A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 61 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Onze

Não havia dúvida de que ia funcionar. Desde o momento em que Patrick encostou a borracha no desenho — começando naquele emaranhado de pêlos do nariz —, o Rei Rubro começou a gritar de dor e horror em seu reduto no balcão. Ele estava compreendendo.

Patrick hesitou, olhando para Roland em busca de confirmação, e Ro-land abanou a cabeça.

— Sim, Patrick. A hora dele chegou e você vai ser o carrasco. Conti-nue com a coisa.

O Velho Rei atirou mais quatro pomos e Roland cuidou de todos eles com a maior calma. Depois disso não houve mais disparos, pois o Rei já não tinha mãos para soltá-los. Seus gritos se transformaram numa tremen-da mistura de ganidos que Roland achou que jamais deixariam seus ouvi-dos.

O garoto mudo apagou a boca cheia e sensual no fundo da espuma de barba e, quando ele fez isso, os gritos primeiro ficaram abafados, depois pararam. Patrick acabou apagando tudo, a não ser os olhos, que o pedaci-nho que sobrara da borracha nem conseguia borrar. Permaneceram ali até o pedaço de borracha rosada (originalmente parte de um Pencil-Pak com-prado na Woolworth’s de Norwich, Connecticut, durante uma promoção de volta às aulas em agosto de 1958) ter se reduzido a uma lasca que o ra-paz não conseguia sequer segurar entre as unhas longas e sujas. Então ele a jogou fora e mostrou o que sobrava ao pistoleiro: duas órbitas malévolas, rubro-sangrentas, flutuando a três quartos do caminho para o alto da folha.

Todo o resto dele se fora.

 

DOZE

A sombra da ponta da pirâmide já tocava a estrada; agora o céu no oeste mudou do alaranjado de uma fogueira reaptide àquele caldeirão de sangue que Roland, desde a infância, vira em seus sonhos. Enquanto isso a cha-mada da Torre duplicara, depois triplicara. Roland sentiu-a se estender e agarrá-lo com mãos invisíveis. A hora de seu destino chegara.

Contudo havia aquele rapaz. Aquele rapaz sem amigos. Roland não o abandonaria à morte ali no fim do Fim do Mundo se pudesse evitar isso. Embora o pistoleiro não tivesse interesse em expiação, Patrick não deixava de compensar por todos os crimes e traições que finalmente o tinham le-vado à Torre Negra. A família de Roland estava morta; seu filho bastardo fora o último a morrer. Agora o Eld e a Torre seriam unidos.

Mas antes de mais nada — e por fim — vinha isto:

— Patrick, preste atenção — disse ele, pegando o ombro do garoto com a mão esquerda, inteira, e a mão direita, mutilada. — Se quer viver para fazer todos os desenhos que o ka depositou em seu futuro, não me faça nenhuma pergunta nem me peça para repetir nada...

O rapaz o encarou silencioso, olhos arregalados na luz vermelha cada vez mais fraca. Em volta deles, a Canção da Torre se elevou, transforman-do-se num forte berreiro que não era outra coisa além de commala.

— Volte para a estrada. Primeiro pegue todas as latas que estiverem inteiras e que devem ser suficientes para alimentá-lo. Depois volte pelo caminho que viemos e jamais se afaste da estrada. Você ficará bem.

Patrick abanou a cabeça com perfeita compreensão. O garoto, Roland percebeu, acreditava, e isso era bom. Acreditar o protegeria melhor que um revólver, mesmo um revólver com cabo de sândalo.

— Volte para o Federal. Volte para o robô, o robô que chamavam de Gago Bill. Mande que Bill o leve até uma porta que se abra para o lado-América. Se não conseguir abri-la com a mão, desenhe-a aberta com o lápis. Está entendendo?

Patrick tornou a abanar a cabeça. É claro que entendia.

— Se o ka acabar por conduzi-lo a Susannah em algum onde ou quando, diga a ela que Roland ainda a ama de todo o coração. — Puxou Patrick para si e beijou a boca do garoto. — Dê isso a ela. Está entenden-do?

Patrick assentiu.

— Tudo bem. Eu vou. Longos dias e belas noites. Que possamos nos encontrar na clareira do fim do caminho, quando todos os mundos termi-nam.

Contudo, ele sabia que isto não ia acontecer, pois os mundos jamais terminariam, agora não. Para ele não haveria clareira. Para Roland Descha-in, de Gilead, último da linhagem do Eld, o caminho terminava na Torre Negra. O que lhe parecia ótimo.

Ficou de pé. Agarrado ao bloco, o garoto o encarou com olhos gran-des, espantados. Roland se virou. Tomou fôlego até o fundo dos pulmões e deixou-o sair num grande grito.

— AGORA ROLAND VAI ATÉ A TORRE NEGRA! TENHO SIDO VERDADEIRO E AINDA CARREGO O REVÓLVER DE MEU PAI E VOCÊ SE ABRIRÁ AO TOQUE DE MINHA MÃO!

Patrick viu-o andar com passos largos para onde a estrada acabava, si-lhueta preta contra aquele tremendo céu ardente. Viu Roland caminhar entre as rosas e sentou-se tremendo nas sombras quando Roland começou a gritar os nomes de amigos, entes queridos e companheiros do ka; nomes que soavam com clareza naquele ar estranho, como se fossem ecoar para sempre.

— Venho em nome de Steven Deschain, ele de Gilead!

— Venho em nome de Gabrielle Deschain, ela de Gilead!

— Venho em nome de Cortland Andrus, ele de Gilead!

— Venho em nome de Cuthbert Allgood, ele de Gilead!

— Venho em nome de Alain Johns, ele de Gilead!

— Venho em nome de Jamie DeCurry, ele de Gilead!

— Venho em nome de Vannay, o Sábio, ele de Gilead!

— Venho em nome de Hax, o Cozinheiro, ele de Gilead!

— Venho em nome de David, o falcão, ele de Gilead e do céu!

— Venho em nome de Susan Delgado, ela de Mejis!

— Venho em nome de Sheemie Ruiz, ele de Mejis!

— Venho em nome de Père Callahan, ele de Jerusalem’s Lot e das es-tradas!

— Venho em nome de Ted Brautigan, ele da América!

— Venho em nome de Dinky Earnshaw, ele da América!

— Venho em nome de tia Talitha, ela de River Crossing e aqui vou depositar sua cruz, como me foi pedido!

— Venho em nome de Stephen King, ele do Maine!

— Venho em nome de Oi, o bravo, ele do Mundo Médio!

— Venho em nome de Eddie Dean, ele de Nova York!

— Venho em nome de Susannah Dean, ela de Nova York!

— Venho em nome de Jake Chambers, ele de Nova York, que chamo de meu único filho verdadeiro!

— Sou Roland de Gilead, e venho em meu próprio nome; você se abri-rá para mim.

Então foi ouvido o som de uma trompa. O que simultaneamente ge-lou o sangue de Patrick e o deixou num estado de exaltação. Os ecos fo-ram sumindo no silêncio. Mas de repente, talvez um minuto depois, ecoou um grande estrondo: o barulho de uma porta batendo e se trancando para sempre.

Depois disso veio o silêncio.

 

TREZE

Patrick sentou-se na base da pirâmide, tremendo, até o Velho Astro e a Velha Mãe se elevarem no céu. A canção das rosas e da Torre não cessara, mas ficara mais baixa e sonolenta, pouco mais que um murmúrio.

Por fim ele voltou para a estrada, pegou o maior número possível de latas inteiras (considerando a força da explosão que demolira o carrinho, havia um número surpreendente delas) e encontrou um saco de couro de cervo para carregá-las. Quando percebeu que esquecera o lápis, voltou para pegá-lo.

Ao lado do lápis, brilhando sob a luz das estrelas, estava o relógio de Roland.

O garoto pegou-o com um pequeno (e nervoso) piado de alegria. Co-locou-o no bolso. Depois voltou para a estrada e jogou no ombro seu pe-queno saco de provisões.

Posso dizer que andou quase até meia-noite e que olhou para o reló-gio antes de descansar. Posso dizer que o relógio tinha parado completa-mente. Posso dizer que, ao meio-dia do dia seguinte, Patrick tornou a olhar para os ponteiros e viu que eles tinham começado de novo a andar na dire-ção certa, ainda que muito devagar. De Patrick, no entanto, não posso di-zer mais nada, nem se conseguiu voltar ao Federal, nem se encontrou o Gago Bill, nem se finalmente chegou mais uma vez ao lado-América. Não posso dizer nenhuma dessas coisas, sinto muito. Aqui a escuridão o escon-de do meu olho de contador de histórias e ele tem de continuar sozinho.