Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 25 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 5

 

“Talvez na nossa morte a alma emigre”, Martín se repetia enquanto caminhava. De onde vinha a alma de Alejandra? Parecia sem idade, parecia vir do fundo do tempo. “Sua turva condição de feto, sua fama de prostituta ou pitonisa, suas longínquas solidões.”

O velho estava sentado na porta da casa de cômodos, na sua cadeirinha de palha. Segurava a bengala de pau nodoso, e a cartolinha esverdeada e puída contrastava com sua camiseta de flanela encorpada.

— Oi, velho — disse Tito.

Entraram, no meio de crianças, gatos, cachorros e galinhas. Do quarto, Tito tirou mais duas cadeirinhas.

O rapaz levou as cadeiras, colocou-as ao lado do velho, sentou-se timidamente e esperou.

— Pois é... — sussurrou o cocheiro —, assim com a coisa...

Que coisa?, perguntou-se Martín.

— Pois é... — o velho repetiu, meneando a cabeça, como se concordasse com um interlocutor invisível.

E de repente disse:

— Eu era garotinho que nem esse que está aí com a bola e meu pai cantava.

Quando la tromba sonaba alarma

co Garibaldi doviamo partí.

Riu, assentiu várias vezes com a cabeça e repetiu: “Pois é...”.

A bola veio para cima deles e quase pegou o velho. Don Francisco ameaçou distraidamente com a bengala nodosa, enquanto os garotos chegavam correndo, apanhavam a bola e iam embora fazendo-lhe fiau.

E disse logo depois:

— Íamo po alto da mondanha eu e o filho do Cafaredda e sentábamo olhando al mare. Mangiávamo castanha assada... Quiddo mare azule!

Tito chegou com o mate e a chaleira.

— Já está te falando do paese, aposto. Ei, velho, não cansa o garoto com toda essas maluquice! — enquanto piscava um olho para Martín, com um sorriso malicioso.

O velho negou, balançando a cabeça, olhando para aquela região distante e perdida.

Tito sorria com bondosa ironia enquanto cevava o mate. Depois, como se o pai não existisse (com toda certeza não ouvia), explicou a Martín:

— Ele passa o dia pensando na aldeia onde nasceu, sabe.

Virou-se para o pai, sacudiu-o um pouco pelo braço para despertá-lo, e perguntou:

— Ei, velho! O senhor gostaria de ver aquilo de novo? Antes de morrer?

O velho respondeu balançando a cabeça várias vezes, sempre olhando ao longe.

— Se tivesse de cuelli poqui soldi, iria pa Itália?

O velho voltou a assentir.

— Se pudesse ir nem que fosse só um minuto, velho, só um minuto, nem que depois tivesse de morrer, o senhor gostaria, velho?

O velho mexeu a cabeça desalentado, como dizendo “pra que imaginar tantas maravilhas”.

E, como quem teve a prova de uma verdade, Tito olhou para Martín e comentou com ele:

— Eu não te dizia, garoto?

E ficou pensativo enquanto passava o mate para Martín. Um instante depois, acrescentou:

— Pensar que tem gente podre de rica. Não precisa ir mais longe, o velho veio pra América com um amigo que se chamava Palmieri. Os dois com uma mão na frente outra atrás, como se diz. Ouviu falar do doutor Palmieri?

— O cirurgião?

— É, o cirurgião. E também o que era deputado radical. Bem, é tudo filho daquele amigo que veio com o velho. Como eu te dizia, quando chegaram em Bueno Saire passaram fome junto. Trabalharam de tudo: de peão de obra, calçaram rua, sei lá mais o quê. O velho, esse, está aí. O outro juntou gaita pra subir na vida. E se subiu ninguém sabe ninguém viu! Uma vez, quando a falecida minha mãe inda vivia e quando meteram o Tino preso por causa que ele era anarquista, a velha encheu tanto a paciência que o velho foi ver o deputado. Tu acredita que ele deu um chá de cadeira nele de três hora na sala de espera e depois mandou dizer pra voltar no dia seguinte? Quando veio em casa eu disse: velho, se esse canalha voltar eu não sou mais teu filho.

Estava indignado. Ajeitou a gravata puída e prosseguiu:

— A América é isso, garoto. Escuta o que eu digo: tem que ser duro que nem eu. Não olhar pra frente nem pro lado. E se tem de pôr a mãe na zona, põe a mãe na zona. Do contrário, tchau e bênção.

Ameaçou os meninos e depois resmungou, rancoroso:

— Deputado! Esses político é tudo igual, vai por mim, garoto. É tudo vinho da mesma pipa: radical, conserveta, socialista. O Tino é que tinha razão quando dizia que a humanidade tem que ser ácrata. Vou ser franco contigo: eu não votaria nunca se não fosse porque eu tenho que votar pelos conserveta.

Martín olhou-o com surpresa.

— Espantado? E olha que é a pura verdade. Que é que nós vamo fazer.

— Mas por quê?

— É, garoto, tem sempre um porquê pra tudo, já dizia o falecido Zenetta. Tem sempre um mistério.

Bebeu o mate.

Ficou bastante tempo calado, quase melancólico.

— Meu velho transportava o don Olegario Souto, que era caudilho conserveta de Barracas, no Norte. E uma das filha do don Olegario se chamava María Elena. Era loura e parecia um sonho.

Sorriu em silêncio, perturbado.

— Mas imagina só, garoto... eram gente rica... e eu, pra completar... com esta fuça...

— E quando foi isso? — Martín perguntou, admirado.

— Estou te falando de 1915, um ano antes do Peludo chegar ao poder.

— E ela, o que aconteceu depois?

— Ela? E... o que é que ia acontecer... casou... um dia casou... Me lembro como se fosse hoje. 23 de março de 1924.

Ficou matutando.

— E por isso o senhor vota sempre nos conservadores?

— É isso, garoto. Viu como tudo tem uma explicação? Faz mais de trinta ano que eu voto nesse ladrão. Que é que se vai fazer.

Martín ficou olhando-o, admirado.

— Pois é... — o velho murmurou. — A Natale lo decábano bacare.

Tito piscou o olho para Martín.

— Quem, velho?

— Lo briganti.

— Viu? Sempre a mesma coisa. Por que deixavam eles descer, velho?

— Per andare a la santa misa. Due ore.

Balançou a cabeça, olhando ao longe.

— Pois é... La notte de Natale. I fusilli tocábano la zambuña.

— E o que os fusilli cantavam, velho?

— Cantabam

La notte de Natale

è una festa principale

que nasciò nostro Signore

a una povera mangiatura.

— E tinha muita neve, velho?

— Se tinha...

E ficou meditando naquela terra fabulosa. E Tito sorriu para Martín com um olhar em que se mesclavam a ironia, a pena, o ceticismo e o pudor.

— Não te disse? Sempre a mesma história.