Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 16
De fato, no segundo dia, ao entrar na pensão para minha visita noturna, observei um novo e inquietante sinal.
Antes de ir ao quarto de Iglesias eu fazia uma visita à senhora Etchepareborda, para assuntar um pouco. Nessa noite, como de hábito, ela me convidou para sentar e tomar o café que preparava para mim. A certa altura, pensei que a dona da pensão imaginava que, na verdade, eu ia lá para vê-la e que a cegueira de Iglesias era uma desculpa. E, como se diz no jargão profissional, eu lhe dava corda: um dia elogiava o vestido, no outro me extasiava diante de um novo objeto cromado, no terceiro pedia que me falasse das idéias do senhor Etchepareborda.
Naquela noite, enquanto ela preparava o famoso café, fiz minhas perguntas costumeiras. E ela, como de hábito, respondeu que ninguém se interessara pela sorte do tipógrafo.
— Parece mentira, senhor Vidal. É para se perder a fé na humanidade.
— Nunca se deve perder a esperança — respondi, com uma das frases ilustres do senhor Etchepareborda: “Precisamos ter Fé no País”, “Assim é a Vida”, “Temos de confiar nas Reservas da Nação”. Frases que mostravam a importância do finado subchefe do serviço de expedições em Los Gobelinos e que, agora morto, comoviam sua esposa.
— Isso é o que meu falecido marido sempre dizia — comentou enquanto me passava o açucareiro.
Depois referiu-se ao custo de vida. A culpa de tudo era do canalha do Perón. Jamais gostara desse homem, e eu sabia por quê? Pela forma de esfregar as mãos e sorrir: parecia um padre. E ela jamais gostara dos padres, embora respeitasse todas as religiões, isso, sim (com seu falecido marido participavam do estabelecimento espírita Escuelas del Hermano Basílio). Finalmente, falou do escândalo que era o novo aumento do preço da eletricidade.
— Essa gente faz o que quer — expressou. — Pois não é que hoje veio um homem da Companhia de Eletricidade e começou a examinar toda a casa para ver se estavam direitos os aparelhos, os ferros de passar, os aquecedores e tudo o mais? Gostaria de saber, senhor Vidal, se eles têm o direito de examinar a casa da gente.
Assim como os cavalos param abruptamente e se encabritam diante de um objeto suspeito que avistam no chão, levantando a cabeça e ficando com as orelhas retesadas e vibrantes, fui sacudido por suas palavras.
— Um funcionário da Companhia de Eletricidade? — perguntei, quase pulando de meu assento.
— É, da cade — respondeu surpresa.
— A que horas?
Refletiu e disse:
— Lá pelas três da tarde.
— Um gordo? Um sujeito de terno clarinho?
— É, gordo, sim... — respondeu cada vez mais perplexa, olhando-me como se eu estivesse doente.
— Mas estava de terno claro ou não? — insisti asperamente.
— Estava... um terno clarinho... é, devia ser de popeline, desses que se usam agora, um desses ternos leves.
Observava-me com tamanho espanto que eu precisava dar uma explicação razoável: do contrário, provavelmente minha atitude acabaria sendo suspeita até para a pobre coitada. Mas que explicação lhe dar? Tentei inventar algo verossímil: falei de uma dívida que aquele indivíduo tinha comigo, balbuciei uma série de palavras apressadas, pois compreendi que não teria a menor possibilidade de dizer nada que explicasse meu sobressalto. E meu sobressalto vinha do fato de que, naquela tarde, às três horas, chamara-me a atenção um personagem gordo, vestido de popeline clara, de maleta na mão, rondando perto do número 57 da rua Paso. Que o indivíduo tivesse me parecido suspeito e, agora, a dona da pensão confirmasse minha intuição, contando-me que ele revistara o prédio, era suficiente para me deixar alucinado.
Mais tarde, revendo os episódios ligados à minha investigação, achei temerários meu atordoamento, minha atitude em relação ao homem da cade e minhas palavras de suposta explicação à mulher da pensão.
Teriam sido suficientes para despertar suas suspeitas, tivesse ela um mínimo de inteligência.
Mas não seria por essa rachadura que o trabalhoso edifício desmoronaria. Nessa noite minha cabeça era um tumulto: sentia que a hora decisiva se aproximava. No dia seguinte, como de costume, sem bem que mais nervoso, instalei-me cedo no meu observatório. Tomei café com leite e abri o jornal, mas na verdade não tirava os olhos do número 57. Já possuía uma fantástica habilidade para fazer esse jogo duplo. E enquanto Juanito me dizia sei lá o quê sobre a greve dos metalúrgicos, observei, com emoção quase insuportável, que o homem da cade reaparecia na rua Paso com a mesma maleta e o mesmo terno claro da véspera; mas, agora, acompanhado de um senhor franzino e baixinho, muito parecido, de cara, com Pierre Fresnay. Vinham conversando, e, quando o gordo lhe cochichava alguma coisa no ouvido, e para isso precisava se inclinar, o outro assentia com a cabeça. Ao chegarem ao número 57, o baixinho entrou no prédio e o homem da cade se afastou para a rua Mitre e, finalmente, ficou esperando na esquina: pegou um maço de cigarros e começou a fumar.
Iglesias desceria junto com o outro?
Achei pouco provável, pois não era homem de aceitar, sem mais nem menos, uma proposta ou um convite.
Tentei imaginar a cena lá em cima: o que diria a Iglesias? Como se apresentaria? O mais provável era que o indivíduo se apresentasse como membro da Biblioteca ou do Coral ou de qualquer dessas instituições: tinha sido informado de sua desgraça, eles prestavam ajuda etc. Mas, como disse, achei difícil que Iglesias aceitasse segui-lo nessa primeira ocasião: andava muito desconfiado e, além disso, acentuara-se seu orgulho que, já antes da cegueira, era, como em tantos espanhóis, muito pronunciado.
Quando o emissário desceu sozinho e foi encontrar o homem da cade, senti, satisfeito, que minhas suposições estavam corretas, o que me revelava que eu tinha uma idéia exata da marcha dos acontecimentos.
O homem da cade parecia escutar muito interessado o relatório do baixotinho, e depois, conversando animados, foram para os lados da avenida Pueyrredón.
Corri lá para cima: era imprescindível averiguar o quanto antes, mas sem despertar as suspeitas de Iglesias.
A viúva me recebeu com demonstrações de entusiasmo:
— Finalmente vieram dessa associação! — exclamou, pegando minha mão direita entre as suas.
Tentei acalmá-la.
— E cuidado, senhora — disse —, nem uma palavra a Iglesias. Não vá deixar escapar que fui eu que avisei essa gente.
Garantiu-me que se lembrava muito bem de minhas recomendações.
— Ótimo — comentei. — E o que Iglesias resolveu?
— Ofereceram-lhe trabalho.
— Que tipo de trabalho?
— Não sei. Não me disse nada.
— E ele, o que respondeu?
— Que ia pensar.
— Até quando?
— Até esta tarde, porque o senhor vai voltar de tarde. Quer apresentá-lo.
— Apresentá-lo? Onde?
— Não sei, senhor Vidal.
Declarei-me satisfeito com o interrogatório e me despedi. Já ao sair, perguntei:
— Estava me esquecendo. A que horas esse senhor voltará?
— Às três.
— Ótimo.
As coisas começavam a entrar nos eixos.