Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 41 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 21

 

Martín esperava um sinal, uma chamada. Então, jogando um tudo ou nada, aproximou-se dela e perguntou se podiam sair um instantinho. “Está bem”, respondeu. E, dirigindo-se a Wanda, disse:

— Volto daqui a uns minutos.

“Uns minutos”, pensou Martín.

Foram pela rua Charcas até o bar que fica na esquina da Esmeralda.

Disse-lhe:

— Fiquei esperando por você uma hora e meia.

— Apareceu um trabalho urgente e não tive como avisá-lo.

Martín pressentiu a catástrofe e tentou mudar, pelo menos, o tom da voz, levar as coisas com mais calma, com indiferença. Mas foi impossível.

— Diante dessas pessoas você parece outra. É inconcebível que... — Calou-se e depois continuou: — Acho que realmente você é outra pessoa.

Alejandra não respondeu.

— Não é isso?

— Talvez.

— Alejandra — disse Martín —, quando você é a pessoa verdadeira? Quando?

— Tento sempre ser verdadeira, Martín.

— Mas como pode esquecer momentos como os que passamos?

Ela se virou, indignada:

— E quem disse que eu esqueci?

E, depois de um instante em silêncio, acrescentou:

— Por isso, porque não quero enlouquecê-lo, prefiro não vê-lo mais.

Estava sombria, calada e evasiva. E disse de repente:

— Não quero que a gente passe novamente momentos iguais a esses.

E com brutal ironia concluiu:

— Esses famosos momentos perfeitos.

Martín a olhava desesperado; não só pelo que dizia como pelo tom devastador.

— Você agora vai se perguntar por que lhe faço essas ironias, por que o faço sofrer assim, não é?

Martín começou a olhar uma manchinha marrom que havia na toalha cor-de-rosa e suja.

— Bem — continuou —, não sei. Também não sei por que não quero ter mais um desses famosos momentos com você. Compreenda, Martín: isso tem de acabar de uma vez por todas. Alguma coisa não está funcionando. E o mais honesto é não nos vermos nunca mais.

Os olhos de Martín encheram-se de lágrimas.

— Se você me deixar, eu me mato — disse.

Alejandra olhou-o com expressão grave. E depois, com uma mistura singular de dureza e melancolia na voz, disse:

— Não posso fazer nada, Martín.

— Não se importa que eu me mate?

— Claro, como não vou me importar.

— Mas não faria nada para impedir.

— Como poderia impedir?

— Quer dizer que para você é igual que eu me mate ou continue vivendo.

— Eu não disse isso. Não, não é igual. Acharia horrível se você se matasse.

— Você se importaria muitíssimo?

— Muitíssimo.

— E então?

Olhou-a com cuidado e ansiedade, como se olha alguém em perigo iminente, buscando o menor indício de salvação. “Não é possível”, pensava. “Uma pessoa que passou comigo as coisas que ela passou, há apenas poucas semanas, não pode acreditar realmente em tudo isso.”

— E então? — insistiu.

— Então, o quê?

— Digo-lhe que talvez me mate agora mesmo, me jogando debaixo do trem em Retiro, ou no metrô. Será igual para você?

— Já lhe disse que não será igual, que sofrerei horrores.

— Mas continuará vivendo.

Ela não respondeu, mexeu o resto do café e olhou o fundo da xícara.

— Quer dizer que tudo o que passamos juntos nesses meses, tudo isso é um lixo que deve ser jogado na rua!

— Ninguém lhe disse isso! — quase gritou.

Martín se calou, perplexo e consternado.

— Não a entendo, Alejandra. Nunca a entendi, na verdade. Essas coisas que diz, essas coisas que faz comigo, isso também conta.

Fez um esforço para pensar.

Alejandra, sombria, talvez nem escutasse. Olhava para um ponto na rua.

— Então? — Martín insistiu.

— Nada — respondeu secamente. — Não nos veremos mais. É o mais honesto.

— Alejandra, não consigo suportar a idéia de não vê-la mais. Quero vê-la, de qualquer maneira, do jeito que você quiser...

Alejandra nada respondeu; de seus olhos começaram a cair lágrimas, mas sem que seu rosto abandonasse a expressão rígida e ausente.

— Hein, Alejandra?

— Não, Martín. Detesto as coisas meio lá, meio cá... Ou acontecerão outras cenas como esta, que lhe fazem tão mal, ou voltaremos a ter um encontro como o de segunda-feira. E não quero, entende? Não quero mais ir para a cama com você. Por nada deste mundo.

— Mas por quê? — Martín exclamou, pegando sua mão, sentindo tumultuosamente que algo, algo muito importante restava entre os dois, apesar de tudo.

— Porque não! — ela gritou, com um olhar de ódio, arrancando sua mão das dele.

— Não entendo você... — Martín balbuciou. — Nunca entendi...

— Não se preocupe. Eu também não me entendo. Nem sei por que faço tudo isso com você. Não sei por que o faço sofrer assim.

E exclamou, cobrindo o rosto:

— Que horror!

E, enquanto cobria o rosto com as duas mãos, começava a chorar histericamente, repetindo, entre soluços, “que horror, que horror!”.

Durante todo o tempo da relação entre eles, muito poucas vezes Martín vira Alejandra chorar, e sempre foi impressionante. Quase aterrador. Era como se um dragão, ferido de morte, derramasse lágrimas. Mas essas lágrimas (como ele imaginava que seriam as do dragão) eram tremendas, não significavam fraqueza nem necessidade de ternura: pareciam gotas amargas de rancor líquido, escaldantes e devoradoras.

Apesar disso, Martín se atreveu a pegar suas mãos, tentando descobrir seu rosto, com ternura mas firmeza.

— Alejandra, como você sofre!

— E ainda tem pena de mim! — ela resmungou debaixo das mãos, num tom que não se podia saber se era de raiva, desprezo, ironia ou pesar, ou de todos esses sentimentos juntos.

— É, Alejandra, claro que tenho pena de você. Você acha que não vejo que você está sofrendo assustadoramente? E não quero que sofra. Juro que isso nunca mais vai acontecer.

Ela foi se acalmando. Finalmente, enxugou as lágrimas com um lenço.

— Não, Martín — disse. — É melhor não nos vermos mais. Porque mais cedo ou mais tarde teríamos de nos separar de forma ainda pior. Não consigo dominar coisas horríveis que tenho dentro de mim.

Voltou a cobrir o rosto com as mãos, e Martín voltou a querer separá-las.

— Não, Alejandra, não nos faremos mal. Você vai ver. A culpa foi minha, ao insistir em vê-la. Ao ir procurá-la.

Tentando rir, acrescentou:

— Como se alguém fosse procurar o doutor Jekill e encontrasse Mr. Hyde. De noite. Embuçado. Com as unhas de Frederic March. Hein, Alejandra? Só nos veremos quando você quiser, quando me ligar. Quando se sentir bem.

Alejandra não respondeu.

Passaram-se longos minutos e Martín se desesperava com esse tempo transcorrendo inutilmente, pois sabia que ela já estava atrasada, que precisava ir embora, que iria a qualquer momento, e que o deixaria num estado de absoluta prostração. E depois viriam os dias negros, longe dela, alheios à sua vida.

E aconteceu o que tinha de acontecer: ela olhou o relógio de pulso e disse:

— Preciso ir embora.

— Não nos separemos assim, Alejandra. É inacreditável. Vamos decidir antes o que fazer.

— Não sei, Martín, não sei.

— Pelo menos vamos combinar nos vermos outro dia, com menos pressa. Não vamos resolver nada neste estado de ânimo.

Enquanto iam saindo Martín pensava como era pouco, espantosamente pouco, o tempo que lhe restava durante aquelas duas quadras. Caminharam devagar, mas mesmo assim logo faltaram cinqüenta passos, vinte passos, dez passos, nada. Então, desesperado, Martín a pegou por um braço e, apertando-o, tornou a implorar que, pelo menos, se vissem mais uma vez.

Alejandra o olhou. Seu olhar parecia vir de muito longe, de uma região tristemente alheia.

— Prometa-me, Alejandra! — suplicou, com lágrimas nos olhos.

Alejandra o olhou longa e duramente.

— Está bem. Amanhã às seis da tarde, no Adam.