Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 57 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 8

 

Desenvolveu-se um longo processo até que consegui vislumbrar os primeiros resultados, pois, como é fácil imaginar, essa região intermédia que separa os dois mundos está repleta de equívocos, tateios, ambigüidades: dada a natureza secreta e atroz do universo dos cegos, é natural que ninguém possa ter acesso a eles sem uma série de transformações sutis.

Observei de perto esse processo e só me separava de Iglesias quando era inevitável: era minha oportunidade mais segura de me infiltrar no mundo proibido, e não ia perdê-la por erros grosseiros. Assim, tentei ficar a seu lado na medida do possível, mas também do insuspeitável. Cuidava dele, lia para ele um livro de Kropotkin, conversava com ele sobre a Ajuda Mútua, mas, acima de tudo, observava e esperava. No meu quarto coloquei um enorme cartaz visível da cabeceira da cama, com as palavras:

 

OBSERVAR

 

ESPERAR

 

Eu pensava: mais cedo ou mais tarde eles têm de aparecer, deve haver um instante na vida do novo cego em que eles vêm buscá-lo. Mas esse instante (eu também me dizia, inquieto), esse instante podia não ser identificável com nitidez, e, inversamente, era muito provável que parecesse insignificante e até mesmo corrente. Era preciso estar atento aos detalhes mais banais, vigiar qualquer pessoa que se aproximasse, por mais insuspeita que parecesse à primeira vista, e, sobretudo nesse caso, era imprescindível interceptar cartas e ligações telefônicas etc. Como se vê, o programa era extenuante, quase um labirinto. Basta pensar num só detalhe para se ter uma idéia da ansiedade que me consumiu naqueles dias: outra pessoa da pensão podia ser o intermediário, inclusive ingênuo, da Seita; e esse indivíduo podia ver Iglesias na hora em que me fosse impossível controlá-lo, até mesmo esperá-lo no banheiro. Em longas noites meditando em meu quarto elaborei planos tão detalhados de observação que, para realizá-los, precisaria de uma organização de espionagem tão grande como a de um país em guerra; com o perigo, sempre existente, da contra-espionagem, já que é amplamente sabido que todo espião pode ser um agente duplo, e contra isso ninguém está protegido. Em suma, ao fim de longas análises, durante as quais pensei que poderia enlouquecer, eu terminava simplificando e me atendo ao que podia executar. Devia ser minucioso e paciente, ter coragem e muito tato: minha experiência frustrada com o sujeito das barbatanas me ensinara que eu nada conseguiria pelo caminho mais expeditivo e rápido de um ataque frontal.

Escrevi a palavra “coragem” e também poderia ter escrito “ansiedade”. Pois me atormentava a suspeita de que a Seita tivesse desencadeado contra mim a mais estrita vigilância desde o episódio daquele sujeito. E considerei que todas as precauções eram necessárias. Darei um exemplo: enquanto aparentava ler o jornal no bar da rua Paso, bruscamente, com a velocidade do raio, eu levantava os olhos e tentava flagrar uma expressão suspeita em Juanito, um brilho específico em seu olhar, um rubor. Depois, chamava-o com a mão. “Juanito” — dizia-lhe, caso ele não tivesse enrubescido —, “por que você ficou vermelho?” O cara negava, é claro. Mas também era uma excelente prova: se negava sem ficar vermelho, era uma prova suficiente de sua inocência; se ficasse vermelho, cuidado! Como é óbvio, o fato de não ficar vermelho com a minha pergunta (por isso escrevi prova “suficiente”) tampouco provava que ele tivesse algo a ver com a fabulação, pois um bom espião tem de estar acima de erros desse tipo.

Tudo isso pode ser visto como um delírio persecutório, mas os fatos posteriores demonstraram que minha desconfiança e minhas suspeitas não eram, infelizmente, tão desatinadas como um desprevenido pode imaginar. Contudo, por que eu me atrevia a me aproximar tão perigosamente do abismo? É que contava com a inevitável imperfeição do mundo real, em que nem mesmo o serviço de vigilância e espionagem dos cegos está isento de falhas. Também contava com uma coisa que era lógico presumir: os ódios e as antipatias que devia haver entre os cegos, como em qualquer outro grupo de mortais. Em suma, refleti que o tipo de dificuldades que um vidente podia esperar na exploração desse universo não seria muito diferente do que um espião inglês podia encontrar durante a guerra no regime hitlerista, organizado mas cheio de falhas e ódios.

Entretanto, o problema era duplamente complicado porque, como era de esperar, o temperamento de Iglesias começou a mudar; embora, mais que temperamento (e menos), deveria se dizer sua “raça” ou “condição zoológica”. Como se, devido a uma experiência com genes, um ser humano começasse a se transformar, lenta mas inexoravelmente, em morcego ou lagarto; e, o que é mais atroz, sem que quase nada de seu aspecto exterior revelasse mudança tão profunda. Ficar sozinho num quarto fechado e escuro, de noite, sabendo que nele também há um morcego, é sempre impressionante, mais ainda quando se percebe que essa espécie de rato alado está voando, e, de forma já intolerável, quando sentimos que uma de suas asas roçou em nossa cara durante seu imundo vôo silencioso. Mas essa sensação pode ser mais horrorosa ainda se o animal tiver forma humana! Iglesias foi sofrendo essas mudanças sutis que talvez para outros pudessem passar despercebidas, mas para mim, que vigiava com sagacidade e de forma sistemática, eram sensíveis.

Ficou cada dia mais desconfiado. Claro: ainda não era um autêntico cego, dotado do poder de se mexer nas trevas e desse sentido de audição e tato, mas já não era um homem capaz de ver com seus olhos habituais. Tive a impressão de que se sentia perdido: não conseguia ter uma sensação exata das distâncias, cometia erros cinestésicos, tropeçava, com suas mãos que tateavam derrubava desajeitado um copo que estava na sua frente. Irritava-se, embora tentasse disfarçar, por orgulho.

— Não é nada, Iglesias — eu lhe dizia, em vez de ficar calado e fingir que estava distraído.

Isso aumentava sua irritação e acentuava suas reações, justamente o que eu queria.

De repente, eu me calava e deixava, por assim dizer, que um silêncio total o cercasse. Pois bem: para um cego, o silêncio total ao seu redor é como para nós um abismo tenebroso que nos separa do resto do universo. Não sabe a que se ater, todos os seus vínculos com o mundo exterior são abolidos nessas trevas dos cegos que é o silêncio absoluto. Têm de estar atentos ao menor ruído, o perigo os espreita por todos os lados.

Nesses momentos, são solitários e impotentes. O simples tiquetaque de um relógio pode ser uma luzinha ao longe, essas luzinhas que nas histórias infantis o herói avista, aterrorizado, quando pensava estar perdido em plena selva.

Então eu dava uma batidinha com o dedo, como por descuido, em cima da mesa ou da cadeira e notava que, instantaneamente, com neurótica ansiedade, Iglesias orientava toda a sua vida nessa direção. No meio de sua solidão, talvez se perguntasse: o que Vidal está querendo? Onde está? Por que está calado?

De fato, tinha grande desconfiança de mim. Essa desconfiança foi crescendo à medida que se passavam os dias e tornou-se irreversível ao fim de três semanas, quando sua metamorfose chegava ao fim. Se minhas teorias não estavam erradas, um indício devia marcar o ingresso definitivo de Iglesias no novo reino, sua transformação absoluta: era o asco que despertavam em mim os cegos autênticos. Esse asco, ou apreensão ou fobia, tampouco aparece de repente: minha experiência mostrou que se produz aos poucos, até que um dia nos encontramos diante do fato consumado e horripilante: já estamos na frente do morcego ou do réptil. Lembro-me desse dia: já a caminho do quarto da pensão onde Iglesias estava morando desde o acidente, tive uma ambígua sensação de mal-estar, uma apreensão indeterminada que foi aumentando à medida que fui me aproximando. Tanto assim que hesitei um instante antes de chamá-lo. Até que, quase tremendo, disse: “Iglesias”, e algo me respondeu: “Entre”. Abri a porta e no escuro (pois, naturalmente, ele não acendia a luz quando estava só) senti a respiração do novo monstro.