A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo V · Na Selva, a Selva Enorme
UM
A ameaça de que os homens baixos e os vampiros pudessem matar Oi foi a única coisa que impediu que Jake morresse ao lado do Père. Não houve agonia para tomar a decisão; Jake gritou
(OI, AQUI!)
com toda a força mental que pôde reunir, e Oi correu rapidamente para seu calcanhar. Jake passou pelos homens baixos hipnotizados pela tartaruga e empurrou brutalmente uma porta com a inscrição USO EX-CLUSIVO DOS FUNCIONÁRIOS. Do apagado clarão vermelho-alaranjado do restaurante, ele e Oi passaram a uma zona de brilhante luz branca, culinária pungente e carbonizada. Quentes e úmidas, ondas de va-por se lançavam contra seu rosto
(a selva)
talvez preparando o cenário do que se seguiu,
(a selva possante)
talvez não. A visão de Jake melhorou quando as pupilas se contraíram e ele viu que estava na cozinha do Dixie Pig. Aliás, não pela primeira vez. Um dia, não muito antes da chegada dos Lobos a Calla Bryn Sturgis, Jake tinha seguido Susannah (só que então Susannah teria sido Mia) num sonho onde ela revirava uma grande cozinha deserta em busca de comida. Aquela cozinha, só que agora o lugar estava cheio de vida. Um enorme porco as-sava num espeto de ferro sobre um fogaréu, as chamas saltando por uma grelha de ferro, encardida de restos de comida, a cada gota de gordura caí-da. De ambos os lados do porco havia gigantescos fogões com coifas de cobre sobre as quais fumegavam panelas quase da altura de Jake. Mexendo uma havia uma criatura de pele cinzenta, tão hedionda que os olhos de Ja-ke só a custo conseguiam olhar para ela. Presas se erguiam de ambos os lados da boca escura, de lábios grossos. As bochechas tinham grandes abas de pele caída, cheia de verrugas. O fato de a criatura estar usando um aven-tal e um grande chapéu de cozinheiro, cheio de pontas, abrandava, de certa forma, o pesadelo, ocultando-o sob um certo verniz. Atrás desta aparição, quase perdidas no vapor, duas outras criaturas, uma ao lado da outra e também com aventais brancos, lavavam pratos numa pia dupla. Ambas usavam lenços de pescoço. Uma era humana, um garoto de talvez uns 17 anos. A outra parecia uma espécie de monstruoso gato sobre duas pernas.
— Vai, vai, los monstros pubes, três cannits en founs! — o chefe de presas gritou para os garotos na pia. Ele não reparou em Jake. Um dos garotos (o gato) reparou, estendendo as orelhas para trás e bufando. Sem pensar duas vezes, Jake atirou o Oriza que segurava com a mão direita. O prato cantou pelo ar enfumaçado e cortou o pescoço do gato com a suavidade de uma faca num pedaço de banha. A cabeça caiu na pia com um barulho de es-puma de sabão, os olhos verdes ainda brilhando.
— San fai, can dit los!— gritou o chefe. Parecia inconsciente do que ti-nha acontecido ou incapaz de apreender a imagem da coisa. Virou-se para Jake. Os olhos sob a testa inclinada, coberta de gomos, eram de um morti-ço cinza-azulado, os olhos de um ser provido de consciência. Olhando de frente, Jake percebeu o que era: uma espécie de javali inteligente e defor-mado. O que significava que estavam cozinhando criaturas de sua própria espécie. O que, aliás, parecia perfeitamente adequado ao Dixie Pig.
— Pode foh pentelho ain-tet pode fah! Ela-tão pan! Vai! — Isto foi dirigido a Jake, E então, só para tornar a insensatez completa: — E eef cê num esfre-gar, num siquer comece!
O outro rapaz na pia, o de aparência humana, estava gritando uma espécie de advertência, mas o chefe não lhe deu atenção. O chefe parecia acreditar que Jake estaria dando o dever por cumprido e a honra defendida ao matar o gato.
Jake atirou o outro prato, que atravessou o pescoço do javali, pondo fim à sua tagarelice. Talvez um galão de sangue tenha fluído para o topo do fogão à direita da coisa, espirrando e provocando um horrível cheiro de queimado. A cabeça do javali caiu à esquerda do pescoço, meio inclinada para trás, mas não chegou a ser decepada. O ser (que tinha pelo menos uns dois metros e dez de altura) deu dois passos trôpegos para a esquerda, a-braçou o porco que assava e acabou enterrado no espeto. A cabeça foi pu-xada um pouco mais, caindo agora sobre o ombro direito do chef Javali, e um olho se arregalou para a fileira de enfumaçadas lâmpadas fluorescentes. O calor colou as mãos do cozinheiro no assado e elas começaram a derre-ter. Então a coisa caiu sobre o fogaréu e sua túnica pegou fogo.
Jake se afastou a tempo de ver o outro auxiliar de cozinha avançar pa-ra ele com uma faca de carne numa das mãos e uma machadinha na outra. Jake tirou outro ’Riza da sacola mas segurou-o um pouco, a despeito da voz em sua cabeça que o instava a seguir em frente, seguir em frente, atirar a coisa, dar ao bastardo o que um dia ouvira Margaret Eisenhart chamar de “corte fundo de cabelo”. A expressão fizera as outras Irmãs do Prato rirem muito. Contudo, por mais que ele quisesse atirar, a mão continuou imóvel.
O que via era um rapaz cuja pele ganhara um pálido tom cinza-amarelado sob as brilhantes luzes da cozinha. Parecia ao mesmo tempo apavorado e subnutrido. Jake ergueu mais o prato num sinal de advertência e o jovem parou. Não era, porém, o ’Riza que ele estava olhando, mas Oi, que permanecia entre os pés de Jake. O pêlo do trapalhão, arrepiado em volta do corpo, parecia ter dobrado de tamanho, e os dentes estavam à mostra.
— Você... — Jake começou, e então a porta do restaurante se escan-carou. Um dos homens baixos precipitou-se por ela. Jake atirou o prato sem hesitar. O prato gemeu pelo ar brilhante, enfumaçado, e decepou a cabeça do intruso com precisão e muito sangue, logo acima do pomo-de-adão. O corpo sem cabeça oscilou primeiro para a esquerda, depois para a direita, como um comediante em cima de um palco aceitando uma chuva de aplausos com mesuras extravagantes. Então o corpo desabou.
Jake pôs quase de imediato um prato em cada mão, os braços mais uma vez cruzados sobre o peito na posição que sai Eisenhart chamava “a carga”. Encarava o lavador de pratos, que continuava segurando a faca e a machadinha. Mas não numa atitude muito ameaçadora, Jake pensou. Ten-tou de novo e, desta vez, conseguiu soltar a pergunta inteira:
— Fala a minha língua?
— Ié — disse o rapaz. Ele deixou cair a machadinha para poder mos-trar o polegar avermelhado pela água e o indicador com menos de um cen-tímetro de distância entre eles. — Mas só um polco. Aprendo quando che-guei aqui. — Abriu sua outra mão e a faca se juntou à machadinha no chão da cozinha.
— Você vem do Mundo Médio? — Jake perguntou. — Vem, não é?
Achava que o rapaz da pia não era dos mais brilhantes (“talvez não um geniozinho”, Elmer Chambers teria dito em tom de zombaria), mas pelo menos era suficientemente esperto para ter saudades de casa; a despei-to do terror, Jake reparou que havia um certo lampejo inconfundível nos olhos do garoto.
— Ié — disse ele. — Veio de Ludweg, eu.
— Fica perto da cidade de Lud?
— Ao norte de lá, gostemos disso ou não — respondeu o lavador de pratos. — Vai me matar, rapaz? Não quero morrer, por triste que viva.
— Não sou eu quem irá matá-lo se me disser a verdade. Passou al-guma mulher por aqui?
O lavador de pratos hesitou, depois disse:
— Sim. Sayre e seus pares vinham com ela. Ela vinha suspensa, assim foi, cabeça toda caída... — E ele demonstrou, deixando a cabeça cair para o pescoço e ficando ainda mais parecido com o bobo da corte. Jake pensou no Sheemie da história que Roland contou de seus dias em Mejis.
— Mas não morta...
— Naum. Ouvi seu respiro, eu.
Jake se virou para a porta, mas não vinha ninguém. Ainda. Tinha de sair dali, mas...
— Qual é seu nome, guri?
— Jochabim, esse sou eu, filho de Hossa.
— Bem, escute, Jochabim, há um mundo fora desta cozinha chamado Cidade de Nova York, onde pentelhos como você vivem livres. Sugiro que saia enquanto tem oportunidade.
— Eles simplesmente vão me trazer de volta e me dar chicotadas.
— Não, você não imagina como o lugar é grande. É como Lud quan-do Lud era...
Contemplou a expressão de olhos mortos de Jochabim e pensou: Não, eu é que não estou entendendo. E se continuar aqui tentando convencê-lo a deser-tar, vou sem dúvida conseguir exatamente o que...
A porta levando ao restaurante tornou a se escancarar. Desta vez os dois homens baixos tentaram atravessar ao mesmo tempo e, por um mo-mento, ficaram imprensados, ombro a ombro. Jake atirou seus dois pratos e viu como se entrecruzaram no ar enfumaçado, decapitando ambos os recém-chegados, exatamente quando ficaram entalados. Eles caíram para trás e, mais uma vez, a porta se fechou com estrondo. Na escola Piper, Ja-ke tinha aprendido alguma coisa sobre a Batalha das Termópilas, onde os gregos haviam contido um exército persa dez vezes mais numeroso que o deles. Os gregos haviam atraído os persas para um estreito passo de mon-tanha; ele tinha a porta daquela cozinha. Desde que continuassem a chegar individualmente ou em grupo de dois (como certamente ia acontecer, a não ser que descobrissem algum meio de cercá-lo), poderia pegar a todos.
Pelo menos até acabarem os Orizas.
— Armas? — perguntou a Jochabim. — Existem armas aqui?
Jochabim balançou negativamente a cabeça, mas dado o irritante o-lhar fixo do rapaz ficou difícil dizer se o balanço significava “nenhuma ar-ma na cozinha” ou “eu não conheço você”.
— Tudo bem, vou embora — disse Jake. — E se você não sair daqui enquanto ainda tem chance, Jochabim, é porque é mais tolo do que parece. Bem, isso já é dizer muito. Há videogames lá fora, garoto... pense nisso.
Jochabim, no entanto, continuou dispensando a Jake o olhar bobão e Jake desistiu. Estava prestes a falar com Oi quando alguém se dirigiu a ele através da porta.
— Ei, garoto. — Voz áspera. Confidencial. Autoconfiante. A voz de um homem que poderia colocá-lo a nocaute no primeiro round ou dormir com sua namorada quando muito bem entendesse, Jake pensou. — Seu amigo padreco morreu. Na realidade o padreco virou jantar. Se você sair agora, sem fazer mais nenhuma bobagem, talvez não acabe como sobre-mesa.
— Vire-o para o lado e enfia-o no cu — Jake gritou. Isto atravessou até mesmo o muro de estupidez de Jochabim; ele pareceu chocado.
— Última chance — disse a voz áspera e autoconfiante. — Saia daí.
— Entre aqui! — Jake revidou. — Tenho um bom número de pratos! — Na realidade, sentiu um impulso enlouquecido de sair em disparada, se arremessar pela porta e levar a batalha aos homens e mulheres baixos no salão de jantar do restaurante. E a idéia não era assim tão louca, como o próprio Roland teria admitido; era a última coisa que esperavam e havia pelo menos uma chance razoável de conseguir colocá-los em pânico com meia dúzia de pratos rapidamente atirados e provocar uma debandada.
O problema eram os monstros que tinham se banqueteado atrás da tapeçaria. Os vampiros. Eles não entrariam em pânico e Jake sabia disso. Ele desconfiava que, se os Avós tivessem conseguido entrar na cozinha (talvez fosse apenas falta de interesse o que os mantinha no salão de jantar — isso e os últimos pedaços do cadáver do Père), ele já estaria morto. Jo-chabim também, muito provavelmente.
Ajoelhou-se e murmurou:
— Oi, encontre Susannah! — e reforçou o comando com uma rápida imagem mental.
O trapalhão dispensou a Jochabim um último olhar desconfiado e começou a farejar no chão. Os ladrilhos estavam úmidos de uma recente passada de pano e Jake temeu que o trapalhão não fosse capaz de encon-trar o rastro. Então Oi emitiu um som agudo (mais latido de cachorro que grito humano) e começou a correr pelo centro da cozinha entre os fogões e as mesas de banho-maria, nariz encostando no piso, só se afastando bre-vemente de seu caminho para contornar o corpo carbonizado do chef Es-pírito de Porco.
— Escute, venha cá, seu merdinha! — gritou o homem baixo diante da porta. — Estou perdendo a paciência com você!
— Ótimo! — Jake gritou. — Entre! Vamos ver se consegue sair de novo!
Olhando para Jochabim, pôs os dedos nos lábios num gesto que pe-dia silêncio. Estava à beira de se virar e correr (não fazia idéia de quanto tempo o auxiliar de cozinha ia demorar para gritar através da porta que o guri e seu zé-trapalhão já não estavam controlando o Passo das Termópi-las), quando Jochabim dirigiu-se a ele num tom baixo, pouco mais que um sussurro.
— O que é? — Jake perguntou, olhando-o com ar de dúvida. Era como se o garoto tivesse dito cuidado com a armação mental, mas isso não fa-zia sentido. Fazia?
— Cuidado com a armação mental — disse Jochabim, desta vez mui-to mais claramente. Depois se afastou para cuidar de suas panelas e espu-ma de sabão.
— Que armação mental? — Jake perguntou, mas Jochabim fingiu não ouvir e Jake não podia ficar ali a interrogá-lo. Correu para alcançar Oi, o-lhando sempre para trás. Se mais uma dupla de homens baixos irrompesse na cozinha, Jake queria ser o primeiro a saber.
Mas nenhum entrou, pelo menos não antes de ele atravessar outra porta com Oi e entrar com o trapalhão na despensa do restaurante, um cômodo escuro entulhado até o alto de caixas, cheirando a temperos e ca-fé. Era como o depósito atrás do mercado de East Stoneham, só que mais limpo.