A Torre Negra, Vol. 7
Cinco
Sentado com Oi na calma da penumbra, esperando o chamado de Roland, Jake refletiu sobre o quadro com que seus olhos tinham se deparado na escuridão do quarto. Refletiu também sobre os intermináveis 45 minutos antes de Roland perceber seu mal-estar e deixá-lo ir, dizendo que o chama-ria de volta quando fosse “a hora”.
Jake já vira muitos mortos desde que fora levado para o Mundo Mé-dio; tinha mandado outros à morte, tinha inclusive experimentado sua própria morte, embora se lembrasse muito pouco disso. Mas aquela era a morte de um companheiro de ka e o que estava acontecendo na suíte do supervisor parecia pura e simplesmente sem sentido. E interminável. Jake queria, com todo o coração, ter ficado lá fora com Dinky; não queria se lembrar do amigo (piadista, às vezes de pavio curto) daquela maneira.
Em primeiro lugar Eddie parecia extremamente frágil deitado ali, na cama do supervisor, sua mão na mão de Susannah; parecia velho e (Jake odiava o pensamento) burro. Ou talvez a palavra certa fosse senil. A boca tinha se retorcido nos cantos, formando covinhas profundas. Susannah lavara o rosto de Eddie, mas a barba crescida continuava dando uma im-pressão de sujeira. Havia grandes olheiras roxas nas faces, como se a porra do Prentiss tivesse batido nele antes de dar o tiro. Ainda que fechados, os olhos rolavam quase sem parar debaixo do fino véu das pálpebras, como se Eddie estivesse sonhando.
E ele falava. Um fluxo contínuo de palavras em tom baixo, murmu-rante. Jake conseguia entender certas coisas que ele dizia, outras não. Al-gumas tinham pelo menos um mínimo de sentido, mas boa parte era o que Benny, amigo de Jake, teria chamado “Ki’come”: completo absurdo. De vez em quando Susannah molhava um pano na bacia que estava em cima da mesinha-de-cabeceira, espremia e passava na testa e nos lábios resseca-dos do marido. A certa altura Roland se levantou, pegou a bacia, esvaziou-a no banheiro, tornou a enchê-la e levou-a de volta para Susannah. Ela a-gradeceu num tom de voz baixo e perfeitamente agradável. Um pouco mais tarde fora Jake quem trocara a água, e ela agradeceu do mesmo modo. Como se nem mesmo soubesse que eles estavam lá.
É bom ajudá-la, Roland tinha dito a Jake. Porque mais tarde ela vai se lem-brar de quem esteve aqui e ficará realmente grata.
Mas ficaria mesmo? Jake agora se perguntava na escuridão defronte à Taberna Trevo. Ficaria mesmo grata? Era por culpa de Roland que Eddie Dean estava em seu leito de morte aos 25 ou 26 anos, não era? Se bem que, se não fosse por Roland, ela certamente jamais teria conhecido Eddie. Tudo era muito confuso. Como a idéia de múltiplos mundos com Nova Yorks em cada um deles, uma idéia que fazia a cabeça de Jake doer.
Jazendo ali, em seu leito de morte, Eddie perguntara por que o irmão Henry nunca se lembrava de fazer o bloqueio.
Também perguntara a Jack Andolini quem o havia acertado com o bastão feio. Também tinha gritado:
— Cuidado, Roland, é o George Narigão, ele está atrás de você!
E:
— Suze, se você contar a ele aquela da Dorothy e do Homem de La-ta, eu conto todo o resto.
E congelando o coração de Jake:
— Não atiro com minha mão; aquele que atira com sua mão esque-ceu a face de seu pai.
Com esta última, Roland pegara a mão de Eddie na penumbra (pois as persianas tinham sido fechadas) e apertara.
— Sim, Eddie, você diz a verdade. Quer abrir seus olhos e olhar para o meu rosto, meu caro?
Mas Eddie não abrira os olhos. Em vez disso, congelando o coração de Jake ainda mais profundamente, o rapaz que agora usava um curativo inútil na cabeça tinha murmurado:
— Tudo é esquecido nas galerias de pedra dos mortos. São os salões de ruína onde as aranhas tecem e os grandes circuitos caem em silêncio, um por um.
Após isso não houve nada de inteligível durante algum tempo, só a-quele incessante murmurar. Jake tornara a substituir a água da bacia e, quando voltou, Roland viu seu rosto absolutamente branco e disse que ele podia ir.
— Mas...
— Vá agora, doce de coco — disse Susannah. — Só tenha cuidado. Talvez ainda haja alguns deles por aí, procurando se vingar.
— Mas aí como eu posso...
— Eu o chamo quando for a hora — disse Roland batendo na têm-pora de Jake com um dos dedos restantes da mão direita. — Você vai me ouvir.
Jake teve vontade de dar um beijo em Eddie antes de sair, mas ficou com medo. Não que pudesse pegar a morte como se pega um resfriado — sabia que não era bem assim —, mas com medo de que mesmo o toque de sua boca bastasse para empurrar Eddie para a clareira no fim do caminho.
E então Susannah poderia culpá-lo.
SEIS
Lá fora, no vestíbulo, Dinky perguntou-lhe como estava indo a coisa.
— Vai realmente mal — disse Jake. — Tem um cigarro?
Dinky ergueu as sobrancelhas, mas deu a Jake um cigarro. O garoto bateu no cigarro com a unha do polegar, como vira o pistoleiro fazer com cigarros feito a mão, depois aceitou um fósforo aceso e tragou profunda-mente. A fumaça ainda queimava, mas não tão amargamente quanto da primeira vez. A cabeça só rodou um pouco e ele não tossiu. Logo vou me tornar um veterano, ele pensou. Se conseguir voltar a Nova York, talvez possa ir trabalhar na Rede, no departamento de meu pai. Já estou ficando craque em A Matan-ça.
Pôs o cigarro na frente dos olhos, pequeno míssil branco com a fu-maça saindo por cima e não pelo fundo. A palavra CAMEL estava escrita logo abaixo do filtro.
— Tinha dito a mim mesmo que jamais faria isto — Jake contou a Dinky. — Nunca na vida. E aqui estou com um na mão. — Riu. Foi um riso amargo, um riso adulto e aquele som saindo de sua boca o fez tremer.
— Eu trabalhava para um cara antes de vir para cá — disse Dinky. — Sr. Sharpton, era o nome dele. Ele costumava dizer que nunca é a palavra que Deus gosta de ouvir quando quer dar uma risada.
Jake não deu resposta. Estava pensando em como Eddie havia falado sobre os salões de ruína. Jake tinha seguido Mia até um salão como aquele, antigamente e em sonho. Agora Mia estava morta. Callahan estava morto. E Eddie estava morrendo. Pensou em todos os corpos estendidos lá em-baixo sob cobertores enquanto na distância o trovão rolava como ossos. Pensou no homem que atirara em Eddie rolando para a esquerda, quando a bala de Roland acabou com ele. Tentou se lembrar da recepção que tive-ram em Calla Bryn Sturgis, a música, a dança e as tochas coloridas, mas tudo que aparecia com nitidez era a morte de Benny Slightman, outro ami-go. Naquela noite o mundo parecia feito de morte.
Ele próprio tinha morrido e voltado: voltado ao Mundo Médio e a Roland. Passara toda a tarde tentando acreditar que a mesma coisa podia acontecer a Eddie e sabia, de alguma forma, que não seria possível. A parte de Jake na história ainda não estivera terminada. A de Eddie estava. Jake teria dado vinte anos de sua vida — trinta! — para não acreditar nisso, mas acreditava. Supunha que progara isto, de alguma forma.
Os salões de ruína onde as aranhas tecem e os grandes circuitos caem em silêncio, um por um.
Jake conhecia uma aranha. Estaria o filho de Mia observando tudo? Achando graça? Talvez torcendo por um lado ou o outro, como a porra de um torcedor dos Yankees na arquibancada?
Está. Sei que está. Sinto isso.
— Tudo bem com você, garotão? — Dinky perguntou.
— Não — disse Jake. — Nem tudo bem. — E Dinky abanou a cabe-ça como se fosse uma resposta perfeitamente razoável. Bem, Jake pensou, provavelmente ele já esperava por essa resposta. Afinal, é um telepata.
Como se para demonstrar seus poderes, Dinky perguntou quem era Mordred.
— Você não vai querer saber — disse Jake. — Acredite em mim. — Ele apagou o cigarro fumado pela metade (“Todo o câncer de pulmão está bem aqui, no quarto de centímetro final”, o pai costumava dizer em tons de absoluta certeza, apontando para um de seus cigarros sem filtro como um anunciante de TV) e saiu da Unidade Corbett. Usou a porta dos fun-dos, esperando se esquivar do grupo de ansiosos Sapadores à espera, no que foi bem-sucedido. Agora estava em Vila Aprazível, sentado no meio-fio como um dos sem-teto que se viam em Nova York. Esperando que o chamassem. Esperando pelo fim.
Pensou em entrar na taberna, talvez para se servir de um chope (se já tinha idade suficiente para fumar e matar pessoas de emboscada sem dúvi-da também tinha idade para tomar uma cerveja), talvez para ver se o juke-box tocava sem moedas. Apostava que Algul Siento fosse o que seu pai proclamava que a América se tornaria mais cedo ou mais tarde, uma socie-dade sem dinheiro vivo. Que aquele velho Seeberg estivesse adaptado para a pessoa só precisar apertar os botões para a música começar. E apostava que se procurasse na relação de músicas ia encontrar, lá pelo número 19, “Someone Saved my Life Tonight”, “alguém salvou minha vida hoje à noi-te”, de Elton John.
Ficou de pé e foi nesse momento que a chamada veio. Não foi o úni-co a ouvi-la; Oi deixou escapar um ganido breve, de cortar o coração. Era como se Roland estivesse bem ali, ao lado deles.
Venha, Jake, e rápido. Ele está indo.
SETE
Jake desceu correndo um dos becos, contornou o prédio da administração, que ainda ardia a fogo lento (Tassa, o criado doméstico, que ou tinha igno-rado a ordem de Roland para partir ou não fora informado dela, estava sentado em silêncio no degrau em frente da casa com um saiote escocês e uma suéter, a cabeça nas mãos), e começou a subir acelerado o Passeio, dando uma olhada perturbada e rápida na longa fila de corpos estendidos. O pequeno círculo de sessão espírita que vira há pouco não estava mais lá.
Não vou chorar, ele prometeu severamente a si mesmo. Se tenho idade su-ficiente para fumar e pensar em tirar um chope, também tenho idade para controlar meus olhos estúpidos. Não vou chorar.
Sabendo que quase certamente ia.
OITO
Sheemie e Ted tinham se juntado a Dinky na frente da suíte do supervisor. Dinky havia cedido sua cadeira a Sheemie. Ted parecia cansado, mas Jake achou que Sheemie estava péssimo: olhos de novo injetados, crostas de sangue coagulado em volta do nariz e numa orelha, faces escuras. Havia tirado um dos chinelos e massageava o pé como se ele estivesse doendo. Contudo, estava nitidamente feliz. Talvez até exultante.
— O Feixe diz que tudo ainda pode ficar bem, jovem Jake — disse Sheemie. — O Feixe diz que não é tarde demais. O Feixe diz obrigado.
— Isso é bom — disse Jake, estendendo a mão para a maçaneta da porta. Mal ouvia o que Sheemie estava dizendo. Estava concentrado
(não vou chorar e deixar as coisas ainda mais difíceis para ela)
em controlar suas emoções quando entrasse. Então Sheemie disse uma coisa que rapidamente o fez voltar.
— Também não é tarde demais no Mundo Real — disse Sheemie. — Nós sabemos. Demos uma espiada. Vimos a placa se mexer. Não foi, Ted?
— É, foi. — Ted estava com uma lata de Nozz-A-La no colo. Agora ele a erguia e tomava um gole. — Quando entrar aí, Jake, diga a Roland que se é em 19 de junho de 1999 que vocês estão interessados, ainda há tempo. Mas a margem está começando a ficar um pouco estreita.
— Vou dizer a ele — disse Jake.
— E lembre a ele que o tempo às vezes desengrena por lá. Desengre-na como uma velha caixa de marcha. A coisa é capaz de continuar assim por um bom tempo, a despeito da recuperação do Feixe. E depois de pas-sar aquele dia 19...
— Nunca mais volta — disse Jake. — Não ali. Sabemos disso. — Ele abriu a porta e se introduziu na escuridão da suíte do supervisor.
NOVE
Um círculo isolado de uma severa luz amarela, suprida pelo abajur na me-sa-de-cabeceira, caía sobre o rosto de Eddie Dean. Jogava a sombra do nariz na face esquerda e transformava os olhos fechados em órbitas escu-ras. Susannah estava ajoelhada no chão, segurando com as duas mãos as duas mãos de Eddie e olhando para ele. Sua sombra se estendia pela pare-de. Roland estava sentado na outra ponta da cama, bem no escuro. O lon-go monólogo murmurado pelo moribundo havia cessado e a respiração de Eddie perdera qualquer traço de regularidade. Ele inspirava profundamen-te, segurava o ar e soltava-o em jorros longos, assobiantes. O peito ficava tanto tempo imóvel que Susannah erguia a cabeça para ver o rosto dele, os olhos brilhando de ansiedade até começar a próxima respiração, demorada, dilacerante.
Jake sentou-se na cama ao lado de Roland, olhou para Eddie, olhou para Susannah, depois olhou hesitantemente para o rosto do pistoleiro. Na penumbra, não viu nada ali além de cansaço.
— Ted mandou dizer a você que é quase 19 de junho no lado ameri-cano, por favor e obrigado. Diga isso, ele mandou, e diga também que o tempo pode desengrenar um pouco.
Roland abanou a cabeça.
— Mas acho que vamos esperar que isto aqui esteja resolvido. Não vai demorar muito e é uma dívida que temos para com Eddie.
— Quanto tempo? — Jake murmurou.
— Não sei. Achei que talvez ele fosse embora antes de você conse-guir chegar, mesmo se corresse...
— Corri, assim que cheguei ao trecho gramado...
—... mas, como está vendo...
— Ele luta muito — disse Susannah, e que aquilo fosse a única coisa que lhe sobrasse como motivo de orgulho fez Jake sentir um calafrio. — Meu homem luta muito. Talvez ainda tenha alguma coisa a dizer.
DEZ
E realmente tinha. Cinco minutos intermináveis após Jake ter se introduzi-do no quarto, os olhos de Eddie se abriram.
— Sue... — ele disse —, Su... sie...
Ela se inclinou, sempre segurando as mãos dele, sorrindo para o rosto dele, toda a sua concentração ferozmente intensificada. E com um esforço que Jake teria achado impossível, Eddie libertou uma das mãos, sacudiu-a um pouco para a direita e agarrou alguns anéis do cabelo de Susannah. Se o peso do braço dele repuxou as raízes e a machucou, ela não deixou trans-parecer. O sorriso que floresceu em sua boca foi de alegria e acolhimento, talvez até mesmo de sensualidade.
— Eddie! Que bom que está de volta!
— Não se engana... um enganador — ele sussurrou. — Estou indo, meu coração, não voltando.
— Isso é apenas tol...
— Shhhh — ele sussurrou, e ela obedeceu. A mão que pegara seu ca-belo puxou. Ela se aproximou com naturalidade do rosto dele e beijou pela última vez aqueles lábios vivos. — Eu... vou... esperar por você — disse ele, expelindo cada palavra com imenso esforço.
Jake viu gotas de suor brotarem na pele, a última mensagem do corpo moribundo para o mundo vivo, e foi nesse momento que o coração do garoto finalmente compreendeu o que sua cabeça há horas já sabia. Ele começou a chorar. Eram lágrimas que ardiam e lavavam o rosto. Quando a mão de Roland se aproximou da dele, Jake apertou-a ferozmente. Estava tão assustado quanto triste. Se aquilo podia acontecer com Eddie, podia acontecer com qualquer um. Podia acontecer com ele.
— Sim, Eddie. Sei que vai esperar — ela disse.
— Na... — Ele puxou outra daquelas grandes, angustiadas, ásperas respirações. Seus olhos estavam brilhantes como pedras preciosas. — Na clareira. — Outra respiração. A mão segurando o cabelo dela. A luz do abajur envolvendo os dois em seu místico círculo amarelo. — Aquela no fim do caminho.
— Sim, querido. — A voz dela agora estava calma, mas uma lágrima caiu na face de Eddie e correu devagar pela linha do queixo. — Ouvi mui-to bem. Espere por mim. Eu vou encontrá-lo e seguiremos juntos. Estarei andando então. Com minhas próprias pernas.
Eddie sorriu para ela e voltou os olhos para Jake.
— Jake... venha cá.
Não, Jake pensou em pânico. Não, não posso, não posso.
Mas já estava se aproximando, entrando naquele cheiro de fim. Podia ver a fina linha de sujeira logo abaixo do contorno do cabelo de Eddie. Ela ia ficando brilhante à medida que novas gotinhas de suor pontilhavam.
— Espere por mim também — disse Jake por entre lábios entorpeci-dos. — Está bem, Eddie? Aí seguimos todos juntos. Seremos de novo ka-tet, exatamente como éramos. — Tentou sorrir e não conseguiu. O cora-ção apertava demais para sorrir. Ele se perguntou se o coração não poderia explodir no peito, do modo como as pedras às vezes explodem no calor do fogo. Tinha aprendido este pequeno fato com seu amigo Benny Slightman. A morte de Benny fora ruim, mas aquela era mil vezes pior. Um milhão de vezes.
Eddie estava balançando a cabeça.
— Não... tão depressa, parceiro. — Ele inspirou profundamente e fez uma careta, como se o ar tivesse adquirido espinhos que só ele podia sen-tir. Então sussurrou... não por fraqueza, Jake pensou mais tarde, mas por-que era uma coisa que devia ficar entre os dois. — Cuidado... com Mor-dred. Cuidado... Dandelo.
— Dente-de-leão? Eddie, eu não...
— Dandelo. — Olhos se arregalando. Esforço enorme. — Proteja... seu... dinh... de Mordred. De Dandelo. Você... Oi. Seu trabalho. — Os o-lhos resvalaram para Roland, depois voltaram a Jake. — Shhh. —Então: — Proteja...
— Eu... vou. Nós vamos proteger.
Eddie abanou um pouco a cabeça e olhou para Roland. Jake chegou para o lado e o pistoleiro se inclinou para o que Eddie queria lhe dizer.
ONZE
Nunca, jamais Roland tinha visto um olho tão brilhante, nem mesmo na colina de Jericó, quando Cuthbert lhe mandara um risonho adeus.
— Tivemos... alguns tempos. — Eddie sorria.
Roland assentiu com a cabeça.
— Você... você... — Mas Eddie não conseguiu concluir. Ergueu uma das mãos e fez um fraco movimento circular.
— Eu dancei — disse Roland, abanando de novo a cabeça. — Dan-cei a commala.
Sim, disseram em silêncio os lábios de Eddie. Depois ele puxou outra daquelas respirações barulhentas, dolorosas. Foi a última.
— Obrigado pela minha segunda chance — disse ele. — Obrigado... Pai.
Não houve mais nada. Os olhos de Eddie ainda olhavam para Roland e ainda estavam conscientes, mas não havia mais respiração para substituir o ar que gastara naquela palavra final, naquele pai. A luz do abajur brilhava nos pêlos dos braços nus, transformando-os em dourado. O trovão mur-murava. Então os olhos de Eddie se fecharam e a cabeça caiu para o lado. Seu trabalho estava acabado. Ele deixara o caminho, penetrara na clareira. Continuaram sentados em círculo em volta dele, mas não eram mais um ka-tet.
DOZE
E então, trinta minutos depois.
Roland, Jake, Ted e Sheemie estavam sentados num banco no meio do Passeio. Dani Rostov e o sujeito de ar de banqueiro estavam próximos. Susannah continuava na suíte do supervisor, lavando o corpo do marido para o enterro. Podiam ouvi-la de onde estavam sentados. Ela estava can-tando. Pareciam as canções que ouvira Eddie cantar ao longo do caminho. Uma era “Born to Run”. Outra era “A Canção do Arroz”, de Calla Bryn Sturgis.
— Temos de ir e temos de ir já — disse Roland. Sua mão se deslocara para o quadril e estava esfregando, esfregando. Jake o vira tirar um frasco de aspirina (obtido só Deus sabia onde) da bolsa e engolir a seco três. — Sheemie, pode nos mandar?
Sheemie abanou afirmativamente a cabeça. Fora mancando até o ban-co, apoiando-se em Dinky, e ainda ninguém tivera a chance de dar uma olhada no ferimento em seu pé. O coxear parecia tão insignificante em comparação com as outras preocupações do grupo; certamente se Sheemie Ruiz tivesse de morrer naquela noite seria como resultado de abrir uma porta temporária entre o lado de Trovoada e o lado da América. Um novo e estressante ato de telecinese poderia ser letal para ele — o que era um pé dolorido comparado com isso?
— Vou tentar — disse ele. — Vou tentar com toda a minha energia, é o que vou fazer.
— Aqueles que nos ajudaram a olhar para dentro de Nova York vão nos ajudar a fazer isto — disse Ted.
Fora Ted quem descobrira como identificar o quando do momento, ao lado-América do Mundo-chave. Ele, Dinky, Fred Worthington (o ho-mem com ar de banqueiro) e Dani Rostov, todos tinham estado em Nova York, todos eram capazes de produzir claras imagens mentais de Times Square: as luzes, as multidões, as fachadas dos cinemas... e, mais importan-te que tudo, o gigantesco letreiro que transmitia os eventos do dia para as multidões lá embaixo, fazendo, mais ou menos a cada trinta segundos, um circuito completo da Broadway e da rua 48. O buraco ficara aberto por tempo suficiente para informá-los de que os peritos forenses da ONU es-tavam examinando fossas comuns em Kosovo, que o vice-presidente Gore passara o dia na cidade de Nova York fazendo campanha para a presidên-cia, que embora Roger Clemens fizera strike out em 13 Texas Rangers, os Yankees haviam perdido na noite anterior.
Com a ajuda dos outros, Sheemie podia ter mantido o buraco aberto por um tempo consideravelmente maior (os outros tinham olhado fixa-mente para o brilho daquela agitada noite de Nova York com uma espécie de assombro faminto, já agora não Sapando, mas Abrindo, Vendo), só que não houve necessidade disso. Após o resultado do beisebol, a data e a hora passaram velozes, da altura de um andar, em brilhantes caracteres verde-amarelados: JUNHO 18, 1999. 9:19PM
Jake abriu a boca para perguntar como podiam ter certeza de estarem olhando para dentro do Mundo-chave, aquele onde Stephen King tinha menos de um dia para viver, e então tornou a fechá-la. A resposta estava no horário, bobão, como sempre: o 19 estava presente inclusive na hora, 9:19.
TREZE
— E há quanto tempo você viu isso? — Roland perguntou.
Dinky calculou.
— Acho que foi há umas cinco horas pelo menos. Estou me basean-do no toque de corneta para a mudança de turno, e na hora em que o sol se apagou pela noite.
Naquele momento devia ser umas duas e trinta da manha lá do outro lado, Jake calculou, contando as horas nos dedos. Pensar era difícil agora, mesmo uma simples adição era interrompida por constantes imagens de Eddie, mas ele achou que conseguiria se realmente tentasse. Só que não se pode confi-ar que se trate apenas de cinco horas porque o tempo anda mais rápido no lado-América. Isso pode mudar agora que os Sapadores pararam de sabotar o Feixe — talvez a coisa fique equalizada —, mas provavelmente ainda não mudou. Por enquanto é provável que o tempo continue correndo rápido.
E que possa desengrenar.
Num minuto Stephen King podia estar sentado na frente da máquina de escrever de seu escritório na manhã de 19 de junho, lépido e fagueiro, e no minuto seguinte... bum! Naquela mesma tarde poderia estar deitado numa funerária das proximidades, oito ou 12 horas teriam passado como um raio, a família chorosa estaria sentada sob o círculo de uma luminária tentando decidir que tipo de serviço King teria preferido — sempre pre-sumindo que tal informação não constasse de seu testamento; talvez inclu-sive tentando decidir onde enterrá-lo. E a Torre Negra? A versão de Ste-phen King da Torre Negra? Ou a versão de Gan, ou a versão do Primal? Perdidas para sempre, todas elas. E aquele som que você ouve? Ora, deve ser o Rei Rubro rindo, rindo e rindo de algum lugar profundamente oculto na Discórdia. E talvez também Mordred, o Menino-Ara-nha, rindo com ele.
Pela primeira vez desde a morte de Eddie, algo além da dor tomou a dianteira na mente de Jake. Era um débil barulho palpitante, como aquele que os pomos de ouro fizeram ao serem programados por Roland e Eddie. Pouco antes de serem dados a Haylis, que os distribuíra. Era o som do tempo e o tempo não era amigo deles.
— Ele tem razão — disse Jake. — Temos de ir enquanto ainda po-demos fazer alguma coisa.
Ted:
— Será que Susannah...
— Não — disse Roland. — Susannah vai ficar aqui e você vai ajudá-la a enterrar Eddie. Está de acordo?
— Sim — disse Ted. — É claro, se é o que você quer.
— Se não estivermos de volta em... — Roland calculou, um olho muito apertado, o outro olhando para a escuridão. — Se não estivermos de volta a esta mesma hora na noite após a próxima, presuma que voltamos a Fedic, no Fim do Mundo. Sim, aposte em Fedic, Jake pensou. É claro. Pois de que serviria fazer a outra suposição, ainda mais lógica, a de que estivéssemos mortos ou perdidos entre os mundos, em todash para sempre?
— Conhece Fedic? — Roland estava perguntando.
— Ao sul daqui, não é? — perguntou Worthington. Ele havia se a-proximado com Dani, uma menina ainda nem adolescente. — Ou o que era conhecido como sul. Trampas e alguns outros can-toi costumavam falar do sul como se fosse um lugar assombrado.
— É assombrado, mesmo — Roland disse sério. — Pode pôr Susan-nah num trem para Fedic na eventualidade de não conseguirmos voltar? Sei que pelo menos alguns trens ainda devem estar correndo, por causa dos...
— Capotes Verdes? — disse Dinky abanando a cabeça. — Ou os Lobos, como vocês pensam neles. Todos os trens da linha D continuam correndo. Eles são automáticos.
— São monos? Falam? — Jake perguntou. Estava se lembrando de Blaine.
Dinky e Ted trocaram um olhar de dúvida, depois Dinky voltou a prestar atenção em Jake e abanou os ombros.
— Como poderíamos saber? Provavelmente sabemos mais sobre de-cotes que sobre os trens da linha D, o que acho que se aplica a todo mun-do aqui. Pelo menos aos Sapadores. Talvez alguns guardas saibam de mais alguma coisa. Ou aquele cara. — Sacudiu um dedo para Tassa, que conti-nuava sentado no degrau do prédio da administração, a cabeça nas mãos.
— Seja como for, vamos dizer a Susannah para ter cuidado — Ro-land murmurou para Jake. Jake abanou a cabeça. Também achava que era o melhor que podiam fazer, mas tinha outra pergunta. Fez uma nota men-tal para perguntar a Ted ou Dinky se tivesse a oportunidade de fazê-lo sem ser ouvido por Roland. Não gostava da idéia de deixar Susannah para trás — cada instinto de seu coração clamava contra isso —, mas sabia que ela se recusaria a ir sem Eddie estar enterrado e Roland também sabia disso. Só conseguiriam fazê-la partir com uma venda nos olhos e uma mordaça na boca, o que só pioraria a situação.
— Pode ser — disse Ted — que alguns Sapadores estejam interessa-dos em fazer uma viagem de trem para o sul com Susannah.
Dani abanou a cabeça.
— Não somos exatamente amados por aqui por estarmos ajudando vocês — disse ela. — Ted e Dinky estão enfrentando a pressão maior, mas alguém cuspiu em mim há meia hora, quando eu estava no meu quarto pe-gando isto... — Ela levantou um ursinho de pelúcia meio surrado, sem dú-vida muito estimado. — Acho que não vão fazer nada enquanto vocês, rapazes, estiverem aqui, mas depois que forem embora... — Ela deu de ombros.
— Cara, eu não entendo isso — disse Jake. — Eles ficaram livres!
— Livres para fazer o quê? — Dinky perguntou. — Pense nisso. A maioria deles eram desajustados no lado América. Sobravam. Aqui éramos VIPs e tínhamos o melhor de tudo. Agora tudo isso acabou. Quando se pensa desse jeito na coisa, fica difícil entender?
— Sim — disse Jake asperamente. Provavelmente não queria compre-ender.
— Eles perderam outra coisa — Ted disse a eles em voz baixa. — Há um romance de Ray Bradbury chamado Fahrenheit 451. “Era um prazer queimar”, diz a primeira linha do livro. Bem, também era um prazer Sapar.
Dinky abanava a cabeça. Assim como Worthington e Dani Rostov. Até Sheemie estava abanando a cabeça.