigosíssimas, como poderia ocorrer com um navegante solitário que, em plena zona de risco, dominado pelo sonho, cabeceasse e cochilasse por instantes.
Não é fácil. Gostaria de ver qualquer um de meus críticos em situação igual à minha, cercado por um inimigo infinito e espertíssimo, no meio de uma rede invisível de espiões e observadores, tendo de vigiar dia e noite cada pessoa e acontecimento que existem ou ocorrem ao seu redor. Então se sentiria menos capaz e compreenderia que erros dessa natureza não só são possíveis como praticamente inevitáveis.
Todo o tempo que antecedeu o encontro com Celestino Iglesias, por exemplo, foi de extrema confusão em meu espírito; e nesses períodos é como se as trevas literalmente me sugassem por intermédio do álcool e das mulheres: assim nos insinuamos nos labirintos do Inferno, ou seja, no universo dos Cegos. Não é que nesses períodos tenebrosos eu me esquecesse de meu grande objetivo, mas é que à perseguição lúcida e científica seguia-se uma irrupção caótica, aos trancos, aparentemente dominada pelo que as pessoas desatentas chamam de acaso e que, a rigor, é a casualidade cega. E no meio da desordem, tonto e abobalhado, embriagado e miserável, ainda assim me via balbuciando de repente: “não faz mal, de toda maneira é este o universo que devo explorar”, e me abandonava à insensata volúpia da vertigem, essa volúpia que sentem os heróis nos piores e mais perigosos momentos da luta, quando já não há nada que possa nos encaminhar para a razão e quando nossa vontade se move no domínio turvo do sangue e dos instintos. Até que repentinamente eu acordava dessas longas fases obscuras, e, assim como o ascetismo se seguia à luxúria, minha mania organizativa se seguia ao caos; mania que me acomete, não apesar de minha tendência para o caos, mas justamente por isso. Então minha cabeça começa a trabalhar em marcha forçada e com uma rapidez e clareza espantosas. Tomo decisões exatas e nítidas, tudo é luminoso e resplandecente como um teorema; nada faço para responder a meus instintos, que nesse momento vigio e domino à perfeição. Mas, é estranho, resoluções ou pessoas que conheço durante essa fase de inteligência logo me levam, mais uma vez, a uma fase incontrolável. Por exemplo, conheço a mulher, digamos, do presidente da Associação Mutualista do Coral dos Não-Videntes; compreendo as valiosas informações que posso obter por seu intermédio, passo-lhe uma cantada e finalmente, com objetivos estritamente científicos, levo-a para a cama; mas logo a mulher começa a me dar náuseas, é uma libidinosa ou uma demoníaca, e todos os meus planos vão abaixo ou ficam adiados, quando não em sério perigo.
Não foi o caso de Norma Pugliese, é claro. Porém, mesmo nesse caso cometi erros que não deveria ter cometido.
O senhor Américo Pugliese é um ex-membro do Partido Socialista e educou a filha nas normas que seu fundador Juan B. Justo impôs desde o início: a Verdade, a Ciência, o Cooperativismo, a Luta contra o Fumo, o Antialcoolismo. Um homem muito decente, que detestava Perón e era muito respeitado no escritório por seus adversários políticos. Como se compreenderá, essa plataforma excitou sobremodo meus desejos de ir para a cama com sua filha.
Ela era noiva de um guarda-marinha. Fato perfeitamente compatível com a mentalidade antimilitarista do senhor Pugliese, devido ao mecanismo psicológico que faz os antimilitaristas admirarem o pessoal da Marinha: não são tão brutos, viajaram, são parecidíssimos com os civis. Como se esse defeito pudesse ser motivo de elogio, porquanto, conforme expliquei a Norma (que se enfurecia), elogiar um militar por não parecer militar, ou por não ser tão militar, é como descobrir méritos num submarino que tem dificuldades em submergir.
Com argumentos do tipo minei as bases da Marinha de Guerra e no final consegui ir para a cama com Norma, o que prova que o caminho da cama pode passar pelas instituições mais inesperadas. E que os únicos raciocínios que têm importância para a mulher são os que, de alguma maneira, se vinculam à posição horizontal. Ao contrário do que acontece com o homem. Motivo pelo qual é difícil, por meio de um autêntico raciocínio, colocar um homem e uma mulher na mesma posição geométrica: é preciso recorrer a paralogismos ou à bolinagem.
Tendo conseguido a horizontalidade, levei tempo para educá-la, acostumá-la a uma Nova Concepção do Mundo: do professor Juan B. Justo ao marquês de Sade. Não era nada fácil. Precisava começar a partir da própria linguagem, pois, fanática pela ciência e leitora de obras como O casamento perfeito, usava palavras tão inadequadas à cama como “lei de refração cromática” é inadequada à descrição de um crepúsculo. Com base nessa verdade genuína (e a verdade para ela era sagrada), fui conduzindo-a de degrau em degrau até as piores ruindades. Tantos anos de paciente trabalho de deputados, vereadores e conferencistas socialistas aniquilado em poucas semanas; tantas bibliotecas de bairro, tantas cooperativas, tantos centros municipais de beneficência para que Norma terminasse praticando operações desse gênero. Depois disso, ainda querem que a gente tenha fé no cooperativismo!
Sim, muito bem, ríamos de Norma Pugliese como eu mesmo ri em vários momentos de superioridade. A verdade é que agora me assaltava uma série de dúvidas e de repente tinha a impressão de que ela era um dos espiões sutis do inimigo. Impressão, aliás, previsível, já que só um inimigo grosseiro ou tolo recorreria a espiões suspeitos. O fato de Norma ser tão ingênua, tão direta e inimiga da mentira e da mistificação não era o argumento mais decisivo para tomar cuidado com ela?
Ao analisar detalhes de nossas relações, comecei a me angustiar.
Imaginava ter classificado muito bem Norma Pugliese e, tendo em vista sua formação socialista e sarmientina, não achei difícil conhecê-la a fundo. Grave erro. Mais de uma vez ela me surpreendeu com uma reação inesperada. E sua própria depravação final era quase inconciliável com a formação tão saudável e correta que o pai tinha lhe dado. Mas, se o homem tem tão pouco a ver com a lógica, o que se pode esperar da mulher?
Portanto, passei a noite em claro recordando e analisando cada reação dela comigo. E tive motivos de sobra para me alarmar, mas pelo menos um motivo de satisfação: ter percebido a tempo os perigos de sua proximidade.