A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 27 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Dezenove

— Como podemos impedir que aconteça? — Eddie perguntou. — Aquele tal de Trampas disse a Ted que era o ka.

— Talvez tenha se enganado — disse Jake, mas a voz era incerta. E arrastada. — Era apenas um rumor, talvez ele tenha se enganado. E, ei, talvez King tenha tempo até julho. Ou agosto. Ou que tal setembro? Podia ser setembro, não parece provável? Afinal setembro é o mês 9...

Olharam para Roland, que agora estava sentado com a perna esticada na frente.

—É aqui que dói — disse ele, como se falasse sozinho. Encostou a mão no quadril direito... depois nas costelas... por fim do lado da cabeça. — Tenho sentido dores de cabeça. Cada vez piores. Não vi razão para lhes contar. — Passou a mão abreviada pelo lado direito. — É como ele será atingido. Quadril esmagado. Costelas quebradas. Cabeça esmagada. Caído morto na vala. Ka... e o fim de ka. — Seus olhos se clarearam e ele se virou ansioso para Susannah. — Em que data você esteve em Nova York? Re-fresque a minha memória.

— Primeiro de junho de 1999.

Roland abanou a cabeça e olhou para Jake.

— E você? O mesmo, não é?

— É.

— Depois para Fedic... uma parada... e em seguida, Trovoada. — Fez uma pausa, pensativo, e disse três palavras com ênfase calculada: — Ainda há tempo.

— Mas o tempo anda mais depressa por lá...

— E se der um salto desses...

— Ka...

Tinham falado ao mesmo tempo. Todos, então, caíram de novo em silêncio, olhando para Roland.

— Podemos alterar o ka — disse ele. — Isso já foi feito antes. Há sempre um preço a pagar... ka-shume, talvez... mas pode ser feito.

— Como chegaremos lá? — Eddie perguntou.

— Só há um meio — disse Roland. — Sheemie tem de nos mandar.

Silêncio na gruta, exceto pelo rolar distante do trovão que dava àquela terra escura seu nome.

— Temos duas tarefas — disse Eddie. — O escritor e os Sapadores. O que vem primeiro?

— O escritor — disse Jake. — Enquanto ainda há tempo de salvá-lo.

Mas Roland estava balançando a cabeça.

— Por que não? — Eddie gritou. — Ah, homem, por que não? Você sabe como o tempo é escorregadio ali! E é de sentido único! Se perdermos a janela, jamais teremos outra chance!

— Mas temos de cuidar também da segurança do Feixe de Shardik — disse Roland.

— Está dizendo que Ted e esse tal de Dinky não deixariam Sheemie nos ajudar a não ser que os ajudássemos primeiro?

— Não. Sheemie faria isso por mim, tenho certeza. Mas vamos supor que algo lhe acontecesse enquanto estivéssemos no Mundo-chave? Ficarí-amos encalhados em 1999.

— Existe a porta na Via do Casco da Tartaruga.. — Eddie começou.

— Mesmo que ela ainda exista em 1999, Eddie, Ted nos disse que o Feixe de Shardik já começou a vergar. — Roland balançou a cabeça. — Meu coração diz que aquela prisão é o lugar para começarmos. Se algum de vocês tiver uma opinião diferente, vou ouvir de bom grado.

Ficaram em silêncio. Na frente da gruta, o vento soprava.

— Precisamos falar com Ted antes de tomarmos qualquer decisão de-finitiva — disse Susannah por fim.

— Não — disse Jake.

— Não! — Oi concordou. Surpresa zero aqui; para Oi se tratava de repetir como um eco o que Ake falasse.

— Vamos falar com o Sheemie — Jake continuou. — Vamos pergun-tar ao Sheemie o que ele acha que devíamos fazer.

Devagar, Roland foi abanando afirmativamente a cabeça.

CAPÍTULO IX

 

MARCAS NA TRILHA

 

UM

Quando Jake acordou de uma noite de sonhos perturbadores, a maioria deles passados no Dixie Pig, uma luminosidade fina e mortiça se filtrava pela gruta. Em Nova York, esse tipo de luz sempre o fizera querer matar aula e passar o dia inteiro no sofá, lendo livros, vendo programas de audi-tório na TV e dormindo a tarde inteira. Eddie e Susannah estavam enros-cados num único saco de dormir. Oi havia se esquivado da cama que fora deixada para ele; para dormir ao lado de Jake. Estava enroscado num U, o focinho apoiado na pata esquerda. A maioria das pessoas teria achado que dormia, mas Jake viu o astucioso brilho dourado embaixo das pálpebras e soube que Oi espreitava. O saco de dormir do pistoleiro estava aberto e vazio.

Jake pensou sobre isso um momento ou dois, depois se levantou e sa-iu. Oi foi atrás, caminhando silencioso sobre o barro duro enquanto Jake subia a trilha.

 

DOIS

Roland parecia pálido, indisposto, mas estava de cócoras e Jake achou que se tinha flexibilidade suficiente para fazer aquilo, provavelmente estava OK. Ele se abaixou ao lado do pistoleiro, as mãos penduradas entre as co-xas. Roland olhou de relance, não disse nada, depois olhou para a prisão que os funcionários chamavam Algul Siento e os internos Devar-Toi. Era um borrão brilhando além e abaixo deles. O sol — elétrico, atômico, fosse lá o que fosse — ainda não brilhava.

Oi se deitou junto de Jake com um pequeno som de uufimmm e de novo pareceu adormecer. Jake não se deixou enganar.

— Salve saudações festivas ao dia — disse Jake quando o silêncio começou a parecer opressivo.

Roland abanou a cabeça.

— Alegre de ser e ver. — Ele parecia festivo como uma marcha fú-nebre. O pistoleiro que dançara uma tremenda commala à luz das tochas em Calla Bryn Sturgis podia estar mil anos na sepultura.

— Como você está, Roland?

— Bom o bastante para me agachar.

— É, mas como você está?

Roland olhou-o de relance, colocou a mão no bolso e tirou de lá seu saquinho de tabaco.

— Velho e cheio de dores, como você já sabe. Quer fumar?

Jake pensou um pouco e balançou afirmativamente a cabeça.

— Vão ser curtos — Roland avisou. — Havia muita coisa naquela bolsa que gostei de receber de volta, mas pouco tabaco.

— Se quiser, não precisa me dar.

Roland sorriu.

— Um homem que não é capaz de compartilhar seus vícios deve a-bandoná-los. — Rasgou em duas partes algum tipo de folha de papel e en-rolou dois cigarros. Passou um a Jake e acendeu os dois com fósforo risca-do na unha do polegar. No ar frio, quieto de Can Steek-Tete, a fumaça pai-rou um pouco na frente deles antes de se erguer devagar, num rolo com-prido. Jake achou o tabaco quente, amargo, rançoso, mas em momento algum se queixou. Gostou da coisa. Pensou em todas as vezes que prome-tera a si mesmo que não ia fumar como o pai — jamais! Agora lá estava ele, adquirindo o vício. E com o acordo, se não aprovação, de seu novo pai.

Roland estendeu um dedo e tocou na testa de Jake... na face esquer-da... no nariz... no queixo. O último toque doeu um pouco.

— Espinhas — disse Roland. — É o ar deste lugar. — Ele desconfi-ava que fosse também transtorno emocional... sentimento de pesar por causa do Père... mas dizer a Jake o que pensava provavelmente só ia servir para aumentar a dor do garoto pela morte de Callahan.

— Você não tem nenhuma — disse Jake. — A pele está perfeita co-mo bumbum de bebê. Sortu-do?

— Nada de espinhas — Roland concordou e soltou a fumaça. Abaixo deles, na luz entrante, ficava o povoado. O pacífico povoado, Jake pensou, mas parecia mais do que pacífico; parecia completamente morto. Então ele viu dois vultos, pouco mais que pequenos pontos vistos dali. Um andando na direção do outro. Guardas humos patrulhando o lado de fora da cerca, ele presumiu. Os dois se juntaram num único ponto pelo tempo suficiente para Jake imaginar um pouco de sua palestra e, então, o ponto tornou a se dividir. — Nada de espinhas, mas meu quadril dói como um filho-da-puta. É como se alguém o tivesse aberto no meio da noite e derramado lá dentro um punhado de cacos de vidro. Cacos de vidro quente! Mas aqui é muito pior — disse encostando a mão no lado direito da cabeça. — Aqui a coisa parece estar rachando.

— Acha mesmo que está sentindo os ferimentos de Stephen King?

Em vez de dar uma resposta verbal, Roland estendeu o indicador da mão esquerda através de um círculo feito pelo polegar e o dedo mínimo da mão direita, o gesto que significava: Estou lhe dizendo a verdade.

— Putz, que merda — disse Jake. — Para ele assim como para você.

— Talvez sim, talvez não. Porque, pense, Jake, pense bem. Só as coi-sas vivas sentem dor. O que estou sentindo sugere que King não morrerá instantaneamente. E isso significa que talvez seja mais fácil salvá-lo.

Jake achou que aquilo só podia indicar que King ficaria caído ao lado da estrada antes de dar o suspiro final, numa agonia semiconsciente, mas preferiu não dizer nada. Que Roland acreditasse no que muito bem enten-desse. Havia, no entanto, mais alguma coisa. Algo que interessava muito mais de perto a Jake e que o deixava inquieto.

— Roland, posso lhe fazer uma pergunta, dan-dinh?

O pistoleiro abanou a cabeça.

— Se quiser. — Uma ligeira pausa. Um movimento no canto esquer-do da boca que não chegava a ser um sorriso. — Se tu quiseres.

Jake reuniu coragem.

— Por que está tão aborrecido? Está aborrecido com o quê? Ou com quem? — Agora foi a vez dele de fazer uma pausa. — É comigo?

As sobrancelhas de Roland se ergueram e ele deu uma risada.

— Não é com você, Jake. Nem um pouco. Jamais poderia ser!

Jake corou de prazer por ouvir aquilo.

— Continuo esquecendo como o toque se tornou forte em você — Roland acrescentou. — Teria dado um ótimo Sapador, sem dúvida.

Aquilo não era resposta, mas Jake não se preocupou em dizê-lo. E a idéia de ser um Sapador o fez reprimir um arrepio.

— Você não sabe? — Roland perguntou. — Se tu sabes que estou o que Eddie chama de regiamente puto, não sabes por quê?

— Eu poderia olhar em sua cabeça, mas seria falta de educação. — Só que era muito mais que isso. Jake se lembrava vagamente de uma histó-ria da bíblia sobre Noé ficando bêbado na arca enquanto esperava com os filhos o fim do dilúvio. Um dos filhos encontrara o velho deitado bêbado no beliche e tinha rido dele. Deus o amaldiçoara por causa disso. Espreitar os pensamentos de Roland não seria o mesmo que contemplá-lo, e rir, en-quanto ele estivesse bêbado, mas era quase.

— Tu és um rapaz esperto — disse Roland. — Bom e esperto, ié. — E embora o pistoleiro falasse num tom quase distraído, Jake morreria bas-tante feliz se morresse naquele momento. De algum lugar além e acima deles veio aquele ressonante CLIQUE! e, de repente, os efeitos especiais de raios de sol acertaram o Devar-Toi. Pouco depois, ao longe, ouviram o som de música: “Hey Jude”, com arranjo para elevador e supermercado. Hora de acordar, lá embaixo. Mais um dia de Sapa tinha acabado de come-çar. Embora, Jake supôs, a Sapa nunca chegasse realmente a parar.

— Vamos fazer um jogo, eu e você — Roland propôs. — Você tenta entrar em minha cabeça e ver com quem estou aborrecido. Eu vou tentar mantê-lo fora.

Jake mudou ligeiramente de posição.

— Não me parece um jogo engraçado, Roland.

— Mesmo assim, eu gostaria de jogar.

— Tudo bem, se você quiser eu jogo.

Jake fechou os olhos e evocou uma imagem da face cansada, barbada de Roland. Dos brilhantes olhos azuis. Fez uma porta entre aqueles olhos, ligeiramente acima deles — uma porta pequena, com maçaneta de metal — e tentou abri-la. Por um momento a maçaneta girou. De repente parou. Jake aplicou mais pressão. A maçaneta começou de novo a girar depois tornou a parar. Jake abriu os olhos e viu nítidas gotas de suor na testa de Roland.

— Isto é uma burrice! Só estou piorando sua dor de cabeça — disse ele.

— Não importa. Faça o melhor que puder.

O pior, Jake pensou. Mas se tinham de jogar aquele jogo, ele não ia se recusar. Fechou os olhos de novo e viu mais uma vez a pequena porta en-tre as espessas sobrancelhas de Roland. Desta vez aplicou mais força, au-mentando-a rapidamente. Foi como fazer queda de braço. Após um mo-mento a maçaneta girou e a porta se abriu. Roland resmungou e deixou escapar um riso doloroso.

— Para mim isso basta — disse ele. — Pelos deuses, tu és forte!

Jake não deu atenção. Abriu os olhos.

— O escritor? King? Por que está furioso com ele?

Roland suspirou e jogou fora a ponta ardente do cigarro; Jake já tinha acabado o seu.

— Porque temos duas tarefas a cumprir quando devíamos ter apenas uma. Ter de fazer a segunda é culpa de sai King. Ele sabia o que devia fazer e acho que, em certo nível, sabia que fazer isto o iria manter a salvo. Mas tinha medo. Estava cansado. — O lábio superior de Roland estava franzido. — Agora temos de pegar a batata quente. O que provavelmente vai nos sair caro.

— Está irritado porque ele está com medo? Mas... —Jake franziu a testa. — Mas como não estaria com medo? É apenas um escritor. Um con-tador de histórias, não um pistoleiro.

— Sei disso — disse Roland —, mas não acho que seja medo o que o deteve, Jake, ou pelo menos não apenas medo. Ele é também preguiçoso. Senti isso ao encontrá-lo e tenho certeza que Eddie também sentiu. Olhava para o trabalho que tinha pela frente, ficava assustado e dizia para si mes-mo: “Tudo bem, vou encontrar um trabalho mais fácil, um mais de acordo com meus gostos e com minhas aptidões. E se houver problema, eles to-marão conta de mim. Eles têm de tomar conta de mim.” E é o que faremos.

— Você não gostou dele.

— Não — Roland admitiu —, não gostei. Nem um pouco. Nem con-fiei nele. Não é a primeira vez que encontro contadores de lorotas, Jake, e todos são mais ou menos cortados do mesmo pano. Contam lorotas por-que têm medo da vida.

— Acha mesmo isso? — Jake achou a idéia funesta. Mas também a-chou que ela possuía um tom de verdade.

— Acho. Mas... — Roland abanou os ombros. É o que é, dizia aquele abanar de ombros.

Ka-shume, Jake pensou. Se o ka-tet deles quebrasse, e isso era culpa de King...

E se era culpa de King, o que fazer? Vingar-se dele? Era uma idéia de pistoleiro; era também uma idéia idiota, como a idéia de vingar-se de Deus.

— Mas é o jeito — Jake concluiu.

— Ié. E se tiver oportunidade, não vou me sentir impedido de chutar aquela bunda amarelada e lerda.

Jake deu uma gargalhada e o pistoleiro sorriu. Então Roland ficou de pé fazendo uma careta, as duas mãos plantadas na curvatura do quadril direito.

— Saco — ele resmungou.

— Dói muito, hein?

— Não se preocupe com minhas dores e caretas. Venha comigo. Vou lhe mostrar algo mais interessante.

Roland, mancando ligeiramente, conduziu Jake para onde a trilha contornava o flanco da pequena montanha cheia de calombos, presumi-velmente um caminho para o topo. Ali o pistoleiro tentou ficar de cócoras, fez uma careta e acabou se apoiando num joelho. Apontou para o solo com a mão direita.

— O que está vendo?

Jake também se apoiou num dos joelhos. O solo estava coberto de pedrinhas e pedaços de rocha caída. Algumas pedrinhas tinham sido deslo-cadas e havia marcas no solo pedregoso. Na frente do ponto onde os dois estavam ajoelhados lado a lado, dois ramos do que Jake achou ser uma al-garobeira tinham sido quebrados. Ele se curvou para sentir o leve e ácido aroma da seiva. Depois tornou a examinar as marcas na trilha. Eram várias, estreitas e não profundas demais. Se eram rastros, certamente não eram humanos. Como também não eram rastros de um cão do deserto.

— Sabe quem pode ter feito isso? — Jake perguntou. — Se sabe di-ga... Não me obrigue a fazer uma queda de braço para conseguira resposta.

Roland lhe concedeu um sorriso curto.

— Siga um pouco esses rastros. Veja o que descobre.

Jake se levantou, caminhou devagar seguindo os rastros e, de repente, se dobrou pela cintura como um garoto com dor no estômago. Os rastros e a trilha contornavam um pedregulho. Havia poeira na pedra e arranhões na poeira — como se alguma coisa com espinhos tivesse roçado no pedre-gulho em seu avanço.

Havia também dois pêlos duros e negros.

Jake pegou um deles, mas o soprou imediatamente, estremecendo de repugnância. Roland o contemplava com muita atenção.

— Parece que você viu um fantasma nos pés da cama.

— É terrível! — Jake ouviu o leve gaguejar da própria voz. — Oh, Deus, o que era isso? O que estava nos ob-observando?

— Aquilo que Mia chamou de Mordred. — A voz de Roland não se alterara, mas Jake mal conseguia encarar o pistoleiro; os olhos dele estavam vidrados. — O chapinha que ela diz que eu gerei.

— Ele estava aqui? Na noite?

Roland assentiu.

— Ouvindo...? — Jake não foi capaz de concluir.

Roland foi.

— Ouvindo nossa palestra e nossos planos, ié, acho que sim. E tam-bém a história de Ted.

— Mas você não tem certeza. Essas marcas podem ser de qualquer coisa. — Contudo, a única coisa que agora, depois de ouvir a história de Susannah, Jake podia relacionar àquelas marcas eram as patas de uma monstruosa aranha.

— Siga um pouco mais esses rastros — disse Roland.

Jake olhou-o com ar indagador e Roland abanou a cabeça. O vento soprava, trazendo a música do complexo da prisão (Jake achou que agora era “Bridge Over Troubled Water”), trazendo também o som do trovão distante, como ossos rolando.

— Que...

— Siga — disse Roland, apontando a cabeça para a rampa pedregosa na encosta da trilha.

Jake obedeceu, percebendo que aquela era outra lição... Com Roland a pessoa estava sempre na escola. Mesmo sob a sombra da morte, havia sempre lições a serem aprendidas.

Do outro lado do pedregulho, a trilha prosseguia reta por cerca de 30 metros antes de fazer uma curva e de novo sair de vista. Neste trecho reto, as marcas tipo arranhão eram muito nítidas. Grupos de três num lado, gru-pos de quatro do outro.

— Ela disse que arrancou uma das patas com um tiro — disse Jake.

— Sim, ela fez isso.

Jake tentou visualizar uma aranha de sete patas do tamanho de um bebê humano e não conseguiu. Desconfiou que não queria conseguir.

Depois da próxima curva havia um cadáver dessecado na trilha. Jake tinha certeza que fora esfolado, mas era difícil dizer. Não havia nada por dentro, nem entranhas, nem sangue, nem moscas voando. Só uma massa suja, poeirenta, que vagamente — muito vagamente — lembrava alguma coisa canina.

Oi se aproximou, farejou, ergueu a perna e urinou nos restos. Depois voltou para o lado de Jake com o ar de quem havia fechado algum impor-tante acordo de negócios.

— Esse foi o jantar de quem nos visitou ontem à noite — disse Ro-land.

Jake estava olhando para o lado.

— Ele está nos vigiando agora? O que você acha?

— Acho que garotos em crescimento precisam descansar — disse Roland.

Jake sentiu a pontada de uma emoção desagradável, mas descartou-a sem muito exame. Ciúmes? Certamente não. Como poderia ter ciúmes de uma coisa que começara a viver comendo a própria mãe? Mordred tinha um laço de sangue com Roland, sim — era seu filho de verdade, se fosse preciso ir a fundo —, mas isso fora apenas fruto de um acaso.

Não era?

Jake percebeu que Roland o olhava atentamente, de um modo que o deixava nervoso.

— Pago um pensamento — disse o pistoleiro.

— Nada — disse Jake. — Mas eu só queria saber onde está escondi-do.

— Difícil saber — disse Roland. — Deve haver mais de cem buracos só neste morrote. Vamos.

Roland tomou a frente contornando o pedregulho onde Jake encon-trara os pêlos pretos e duros e, chegando lá, começou a raspar metodica-mente com o pé os rastros que Mordred havia deixado.

— Por que está fazendo isso? — Jake perguntou, num tom mais agu-do do que pretendera.

— Não há necessidade de Eddie e Susannah saberem disso — disse Roland. — Ele só pretende vigiar, não interferir no que estamos fazendo. Ao menos não por enquanto.

Como sabe disso?, Jake teve vontade de perguntar, mas aquela pontada veio de novo — a pontada que absolutamente não poderia ser de ciúmes — e decidiu não perguntar nada. Que Roland pensasse o que muito bem entendesse. Enquanto isso Jake manteria os olhos abertos. E se Mordred fosse louco o bastante para mostrar a cara...

— É com Susannah que estou mais preocupado — disse Roland. — Provavelmente seria ela quem ia ficar mais perturbada pela presença do chapinha. E os pensamentos mais fáceis para Mordred ler seriam os dela.

— Porque é mãe da coisa — disse Jake. Ele não reparou na palavra “coisa”, mas Roland sim.

— Os dois estão conectados, ié. Posso confiar que vai manter a boca fechada?

— Claro.

— E tentar preservar sua mente... isso também é importante.

— Posso tentar, mas... — Jake deu de ombros, para dizer que no fundo não sabia fazer aquilo.

— Bom — disse Roland. — E vou fazer o mesmo.

O vento tornou a soprar. “Bridge Over Troubled Water” se alterara para (Jake tinha quase certeza) uma música dos Beatles, aquela com o re-frão que terminava em bip-bip-hmmm-bip-bip, ié! Será que conheciam a músi-ca nas cidades poeirentas que morriam entre Gilead e Mejis?, Jake se per-guntou. Em algumas daquelas cidades havia Shebs tocando o jagtime “Dri-ve My Car” em pianos desafinados, enquanto os Feixes se enfraqueciam e a cola que segurava os mundos ia se esticando, se transformando em fios enquanto os próprios mundos iam cedendo?

Jake sacudiu a cabeça com força, com vigor, tentando clareá-la. Ro-land não parava de observá-lo, e Jake sentiu um surto de irritação que não lhe era comum.

— Vou manter a boca fechada, Roland, e pelo menos vou tentar guardar meus pensamentos para mim mesmo. Não precisa se preocupar por minha causa.

— Não estou preocupado —- disse Roland, e Jake se viu resistindo à tentação de olhar no interior da cabeça de seu dinh e descobrir se era real-mente verdade. Ainda achava que olhar não era boa idéia e não apenas porque fosse uma certa falta de educação. A desconfiança era muito pro-vavelmente uma espécie de ácido. O ka-tet já estava suficientemente frágil e ainda havia muito trabalho a fazer.

— Bom — disse Jake. — Isso é bom.

— Bom! — Oi concordou, num sincero tom isso está definido que fez ambos darem um largo sorriso.

— Sabemos que ele está aí — disse Roland — e provavelmente ele não sabe que sabemos. Nas atuais circunstâncias, não podia ser melhor.

Jake abanou a cabeça. A idéia o fazia se sentir um pouco mais calmo.

Quando os dois voltavam, Susannah apareceu na entrada da gruta com seu rastejar sempre veloz. Ela sentiu o cheiro do ar e fez uma careta. Quando olhou de relance para os dois, a careta se transformou num sorri-so.

— Vejo bonitos homens! Há quanto tempo estão acordados, rapazes?

— Não há muito — disse Roland.

— E como estão se sentindo?

— Muito bem — disse Roland. — Acordei com dor de cabeça, mas ela já está no fim.

— Verdade? — disse Jake.

Roland abanou a cabeça e apertou o ombro do garoto.

Susannah queria saber se estavam com fome. Roland abanou afirma-tivamente a cabeça. Jake fez o mesmo.

— Bem, vamos entrar — disse ela —, e vamos ver o que podemos fazer para remediar isso.

TRÊS

Susannah encontrou ovos em pó e latas de picadinho de carne de vaca, da marca Prudence. Eddie encontrou um abridor de latas e uma pequena gre-lha abastecida a gás. Após resmungar um pouco, ele acendeu a grelha e não deixou de ficar um tanto assustado quando ela começou a falar.

— Alô! Estou três quartos cheia do gás engarrafado Gamry, disponí-vel no Wal-Mart, Burnaby’s e outros bons mercados! Quando você pede Gamry, pede qualidade! Escuro aqui, não é? Posso ajudá-los com receitas ou tempos de cozimento?

— Podia me ajudar calando a boca — disse Eddie e a grelha não fa-lou mais. De repente ele estava se perguntando se não a ofendera, depois se perguntou se não seria melhor se matar, livrando o mundo de alguém tão desastrado.

Roland abriu quatro latas de pêssego, cheirou-as e abanou a cabeça.

— Acho que estão OK — disse. — Doces.

Estavam acabando a refeição quando o ar na frente da gruta se agitou. Logo apareceram Ted Brautigan, Dinky Earnshaw e Sheemie Ruiz. Com eles, encolhido e muito assustado, vestindo um velho e amassado macacão, vinha o Rod que Roland pedira que trouxessem.

— Entrem e comam alguma coisa — disse amavelmente Roland, como se um quarteto de telecinéticos aparecendo de repente fosse uma ocorrência banal. — Há bastante comida.

— Talvez pulemos o desjejum — disse Dinky. — Não temos muito t...

Antes que pudesse concluir, os joelhos de Sheemie vergaram e ele desabou na entrada da gruta, os olhos rolando para uma área branca e um pequeno filete de cuspe se derramando por entre os lábios rachados. Ele começou a tremer, a se debater, as pernas dando chutes aleatórios no ar, os mocassins de borracha arranhando a encosta escarpada.

CAPÍTULO X

 

A ÚLTIMA PALESTRA

(SONHO DE SHEEMIE)

 

UM

Susannah achava que não se poderia classificar o que aconteceu a seguir como um pandemônio; certamente seria preciso pelo menos uma dúzia de pessoas para induzir tal estado e eles eram apenas sete. Oito, contando o Rod e certamente era preciso contá-lo, pois ele estava criando grande parte do tumulto. Quando viu Roland, a criatura caiu de joelhos, ergueu as mãos sobre a cabeça como um juiz de futebol americano sinalizando um bem-sucedido chute de ponto extra e começou rapidamente a fazer salamale-ques. Cada movimento para baixo era suficientemente radical para fazê-lo bater com a testa no chão. Ao mesmo tempo tagarelava com toda a força dos pulmões naquela estranha linguagem cheia de vogais. Executava sua ginástica sem jamais tirar os olhos de Roland. Susannah não tinha grande dúvida de que o pistoleiro estava sendo saudado como uma espécie de rei.

Ted também caiu de joelhos, mas era Sheemie que o preocupava. O velho pôs as mãos na cabeça de Sheemie para fazê-la parar de se sacudir de um lado para o outro; o amigão de Roland dos tempos de Mejis já havia cortado um lado do rosto numa ponta saliente de pedra, um corte perigo-samente próximo do olho esquerdo. Agora o sangue começava a escorrer pelos cantos da boca e a colorir as faces cobertas por uma barba muito ra-la.

— Me dêem alguma coisa para pôr em sua boca! — Ted gritou. — Venha alguém aqui! Acordem! Ele está se mordendo pra caramba!

A tampa de madeira continuava encostada no caixote aberto de po-mos. Roland colocou-a habilmente sob um joelho erguido (naquele mo-mento nenhum sinal de torção no quadril, ela notou) e a reduziu a pedaços. Susannah pegou um pedaço ainda no ar e se virou para Sheemie. Não foi preciso ficar de joelhos; afinal, estava sempre apoiada neles. Uma ponta do pedaço de madeira estava cheia de farpas. Ela envolveu aquilo com uma mão protetora e pôs a outra ponta da madeira na boca de Sheemie. Ele mordeu com tanta força que Susannah pôde ouvir o som da mordida.

Enquanto isso, o Rod continuava seu cântico alto, quase em falsete. As únicas palavras que ela conseguia captar de toda a algaravia eram salve, Roland, Gilead e Eld.

— Alguém faça com que se cale! — Dinky gritou, e Oi começou a la-tir.

— Esqueçam o Rod. Peguem os pés de Sheemie! — Ted berrou. — Segurem-no!

Dinky caiu de joelhos e agarrou os pés de Sheemie, um deles já des-calço, o outro ainda usando o absurdo mocassim de borracha.

— Oi, cala! — disse Jake, e Oi obedeceu. Mas estava parado com as perninhas curtas muito abertas e a barriga quase encostando no chão, o pêlo tão arrepiado que o deixava com quase o dobro do tamanho normal.

Roland se agachou ao lado da cabeça de Sheemie, os antebraços se apoiando no chão de terra da gruta, a boca junto a um dos ouvidos do ve-lho amigo. Começou a murmurar. Susannah pôde distinguir muito pouco daquilo devido ao balbucio em falsete do Rod, mas ouviu: “Will Dearborn que era” e “está tudo bem” e... ela não tinha certeza... “descanse”.

Fosse o que fosse, a coisa pareceu dar resultado. Aos poucos, Shee-mie foi relaxando. Ela viu Dinky afrouxar o aperto nos tornozelos do ex-empregado de taberna, pronto a agarrá-los novamente com força se Shee-mie voltasse a chutar. Os músculos ao redor da boca de Sheemie também se relaxaram, os dentes se destrancaram. O pedaço de madeira, ainda pre-gado levemente pelos caninos superiores, parecia estar levitando. Susannah puxou com cuidado, observando com espanto os buracos com marcas de sangue, alguns quase com um centímetro de profundidade na madeira ma-cia. A língua de Sheemie pendia de um lado da boca, fazendo lembrar o jeitão de Oi na hora da sesta, quando ele dormia de costas, as pernas aber-tas para os quatro pontos cardeais.

Agora havia apenas o rápido pregão de leiloeiro do Rod e o resmungo baixo, rouco, no peito de Oi, que se conservava com ar protetor ao lado de Jake, os olhos apertados fitando o Rod recém-chegado.

— Feche a boca, fique quieto! — disse Roland ao Rod, logo acrescen-tando alguma outra coisa em outra linguagem.

O Rod ficou congelado no meio de outro salamaleque, as mãos ainda sobre a cabeça, os olhos arregalados para Roland. Eddie viu que o lado do nariz fora comido por uma ferida purulenta, vermelha como um morango. O Rod pôs as palmas das mãos sujas, cheias de crostas, nos olhos, como se o pistoleiro fosse uma coisa brilhante demais para se olhar, e caiu de lado no chão. Puxou os joelhos para o peito, deixando escapar um peido alto ao fazê-lo.

— Falou o Harpo∗ — disse Eddie, um gracejo que conseguiu fazer Susannah rir. Depois o silêncio só foi quebrado pelo lamento do vento na frente da gruta, o fraco ruído de música gravada vindo do Devar-Toi e o ronco distante do trovão, aquele som de ossos rolando.

Cinco minutos mais tarde, Sheemie abriu os olhos, sentou-se e olhou ao redor com o ar desnorteado de alguém que não sabe onde está, como chegou lá ou por quê. Então seus olhos se fixaram em Roland e o pobre rosto cansado se iluminou num sorriso.

Roland também sorriu e estendeu os braços, dizendo:

— Pode vir me abraçar, Sheemie? Se não, claro, eu vou até aí.

Sheemie se aproximou de gatinhas de Roland de Gilead, o cabelo pre-to e sujo caindo nos olhos, e pôs a cabeça no ombro de Roland. Susannah sentiu as lágrimas ardendo nos olhos e virou para o lado.

 

∗ O irmão Marx que era mudo. (N. da E.)