Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 10
Os cinco dias seguintes me desesperaram. O que podia fazer além de pensar e conversar com o garçom e folhear jornais e revistas? Aproveitava para ler duas coisas que sempre me fascinaram: os anúncios e o noticiário policial. A única coisa que leio desde os vinte anos, a única coisa que nos instrui sobre a natureza humana e os grandes problemas metafísicos. Lê-se na sexta edição: num súbito acesso de loucura, mata a mulher e os quatro filhos com um machado. Nada sabemos sobre esse homem, a não ser que se chama Domingo Salerno, era trabalhador e honesto, tinha um mercadinho em Villa Lugano e adorava a mulher e os filhos. E, de repente, mata-os a machadadas. Profundo mistério! E que sensação de verdade se tem ao ler o noticiário policial, depois de ler as declarações dos políticos! Todos eles parecem atores e falsários internacionais, gente que vende tônico para cabelo, remédio de veneno de cobra. Como é possível comparar um desses mistificadores com um ser puríssimo do gênero de Salerno? Os anúncios também me excitam: os vencedores de amanhã estudam nos cursos pitman. Dois jovens esplendorosos, um rapaz e uma moça, de braços dados, sorridentes e gloriosos, marcham rumo ao Futuro. Em outro anúncio aparece uma mesa de escritório com dois telefones e um interfone; a poltrona vazia está pronta para ser ocupada, e dos telefones saem uns raiozinhos luminosos; diz a legenda: este posto espera por você. Um que me atrai, pela demagogia, é o da Ótica Podestá: seus olhos merecem o melhor. Os do creme de barbear vêm na forma de historinhas edificantes; no primeiro quadro, Pedro, visivelmente barbado, convida María Cristina para dançar; no segundo quadro, em primeiro plano vemos o jeito surpreso de Pedro e a expressão de profundo desagrado de María Cristina, que dança tentando afastar ao máximo seu rosto do dele; no terceiro quadro, ela comenta com uma amiga: “Como Pedro está repugnante com essa barba!”, e a outra lhe responde: “Por que não lhe diz logo de uma vez?”; no quadro seguinte, María Cristina lhe responde que não se atreve, mas que ela, sua amiga, talvez possa falar com o namorado, para que este, por sua vez, aconselhe Pedro; de fato, no penúltimo quadro observa-se que o namorado da amiga diz a Pedro alguma coisa, em voz baixa; no quadro final, aparecem em primeiro plano Pedro e María Cristina, dançando felizes e sorridentes, ele já perfeitamente barbeado com o famoso creme palmolive por um descuido lamentável podia ter perdido a ; diz a legenda:
namorada.
Variantes: numa, o indivíduo perde uma magnífica oportunidade de emprego; em outra, nunca é promovido: no fundo de um salão cheio de escrivaninhas e empregados, entre os quais é fácil perceber Pedro barbado, o chefe o está olhando, de longe, com uma expressão de repugnância e contrariedade. Desodorantes: noivados, cargos em empresas fantásticas, convites para festas, todos perdidos bestamente por não ter usado odorono.
Anúncios com senhores de rosto esportivo, muito bem penteados e muito sorridentes, mas ao mesmo tempo enérgicos e positivos, de maxilares grandes e quadrados como o Super-Homem, e que, batendo com o punho na mesa, entre vários telefones, e inclinando o torso para o interlocutor invisível e vacilante, exclamam: o sucesso está ao seu alcance! Outras vezes, o Super-Homem não bate na mesa, mas, com gesto enérgico e sem a menor hesitação, aponta seu dedo para o leitor do jornal, sempre pusilânime e desleixado, que vive desperdiçando em bobagens seu Tempo e suas Fantásticas Qualidades, e diz-lhe: ganhe cinco mil pesos por mês em seus momentos de folga, instando-o em seguida a pôr nome e endereço nas linhas pontilhadas de um pequeno quadrado.
Sem um pingo de gordura, mostrando os poderosos músculos fibrosos, Míster Atlas lança um apelo mundial aos fracotes: em sete dias você notará o Progresso e decidirá refazer ou remodelar seu corpo, logo conquistando uma compleição como a do próprio Míster Atlas. Diz: todos admiram a largura de seus ombros! você conquistará a moça mais bonita e o melhor emprego!
Mas nada como o Reader’s Digest para promover o Otimismo e os Bons Sentimentos. Um artigo do sr. Frank I. Andrews, intitulado “Quando os hoteleiros se reúnem”, começava assim: “Conhecer os distintos hoteleiros que chegaram aos Estados Unidos representando seus colegas dos países latino-americanos foi, para mim, um dos momentos mais emocionantes de minha vida”. E depois, centenas de artigos destinados a levantar o ânimo dos pobres, leprosos, mancos, edipianos, surdos, cegos, mudos, surdos-mudos, epilépticos, tuberculosos, cancerosos, paralíticos, macrocéfalos, microcéfalos, neuróticos, filhos ou netos de loucos furiosos, pés chatos, asmáticos, desprezados, gagos, indivíduos com mau hálito, infelizes no casamento, reumáticos, pintores que perderam a vista, escultores que sofreram amputação das duas mãos, músicos que ficaram surdos (pense em Beethoven!), atletas que ficaram paralíticos na guerra, vítimas dos gases na Primeira Guerra, mulheres feíssimas, crianças leporinas, homens fanhos, vendedores tímidos, pessoas altíssimas, pessoas baixíssimas (quase anãs), homens que pesam mais de duzentos quilos etc. Títulos: do primeiro emprego me tiraram a pontapés, nosso romance começou no leprosário, vivo feliz com meu câncer, perdi a vista mas ganhei uma fortuna, sua surdez pode ser uma vantagem etc.
Ao sair do bar, e depois de fazer minha visita noturna à pensão, ainda contemplava, na praça Del Once, a grande propaganda que anuncia o Talharim Santa Catarina, e, embora não lembrasse quem tinha sido Santa Catarina, não achava difícil que tivesse sofrido o martírio, já que o martírio sempre foi o fim quase profissional dos santos; e então não podia deixar de meditar sobre essa característica da existência humana, que consiste em que um crucificado ou um esfolado vivo tornem-se, com o tempo, marca de talharim ou de conservas em lata.