Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 27
A solidão era lúgubre e na noite os incêndios projetavam um clarão sinistro no céu plúmbeo.
Ouvia-se o bumbo como num carnaval de loucos.
Agora estava em frente à igreja, arrastado por gente enlouquecida e confusa. Uns carregavam revólveres e pistolas. “São da Alianza”, disse alguém. Logo pegou fogo a gasolina que tinham ateado às portas. Entraram em tumulto, gritando. Arrastaram bancos, atiraram-nos contra as portas, e a fogueira cresceu. Outros levavam genuflexórios, imagens e bancos para a rua. A garoa caía indiferente e fria. Jogaram gasolina, e a madeira ardeu furiosamente, no meio das gélidas rajadas. Gritaram, ouviram-se tiros por ali, uns corriam, outros se refugiavam nas entradas dos prédios do outro lado da rua, encostados nas paredes, fascinados com o fogo e o pânico. Alguém ergueu nos braços uma imagem de Nossa Senhora e ia jogá-la nas chamas. Outro, que estava ao lado de Martín, um jovem operário, jeito de índio, gritou: “Dê para mim! Não queime!”.
— O quê? — disse o outro com a imagem no alto, olhando-o furioso.
— Não queime, posso ganhar uns pesos — disse o rapaz.
O outro baixou a imagem e, mexendo a cabeça, entregou-a. Depois lançou no fogo bancos e quadros.
Agora o rapaz estava com a Nossa Senhora no chão, a seus pés. Procurou ajuda. Viu um agente de polícia olhando o espetáculo, pediu-lhe que o ajudasse a tirar a imagem de dentro da igreja.
— Não se meta em confusão, rapaz — o policial lhe recomendou.
Martín se aproximou.
— Eu ajudo — disse-lhe.
— Bem, agarre pelos pés — disse o jovem operário.
Saíram. Lá fora continuava chovendo, mas o incêndio crescia na rua e, com a gasolina e a água, tudo crepitava. Uma mulher loura e alta, de cabelo solto e desgrenhado, com um archote de bronze que ela manejava como se fosse uma bengala, arrastava uma sacola, enchendo-a de imagens e objetos de culto.
— Canalhas! — dizia.
— Cale a boca, sua maluca! — gritavam.
— Canalhas! — dizia —, irão todos para o inferno.
Avançava com a sacola grande e o archote, com o qual se defendia. Um rapaz tocou obscenamente o seu corpo, outro lhe gritava porcarias, mas ela avançava se defendendo com a tocha e repetindo “canalhas”.
— Ande, sua papa-hóstias! — gritaram-lhe.
Mas ela avançava e repetia “canalhas” com voz rouca e seca, quase indiferente, insensível e fanática.
— É uma louca, deixem-na — gritavam.
Uma mulher com cara de índia vigiava e atiçava o fogo, com um grande espeto de pau, como num gigantesco churrasco.
— É uma louca, deixem-na ir embora — diziam.
A mulher loura avançava com a sacola, abrindo caminho entre a rapaziada que lhe gritava safadezas, atirava-lhe tições em brasa e ria, tentando boliná-la.
Agora levantavam-se da Cúria grandes labaredas: queimavam os papéis, os registros. Um homem de chapéu de abas largas, moreno, ria histericamente e atirava pedras, cascalho, paralelepípedos.
A loura desapareceu da área iluminada.
Ouviu-se novamente uma alegre música de carnaval: os rapazes da banda tinham dado a volta no quarteirão:
O bloco de Chanta Cuatro
vem visitar vocês...
Na luz das labaredas, as contorções que eles faziam pareciam mais fantásticas. Os cibórios serviam de pires: fantasiados com casulas, erguiam cálices e crucifixos, marcavam o ritmo com tochas douradas. Alguém tocava um bumbo. Depois cantaram:
Nosso diretor
gosta de disfarçar...
E depois o bumbo, ritmado, e as contorções no meio das labaredas, sempre marcando o compasso com as tochas douradas.
Ouviram-se mais tiros e foi outro corre-corre. Não se sabia de onde vinham, quem eram. Houve pânico. Alguém disse: “É a Alianza”. Outros tranqüilizavam, transmitiam palavras de ordem. Outros corriam e gritavam “estão vindo” ou “calma, pessoal”.
No meio da rua a fogueira crescia. Um grupo de rapazes e moças jogou no fogo um confessionário. Traziam mais imagens e quadros.
Um homem arrastava um Cristo, e uma mulher que acabava de aparecer, feroz e decidida, gritou:
— Dê para mim.
— O quê? — disse o homem, olhando-a com desprezo.
Alguém disse “é da Fundação”.
— Quem, quem? — perguntavam.
O bloco carnavalesco cantava:
A garota de Gonzale
gosta de banana...
A mulher seguiu o homem e pegou os pés do Cristo para que ele não o levasse embora.
— Largue-o — gritou o homem.
— Dê para mim — gritou a mulher.
E por um instante o Cristo ficou no ar, entre os dois, cada um puxando de um lado.
— Venha, senhora — disse o rapaz que tirou a Nossa Senhora da igreja.
— O quê? — disse a mulher, sem largar os pés de Cristo.
— Venha cá, largue isso.
— O quê? — disse a mulher, alucinada.
— Pegue esta imagem — disse-lhe.
A mulher pareceu hesitar, sem largar o Cristo, que se balançava.
— Mas venha, senhora — disse o rapaz.
Ela parecia hesitar, porém o homem deu um puxão no Cristo e o arrancou de suas mãos. A mulher, como idiotizada, olhou-o afastar-se e logo virou os olhos para a Nossa Senhora que estava no chão, ao lado do rapaz.
— Venha, senhora — disse o rapaz.
A mulher se aproximou.
— É a Nossa Senhora dos Desamparados — disse o rapaz.
A mulher o olhou sem entender: era um cabecita negra. Talvez ela pensasse que quisessem lhe fazer alguma coisa.
— É, minha senhora — disse Martín —, tiramos a imagem da igreja, este rapaz a salvou do fogo.
Ela olhou o cabecita negra. Agora o bloco estava indo embora:
O bloco do Chanta Cuatro
vamo nos retirar...
A mulher se aproximou.
— Bem — disse —, vamos levá-la para casa.
O rapaz e Martín se abaixaram para levantar a Nossa Senhora.
— Não, esperem — disse ela.
Desabotoou o mantô, tirou-o e cobriu a imagem. Depois quis ajudar.
— Deixe — disse o rapaz —, bastamos nós dois. Diga aonde vamos.
Caminharam. A mulher na frente, um homem os seguindo. Agora, a chuva estava mais forte, e o rapaz sentia a coroa radial espetando o seu rosto. Já não entendia mais nada: tudo era confuso.
— Um ferido — disseram. — Deixem passar.
Abriram-lhe caminho.
Andaram pela avenida Santa Fe, indo para Callao. O clarão avermelhado ia ficando cada vez mais fraco e aos poucos predominava a noite opaca, solitária e gélida. A chuva caía em silêncio e ao longe ouviam-se gritos isolados, um tiro, apitos.
Chegaram, subiram de elevador ao sétimo andar, entraram num apartamento luxuoso e Martín viu que o jovem operário estava atrapalhado: olhava com timidez e vergonha para a empregada, não sabia como se mexer entre os móveis escuros e os objetos de arte.
Puseram a imagem de pé, num canto e, talvez sem perceber, o rapaz encostou sua cabeça cansada e confusa em cima da Nossa Senhora, como se descansasse calado. De repente percebeu que estavam falando com ele.
— Vamos — disse-lhe a mulher —, precisamos voltar.
— Está bem — disse o rapaz, mecanicamente.
Olhou ao redor, como procurando alguma coisa.
— O que é? — disse a mulher.
— Eu queria... — disse o rapaz.
— O quê? O que é que você quer, rapaz? — disse a mulher.
— Um copo de água, era só o que eu queria.
Trouxeram-lhe água, e o rapaz bebeu como se estivesse carbonizado.
— Bem, agora vamos — disse a mulher.
A chuva tinha amainado, o bloco carnavalesco devia estar em outros incêndios, mas o fogo ali prosseguia, agora no silêncio: os homens e as mulheres tinham se transformado em espectadores calados e fascinados, na calçada em frente.
Um deles carregava casulas debaixo do braço.
— Quer me dar essas casulas? — disse a mulher.
— O quê? — disse o homem.
— As casulas. Se quer me dar — disse a mulher.
O homem não respondeu: olhou o incêndio.
— As casulas — repetiu a mulher, com calma, uma calma de sonâmbulo. — Quero guardá-las, para a igreja, quando a reconstruírem.
O homem continuou olhando o incêndio, calado.
— O senhor não é católico? — disse a mulher com ódio.
O homem continuou olhando o incêndio.
— Não foi batizado? — disse a mulher.
O homem continuou olhando o incêndio, mas seus olhos (Martín notou) estavam se endurecendo.
— Não tem filhos? Não tem mãe?
O homem explodiu:
— Por que não vai para a puta que a pariu?
— Eu sou católica — disse a mulher, impassível e sonâmbula. — Quero as casulas para quando se reconstruir.
O homem a olhou e, inesperadamente, falou em tom normal:
— Vou guardá-las para me proteger da chuva — disse.
— Por favor, me dê as casulas — a mulher repetiu com calma.
— Vivo muito longe, em General Rodríguez — disse o homem.
Alguém, atrás da mulher obstinada, disse:
— Então o senhor veio de General Rodríguez, o senhor é dos que estavam queimando a igreja.
A mulher obstinada virou a cabeça: era um velho de cabelo branco.
Um homem de chapéu de abas largas desabotoou um impermeável e pegou um revólver. Friamente, com desprezo, encarou o velho:
— E quem é o senhor para interrogar alguém? — disse.
O sujeito das casulas também pegou um revólver. Uma mulher, segurando um facão de cozinha, aproximou-se da mulher impassível e disse:
— Quer que a gente enfie as casulas no seu cu?
A mulher impassível e demencial propôs uma troca com o homem das casulas:
— Este guarda-chuva tem cabo de ouro — disse.
— O quê?
— Eu troco pelas casulas. O cabo é de ouro. Veja.
O homem olhou a empunhadura.
A mulher do facão, encostando a ponta no flanco da mulher da proposta, voltou a lhe repetir a frase anterior.
— Bem — disse o homem. — Então me dê o guarda-chuva.
A mulher do facão, furiosa, lhe gritou:
— Vagabundo! Vendido!
— Mas que vendido, que nada! — disse o sujeito das casulas, com gesto de enfaro. — Para que é que eu quero casulas, eu, hein?
— Você é um vagabundo vendido! — gritou a mulher do facão.
O sujeito das casulas ficou subitamente frenético:
— Escute aqui, é melhor você calar a boca se não quiser que eu lhe meta chumbo.
A mulher do facão o xingou e pôs o facão diante da cara dele, mas o outro pegou o guarda-chuva e não respondeu.
A mulher se afastou com as casulas, em meio a gritos e insultos.
O homem do chapéu de abas largas disse então:
— Bem, pessoal, aqui não tem nada para fazer. Vamos.
A mulher das casulas chegou até onde estavam Martín e o cabecita negra. Distantes, temerosos. Acompanharam-na de novo ao apartamento da rua Esmeralda. E de novo Martín teve a impressão de que o rapaz estava triste, enquanto, da porta, olhava lentamente aquelas poltronas, aqueles quadros e porcelanas.
— Entre — a mulher insistiu.
— Não, senhora — disse o rapaz —, já vou. A senhora não precisa mais de mim.
— Espere — disse a mulher.
O rapaz esperou, com respeitosa dignidade.
Ela o olhou.
— Você é operário — disse-lhe.
— Sou, sim, senhora. Sou têxtil — o rapaz respondeu.
— E que idade tem?
— Vinte anos.
— E é peronista?
O rapaz ficou calado e baixou a cabeça.
A mulher o olhou duramente.
— Como pode ser peronista? Não está vendo as atrocidades que eles cometem?
— Os que queimaram as igrejas são uns bandidos, senhora — disse.
— O quê? O quê? São peronistas.
— Não, senhora. Não são verdadeiros peronistas. Não são peronistas de verdade.
— O quê? — disse a mulher, furiosa. — O que está dizendo?
— Posso ir, senhora? — disse o rapaz, levantando a cabeça.
— Não, espere — ela disse, pensando —, espere... E por que você salvou a Nossa Senhora dos Desamparados?
— E eu lá sei. Não gosto de queimar igrejas. E que culpa tem a Nossa Senhora de tudo isso?
— De tudo isso o quê?
— De todo o bombardeio que houve na praça Mayo, sei lá.
— Quer dizer que você acha ruim o bombardeio da praça Mayo?
O rapaz a olhou com surpresa.
— Não sabe que um dia tem de se acabar com Perón? Com essa vergonha, com esse degenerado?
O rapaz a olhava.
— Hein? Você não acha? — a mulher insistia.
O rapaz baixou a cabeça.
— Eu estava na praça Mayo — disse. — Eu e milhares de outros companheiros. Na minha frente uma bomba arrancou a perna de uma companheira. Um amigo ficou sem a cabeça, outro teve a barriga aberta. Houve milhares de mortos.
A mulher disse:
— Mas você não entende que está defendendo um canalha?
O rapaz se calou. Depois disse:
— Nós somos pobres, senhora. Eu me criei num cômodo onde vivia com meus pais e mais sete irmãos.
— Espere, espere! — gritou a senhora.
Martín também foi saindo.
— E você? — disse-lhe a mulher. — Também é peronista?
Martín não respondeu.
Saiu para a noite.
O céu tenebroso e gélido parecia um símbolo de sua alma. Caía uma chuvinha impalpável, arrastada por esse vento sudeste que (Bruno dizia) reforça a tristeza do portenho, que pela janela embaçada de um café, olhando a rua, murmura que tempo desgraçado, enquanto alguém mais profundo pensa consigo mesmo que tristeza infinita. E sentindo a chuvinha gelada na cara, caminhando para lugar nenhum, de cenho franzido, olhando obcecado para a frente, como se concentrado num vasto e intrincado enigma, Martín repetia para si mesmo três palavras: Alejandra, Fernando, cegos.