A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo V · STEEK-TETE
UM
Os companheiros do cavalheiro de cabelo branco eram bem mais jovens (Roland achou que um deles ainda não chegara aos vinte) e ambos pareci-am absolutamente aterrorizados. Medo de serem baleados por engano, é claro — por isso é que tinham saído rapidamente do escuro com as mãos levantadas —, mas medo também de outra coisa, porque já tinha de estar claro para eles que não seriam assassinados de imediato.
O homem mais velho deu um solavanco quase espasmódico, como se safando de algum lugar muito particular.
— Claro que você não é Bobby — ele murmurou. — Para começar, o cabelo é de outra cor... e...
— Ted, temos de sair daqui — disse ansioso o mais jovem dos três. E estou querendo dizer inmediatamento.
— Sim — disse o homem mais velho, mas seu olhar continuava em Jake. Pôs a mão sobre os olhos (Eddie achou que parecia um telepata es-perto se preparando para iniciar uma bela e rotineira leitura de mentes), depois tornou a baixá-la. — Sim, é claro. — Olhou para Roland. — Você é o dinh? Roland de Gilead? Roland do Eld?
— Sim, eu... — Roland começou, depois se curvou e pareceu que ia vomitar de novo. Nada saiu a não ser um comprido e prateado filete de cuspe; a parte da sopa e dos sanduíches de Nigel já fora perdida. Então, num cumprimento, ele ergueu um punho ligeiramente trêmulo para a testa e disse: — Sim. Você me pegou num mau momento, sai.
— Isso não importa — respondeu o homem de cabelo branco. — Quer vir conosco? Você e seu ka-tet?
— Com certeza — disse Roland.
Atrás dele, Eddie se curvou e vomitou de novo.
— Porra! — gritou com uma voz engasgada. — E eu achava que era ruim viajar pela Greyhound! Essa coisa faz os ônibus parecerem um... um...
— Um camarote de primeira classe do Queen Mary — disse Susannah com voz fraca.
— Vamos... já! — disse o homem mais jovem num tom de urgência. — Se o Fuinha estiver a caminho com seu regimento taheen, chegará em cinco minutos! O gato sabe ganhar terreno!
— Sim — concordou o homem de cabelos brancos. — Temos real-mente de ir, sr. Deschain.
— Vão na frente — disse Roland. — Nós os seguiremos.
DOIS
Não tinham saído numa estação ferroviária, mas numa espécie de colossal pátio de manobras coberto por um telhado. As linhas prateadas que Jake tinha visto eram linhas de trem se entrecruzando, talvez umas setenta dife-rentes duplas de trilhos. Em algumas, locomotivas atarracadas, automatiza-das, andavam de um lado para o outro em manobras que tinham de estar há séculos obsoletas. Uma empurrava um vagão-plataforma cheio de enfer-rujadas vigas de ferro. A outra começou a gritar numa voz de autômato:
— Camka-A, por favor queira se dirigir ao portão 9. Camka-A para o portão 9, por favor.
Saltar como um boneco para cima e para baixo no quadril de Eddie começou a fazer Susannah sentir-se novamente muito enjoada, mas ela pegara como um resfriado a urgência do homem de cabelos brancos. Além disso, agora sabia o que eram os taheens: monstruosas criaturas com corpo de seres humanos e cabeças de pássaros ou outros animais. Eles a faziam lembrar as coisas naquela pintura de Bosch, O Jardim das Delícias Terrestres.
— Talvez eu tenha de vomitar outra vez, torrão de açúcar —- disse ela. — Não se atreva a perder o ritmo se for o caso.
Eddie deixou escapar um grunhido que ela tomou como concordân-cia. Podia ver o suor escorrendo no rosto pálido de Eddie e teve pena dele. Estava igualmente enjoado. Agora Susannah sabia como era passar por um aparelho de teletransportação científica que já não estivesse funcionando muito bem. Não sabia se seria capaz de se obrigar a viver outra dessas ex-periências.
Jake ergueu os olhos e viu um telhado feito de um milhão de placas de diferentes formas e tamanhos; era como olhar para um mosaico de azu-lejos, todos pintados uniformemente de cinza-escuro. Então um pássaro passou voando por um deles, e ele percebeu que não eram azulejos o que havia lá em cima, mas vidraças, algumas quebradas. Aquele cinza-escuro era, ao que parecia, simplesmente como o mundo exterior surgia em Tro-voada. Como um eclipse permanente, ele pensou e estremeceu. A seu lado, Oi produziu outra seqüência daquelas tosses roucas e secas, mas logo conti-nuou trotando, balançando a cabeça.
TRÊS
Passaram por uma coleção de maquinário ocioso — geradores, talvez —, depois entraram num labirinto desordenado de vagões de trem que eram muito diferentes daqueles puxados pelo Mono Blaine. Alguns lembravam a Susannah o tipo de vagões de passageiros diários da New York Central, que ela podia ter visto na Grand Central Station em seu próprio quando de 1964. Como se para sublinhar esta noção, ela reparou num vagão com a inscrição CARRO BAR pintada do lado. Contudo, havia outros que pare-ciam muito mais velhos que isso; feitos de estanho ou de um aço escuro com rebites, em vez de aço cromado fosco, pareciam o tipo de vagão de passageiros que aparecem num velho faroeste ou num enlatado de TV co-mo Maverick. Ao lado de um desses vagões havia um robô com fios bro-tando desordenadamente do pescoço. Estava segurando a cabeça debaixo do braço e nela um boné com distintivo dizia: CONDUTOR CLASSE A.
A princípio Susannah tentou não perder a conta das voltas à esquerda e à direita que faziam naquele labirinto, mas logo achou que era uma tarefa impossível. E eles finalmente emergiram a cerca de 50 metros de um bar-raco, com paredes de lambris e uma inscrição na porta: CARGA/BAGAGEM EXTRAVIADA. Entre o grupo e o barraco havia uma superfície de cimento cheio de rachaduras e salpicado com carrinhos de bagagem abandonados, pilhas de caixotes e dois Lobos mortos. Não, Susannah pensou, são três. O terceiro estava apoiado na parede, numa sombra profunda, bem no fundo do canto da CARGA/BAGAGEM EXTRAVIADA.
— Vamos — disse o velho com o tufo de cabelos brancos —, agora já não falta muito. Mas temos de nos apressar, porque se os taheens da Ca-sa da Dor nos pegarem, eles os matarão.
— Matariam também a nós — disse o mais novo dos três, tirando o cabelo dos olhos. — Todos exceto Ted. Ted seria o único indispensável. Ele só é modesto demais para dizer isso.
Depois de CARGA/BAGAGEM EXTRAVIADA havia (o que era bastan-te razoável, Susannah pensou) ESCRITÓRIO DE EXPEDIÇÃO. O sujeito de cabelos brancos mexeu na maçaneta da porta. Estava trancada. O que pa-receu antes agradá-lo que transtorná-lo.
— Dinky? — chamou.
Dinky, ao que parecia, era o mais jovem dos três. Ele se apoderou da maçaneta e Susannah ouviu um som de alguma coisa estalando lá de den-tro. Dinky deu um passo atrás. Desta vez, quando Ted mexeu na maçaneta, ela abriu facilmente.
Penetraram num escritório escuro, dividido por um balcão alto. Em cima do balcão havia uma placa que quase deu a Susannah uma sensação de nostalgia: PEGUE O NÚMERO E ESPERE.
Quando a porta foi fechada, Dinky agarrou mais uma vez a maçaneta. Houve outro estalo vigoroso.
— Acabou de trancá-la de novo — disse Jake. O tom era acusador, mas havia um sorriso no rosto e a cor voltava a suas faces. — Não tran-cou?
— Agora não, por favor — disse Ted, o homem de cabelos brancos. — Não temos tempo. Sigam-me, por favor.
Puxou para cima uma seção do balcão e fez com que passassem. Do outro lado havia uma área de escritório com dois robôs, que pareciam há muito tempo mortos, e três esqueletos.
— Diabo, por que estamos sempre encontrando ossos? — Eddie perguntou. Assim como Jake, estava se sentindo melhor e só pensava em voz alta; de fato não esperava uma resposta. Mas conseguiu uma. De Ted.
— Já ouviu falar do Rei Rubro, meu jovem? Já ouviu, é claro que sim. Creio que, a certa altura, ele cobriu toda esta parte do mundo com gás ve-nenoso. Provavelmente por pura diversão. Matou quase todos. A escuridão que você vê é um efeito que persiste até hoje. Ele é louco, claro. O que constitui uma boa parte do problema. Por aqui.
Conduziu-os através de uma porta com a inscrição PARTICULAR. Entraram numa sala que provavelmente já pertencera a algum mandachuva no mundo maravilhoso da expedição de cargas. Susannah viu pegadas no chão, sugerindo que aquele lugar fora recentemente visitado. Talvez por aqueles mesmos três homens. Havia uma escrivaninha sob 15 centímetros de pó e penugem, duas cadeiras e uma poltrona. Atrás da escrivaninha ha-via uma janela. Antigamente fora coberta por venezianas, que agora jaziam caídas no chão, revelando uma vista ao mesmo tempo proibitiva e fasci-nante. A terra além da estação Trovoada lembrava as extensões desertas e planas na margem oposta do rio Whye, mas era uma área mais pedregosa e ainda mais árida.
E, é claro, era mais escura.
Trilhos (em alguns havia trens eternamente parados) de lá se irradia-vam como fios de uma teia de aranha feita de aço. Sobre eles, um céu da mais escura ardósia cinzenta parecia se arquear quase a ponto de tocar a terra. Entre céu e terra, o ar parecia um tanto espesso; Susannah sentiu que contraía os olhos para enxergar as coisas, embora não parecesse haver né-voa ou fumaça na atmosfera.
— Dinky — disse o homem de cabelo branco.
— Sim, Ted.
— O que deixou para nosso amigo, o Fuinha?
— Um operário de manutenção — respondeu Dinky. — Vai parecer que ele conseguiu entrar pela porta de Fedic, disparou o alarme e acabou frito em um trilho na extremidade do pátio de manobras. Sem dúvida um bom número ainda continua eletrificado. A gente está sempre vendo pássa-ros mortos por aqui, tostados de tão fritos, até mesmo uma rola de bom tamanho e pequena demais para ativar o alarme. Um operário, então... E tenho realmente a certeza de que ele vai cair nessa. O Fuinha não é estúpi-do, mas a cena será bem crível.
— Bom. Isso é muito bom. Olhem lá, pistoleiros! — Ted apontou para um escarpado aglomerado de rocha no horizonte. Susannah pôde a-vistá-lo com facilidade; naquele campo escuro todos os horizontes pareci-am próximos. Não conseguiu, no entanto, ver nada de notável ali, só man-chas mais profundas de escuridão e estéreis encostas de rocha caída. — Isto é Can Steek-Tete.
— A Pequena Agulha — disse Roland.
— Excelente tradução. É para onde estamos indo.
O coração de Susannah se apertou. A montanha — ou talvez fosse melhor chamar de morrinho uma coisa daquelas — tinha de estar a uns 12 ou 15 quilômetros de distância. Seja como for, no limite mesmo da visão. Eddie, Roland e os dois homens mais novos do grupo de Ted não conse-guiriam carregá-la até aquele ponto, ela achava que não. E, além disso, co-mo ter certeza de que poderiam confiar naqueles novos companheiros de viagem?
Por outro lado, ela pensou, que outra opção nós temos?
— Não precisará ser carregada — Ted lhe disse —, mas Stanley vai precisar da sua ajuda. Vamos dar nossas mãos, como pessoas numa sessão espírita. Quero que todos vocês visualizem essa formação rochosa quando começarmos a atravessar. E tenham o nome bem vivo em suas mentes: Steek-Tete, a Pequena Escarpa.
—Ô, ô! — Eddie exclamou. Tinham se deparado com mais uma por-ta, agora a porta aberta de um guarda-roupa. Cabides de ferro e um antigo blazer vermelho pendurado. Eddie agarrou o ombro de Ted e fez com que ele se virasse. — Atravessar o quê? E atravessarmos para onde? Porque se for uma porta como a última que...
Ted ergueu os olhos para Eddie — teve de levantá-los, porque Eddie era mais alto — e Susannah viu algo espantoso e desanimador: os olhos de Ted pareciam estar se sacudindo nas órbitas. Mais um momento e ela perce-beu que não era bem esse o caso. Na realidade, as pupilas do homem esta-vam aumentando e depois encolhendo com sinistra rapidez. Era como se não conseguissem decidir se estava claro ou escuro.
— Não é absolutamente uma porta que vamos atravessar, pelo menos não do tipo com o qual talvez já estejam familiarizados. Tem de confiar em mim, meu jovem. Escute.
Ficaram todos em silêncio e Susannah ouviu o ronco de motores se aproximando.
— É o Fuinha — disse Ted. — Haverá taheens com ele, pelo menos quatro, talvez meia dúzia. Se nos avistarem aqui, Dink e Stanley quase cer-tamente vão morrer. Na realidade não precisam nos prender, mas apenas nos avistar. Estamos arriscando nossas vidas por vocês. Isto não é um jogo e preciso que parem de me fazer perguntas e me sigam!
— Vamos seguir — disse Roland. — E vamos pensar na Pequena Agulha.
— Steek-Tete — Susannah concordou.
— Não voltarão a ficar enjoados — disse Dinky. — Prometo.
— Graças a Deus! — respondeu Jake.
— Ga-Deus — Oi concordou.
Stanley, o terceiro membro do grupo de Ted, continuou sem dizer absolutamente nada.