A Torre Negra, Vol. 7
Quatro
Era apenas um guarda-roupa, e aliás um guarda-roupa de escritório — es-treito e cheirando a mofo. O antigo blazer vermelho tinha uma plaqueta de latão no bolso da frente com as palavras CHEFE DE EXPEDIÇÃO estampa-das nela. Stanley foi abrindo caminho para os fundos do guarda-roupa, que não passava de uma parede branca. Os cabides batiam uns nos outros fa-zendo barulho. Jake teve de ver por onde andava para não cair em cima de Oi. Ele sempre tivera uma leve predisposição para a claustrofobia e já co-meçava a sentir os dedos gorduchos do Senhor Pânico acariciando seu pescoço: primeiro de um lado, depois do outro. Os ’Rizas tilintavam baixo em sua saca. Sete pessoas e um zé-trapalhão amontoados no guarda-roupa de um escritório abandonado? Era loucura. Ele ainda podia ouvir o ronco dos motores se aproximando. O encarregado daquilo chamava-se O Fui-nha.
— Dêem as mãos — Ted murmurou. — E se concentrem.
— Steek-Tete — Susannah repetiu, mas, para Jake, desta vez ela soa-va pouco convincente.
— Pequena Ag... — Eddie começou, e então se deteve. A parede branca no fundo do guarda-roupa tinha desaparecido. Em seu lugar havia agora uma pequena clareira com grandes pedregulhos de um lado e uma encosta íngreme, forrada de mato, do outro. Jake estava disposto a apostar que aquilo era o tal de Steek-Tete e, sendo um caminho para escapar da-quele espaço fechado, estava deliciado em vê-lo.
Stanley deu um pequeno gemido de dor, esforço ou ambos. Os olhos do homem estavam fechados e lágrimas escorriam de suas pálpebras.
— Agora — disse Ted —, abra o nosso caminho, Stanley. — E para os outros, acrescentou: — E tentem ajudá-lo! Ajudem, pelo amor de seus pais!
Jake tentou se concentrar numa imagem do morrinho que Ted apon-tara pela janela do escritório e começou a avançar. Segurava a mão de Ro-land na frente dele e a de Susannah atrás. Sentiu um bafo de ar frio na pele suada e então atravessou para a encosta de Steek-Tete em Trovoada, pen-sando brevemente no sr. C. S. Lewis e no maravilhoso guarda-roupa que levava a Narnia.
CINCO
Não saíram em Narnia.
Estava frio na encosta do morro e Jake logo começou a tremer. Ao olhar pelo ombro, ele não viu sinal do portal que tinham atravessado. A atmosfera era sombria e cheirava a alguma coisa pungente, não particular-mente agradável, como querosene. Havia uma pequena gruta quase escon-dida no flanco da encosta (realmente não era muito mais que outro guarda-roupa) e Ted trouxe de lá uma pilha de cobertores e um cantil onde havia uma água amarga, com gosto de álcalis. Jake e Roland se embrulharam em cobertores. Eddie pegou dois e se enrolou com Susannah. Jake, tentando não deixar que os dentes começassem a bater (se começassem, não haveria como pará-los), invejava o calor extra que o casal produzia.
Dink também havia se embrulhado num cobertor, mas nem Ted nem Stanley pareciam sentir o frio.
— Olhem ali embaixo — Ted convidou Roland e os outros. Ele esta-va apontando para a teia dos trilhos. Jake pôde ver o irregular telhado de vidro do pátio de manobras e uma estrutura de telhado verde ao lado, que tinha que ter uns 800 metros de comprimento. Saíam trilhos em cada dire-ção. Estação Trovoada, ele se maravilhou. Onde os Lobos põem as crianças seqües-tradas no trem e despacham-nas ao longo do Caminho do Feixe Luminoso até Fedic. E onde as trazem de volta após elas serem transformadas em roonts.
Mesmo depois de tudo por que tinha passado, era difícil para Jake a-creditar que, há menos de dois minutos, estavam lá embaixo, a 10 ou 12 quilômetros de distância. Desconfiava que todos tinham contribuído para manter o portal aberto, mas fora principalmente o sujeito chamado Stanley que o criara. Agora ele parecia pálido e cansado, quase esgotado. A certa altura seus pés vacilaram, mas Dink (um apelido ∗ muito infeliz, na humilde opinião de Jake) agarrou-lhe o braço e conseguiu firmá-lo. Stanley pareceu nem reparar. Olhava para Roland com temor respeitoso.
Não apenas respeito, Jake pensou, e também não exatamente medo. Alguma outra coisa. O quê?
Duas carroças motorizadas com grandes pneus-balão — ATVs — aproximavam-se da estação. Jake presumiu que se tratasse do Fuinha (fosse ele quem fosse) e seus camaradas taheens.
— Como vocês podem ter deduzido — disse Ted —, há um alarme no escritório do supervisor do Devar-Toi. No gabinete do carcereiro, se pre-ferirem. Ele dispara quando alguém ou alguma coisa usa a porta entre a área de concentração de Fedic e a estação...
— Acredito que o termo que vocês usavam — disse Roland secamen-te — não era supervisor nem carcereiro, mas ki’-dam.
Dink riu.
— É uma boa sacada sua, parceiro.
— O que quer dizer ki’-dam? — Jake perguntou, embora tivesse uma certa noção. Havia alguns termos que as pessoas usavam na Calla: cabeça-caixa, coraçãocaixa, ki’caixa. Que significavam, respectivamente, os proces-sos de pensamento, as emoções e as funções inferiores. Funções animais, talvez alguns dissessem; ki’caixa podia ser traduzido como merdacaixa se você era um sujeito mais para vulgar. Ted deu de ombros.
— Ki’-dam significa merda-miolos. É o apelido que Dinky pôs em sai Prentiss, o chefe Devar. Mas você já sabia disso, não é?
— Acho que sim — disse Jake. — Mais ou menos.
Ted olhou-o demoradamente e, quando Jake identificou a expressão, ela ajudou-o a definir como Stanley estava olhando para Roland: não com medo, mas com fascinação. Jake realmente desconfiava que Ted ainda es-tava pensando em quanto ele se parecia com um tal de Bobby e tinha bas-tante certeza de que Ted sabia que ele possuía o toque. E qual era a fonte
∗Dink também significa pênis. (N. do T.) da fascinação de Stanley por Roland? Ou talvez estivesse exagerando um pouco a coisa. Talvez o mistério fosse apenas Stanley jamais ter esperado encontrar um pistoleiro em carne e osso.
De repente o olhar de Ted se desviou de Jake e voltou a Roland.
— Agora olhem para lá — disse ele.
— Ô! — Eddie gritou. — Que diabo...?
Susannah estava ao mesmo tempo achando aquilo divertido e impres-sionante. O que Ted apontava lhe trazia à memória Os Dez Mandamentos, o épico bíblico de Cecil B. DeMille, especialmente a parte em que o mar Vermelho, aberto por Moisés, ficava curiosamente parecido com uma gela-tina e a voz de Deus, vindo da chama do arbusto, realmente lembrava bas-tante a de Charles Laughton. Contudo, era impressionante. Pelo menos no estilo barato dos efeitos especiais dos filmes de Hollywood.
O que viam era um vasto, esplêndido raio de luz do sol projetando-se de um buraco nas nuvens bojudas. Ele cortava a atmosfera estranhamente escura como um facho de lanterna e iluminava um complexo de constru-ções que devia estar a uns 10 quilômetros da estação Trovoada. E “a uns 10 quilômetros” era realmente tudo que se podia dizer, porque não havia mais norte nem sul naquele mundo, pelo menos não norte e sul em que se pudesse confiar. Agora havia apenas o Caminho do Feixe Luminoso.
— Dinky, há um binóculo na...
— Na gruta de baixo, certo?
— Não, eu o subi da última vez que estivemos aqui — Ted respon-deu com uma paciência cuidadosamente administrada. — Está naquela pilha de caixotes que há lá dentro. Pegue-o, por favor.
Eddie mal reparou naquele aparte. Estava fascinado demais (e muito contente) com aquele amplo raio de sol brilhando sobre um verde e simpá-tico pedaço de terra, tão improvável naquele deserto escuro e estéril quan-to... bem, ele supôs, improvável como o Central Park devia parecer a turis-tas do Meio-Oeste fazendo uma primeira viagem a Nova York.
Ele pôde ver prédios que pareciam dormitórios de faculdade — de boas faculdades — e outros que pareciam velhas e imponentes mansões senhoriais com grandes extensões de gramados verdes na frente. No lado oposto da área banhada pelo sol havia uma espécie de rua cheia de lojas. A perfeita rua principal de uma pequena cidade da América, exceto por uma coisa: ela acabava sempre num deserto sombrio e pedregoso. Eddie viu quatro torres de pedra, as paredes aprazivelmente forradas pela hera verde. Não, eram seis torres. As outras duas estavam quase inteiramente ocultas por fileiras de elegantes e velhos olmos. Olmos no deserto!
Dink voltou com o binóculo e ofereceu-o a Roland, que fez não com a cabeça.
— Não o leve a mal — disse Eddie. — Os olhos dele... bem, digamos que são demais. Mas eu não me importaria de dar uma espiadinha...
— Eu também não — disse Susannah.
Eddie entregou-lhe o binóculo.
— Primeiro as damas.
— Não, realmente, eu...
— Parem com isso — e foi quase um rosnado de Ted. — Nosso tempo aqui é curto, nosso risco enorme. Por favor, não desperdicem um e aumen-tem outro.
Susannah se sentiu atingida, mas conteve uma resposta. Pegou o bi-nóculo, levou-o aos olhos e ajustou. O que viu meramente intensificou sua sensação de olhar para um pequeno, mas perfeito campus de universidade que se fundia belamente com o povoado vizinho. Nenhuma tensão entre estu-dantes e residentes permanentes aqui, eu aposto, ela pensou. Aposto que a Vila dos Olmos e o U Sapador convivem como manteiga de amendoim e geléia, Abbott e Costello, mão e luva. Sempre que havia uma história de Ray Bradbury no Saturday E-vening Post, ela a procurava de imediato, adorava Bradbury, e o que estava olhando através do binóculo a fazia pensar em Greentown, a cidadezinha do Illinois idealizada por Bradbury. Um lugar onde adultos sentavam nas varandas em cadeiras de balanço, tomando limonada, e as crianças, no cre-púsculo ziguezagueado de vaga-lumes das noites de verão, brincavam de pega-pega com lanternas. E o câmpus da universidade nas proximidades? Nada de bebida ali, pelo menos não em excesso. Nem joysticks, anfetami-nas ou rock and roll. Seria um lugar onde as moças dariam beijos de boa-noite nos rapazes com casto ardor e estavam felizes ao assinar a presença na entrada para que a inspetora do dormitório não ficasse pensando mal delas. Um lugar onde o sol brilhava o dia inteiro, onde Perry Como e as Irmãs Andrews cantavam no rádio e ninguém suspeitava que na verdade estava vivendo nas ruínas de um mundo que tinha seguido adiante.
Não, ela pensou friamente. Há quem saiba. Foi por isso que esses três vieram ao nosso encontro.
— Esse é o Devar-Toi — Roland disse secamente. Não era uma per-gunta.
— É — disse Dinky. — O bom e velho Devar-Toi. — Ele parou ao lado de Roland e apontou para um grande prédio branco perto dos dormi-tórios. — Está vendo aquele branco? É a Casa da Dor, onde vivem os can-toi. Ted os chama de homens baixos. São híbridos de humanos com tahe-ens. E eles não chamam isso aí de Devar-Toi, chamam de Algul Siento, que quer dizer...
— Céu Azul — disse Roland e Jake percebeu por quê: todos os pré-dios, exceto as torres rochosas, tinham telhados azuis. Não Narnia, mas Céu Azul. Onde um monte de pessoas estavam ocupadas provocando o fim do mundo.
Todos os mundos.
SEIS
— Parece o lugar mais agradável que existe, pelo menos desde a queda do Mundo Interior — disse Ted. — Não é?
— Muito bonito, sem dúvida — Eddie concordou. Tinha pelo menos umas mil perguntas a fazer e achava que Suze e Jake, somados os dois, te-riam provavelmente outras mil, mas não era hora de perguntar. Seja como for, ele continuava olhando para aquele maravilhoso e pequeno oásis de 40 hectares. O único ponto ensolarado e verde em toda a Trovoada. O único lugar bonito. E por que não? Nada a não ser o melhor para Nossos Compa-nheiros Sapadores.
E, a despeito de si mesmo, uma pergunta acabou escapando.
— Ted, por que o Rei Rubro quer pôr a Torre abaixo? Você sabe?
Ted dispensou-lhe uma rápida olhada. Eddie achou-a fria, talvez até glacial, mas logo o homem sorriu. E quando o fez, todo o seu rosto se ilu-minou. Além disso os olhos tinham parado de dar aquela sinistra sacudida dentro-e-fora, o que representava uma grande melhoria.
— Ele é louco — disse Ted. — Mais doido que uma salada de frutas. Pirado como o Gato de Botas. Ainda não tinha dito isso a vocês? — E en-tão, antes que Eddie pudesse responder: — Sim, este lugar é bem bonito. Quer o chamem Devar-Toi, Grande Prisão ou Algul Siento, parece um deleite para os olhos. É um deleite para os olhos.
— Acomodações da mais alta categoria — Dinky concordou. Até Stanley contemplava o complexo banhado de sol com uma certa expressão de reverência.
— A comida é da melhor — Ted continuou —, e o programa duplo no Cine-Teatro Jóia muda duas vezes por semana. Quem não gostar de ir ao cinema, pode levar os filmes para casa em DVDs.
— O que é isso? — Eddie perguntou, mas logo sacudiu a cabeça. — Não importa. Continue.
Ted deu de ombros, como se a dizer. Do que mais se pode precisar?
— O sexo é absolutamente fantástico — disse Dinky. — Simulado, mas incrível. — Só numa semana transei com Marilyn Monroe, Madonna e Nicole Kidman. — Disse isto com um certo embaraço, mas orgulhoso. — Se quisesse, poderia ter tido todas ao mesmo tempo. O único modo de sentir que não são reais é soprar diretamente sobre elas, de muito perto. Quando se faz isso, a parte soprada... costuma desaparecer. É meio pertur-bador.
— Birita? Drogas? — Eddie perguntou.
— Birita em quantidades limitadas — Ted respondeu. — Se você se interessar por enologia, vai experimentar novas maravilhas a cada refeição.
— O que é enologia? — Jake perguntou.
— O estudo do esnobismo vinhático, pãozinho doce — disse Susan-nah.
— Se você chega ao Céu Azul viciado em alguma coisa — disse Din-ky —, vão livrá-lo do vício. De modo gentil. E os poucos caras que se mostraram cabeças especialmente duras nessa área... — Seus olhos encon-traram brevemente os de Ted. Ted deu de ombros e abanou a cabeça. — Esses caras desapareceram.
— Na verdade, os homens baixos não precisam de mais Sapadores — disse Ted. — Já têm um número suficiente para concluir o trabalho sem problemas.
— Quantos são? — Roland perguntou.
— Cerca de trezentos — disse Dinky.
— Trezentos e sete, para ser exato — disse Ted. — Estamos alojados em cinco dormitórios, embora essa palavra sugira a imagem errada. Temos nossas próprias suítes e cada um decide o nível de contato, muito ou pou-co, que quer manter com os colegas Sapadores.
— E todos sabem o que estão fazendo? — Susannah perguntou.
— Sim. Embora a maioria não perca muito tempo pensando no as-sunto.
— Não entendo por que não se amotinam.
— Qual é o seu quando, senhora? — Dinky perguntou.
— Meu...? — Então ela entendeu. — 1964.
Ele suspirou e balançou a cabeça.
— Então não conhece Jim Jones e o Templo do Povo. É mais fácil explicar quando a pessoa já sabe. Quase mil pessoas se suicidaram num acampamento religioso que um filho de Jesus, vindo de San Francisco, fundou na Guiana. Beberam um caldeirão de Kool-Aid envenenado, en-quanto ele contemplava as pessoas da varanda de sua casa e usava um me-gafone para contar histórias da mãe.
Susannah arregalava os olhos com um horrorizado ar de incredulida-de, Ted com mal disfarçada impaciência. Contudo, ele deve ter pensado que havia alguma coisa importante naquela conversa, pois se manteve cala-do.
— Quase mil — Dinky repetiu. — Porque estavam confusos, solitá-rios e achavam que Jim Jones era amigo deles. Porque... pense nisso... não tinham deixado nada para trás. E assim é isso aqui. Se os Sapadores se unis-sem, poderiam criar um martelo mental que mandaria Prentiss, o Fuinha, os taheens e os can-toi direto para a próxima galáxia. Em vez disso, há so-mente eu, Stanley, e o supersapador, o favorito de todos, o totalmente im-previsível sr. Theodore “Ted” Brautigan, de Milford, Connecticut. Classe de Harvard de 1920, Círculo do Teatro, Clube de Debates, editor de O Ru-bro e... é claro... membro da fraternidade Phi Beta Caga.
— Podemos confiar em vocês três? — Roland perguntou. A questão parecia decepcionantemente ociosa, pouco mais que um passatempo ver-bal.
— Têm de confiar — disse Ted. — Não têm mais ninguém a quem recorrer. Nem nós.
— Se estivéssemos do lado deles — disse Dinky —, nossos pés não estariam calçando mocassins feitos da borracha de velhos pneus. Porque no Céu Azul se consegue tudo, exceto uma ou duas coisas básicas. Coisas que geralmente as pessoas não consideram indispensáveis, mas coisas que... bem, é mais difícil fugir quando não se tem nada para calçar além dos chi-nelos Algul Siento, vamos pôr a coisa assim.
— Ainda não posso acreditar — disse Jake. — Quero dizer, toda essa gente trabalhando para destruir os Feixes. Não quero ofender, mas...
Dinky se virou para ele com os punhos fechados e um sorriso contra-ído e furioso no rosto. Oi se colocou de imediato na frente de Jake, ros-nando baixo, arreganhando os dentes. Dinky não reparou ou não deu im-portância.
— É? Bem, você acha o quê, garoto? Eu fico ofendido. Fico ofendido como uma boa filha-da-puta. O que você sabe sobre o que significa passar toda a sua vida do lado de fora, ser todo o tempo alvo de piada, ser sempre Carrie na porra do baile de estudantes?
— Quem? — Eddie perguntou, confuso, mas Dinky estava muito e-xaltado e não prestou atenção.
— Há sujeitos ali que não podem andar ou falar. Uma menina nasceu sem braços. Vários são hidrocéfalos, isto é, têm cabeças pra lá de Bagdá. — Pôs as mãos a meio metro da cabeça, de um lado e de outro, um gesto que todos viram como exagero. Mais tarde iam descobrir que não era. — O velho e pobre Stanley aqui do meu lado é um dos que não pode falar.
Roland deu uma olhada em Stanley, o rosto pálido, de barba muito cerrada e cachos de um cabelo preto, crespo. E o pistoleiro quase sorriu.
— Eu acho que ele pode falar — disse, e então: — Ainda usas o no-me de teu pai, Stanley? Acredito que uses.
Stanley baixou a cabeça, a cara ficou meio vermelha, mas ele estava sorrindo. Ao mesmo tempo, no entanto, começou de novo a chorar. Que diabo afinal está acontecendo aqui?, Eddie se perguntou.
Ted sem dúvida também estava querendo saber.
— Sai Deschain, será que posso saber por que...
— Não, me desculpe mas não — disse Roland. — O tempo já é bem curto, foi o que você mesmo disse e todos nós sentimos isso. Os Sapado-res sabem como estão sendo alimentados? Do que estão sendo alimentados, para aumentar suas forças?
Ted sentou-se abruptamente numa pedra e baixou os olhos para a brilhante teia dos trilhos de ferro.
— Isso tem a ver com os garotos trazidos pela estação, não é?
— Sim.
— Eles não sabem e eu não sei — disse Ted naquele mesmo tom de gravidade. — Não mesmo. Tomamos dezenas de comprimidos por dia. São dados de manhã, ao meio-dia e à noite. Alguns são vitaminas. Outros, sem dúvida, são para manter a nossa docilidade. Até certo ponto consegui purgar estes últimos do meu organismo e dos organismos de Dinky e Stan-ley. Só que... para que a purgação funcione, pistoleiro, você tem de querer que funcione. Consegue entender?
Roland fez que sim.
— Achei, durante muito tempo, que também deviam estar nos minis-trando alguma espécie de... não sei... estimulante cerebral... mas com tantas pílulas fica impossível dizer que é. Qual, por exemplo, nos transforma em canibais, vampiros ou ambas as coisas. — Fez uma pausa, baixando os o-lhos para o improvável raio de sol, e estendeu as mãos pelos lados do cor-po. Dinky pegou uma delas, Stanley a outra.
— Vejam isto — disse Dinky. — É interessante.
Ted fechou os olhos. Os outros dois fizeram o mesmo. Por um mo-mento não houve nada além de três homens contemplando o raio de sol de Cecil B. DeMille atrás do deserto escuro... E eles o estavam vendo, como Roland sabia. Mesmo com os olhos fechados.
Então o raio de sol apagou. Por um período de uns 12 segundos o Devar-Toi ficou escuro, assim como o deserto, a estação Trovoada e as encostas de Steek-Tete. Depois o absurdo brilho dourado voltou. Dinky deixou escapar um suspiro barulhento (mas não insatisfeito) e deu um pas-so atrás, largando a mão de Ted. Pouco depois Ted soltou Stanley e se vi-rou para Roland.
— Foram vocês que fizeram isso? — o pistoleiro perguntou.
— Nós três juntos — disse Ted. — Principalmente Stanley, que é um emissor muito poderoso. Uma das poucas coisas que deixam Prentiss, os homens baixos e os taheens aterrorizados é quando perdem seu sol artifici-al. As falhas vêm acontecendo com freqüência cada vez maior e nem sem-pre porque estejamos interferindo na mecânica da coisa. A maquinaria simplesmente está... — ele abanou os ombros — ...se esgotando.
— Como tudo — disse Eddie.
Ted se virou sério para ele.
— Mas não com a rapidez necessária, sr. Dean. Teremos de parar de mexer com os dois últimos Feixes e parar logo, ou não vai fazer mais dife-rença. Eu, Dinky e Stanley vamos tentar ajudar vocês, mesmo que isto sig-nifique ajudar a matar os outros como nós.
— Claro — disse Dinky com um sorriso amarelo. — Se o reverendo Jim Jones pôde fazer a coisa, nós também podemos.
Depois de lhe dispensar um olhar de desaprovação, Ted voltou a se concentrar no ka-tet de Roland.
— Talvez não seja preciso chegar a este ponto. Mas se for... — Ele se levantou de repente e agarrou o braço de Roland. — Somos mesmo cani-bais? — perguntou num tom agudo, quase estridente. — Temos comido as crianças que os Capas Verdes trazem das Fronteiras?
Roland ficou calado.
Ted se virou para Eddie.
— Quero saber.
Eddie não deu resposta.
— Madame-sai? — Ted perguntou, olhando para a mulher montada no quadril de Eddie. — Estamos dispostos a ajudá-los. A senhora não me ajudaria respondendo à minha pergunta?
— Saber da resposta ia mudar alguma coisa? — disse Susannah.
Ted fitou-a por mais um instante e se virou para Jake.
— Você podia ser o duplo do meu amigo jovem — disse ele. — Já tinha pensado nisso, filho?
— Não, mas não ficaria espantado — disse Jake. — E desse jeito que as coisas funcionam por aqui. É assim que tudo... hum... se encaixa.
— E não vai me dizer o que quero saber? O Bobby diria.
Para que você possa comer vivo a si próprio?, Jake pensou. Comer a si próprio em vez de comer os outros?
Jake sacudiu a cabeça.
— Não sou o Bobby — disse. — Por mais que seja parecido com ele.
— Estão agindo como frente única — disse Ted suspirando —, o que não é de admirar. Afinal, formam um ka-tet.
— Temos de ir — disse Dink a Ted. — Já paramos muito tempo a-qui. Não se trata apenas de estar de volta para a checagem dos quartos; eu e o Stanley temos de confundir a porra da sua telemetria, para que quando Prentiss e o Fuinha checarem, dizer: “Teddy B não saiu de lá. Dinky Earn-shaw e Stanley Ruiz também não. Com esses caras nenhum problema.”
— É — disse Ted. — Acho que você tem razão. Mais cinco minutos?
Dinky concordou com relutância. O barulho de uma sirene, enfra-quecido pela distância, veio junto com o vento e os dentes do jovem des-pontaram num sorriso de genuína satisfação.
— Ficam muito transtornados quando o sol desaparece — disse. — Quando têm de encarar o que realmente está em volta deles, uma versão de uma porra de inverno nuclear.
Depois de um momento de mãos nos bolsos e olhar no chão, Ted le-vantou a cabeça para Roland.
— Já está na hora desta... desta comédia grotesca chegar ao fim. Vol-taremos os três amanhã, se tudo correr bem. Se descerem 40 metros de encosta, chegarão a uma boa gruta fora das vistas da estação Trovoada e de Algul Siento. Vão encontrar comida, sacos de dormir e um fogão que fun-ciona a botijão de gás. Vão encontrar também um mapa, bem rudimentar, do Algul. Também deixei para vocês um gravador e algumas fitas. Prova-velmente não explicam tudo que gostariam de saber, mas preenchem um bom número de espaços em branco. Por ora, basta que tenham em mente que o Céu Azul é menos perfeito do que parece. As torres de hera são tor-res de vigia e há três cercas ao redor do complexo. A primeira provoca em quem tenta escapar uma sensação de ser espetado...
— Como se fosse uma cerca de arame farpado — diz Dink.
— Na segunda o sujeito sente um murro capaz de nocauteá-lo — Ted continuou. — E na terceira...
— Acho que já entendemos — disse Susannah.
— Sabem alguma coisa dos Filhos de Roderick? — perguntou Ro-land.
— Eles têm algo a ver com o Devar, não é? No caminho para cá en-contramos um que nos disse que sim.
Susannah olhou para Eddie com as sobrancelhas se erguendo numa interrogação. Eddie dispensou-lhe um olhar de conto-mais-tarde. Um simples e impecável trecho de comunicação sem palavras, do tipo que pessoas que se amam praticam de forma natural.
— Esses putos — disse Dinky, mas não sem simpatia. — São... como é mesmo que são chamados nos filmes antigos? Pelegos, eu acho. Eles têm um pequeno povoado a cerca de 3 quilômetros da estação, nesta direção...
— Ele apontou. — Fazem trabalho de faxina no Algul e talvez uns três ou quatro sejam capazes de substituir telhas... pregar ripas, esse tipo de coisa. Se houver alguma coisa contaminando o ar, os pobres idiotas serão particularmente vulneráveis a ela. Só que neles qualquer elemento provoca efeitos de radiação, em vez de apenas espinhas e eczemas.
— Pode crer — disse Eddie se lembrando do pobre Chevin de Chay-ven, o rosto comido de feridas, a túnica ensopada de urina.
— São folken errante — Ted acrescentou. — Como beduínos. Acho que quase sempre seguem os trilhos dos trens. Há catacumbas sob a esta-ção e sob Algul Siento. Esses Rods as conhecem. Têm toneladas de comi-da lá embaixo, e, duas vezes por semana, a levam de trenó para o Devar. É principalmente isso que comemos agora. A comida ainda está boa, mas...
Ele deu de ombros.
— As coisas estão caindo rapidamente — disse Dinky num tom de desânimo pouco habitual. — Mas, como diz o homem, o vinho é ótimo.
— Se eu pedisse que, amanhã, trouxessem com vocês um dos Filhos de Roderick — disse Roland —, poderiam fazer isso?
Ted e Dinky trocaram um olhar sobressaltado. Depois ambos olha-ram para Stanley. Stanley sacudiu a cabeça, abanou os ombros e estendeu as mãos diante do corpo, palmas para baixo: Para que, pistoleiro?
Roland ficou um instante absorto em seus pensamentos. Depois se virou para Ted.
— Tragam um que tenha pelo menos metade dos miolos — Roland instruiu. — Digam a ele: “Dan sur, dan tur, dan Roland, dan Gilead.” Diga de volta?
Sem hesitação, Ted repetiu as palavras e Roland balançou afirmativa-mente a cabeça.
— Se ele ainda se mostrar inseguro, digam que Chevin de Chayven diz que deve vir. Falam de uma maneira muito simples, não é?
— Sem dúvida — disse Dinky. — Mas, senhor... não pode deixar um Rod vir até aqui, vê-lo aqui e depois simplesmente ir embora. Suas bocas se movimentam bastante e as palavras correm.
— Tragam um deles — disse Roland — e veremos. Tenho o que Ed-die, meu ka-mai, chama de uma intuição. Você entende de pensamento intuitivo?
Ted e Dinky assentiram afirmativamente.
— Se a coisa funcionar, ótimo. Se não funcionar... não se preocupem, que o sujeito jamais vai falar do que viu.
— Você o mataria se sua intuição estivesse errada? — Ted perguntou.
Roland assentiu e Ted deixou escapar uma risada amarga.
— Claro que vai. Estou me lembrando do trecho do Huckleberry Finn em que Huck vê um barco a vapor explodir. Ele corre para dar a notícia à srta. Watson e à viúva Douglas. Quando uma delas pergunta se houve mortos, Huck responde com perfeita segurança: “Não, senhora, só um ne-gro.” Neste caso, vamos poder dizer: “Só um Rod. O pistoleiro tinha uma intuição, mas não deu certo.”
Roland mostrou-lhe um sorriso frio, desagradavelmente cheio de den-tes. Eddie já o vira antes e achou ótimo que não estivesse sendo voltado contra ele.
— Achei que entendesse o jogo, sai Ted — disse Eddie. — Será que me equivoquei?
Ted o encarou, mas acabou baixando os olhos para o chão. A boca remoía alguma coisa.
Durante esse tempo, Dinky pareceu estar envolvido numa palestra si-lenciosa com Stanley. Agora ele dizia:
— Se quer um Rod, vamos lhe conseguir um. Não chega a ser um problema. O problema real pode ser simplesmente conseguirmos chegar aqui. Se não conseguirmos...
Roland esperou pacientemente que o rapaz concluísse. Quando ele não o fez, o pistoleiro perguntou:
— Se não conseguirem, o que devemos fazer?
Ted encolheu os ombros. O gesto, imitação perfeita do jeitão de Dinky, foi engraçado.
— Façam o melhor que puderem — disse ele. — Também existem armas naquela gruta lá embaixo. Uma dúzia das bolas de fogo que chamam de pomos de ouro. Várias metralhadoras que ouvi alguns homens baixos chamarem de “armas de tiro rápido”. São AR-15s, do exército americano. Há também outras coisas que não conhecemos muito bem.
— Uma delas é uma espécie de revólver de raios tipo ficção-científica, como aqueles dos filmes — disse Dinky. — Acho que deve desintegrar as coisas, mas ou sou burro demais para acendê-lo ou a bateria está descarre-gada. — Virou-se ansioso para o homem de cabelos brancos. — Já perde-mos pelo menos mais cinco minutos. Temos que dar duro, Grande Ted. Vamos.
— Sim. Bem, amanhã estaremos de volta. Quem sabe vocês já não tenham feito um plano...
— Vocês não fizeram um? — Eddie perguntou espantado.
— Meu plano era correr, meu jovem, coisa que naquela hora parecia uma idéia genial. Corri lá até a primavera de 1960. Eles me pegaram e me trouxeram de volta com a pequena ajuda da mãe de meu jovem amigo Bobby. E agora, temos realmente de...
— Mais um minuto, se me faz favor — disse Roland dando um passo na direção de Stanley. Stanley olhava para o chão, mas o rosto de novo se inundou de cor por entre a barba cerrada. E...
Ele está tremendo, Susannah pensou. Como um animal que vê, na floresta, seu primeiro ser humano.
Stanley aparentava uns 35 anos, mas devia ser mais velho; a cara tinha a lisura despreocupada que Susannah associava a certas disfunções mentais. Tanto Ted quanto Dinky tinham espinhas, mas Stanley não tinha nenhu-ma. Roland pôs as mãos nos braços do sujeito e observou-o atentamente. A princípio os olhos do pistoleiro encontraram apenas os cachos de cabelo escuro e crespo na cabeça curvada de Stanley.
Dinky começou a falar. Ted o silenciou com um gesto.
— Não vai me olhar de frente? — Roland perguntou. Falava com uma suavidade que raramente Susannah ouvira em sua voz. — Não vai me olhar antes de ir, Stanley, filho de Stanley? Que se chamava Sheemie, não é?
Susannah sentiu o queixo cair. A seu lado, Eddie gemeu como alguém que tivesse levado um soco. Ela pensou: Mas Roland está velho... tão velho! O que significa que se este homem for o empregado da taberna que ele conheceu em Mejis... aquele do asno e do sombrero, o chapéu rosado... então ele também deve ser...
O homem ergueu lentamente a cabeça. Lágrimas escorriam dos olhos.
— Meu velho Will Dearborn — disse. A voz era rouca e o timbre su-bia e descia como fazem as vozes que ficam muito tempo sem ser usadas. — Sinto muito, sai. E vou compreender se quiser puxar o revólver para atirar em mim. Vou mesmo.
— Por que está dizendo isso, Sheemie? — Roland perguntou naquele mesmo tom gentil.
As lágrimas de Stanley caíram mais rápido.
— Você salvou minha vida — disse ele. — Arthur e Richard tam-bém, mas principalmente você, meu velho Will Dearborn, que era de fato Roland de Gilead. E eu a deixei morrer! Ela, que você tanto amou! E que eu também amei!
O rosto do homem se contorcia agoniado e ele tentava se livrar das mãos de Roland. Mas Roland não o soltou.
— Nada do que aconteceu foi culpa sua, Sheemie.
— Eu devia ter morrido por ela! — Sheemie chorava. — Devia ter morrido no lugar dela! Sou um estúpido! Tolo como disseram! — Esbofe-teou-se no rosto, primeiro para um lado, depois para outro, deixando mar-cas vermelhas. Antes, no entanto, que pudesse fazer aquilo de novo, Ro-land pegou sua mão e forçou-a a voltar para o lado do corpo.
— Foi Rhea quem provocou tudo — disse Roland.
Stanley — que se chamara Sheemie tantos anos atrás — olhou para a face de Roland, procurando seus olhos.
— É — disse Roland, abanando a cabeça. — Foi Rhea de Cöos... E eu também. Não devia ter saído do lado ela. Se alguém não teve culpa ne-nhuma, Sheemie... Stanley..., esse alguém foi você.
— Acha mesmo, pistoleiro? Verdade verdadeira?
Roland assentiu.
— Vamos palestrar ainda muito mais sobre isso e sobre aqueles dias, mas se tivermos tempo, não agora. Agora não dá. Precisa ir com seus ami-gos e eu tenho de ficar com os meus.
Sheemie contemplou-o mais um pouco e sim, agora Susannah podia enxergar o garoto que trabalhara duro em uma taberna de tempos atrás, chamada Repouso dos Viajantes. Ele pegava canecas vazias de cerveja para colocá-las na barrica de louça suja que ficava sob um alce de duas cabeças conhecido como Brincalhão. Sheemie se esquivara de um empurrão de Co-ral Thorin e dos coices ainda mais mal-humorados de uma puta idosa chamada Pettie, a Trotadora. Susannah via o garoto que quase fora morto por derramar bebida nas botas de um matador chamado Roy Depape. Fora Cuthbert quem salvara Sheemie da morte naquela noite... Mas fora Roland, conhecido pela gente da cidade como Will Dearborn, quem salvara todos eles.
Sheemie pôs os braços em volta do pescoço de Roland e abraçou-o com força. Roland sorriu e alisou o cabelo crespo com sua desfigurada mão direita. Um soluço alto, muito engasgado, escapou da garganta de Sheemie. Susannah viu as lágrimas nos cantos dos olhos do pistoleiro.
— É — disse Roland, falando numa voz quase baixa demais para ser ouvida. — Eu sempre soube que você era especial; Bert e Alain também sabiam. E aqui nos vemos de novo, que bom tornarmos a nos encontrar ao longo da trilha. Que bom tornarmos a nos encontrar, Sheemie, filho de Stanley. É verdade. É verdade.