A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 54 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Capítulo VI · Patrick Danville

 

 

UM

Ela não estava com o revólver. Joe tinha insistido para que sentasse na pol-trona reclinável quando voltaram à sala depois do jantar e ela pusera o re-vólver na mesinha coberta de revistas ao lado, após puxar o tambor e tirar as balas. As balas estavam em seu bolso.

Susannah abriu com força a porta do banheiro e rastejou para a sala. Roland estava caído no chão entre o sofá e a televisão, um terrível arroxea-do lhe cobrindo o rosto. Arranhava a garganta inchada e não parava de rir. Seu anfitrião estava em pé por cima dele e a primeira coisa que Susannah viu foi que o cabelo de Joe — o cabelo branco fino como cabelo de bebê e que lhe caía até os ombros — estava agora quase inteiramente preto. As rugas ao redor dos olhos e da boca tinham sumido. Em vez de dez anos mais novo, Joe Collins parecia ter menos uns vinte ou mesmo trinta anos.

O filho-da-puta.

O vampiro filho-da-puta.

Oi saltou sobre Joe e lhe agarrou a perna esquerda logo acima do joe-lho.

— Vinte e cinco, 64, 19, ∗ hike ! — Joe gritou num tom jovial e deu um chute, ágil agora como Fred Astaire. Oi voou pela sala e bateu na parede com força suficiente para derrubar uma placa que dizia

 

* Código de jogada de futebol americano. (N. da E.)

. Joe se virou para Roland.

— O que eu acho — continuou — é que as mulheres precisam de uma razão para fazer sexo. — Joe pôs um pé no peito de Roland (como um caçador de animais de porte com seu troféu, Susannah pensou). — Os homens, por outro lado, só precisam de um lugar! Bingo! — Projetou os olhos. — O negócio do sexo é que Deus deu aos homens duas cabeças, a do cérebro e a do pau, mas uma quantidade de sangue que só dá para ope-rar uma de cada v...

Ele não ouviu Susannah se aproximar nem subir na poltrona recliná-vel para ganhar a altura necessária; estava completamente concentrado no que fazia. Susannah entrelaçou as mãos num punho único, levou-as à altura do ombro direito e depois impeliu para baixo e para o lado com toda a sua força. O punho atingiu o lado da cabeça de Joe com força suficiente para derrubá-lo. Susannah havia batido em osso sólido e a dor nas mãos foi ex-cruciante.

Joe cambaleou, agitando os braços em busca de equilíbrio e se viran-do para ela. O lábio superior subiu, expondo os dentes — dentes perfeita-mente comuns, e por que não? Não era o tipo de vampiro que sobrevivia de sangue. Ali, afinal, era Empática. E a cara ao redor daqueles dentes es-tava se alterando: ficando mais escura, se contraindo, virando algo que não era mais humano. Era a face de um palhaço psicótico.

— Você — disse, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Oi tornara a se arremessar contra ele. Desta vez não houve necessidade do trapalhão usar os dentes porque seu anfitrião ainda não recuperara o equi-líbrio. Oi se agachou atrás do tornozelo da coisa, e Dandelo simplesmente caiu por cima dele, as pragas cessando abruptamente quando a cabeça ba-teu no chão. Talvez o golpe o tivesse feito perder os sentidos, se não fosse o familiar tapetinho aconchegante cobrindo as tábuas do assoalho. E ele conseguiu se sentar quase de imediato. Tonto, olhou para os lados.

Susannah se ajoelhou ao lado de Roland, que também tentava se sen-tar, mas não estava sendo bem-sucedido. Ela apanhou o revólver no coldre que ele usava, mas Roland fechou a mão ao redor de seu pulso antes que ela pudesse puxar. Instintivamente, é claro, o que era de se esperar, mas Susannah sentiu-se à beira do pânico quando a sombra de Dandelo caiu sobre eles.

— Sua puta, vou ensiná-la a interromper um homem quando ele está mandando m...

— Roland, solte! — ela gritou e ele obedeceu.

Dandelo abaixou, pretendendo cair sobre ela e prender o revólver en-tre os dois, mas Susannah foi um instante mais rápida. Rolou para o lado e Dandelo caiu sobre Roland. Ela ouviu o torturado uff! quando o pistoleiro perdeu o pouco de fôlego que conseguira recuperar. Susannah se ergueu apoiando-se num braço, arfando, apontando o revólver para a criatura em cima de Roland, a criatura que agora experimentava uma agitada e horren-da transformação dentro das roupas. Dandelo ergueu as mãos, que esta-vam vazias. É claro que estavam, não era com as mãos que matava. Nesse momento, seus traços começaram a se juntar, se tornando coisas de super-fície — não era mais um rosto com feições, mas marcas em uma espécie de pele de animal ou uma carapaça de inseto.

— Parem! — ele gritou numa voz que baixava em timbre e se trans-formava em algo como um zumbido de cigarra. — Quero contar aquela sobre o arcebispo e a garota do coro!

— Já conheço — disse ela atirando duas vezes, uma bala atrás da ou-tra entrando no cérebro, logo acima do que tinha sido o olho direito de Dandelo.

 

DOIS

Roland conseguiu se levantar. Tinha o cabelo grudado nos lados da cara inchada. Quando Susannah tentou pegar sua mão, ele a repeliu e cambale-ou para a porta da frente da casinha, que agora parecia encardida e sinis-tramente iluminada. Ela viu que havia manchas de comida no tapete e uma grande mancha de água numa das paredes. Teriam aquelas coisas estado ali antes? E pelo bom Deus que estava no céu, o que exatamente tinham co-mido no jantar? Susannah concluiu que preferia não saber, desde que não a fizesse passar mal. Desde que não fosse venenoso.

Roland de Gilead puxou a porta. O vento tirou-a de sua mão, jogan-do-a com estrondo contra a parede. Ele cambaleou dois passos para o temporal uivante, curvou-se com as mãos coladas na parte de baixo das coxas e vomitou. Susannah viu o jato de material ejetado e viu o vento chi-coteá-lo para a escuridão. Quando Roland voltou a entrar, tinha a camisa e um lado da cara delineados de neve. Estava febrilmente quente no chalé; era outra coisa que o feitiço de Dandelo escondera deles até aquele mo-mento. Susannah viu que o termômetro — um velho e vulgar Honeywell, não muito diferente do que havia em seu apartamento de Nova York — ainda estava na parede. Ela se aproximou para consultá-lo. Estava virado até o máximo, além da marca dos 30 graus. Depois de levá-lo de volta aos 20 graus com a ponta de um dedo, Susannah se virou para examinar a sala. Na realidade a lareira tinha duas vezes o tamanho que tinham lhe atribuído e a lenha que havia nela era suficiente para fazê-la roncar como forno de siderurgia. Não havia nada que ela pudesse fazer contra aquilo, mas de qualquer modo o fogo ia acabar se extinguindo.

A coisa morta no tapete tinha explodido quase inteiramente dentro das roupas. Lembrava agora a Susannah algum tipo de inseto com apêndi-ces deformados (quase braços, quase pernas) brotando das mangas da ca-misa e das pernas da calça jeans. As costas da camisa tinham se rasgado pelo meio e o que ela viu na fenda foi uma espécie de casco marcado por feições humanas rudimentares. Até então não acreditava que pudesse haver algo pior que Mordred em sua forma de aranha, mas aquela coisa era pior. Graças a Deus estava morta.

O chalé asseado, bem-iluminado (como uma coisa saída de algum conto de fadas — não percebera isto desde o início?), era agora um som-brio e enfumaçado casebre de camponês. Ainda havia luzes elétricas, mas pareciam velhas, esgotadas, como o tipo de luminária que se pode encon-trar num motel barato. O pequeno tapete estava escuro de sujeira, cheio de manchas de comida derramada e desfiando em certos pontos.

— Roland, tudo bem com você?

Roland olhou para Susannah e então, devagar, ficou de joelhos na sua frente. Por um momento ela achou que Roland estava desmaiado e ficou alarmada. Quando percebeu, apenas um segundo mais tarde, o que estava de fato acontecendo, ficou mais alarmada ainda.

— Pistoleira, eu estava pasmado — disse Roland com voz rouca, trêmula. — Me deixei levar como uma criança e peço que me desculpe.

— Roland, não! Levante! — Era Detta, que parecia sempre vir à tona quando Susannah estava sob grande tensão. Ela pensou: É maravilhoso que eu não tenha dito “Levante-se, branquelo” e teve de sufocar um início histérico de riso. Ele não teria compreendido.

— Primeiro diga que me perdoa — falou Roland sem olhar para ela.

Ela tateou pelas palavras certas e encontrou-as, o que foi um alívio.

Não suportava ver Roland de joelhos.

— Levante, pistoleiro, eu lhe perdôo de bom coração. — Fez uma pausa e acrescentou: — Se eu salvar sua vida outras nove vezes, ficaremos mais ou menos quites.

— A gentileza do seu coração me deixa com vergonha do meu — disse ele ficando de pé. O terrível arroxeado ia deixando seu rosto. Ele o-lhou para a coisa no tapete. Sob a luz do fogo da lareira, a criatura atirava sua sombra grotescamente disforme na parede. Roland olhou a pequena cabana com suas luminárias antigas e bruxuleantes lâmpadas elétricas.

— Nenhum problema com o alimento que ele nos deu — disse Ro-land. Era como se tivesse lido a mente de Susannah e visto o pior medo que havia lá. — Jamais envenenaria o que tinha a intenção de... comer.

Susannah estava segurando o revólver dele pela coronha. Ele pegou a arma e recarregou as duas câmaras vazias do tambor antes de deixá-lo cair no coldre. A porta do casebre continuava aberta e a neve entrava com o vento. Já se criara um delta branco no pequeno vestíbulo, onde os impro-visados casacos de pele estavam pendurados. A sala estava mais fresca ago-ra, menos parecida com uma sauna.

— Como você soube? — ele perguntou.

Ela pensou no hotel onde Mia havia deixado o Treze Preto. Mais tar-de, depois de as duas terem partido, Jake e Callahan haviam conseguido entrar no quarto 1919 porque alguém lhes deixara um bilhete e

(dad-a-chee)

uma chave. O nome de Jake e Isto é a verdade tinham sido escritos no envelope numa mistura de letra manuscrita com letra de imprensa. Susan-nah teve certeza que, se tivesse o envelope com esta breve mensagem e a comparasse com a mensagem que vira no banheiro, encontraria a mesma caligrafia em ambas.

Segundo Jake, o funcionário da recepção do New York Plaza-Park Hotel tinha lhes dito que a mensagem fora deixada por um homem cha-mado Stephen King.

— Venha comigo — disse ela. — Até o banheiro.

 

TRÊS

Como o resto do casebre, o banheiro era menor agora, não muito maior que um armário. A banheira era velha e enferrujada, com uma fina camada de sujeira no fundo. Era como se já não fosse usada...

Bem, a verdade é que parecia a Susannah nunca ter sido usada. A du-cha estava entupida de ferrugem. O papel de parede rosado estava encardi-do, fosco, descascando em vários pontos. Não havia rosas. O espelho con-tinuava lá, mas tinha uma rachadura de cima a baixo e ela achou um mila-gre que não tivesse cortado a ponta do dedo ao escrever sobre ele. O vapor de sua respiração tinha se dissipado, mas as palavras ainda estavam lá, visí-veis na fuligem: ODD LANE e, embaixo, DANDELO

— É um anagrama — disse ela. — Está vendo?

Ele examinou a inscrição e balançou a cabeça, parecendo um pouco envergonhado.

— Não é sua culpa, Roland. São nossas letras, não aquelas que você conhece. Acredite, é um anagrama. Eddie o teria visto de imediato, aposto. Achei que Dandelo pudesse ser uma espécie de piada ou alguma coisa en-feitiçada que tivéssemos de seguir, mas felizmente, com uma pequena aju-da de Stephen King, descobrimos o truque ainda a tempo.

— Você descobriu — disse ele. — Eu estava longe, morrendo de rir.

— Poderia ter acontecido com nós dois — disse ela. — Você só fi-cou um pouco mais vulnerável porque seu senso de humor... me desculpe, Roland, mas como regra é bastante bobo.

— Sei disso — ele respondeu friamente. De repente se virou e saiu do quarto.

Uma idéia horripilante ocorreu a Susannah e o pistoleiro só pareceu voltar depois de passado muito tempo.

— Roland, ele está mesmo...?

Ele abanou a cabeça, sorrindo um pouco.

— Morto como há pouco estava morto. Você soube atirar, Susannah, mas de repente precisei ter certeza.

— Estou feliz — ela se limitou a dizer.

— Oi continua de guarda. Se algo pudesse acontecer, tenho certeza que ele nos avisaria. — Roland apanhou o bilhete no chão e decifrou cuidado-samente o que estava escrito atrás do papel. O único termo em que ela teve de ajudar foi armário do banheiro. — “Deixei uma coisa para você.” Sabe o que é?

Ela balançou negativamente a cabeça.

— Não tive tempo de olhar.

— Onde fica o armário do banheiro?

Ela apontou para o espelho e ele puxou. O espelho guinchou nas do-bradiças. Havia de fato prateleiras atrás do espelho, mas em vez das cuida-dosas fileiras de poções e comprimidos Susannah viu apenas outros dois frascos marrons, como aquele que havia na mesinha ao lado da poltrona reclinável; e o que pareceu a Susannah ser a mais velha embalagem do mundo dos dropes contra a tosse da Smith Brothers, sabor cereja silvestre. Contudo, havia também um envelope que Roland entregou a ela. Escrito na frente, naquela mesma caligrafia característica, meio letra manuscrita meio letra de imprensa, havia o seguinte:

 

— Childe? — ela perguntou. — Isto significa alguma coisa para você?

Ele assentiu.

— É um termo que descreve um cavaleiro... ou um pistoleiro... numa missão. Um termo cerimonioso, um termo antigo. Nunca o usamos entre nós, veja bem, pois significa sagrado, escolhido pelo ka. Não gostamos de pensar em nós mesmos dessa maneira e há muitos anos não me vejo assim.

— Mas você é Childe Roland?

— Talvez tenha sido um dia. Agora estamos além dessas coisas. Além do ka.

— Mas ainda no Caminho do Feixe.

— É. — Ele apontou para a última linha no envelope: Estamos quites. — Abra, Susannah, pois eu gostaria de ver o que tem aí dentro.

Ela abriu.

 

QUATRO

Era a fotocópia de um poema de Robert Browning. King havia escrito o nome do poeta sobre o título com sua caligrafia meio letra manuscrita meio letra de imprensa. Susannah tinha lido alguns dos monólogos dramá-ticos de Browning na faculdade, mas não estava familiarizada com aquele poema. Estava, no entanto, extremamente familiarizada com o tema; o título do poema era “Childe Roland à Torre Negra Chegou”. Tinha uma estrutu-ra narrativa, o esquema de rimas de uma balada (a-b-b-a-a-b) e 34 longas estrofes. Cada estrofe era encabeçada por um número romano. Alguém — provavelmente King — fizera um círculo nas estrofes I, II, XIII, XIV e XVI.

— Leia as marcadas — ele disse num tom rouco — porque só consi-go entender uma palavra ou outra e eu gostaria de saber o que dizem os versos, gostaria muito.

— Primeira Estrofe — disse ela e teve de limpar a garganta. Estava seca. Lá fora o vento gemia e a luz no teto oscilou em seu globo sujo de mosca.

“Primeiro pensei: ele mentiu a cada sentença

O coxo encanecido, com olhos cheios de malícia

Ávidos por ver nos meus de sua mentira a perícia

E com a boca sem conter a alegria intensa

Que repuxava seus cantos na crença

De que o predador outra vez se sacia.”

— Collins — disse Roland. — Quem quer que tenha escrito isto fala-va de Collins, tão certamente quanto King falava de nosso ka-tet em suas histórias! “Cada palavra dele era mentirosa!” Ié, assim foi!

— Não Collins — disse ela. — Dandelo.

Roland balançou a cabeça.

— Dandelo, tem razão. Continue.

— Tudo bem. Segunda Estrofe:

“Qual outro seria o intuito, com seu cajado?

Qual senão emboscar e laçar os andarilhos

Que porventura o encontram pelos trilhos

E vêm pedir direção? Que risada má eu teria escutado,

quem deixaria meu epitáfio marcado

por diversão nos terrosos caminhos.”

— Te lembras da bengala e como ele a sacudia? — Roland pergun-tou.

Claro que ela se lembrava. E o cruzamento estava cheio de neve em vez de poeira, mas fora isso era o mesmo. Fora isso era uma descrição do que acabara de lhes acontecer. A idéia a fez estremecer.

— Este poeta era de sua época? — Roland perguntou. — De seu quando?

— Nem era do meu país — disse ela balançando a cabeça. — Morreu pelo menos sessenta anos antes do meu quando.

— Mas deve ter visto o que acabou de acontecer. Ao menos uma ver-são.

— Sim. E Stephen King conhecia o poema. — Susannah teve uma repentina intuição, algo que despontou brilhante demais para ser qualquer coisa menor que a verdade. Ela olhou para Roland com olhos agitados, sobressaltados. — Era este poema que fazia King avançar! Era sua inspira-ção!

— Pensa mesmo assim, Susannah?

— Penso!

— Mas este Browning deve ter nos visto.

Ela não sabia. Era confuso demais. Como tentar descobrir o que vi-nha primeiro, o ovo ou a galinha. Ou como estar perdido numa galeria de espelhos. Sua cabeça estava oscilando.

— Leia a próxima estrofe marcada, Susannah! Olho em cada linha, cada palavra.

— É a 13ª Estrofe — disse ela.

“Quanto à relva, era como o cabelo escasso

Dos leprosos; magras lâminas secas na lama

Que parecia ter por baixo uma sangüínea trama.

Um cavalo cego e rijo, ossos à vista, lasso,

Parava ali, estúpido; havia chegado àquele pedaço:

Rebento que o garanhão do diabo não reclama! ”

— Agora vou ler a 14ª:

“Vivo? A meu ver poderia muito bem já ter partido,

Com seu pescoço rubro, descarnado e macilento.

E os olhos fechados por sob o pêlo bolorento;

Nunca o grotesco andou à desgraça tão unido;

E jamais senti por criatura ódio tão ardido:

Ele deve ser mau para merecer tal sofrimento.”

— Lippy — disse o pistoleiro e sacudiu um polegar pelo ombro a-pontando para trás. — Lá, aquela pangaré, pescoço marcado e tudo, só que fêmea em vez de macho.

Ela não respondeu... não era preciso. Sem dúvida era a Lippy; cega e ossuda, o pescoço esfolado com pontos rosados de carne viva. É uma coisa velha e feia, eu sei, dissera o homem... dissera a coisa que tinha parecido um homem. Lippy pirada, caixote de bosta, sua lepra de quatro patas! E ali estava o preto no branco, um poema escrito muito antes de sai King ter até mesmo nascido, talvez oitenta ou mesmo cem anos antes: ...escassa como cabelo/Na lepra.

— Serviço cumprido nas costas do garanhão do diabo! — disse Ro-land, sorrindo severamente. — E embora ela não seja nem nunca tenha sido um garanhão, vamos vê-la de novo ao lado do diabo antes de partir-mos.

— Não — disse ela. — Não vamos. — O tom parecia mais sedento que nunca. Susannah queria um pouco d’água, mas tinha medo de pegar qualquer coisa que saísse de uma torneira naquele lugar infame. Daí a pou-co poderia pegar um pouco de neve e derretê-la na boca. Então ia beber, não antes.

— Por que está dizendo isso?

— Porque ela se foi. Saiu para a tempestade quando ajustamos as contas com seu dono.

— Como sabe disso?

Susannah balançou a cabeça.

— Simplesmente sei. — Virou a página seguinte do poema, que se es-tendia por mais de duzentas linhas. — Estrofe 16:

“Não isso! Imaginei...”

Ela parou.

— Susannah? Por que você... — Então os olhos dele se fixaram nas palavras seguintes, que pôde ler mesmo em caracteres ingleses. — Conti-nue — disse. O tom fora baixo, pouco mais que um sussurro.

— Tem certeza que quer?

— Leia, eu gostaria de ouvir.

— Estrofe 16. — Ela limpou a garganta.

“Mas não! Imaginei de Cuthbert a face corada

Em meio a seu adorno de cachos dourados,

Querido amigo, eu quase o senti laçar meus braços

Para me colocar a postos na caminhada

Como ele sempre fez. Ai, noite desgraçada!

O fogo no meu coração se apagou, deixando-o gelado.”

— Fala de Mejis — disse Roland. Seus punhos estavam cerrados, embora Susannah duvidasse que ele desse conta disso. — Escreve da briga que surgiu em torno de Susan Delgado, pois depois disso o laço que havia entre nós nunca mais foi o mesmo. Consertamos nossa amizade o melhor que pudemos, mas, não, ela nunca mais foi como antes.

— Após a mulher se aproximar do homem ou o homem da mulher, acho que é isso que acontece — disse ela passando-lhe as fotocópias. — Pegue. Já li todas as que ele mencionou. Se no resto houver mais alguma coisa sobre a chegada... ou não... à Torre Negra, decifre a coisa sozinho. Você consegue, se tentar com vontade, eu acho. Quanto a mim, não quero mais saber.

Roland, ao que parecia, queria. Foi virando as páginas à procura da úl-tima. As páginas não estavam numeradas, mas ele encontrou facilmente o fim graças ao espaço em branco sob a estrofe com a inscrição XXXIV. Antes que pudesse ler, no entanto, aquele choro baixo foi novamente ou-vido. Desta vez o vento dera uma completa estiada e por isso não havia dúvida de onde o choro vinha.

— Há alguém lá embaixo, no porão — disse Roland.

— Eu sei. E acho que sei quem é.

Ele abanou a cabeça.

— Tudo se encaixa, não é? — Susannah o olhava com firmeza. — É como um quebra-cabeça e já colocamos todas as peças, faltando somente as últimas.

O choro veio de novo, baixo e perdido. O choro de alguém que esta-va para morrer. Saíram do banheiro sacando os revólveres. Susannah acha-va que, desta vez, não iam precisar usá-los.

 

CINCO

O inseto que se fizera passar por um divertido e velho humorista chamado Joe Collins continuava onde havia caído e Oi tinha recuado um passo ou dois. Susannah entendia. Dandelo estava começando a feder e pequenos filetes de uma coisa branca começavam a escorrer da carapaça em decom-posição. Mesmo assim, Roland mandou o trapalhão permanecer onde es-tava e continuar atento.

O choro veio de novo quando atingiram a cozinha e parecia mais alto; custaram, no entanto, a descobrir o caminho para o porão. Susannah mo-veu-se devagar pelo linóleo lascado e sujo procurando um alçapão escon-dido. Estava prestes a dizer que não havia nada quando encontrou:

— Aqui. Atrás da geladeira.

O refrigerador não era mais um Amana top de linha com uma porti-nhola para os cubos de gelo, mas uma coisa atarracada e encardida com o compressor em cima, num recipiente em forma de cilindro. Sua mãe tivera um daqueles quando Susannah era uma menininha que respondia pelo nome de Odetta, mas sua mãe teria preferido morrer a deixar que sua gela-deira acumulasse um décimo que fosse da sujeira daquela. Um centésimo.

Roland empurrou-a com facilidade para o lado, pois Dandelo, mons-tro astucioso, a pusera numa pequena plataforma com rodinhas. Ela duvi-dava que ele recebesse muitas visitas, não ali, no Fim do Mundo, mas tinha se preparado para conservar seus segredos se alguém desse uma passada por ali. Como Susannah tinha certeza que os habitantes locais faziam de vez em quando. Mas ela imaginava que poucos, ou talvez nenhum, chegassem além da pequena cabana na Odd’s Lane.

Os degraus que levavam para baixo eram íngremes e estreitos. Roland pôs a mão em volta da porta e encontrou um interruptor. Duas lâmpadas nuas se acenderam, uma na metade da escada, a outra embaixo. Como se em resposta à luz, o choro veio de novo. Estava cheio de dor e medo, mas não havia palavras nele. O som a fez estremecer.

— Venha até a escada, seja você quem for! — Roland gritou.

Nenhuma resposta lá de baixo. Do lado de fora o vento soprava com força, uivava, atirava neve com tanta força que era como se alguém estives-se jogando areia nas paredes da casa.

— Venha para onde possamos vê-lo ou vamos deixá-lo onde está! — Roland gritou.

O habitante do porão não avançou pela luminosidade fraca, mas tor-nou a chorar, um som impregnado de dor, terror e — Susannah receou — loucura.

Roland olhou para ela. Susannah abanou a cabeça e falou num sussur-ro:

— Vá na frente. Darei cobertura à sua manobra, se tiver de fazer u-ma.

— Cuidado com os degraus, não vá cair — disse ele no mesmo tom de voz baixo.

Ela tornou a abanar a cabeça e, com uma das mãos, fez seu próprio gesto de impaciência: vá, vá.

Isto trouxe a sombra de um sorriso à boca do pistoleiro. Ele começou a descer a escada com o cano do revólver pousado na cavidade do ombro direito e, por um momento, ficou tão parecido com Jake Chambers que Susannah quase chorou.

 

SEIS

O porão era um labirinto de caixas, barricas e coisas cobertas penduradas em ganchos. Susannah não tinha a menor vontade de saber o que eram as coisas penduradas. O choro veio de novo, um som onde se misturavam soluços e gritos. Sobre ele, agora vagos, abafados, vinham os gemidos e arfadas do vento.

Roland se virou para a esquerda e foi abrindo caminho por um corre-dor em ziguezague entre pilhas de caixotes da altura de sua cabeça. Susan-nah seguia a uma boa distância de Roland, a toda hora se virando e olhan-do para trás. Também continuava atenta a qualquer possível alerta de Oi no piso de cima. Viu uma pilha de caixotes com a inscrição TEXAS INS-TRUMENTS e outra pilha com TÁXI HO FAT, BISCOITO DA FORTUNA es-crito do lado. Não ficou surpresa em ver o nome que haviam dado de brincadeira ao riquixá há muito abandonado; ela já havia ultrapassado esse estágio da surpresa.

Na sua frente, Roland parou.

— Pelas lágrimas de minha mãe — ele disse em voz baixa. Susannah já o ouvira usar uma vez aquela expressão. Tinham se deparado com um cervo caído numa ravina, as duas patas de trás e uma pata da frente que-bradas. Morrendo de fome, o animal olhava cegamente para eles, pois as moscas tinham comido até o fundo das órbitas os olhos vivos do infeliz.

Susannah ficou parada até Roland chamá-la com um gesto. Então, impelindo-se à frente com as palmas das mãos, avançou com rapidez para o lado direito dele.

Num canto da parede de pedra nos fundos do porão de Dandelo — a extremidade sudeste, se ela não perdera seu sentido de direção — havia uma improvisada cela de prisão. A porta era feita de grades de aço em xa-drez. Ao lado havia o equipamento de solda que Dandelo devia ter usado para construí-la... mas há muito tempo, a julgar pela grossa camada de po-eira no tanque de acetileno. Pendendo de um gancho em forma de S mar-telado na parede de pedra, pouco além do alcance do prisioneiro — deixa-da perto para zombar dele, Susannah não tinha dúvida — havia uma gran-de e antiquada

(dad-a-chum dad-a-cheee)

chave de prata. O prisioneiro em questão estava parado diante das grades de seu cubículo, com as mãos sujas abertas estendidas para eles. Es-tava tão magro que fez Susannah se lembrar de certas fotos terríveis de campos de concentração, imagens dos que tinham sobrevivido a Ausch-witz, Bergen-Belsen e Buchenwald, denúncias vivas (por pouco) da huma-nidade como um todo com seus uniformes listrados pendurados nos seus ossos, e seus horripilantes chapéus redondos de mensageiro de hotel e seus terríveis olhos brilhantes, tão cheios de consciência. Gostaríamos de não saber no que nos transformamos, aqueles olhos diziam, mas infelizmente sabemos.

Havia algo desse gênero nos olhos de Patrick Danville quando ele es-tendeu as mãos e fez seus inarticulados ruídos de súplica. De perto, soa-vam mais ou menos aos ouvidos de Susannah como os gritos de zombaria de algum pássaro tropical na trilha sonora de um filme: Ai-iiii, ai-iiii, ai-ióóó, ai-ióóó!

Roland tirou a chave do gancho e se aproximou da porta da cela. Uma das mãos de Danville agarraram sua camisa e o pistoleiro a empurrou. Foi um gesto inteiramente sem raiva, Susannah pensou, mas a coisa esquá-lida recuou na cela com os olhos saltando das órbitas. Tinha o cabelo comprido — caindo até os ombros —, mas havia apenas uma sombra mui-to leve de barba no rosto. Um pouco mais cerrada no queixo e no lábio superior. Susannah achou que podia ter uns 17 anos, certamente não muito mais.

— Perdão, Patrick — disse Roland num descontraído tom de conver-sa. Introduziu a chave na fechadura. — És Patrick? És Patrick Danville?

A coisa esquálida de calça jeans encardida e amassado camisão cinza (chegava quase a seus joelhos) recuou para o canto da cela triangular sem responder. Quando suas costas tocaram na pedra, ele resvalou devagar para uma posição sentada ao lado do que Susannah presumiu que fosse o balde de dejetos. A frente da camisa primeiro se amassou e depois foi desaguan-do como água no meio das pernas, quando os joelhos se levantaram e qua-se emolduraram o rosto aterrorizado, macilento. Roland abriu a porta da cela, puxou-a inteiramente para fora (não havia dobradiças) e Patrick Dan-ville começou de novo a fazer o som de pássaro, só que agora mais alto: Ai-iiii! Ai-óóó! Ai-iiiiii! Susannah rangeu os dentes. Quando Roland esboçou um movimento de entrada na cela, o garoto proferiu um guincho ainda mais alto e começou a bater com a parte de trás da cabeça contra as pedras. Roland recuou e saiu da cela. A terrível batida de cabeça cessou, mas Dan-ville continuava olhando para o desconhecido com medo e desconfiança. De repente tornou a estender as mãos sujas, dedos compridos, como se pedisse socorro.

Roland olhou para Susannah.

Ela avançou apoiada nas mãos e logo estava na porta da cela. A maci-lenta coisa-garoto encolhida no canto tornou a soltar o agudo guincho de pássaro e encolheu as mãos suplicantes, cruzando-as nos pulsos, num gesto de patética autodefesa.

— Naum, querido. — Era uma Detta Walker que Susannah jamais ti-nha ouvido, nem suspeitava que existisse. — Naum, querido, naum vou te machucá si quises’ fazê isso, botava dois na sua cabeça, igual eu fiz com o filho-da-puta lá em cima.

Susannah viu algo no rosto dele... Talvez um momentâneo arregalar dos olhos que revelou mais um pouco das áreas brancas congestionadas. Ela sorriu e abanou a cabeça.

— Tranqüilo! A porra do Collins tá morto! Ele naum vai mais descê aqui, não via mais fazê... fazê o quê? Que qui ele fez contigo, Patrick?

Lá em cima, abafado pelas paredes de pedra, o vento rugia. As luzes oscilavam; a casa estalava e gemia protestando.

— Que qui ele te fez, rapaz?

Era inútil. Ele não compreendia. Susannah acabara de se convencer disto quando Patrick Danville pôs as mãos na bexiga e apertou. Depois contorceu o rosto de uma determinada forma, como se quisesse sugerir uma risada.

— Ele te fazia rir?

Patrick, agachado em seu canto, abanou afirmativamente a cabeça. O rosto se contorceu ainda mais. Agora as mãos se tornavam punhos que subiam para o rosto. Usou-os para esfregar as bochechas, depois passou-os nos olhos, por fim olhou para ela. Susannah reparou que ele tinha uma pe-quena cicatriz na ponte do nariz.

— Ele também te fazia chorar.

Patrick assentiu. Repetiu a mímica do riso, segurando o estômago e fazendo o movimento labial do ah-ah-ah; fez a mímica do choro, enxugan-do as lágrimas das bochechas com penugem de barba; desta vez acrescen-tou um terceiro detalhe de pantomima, levando a mão em concha até a boca e fazendo sons de nhoque-nhoque com a boca.

Acima e ligeiramente atrás dela, Roland disse:

— Ele o fazia rir, o fazia chorar e o fazia comer.

Patrick balançou negativamente a cabeça com tanta força que bateu na parede de pedra nos limites do canto onde se achava.

— Ele comia — disse Detta —, é isso que tu quer dizê, né? Dandelo comia.

Patrick assentiu avidamente.

— Ele te fazia rir, te fazia chorar e dispois comia o que saía de ti. Po-quê é isso q’ele faz!

Patrick sacudiu de novo a cabeça, caindo em pranto. Fez inarticulados sons de gemido. Susannah avançou devagar para dentro da cela, impelin-do-se pelas palmas das mãos, pronta para recuar se ele começasse de novo a bater com a cabeça na parede. Isto não aconteceu. Quando Susannah chegou ao canto onde estava o rapaz, ele pôs o rosto no seio dela e cho-rou. Susannah se virou, encarou Roland e lhe disse com os olhos que ele já podia entrar.

Quando Patrick a encarou, o olhar era a adoração palerma de um ca-chorro de estimação.

— Não se preocupe — disse Susannah. Detta fora de novo embora, provavelmente cansada de todo aquele papel de boazinha. — Ele não vai pegá-lo, Patrick, está mortinho da Silva, morto como uma pedra no rio. Agora quero que faça uma coisa para mim. Quero que abra sua boca.

Patrick sacudiu de imediato a cabeça numa negativa. De novo havia medo em seus olhos, mas havia também outra coisa que ela detestou ainda mais. Havia vergonha.

— Sim, Patrick, sim. Abra a boca.

Ele sacudiu violentamente a cabeça, o cabelo comprido, oleoso, chi-coteando de um lado para o outro como a ponta de um pano de limpeza.

— O que... — Roland começou.

— Quieto — disse Susannah. — Abra a boca, Patrick, e mostre! De-pois vamos tirá-lo daqui. Nunca mais terá de descer aqui. Nunca mais terá de ser o jantar de Dandelo.

Patrick a encarava com ar de súplica, mas Susannah só lhe devolvia o olhar. Por fim ele fechou os olhos e foi aos poucos abrindo a boca. Seus dentes estavam lá, mas a língua não. Em algum momento, Dandelo devia ter se cansado da voz do prisioneiro — ou pelo menos das palavras que ele pronunciava — e a tinha arrancado.

 

SETE

Vinte minutos mais tarde, estavam os dois parados na porta da cozinha, vendo Patrick Danville tomar uma tigela de sopa. Pelo menos metade da sopa estava descendo pela camisa cinzenta do garoto, mas Susannah achou que não fazia mal; havia muita sopa e havia mais camisas no único quarto do casebre. Para não mencionar o pesado casacão de Joe Collins pendura-do no gancho da entrada, que ela esperava que Patrick pudesse usar daí em diante. Quanto aos restos de Dandelo — ou Joe Collins —, tinham-nos enrolado em três cobertores e atirado os cobertores sem qualquer cerimô-nia na neve.

— Dandelo era um vampiro que se alimentava de emoções em vez de sangue — disse ela. — E Patrick... Patrick era sua vaca. Temos dois modos de nos nutrirmos de uma vaca: pela carne ou pelo leite. O problema com a carne é que, depois que você come os primeiros cortes e os não tão primei-ros cortes, o ensopado acabou-se. Mas se você só tira o leite, a coisa pode continuar eternamente... sempre presumindo que se dê algo de vez em quando para a vaca comer.

— Quanto tempo acha que ele o manteve engaiolado lá embaixo? — Roland perguntou.

— Não sei. — Mas Susannah se lembrou da poeira no tanque de ace-tileno, se lembrou perfeitamente bem. — Um tempo razoavelmente longo, sem dúvida. E que deve ter parecido uma eternidade para ele.

— E que doeu.

— Bastante. Por mais que deva ter doído quando Dandelo puxou a língua do pobre garoto, aposto que a sucção de sangue emocional doeu mais. Veja como ele está.

Roland estava vendo, sem dúvida. E via também outra coisa.

— Não podemos tirá-lo daqui nesta tempestade. Mesmo se o vestís-semos com três camadas de roupas, tenho certeza de que ele morreria.

Susannah assentiu. Também tinha certeza disso. Disso e de mais al-guma coisa: ela não podia permanecer na casa. Isto poderia matá-la.

Roland concordou quando a ouviu explicar.

— Vamos acampar no celeiro lá fora até a tempestade passar — disse ele. — Vai estar frio, mas teremos duas recompensas: Mordred pode vir e Lippy pode voltar.

— Para você matar os dois?

— Sim, se puder. Faz alguma restrição?

Ela pensou e abanou negativamente a cabeça.

— Tudo bem. Temos de juntar o que vamos levar daqui, pois não te-remos fogo para pelo menos os próximos dois dias. Talvez uns quatro dias.

 

OITO

Na realidade foram três noites e dois dias antes que a tempestade de neve se sufocasse em sua própria fúria e se extinguisse. Quase no crepúsculo do segundo dia, a Lippy saiu mancando da tempestade e Roland pôs uma bala na pá cega que era sua cabeça. Mordred nunca apareceu, embora Susannah tenha tido a sensação de que havia alguém pairando por perto na segunda noite. Talvez Oi tivesse sentido a mesma coisa, pois ficou parado na entra-da do celeiro, latindo muito para a neve no vento.

Durante esse tempo, Susannah descobriu bem mais sobre Patrick Danville do que esperava. A mente do rapaz fora bastante lesada pelo pe-ríodo de cativeiro, o que não a espantou. O que a espantou foi sua capaci-dade de recuperação, por mais incompleta que pudesse ser. Ela se pergun-tava se teria sido capaz de alguma volta após tamanha provação. Talvez o talento de Danville tivesse algo a ver com isso. Ela já tivera uma prova des-se talento no escritório de Sayre.

Dandelo dera a seu prisioneiro aquele mínimo de alimento capaz de mantê-lo vivo e tinha extraído suas emoções de maneira constante: duas vezes por semana, às vezes três, eventualmente até quatro. Sempre que Pa-trick se convencia de que da próxima vez ia morrer, alguém passava por acaso por lá. Ultimamente Patrick fora poupado do piores movimentos predatórios, porque Dandelo tivera mais “visitas” que nunca. Mais tarde, daquela mesma noite, após terem se instalado no celeiro, Roland disse a Susannah que achava que muitas das vítimas mais recentes de Dandelo de-viam ter sido exilados fugindo de Le Casse Roi Russe ou da cidade ao seu redor. Susannah podia certamente simpatizar com o pensamento desses refugiados: O Rei se foi, então vamos sair deste maldito lugar enquanto é possível sair. Afinal, pode dar na cabeça do Grande Rubro a idéia de voltar e ele está pinel, pirou, já se meteu num elevador que não vai mais até o andar de cima.

Em certas ocasiões, Joe assumira sua verdadeira forma de Dandelo na frente do prisioneiro e comera o terror do garoto. Queria, no entanto, mui-to mais que apenas terror daquela sua vaca prisioneira. Susannah achava que emoções diferentes tinham de produzir diferentes sabores: como ter porco num dia, galinha no outro e peixe no terceiro.

Patrick não podia falar, mas podia gesticular. E pôde fazer mais que isso, assim que Roland mostrou a eles uma coisa estranha que encontrou na despensa. Numa das prateleiras mais altas havia uma pilha de enormes blocos de desenho com os dizeres MICHELANGELO BOM PARA DESENHO A CARVÃO. Não tinham carvão, mas perto dos blocos havia um punhado de lápis marca Eberhard-Faber nº 2 presos por um elástico. O que qualificava o achado como especialmente estranho era o fato de que alguém (presumi-velmente Dandelo) tinha cuidadosamente cortado a borracha no alto de cada lápis. As borrachas tinham sido colocadas num vidro de conservas ao lado dos lápis, juntamente com alguns clipes de papel e um apontador que lembrava os apitos nos lados inferiores dos poucos pratos Orizas que res-tavam, de Calla Bryn Sturgis. Quando Patrick viu os blocos, seus olhos até então apáticos se iluminaram e as mãos se estenderam ansiosamente para eles. Patrick fez piados de urgência.

Roland olhou para Susannah, que abanou os ombros.

— Vamos ver o que o garoto é capaz de fazer — disse ela. — Se bem que já consigo fazer uma idéia, você não?

Realmente ele era capaz de fazer muita coisa. A aptidão de Patrick Danville para o desenho tinha algo de assombroso. E suas figuras lhe da-vam toda a voz de que precisava. Ele as produzia rapidamente e com óbvio prazer; não parecia absolutamente perturbado por sua terrível clareza. Uma mostrava Joe Collins partindo a nuca de um inocente visitante com uma machadinha, os lábios recuados num rosnado de prazer. Ao lado do ponto de impacto, o rapaz havia escrito TCHAN! e SPLUSH! em grandes letras de histórias em quadrinhos. Sobre a cabeça de Joe Collins, Patrick desenhou um balão de pensamento com as palavras Tome essa, sua anta! Outra fi-gura mostrava o próprio Patrick caído no chão, reduzido à impotência pelo riso que era representado com terrível nitidez (sem precisar de nenhum ah! ah! ah! rabiscado sobre a cabeça), enquanto Collins estava parado diante dele com as mãos nos quadris, observando. Patrick então virou a folha de papel com este desenho e fez rapidamente outra figura que mostrava Col-lins de joelhos, uma das mãos emaranhada no cabelo de Patrick enquanto os lábios tensionados flutuavam na frente da boca agoniada, sorridente do garoto. Rápido, com um movimento experiente (a ponta do lápis nunca deixava o papel), Patrick fez outro balão de pensamento de histórias em quadrinhos sobre a cabeça do velho e pôs oito letras e dois pontos de ex-clamação lá dentro.

— O que diz aí? — Roland perguntou fascinado.

— HUMMM! Bom! — Susannah respondeu num tom abafado, re-voltado.

Independentemente do tema, ela poderia ter ficado horas vendo Pa-trick desenhar; na realidade foi o que fez. A velocidade do lápis era fantás-tica e ninguém jamais pensaria em lhe passar uma das borrachas amputa-das, pois elas pareciam dispensáveis. Pelo que Susannah podia perceber, o garoto jamais errava ou, se errasse, incorporava os erros aos desenhos de um modo que os transformava (bem, por que duvidar das palavras quando eram as palavras certas?) em pequenos atos de gênio. E as figuras resultan-tes não eram esboços, não mesmo, mas obras de arte completas. Ela ima-ginava o que Patrick — aquele ou outro Patrick de outro mundo ao longo do caminho do Feixe — seria capaz de fazer mais tarde com óleo e com tintas; tal idéia a fez sentir ao mesmo tempo frio e calor. O que tinham ali? Um Rembrandt sem língua? Ocorreu-lhe que aquele era o segundo idiota-sábio que encontravam. O terceiro se incluíssem, além de Sheemie, o pró-prio Oi.

Só uma vez aquela falta de interesse nas borrachas passou pela mente de Susannah, e foi por ela atribuída a uma arrogância de gênio. Em mo-mento algum lhe ocorreu — ou a Roland — que aquela jovem versão de Patrick Danville talvez ainda nem soubesse que coisas como borrachas e-xistiam.

 

NOVE

Quase no final da terceira noite, Susannah acordou no celeiro, olhou para Patrick adormecido a seu lado e desceu a escada. Roland estava parado na porta, fumando um cigarro e olhando para fora. A neve tinha parado. Uma lua tardia aparecera, transformando a camada de neve na estrada da Torre numa terra cintilante de silenciosa beleza. O ar estava parado e tão frio que ela sentia a umidade estalar no nariz. Ouviu o som de um motor ao longe e logo achou que o som estava se aproximando. Perguntou se Roland fazia alguma idéia do que podia ser aquilo ou do que podia significar para eles.

— Acho que deve ser o robô que Joe chamava de Gago Bill fazendo a limpeza da neve depois da tempestade — disse ele. — E talvez ele tenha uma daquelas coisas-antena na cabeça, como os lobos. Está lembrada?

Ela se lembrava muito bem e foi o que respondeu.

— Pode ser que o Bill mantenha alguma fidelidade especial a Dande-lo — disse Roland. — Não acho provável, mas já me deparei com coisas bem mais estranhas. Fique preparada com um de seus pratos se ele quiser criar problemas. Eu vou estar a postos com o meu revólver.

— Mas não acha que ele seja fiel ao Dandelo. — Ela quis deixar este ponto cem por cento esclarecido.

— Não — disse Roland. — Ele pode é nos dar uma carona, talvez até a própria Torre. Pelo menos pode nos levar até a borda das Terras Brancas. O que seria bom, porque o garoto ainda está fraco.

Isto trouxe uma dúvida para a mente de Susannah.

— Nós o chamamos de garoto porque parece um garoto — disse Su-sannah. — Quantos anos acha que ele tem?

— Certamente não menos de 16 ou 17 — disse Roland balançando a cabeça —, mas não ficaria admirado se já tivesse uns trinta. O tempo esta-va estranho quando os Feixes estavam sob ataque. Dava viradas e saltos estranhos. Posso atestar isso.

— Será que foi Stephen King quem o colocou em nosso caminho?

— Não posso dizer, mas sem dúvida ele sabia do rapaz. — Roland fez uma pausa. — A Torre está tão perto! Você não sente?

Ela sentia, sem parar. Às vezes era uma pulsação, às vezes um cânti-co, com muita freqüência eram as duas coisas. E a foto com a Polaroid continuava suspensa no casebre de Dandelo. Isso, pelo menos, não fizera parte do feitiço. Nos seus sonhos, pelo menos uma vez a cada noite, ela via a Torre no final do campo de rosas, pedras cinzentas, encardidas contra um céu agitado, as nuvens fluindo em quatro direções ao longo dos dois Feixes que ainda restavam. Sabia o que as vozes cantavam — commala!, commala!, commala-venha-venha! —, mas não achava que cantassem para ela ou por ela. Não, digamos que não, digamos que jamais; aquela era a canção de Roland e apenas de Roland. Mas Susannah começara a esperar que isto não significasse necessariamente que ela ia morrer entre o ponto onde estavam e o final da missão.

Vinha tendo seus próprios sonhos.

 

DEZ

Menos de uma hora após o nascer do sol (firmemente no leste e que todos dêem graças), um veículo alaranjado — combinação de caminhão e buldô-zer — apareceu no horizonte e avançou vagarosa, mas decididamente, em direção a eles. Empurrava um grande monte de neve fresca para a direita, tornando os bancos de neve ainda mais altos daquele lado. Susannah achou que, quando atingisse o cruzamento da estrada da Torre com a Odd Lane, o Gago Bill (quase certamente o limpa-nevista) iria dar a volta na máquina e limpar o outro lado. A não ser, é claro, que estivesse habituado a parar ali, não para um café, mas para um novo esguicho de óleo ou algo do gêne-ro. Sorriu com a idéia e também de outra coisa. Havia um alto-falante no teto da cabine do motorista e uma música rock-and-roll que ela sem dúvida conhecia saía de lá. Susannah riu, deliciada.

— California Sun! Tocado pelos Rivieras! Oh, isso não parece incrível?

— Se você acha — Roland concordou. — Só segure o prato.

— Pode crer — disse ela.

Patrick se juntara aos dois. Como sempre, desde que Roland encon-trara o bloco e o lápis na despensa, Patrick os trazia com ele. Agora escre-via uma única palavra em letras maiúsculas e estendia o bloco para Susan-nah, sabendo que Roland só conseguia ler muito pouco do que ele escrevi-a, mesmo que fosse em letras gigantes. A palavra na parte inferior da folha de papel era Bill. Estava embaixo de um surpreendente desenho de Oi, com um balão de quadrinhos sobre a cabeça dizendo lau! lau! Tudo isso fora descuidadamente riscado para que ela não pensasse que era aquilo que Patrick queria que ela olhasse. O X traçado às pressas não deixava de partir seu coração, pois a figura sob aquelas linhas cruzadas era fielmente Oi.

 

ONZE

O limpa-neve continuava na frente do casebre de Dandelo, e embora a máquina continuasse a funcionar, a música cessara. Do banco do motoris-ta, descia com movimentos pesados um robô alto (pelo menos uns dois metros de altura), de cabeça brilhante, bastante parecido com o Nigel da Estação Experimental Arco 16 e o Andy de Calla Bryn Sturgis. Ele esticou seus braços de metal e pôs as mãos metálicas na cintura de um jeito que provavelmente teria feito Eddie se lembrar do C3PO do George Lucas, se Eddie estivesse ali. O robô falava com uma voz amplificada que rolava pe-los campos de neve:

— ALÔ, J-JOE! O QUE VOCÊ SA-SA-SABE? QUAIS SÃO OS TRUQUES DA ÚL-ÚL-ÚLTIMA HORA ?

Roland saiu dos aposentos da falecida Lippy.

— Ei, Bill — disse num tom gentil. — Longos dias e belas noites.

O robô se virou. Um brilho muito azul apareceu em seus olhos e Su-sannah tomou a coisa como surpresa. O robô não deixava transparecer nenhum sobressalto e não parecia estar armado, mas ela já marcara a ante-na no centro de sua cabeça — girando e girando na brilhante luz da manhã — e teve certeza de que poderia decepá-la com um Oriza se fosse preciso. Mole-mole, Eddie teria dito.

— Ah! — disse o robô. — Um psiii, pistal, um p-p-p... — Levantou um braço que não tinha uma junta no cotovelo, mas duas, e com ele bateu a cabeça. De lá de dentro veio um pequeno som assobiante (uiiiiff!) e então ele concluiu: — Um pistoleiro!

Susannah riu. Não pôde evitar. Tinham andando aquilo tudo para en-contrar uma superdimensionada versão eletrônica do Gaguinho. Tch-Tch-tchau. Por hoje é só, pessoal!

— Tinha ouvido rumores da coisa por a-q-q-qui — disse o robô, ig-norando o riso de Susannah. — Você é Ro-Ro-Roland de G-Gilead?

— Eu sou — disse Roland. — E você quem é?

— William, D-746541-M. Robô de Manutenção e Funções Variadas. Joe Collins me chama de Gag-Gaago B-Bill. Tenho um cir-circuito q-q-queimado cá dentro. Podia consertá-lo, mas ele me pro-pro-proibiu. E como é o único h-humano por aqui... ou era... — Ele parou. Susannah po-dia claramente ouvir o clicar e o estalar de reles em algum lugar lá dentro e o robô que ela imaginou não foi o C3PO, que, é claro, jamais vira, mas o Robby, o robô de Planeta Proibido.

Então o Gago Bill conseguiu de fato tocar seu coração ao colocar a mão de metal na testa e se curvar... mas não para ela nem para Roland. Ele disse:

— Salve, Patrick D-Danville, filho de S-S-Sonia! É bom vê-lo livre e no c-c-claro, é sim! — E Susannah pôde ouvir a emoção na voz do Gago Bill. Era uma genuína satisfação e ela se sentiu maravilhosamente bem em poder abaixar seu prato.

 

DOZE

Palestraram no quintal. Bill facilmente teria entrado no casebre, pois só dispunha de um equipamento olfativo rudimentar. Os humos eram mais bem equipados. Sabiam que o casebre fedia e não oferecia calor, porque a estufa e o fogo se apagaram. De qualquer modo, a palestra não demorou. William, Robô de Manutenção (e Funções Variadas), tinha considerado a criatura que às vezes se autodenominava Joe Collins como seu senhor, pois não havia ninguém mais. Collins/Dandelo obtivera as senhas necessárias.

— N-não pude d-dar a s-senha qu-qu-quando ele p-perguntou — dis-se o Gago Bill —, mas meu p-programa não me pro-proibia de fornecer ce-ertos m-manuais que tinham a i-informação de que ele precisava.

— A burocracia é realmente incrível — disse Susannah.

Bill disse que ficava longe de “J-J-Joe” na medida do possível (e pelo maior tempo possível), mas tinha de se apresentar quando a estrada da Torre precisava de um limpa-neve (isso também estava em seu programa) e uma vez por mês para trazer as provisões (principalmente artigos enlata-dos) do depósito que ele chamava de “o Federal”. Também gostava de ver Patrick, que um dia dera a Bill um maravilhoso auto-retrato, que ele con-templava com muita freqüência (e do qual tirara muitas cópias). Contudo, cada vez que se apresentava, Bill confessou, chegava com a certeza de não encontrar mais Patrick... Já teria sido morto e, como velha peça de lixo, atirado em algum ponto da mata, na direção do que Bill chamava as “A-a-áridas”. Bem, o que importava agora é que Patrick estava ali, vivo e livre, e Bill estava deliciado.

— Pois tenho em-m-moções r-r-rudimentares — disse ele, lembran-do a Susannah alguém confessando um mau hábito.

— Então precisamos usar uma senha para que aceite nossas ordens? — Roland perguntou.

— Sim, sai — disse o Gago Bill.

— Merda — Susannah murmurou. Tiveram problemas semelhantes com Andy em Calla Bryn Sturgis.

— C-C-Contudo — disse o Gago Bill —, se disf-f-farçarem as ordens como su-u-gestões, tenho certeza que ficaria fe-fe-fe-fe... — Bill ergueu um braço e deu uma palmada na cabeça. O som de uiiff! foi ouvido mais uma vez, não saindo da boca mas da região do peito. — ... feliz em ajudar — ele concluiu.

— Minha primeira sugestão é que conserte a porra dessa gagueira — disse Roland para logo se virar, atônito. Patrick havia desmoronado na ne-ve, segurando a barriga, dando grandes e roucas gargalhadas. Oi dançava em volta dele, latindo, mas Oi era inócuo; desta vez ninguém iria roubar a alegria de Patrick. Realmente era toda dele. E daqueles suficientemente sor-tudos para a estarem ouvindo.

 

TREZE

Na mata, além do cruzamento limpo de neve, na direção do que Bill cha-mava as “Áridas”, um adolescente tremia. Enrolado em peles fedorentas, meio raladas, ele observava o quarteto parado na frente do casebre de Dandelo. Morram, pensou na direção deles. Morram, por que vocês todos não me fazem um favor e simplesmente morrem? Mas eles não morriam e o barulho ale-gre das risadas o cortava como faca.

Mais tarde, após terem todos se enfiado na cabine do caminhão de Bill e se afastado, Mordred esgueirou-se para o casebre. Ali ficaria por pelo menos dois dias, tirando seu alimento das latas na despensa de Dandelo... e comendo outra coisa também, um gesto que ainda teria oportunidade de lamentar. Passou aqueles dias recuperando suas forças, pois a grande tor-menta chegara quase a matá-lo. Achava que fora o ódio que o mantivera vivo, o ódio e nada mais.

Ou talvez tivesse sido a Torre.

Pois ele também a sentia... aquela pulsação, aquele cântico. Mas o que Roland, Susannah e Patrick ouviam em escala maior, Mordred ouvia numa escala menor. E onde os outros ouviam muitas vozes, ele só ouvia uma. Era a voz de seu Pai Vermelho mandando que viesse. Mandando que ma-tasse o garoto mudo, a ave negra e puta e especialmente o pistoleiro de Gilead, o desleixado Papai Branco que o deixara para trás (sem dúvida o Papai Rubro também o deixara para trás, mas isto nem passou pela mente de Mordred).

E quando a matança estivesse concluída, prometeu a voz sussurrante, destruiriam a Torre Negra e comandariam juntos em todash por toda a eternidade.

Então Mordred comeu, pois Mordred estava faminto. E Mordred dormiu, pois Mordred estava exausto. E quando Mordred vestiu as roupas quentes de Dandelo e retomou a estrada da Torre recentemente limpa da neve, puxando um belo saco de tralha (principalmente enlatados) num tre-nó, havia se tornado um jovem que parecia ter uns vinte anos, alto, apru-mado e bonito como um amanhecer de verão, a forma humana maculada apenas pela cicatriz do lado onde a bala de Susannah o atingira e pela mar-ca de nascença no pé. Aquele calcanhar, ele prometera a si mesmo, pisaria na garganta de Roland, e logo.