A Torre Negra, Vol. 7
Cinco
Era uma vez muito tempo atrás
(longe e pequenino) quando ele era apenas um rapazinho;
(há um pra você e um pra mim)
era uma vez quando a mãe foi para Montreal com seu clube de arte e o pai foi pa-ra Vegas para a abertura anual dos shows do outono; (geléia de amoras e chá de amoras) era uma vez, quando ‘Bama tinha quatro...
SEIS
‘Bama como o único bonzinho
(a sra. Shaw a sra. Greta Shaw)
o chamava. Ela tirava as cascas de seus sanduíches, punha os desenhos da sua pe-tiscola com ímãs parecidos com frutinhas de plástico na geladeira, ela o chamava ‘Bama, e isso é um nome especial para ele
(para eles)
porque seu pai, na tarde de um sábado de embriaguez, o ensinou a cantar “Go wide / go wide / roll you Tide / we don’t run and we don’t hide / we’re the ‘Bama Crimson Tide!”∗ e então ela o chama de ‘Bama, é um nome secreto e como eles sabem o que significa e ninguém mais sabe é como ter uma casa onde você pode entrar, uma casa segura no bosque assustador onde do lado de fora todas as sombras parecem monstros, ogros e tigres.
(“Tyger Tyger burning bright”,∗∗ a mãe canta para ele, pois essa é a idéia que ela tem de uma cantiga de ninar, juntamente com “I heard a fly buzz... when I died”, ∗∗∗ o que provoca em ‘Bama Chambers uma terrível série de calafrios, embora ele
* Refere-se ao grito de guerra da torcida do time de futebol americano da Universidade de Alabama, Crimson Tide (Maré Rubra). (N. da E.)
** Primeira linha do poema “Tyger”, do poeta inglês William Blake (1757-1827). (N. da E.) *** “Ouvi uma mosca zumbir... quando morri”; primeira linha do poema “Dying”, da poeti-sa norte-americana Emily Dickinson (1830-1886). (N. da E.)
jamais conte isso a ela; deitado na cama, às vezes à noite, às vezes durante a soneca da tarde, fica pensando vou ouvir uma mosca voando e será a mosca de minha morte, meu coração vai parar e a língua vai cair pela minha garganta como pedra caindo num poço e essas são as lembranças que ele nega)
É bom ter um nome secreto e, quando ele fica sabendo que a mãe está indo para Montreal por amor à arte e o pai está indo para Vegas para ajudar a apresentar os novos programas da Rede para a pré-venda aos anunciantes, ele implora que a mãe peça à sra. Greta Shaw para ficar com ele e finalmente a mãe cede. Como o pequeno Jake sabe a sra. Shaw não é sua mãe e em mais de uma ocasião a própria sra. Greta Shaw contou a ele que não é sua mãe
(“Espero que saiba que não sou sua mãe, ‘Bama”, diz ela, dando-lhe um prato e no prato há um sanduíche de manteiga de amendoim, bacon e banana com as cascas tiradas como só Greta Shaw sabe cortar, “porque isso não está em minhas obrigações de trabalho”
(E o pequeno Jake — só que aqui ele é ‘Bama, é ‘Bama entre os dois — não sa-be exatamente como dizer a ela que sabe disso, sabe disso, sabe disso, mas ele vai ficar com ela até a coisa verdadeira aparecer ou até ficar velho o suficiente para superar seu medo da mosca da Morte)
E o pequeno Jake diz não se preocupe, tudo bem comigo, mas continua fe-liz vendo que é a sra. Shaw que concorda em ficar em vez de a baby-sitter estrangeira que usa saia curta e está sempre brincando com o cabelo, passando batom e cagando para ele, e nem sabia que lá no fundo do coração ele é ‘Bama, e rapaz que aquela pe-quena Pérola da Casa
(que era como o pai chamava todas as baby-sitters estrangeiras)
é burra burra burra. A sra. Shaw não é burra. A sra. Shaw lhe dá um lanche que às vezes chama de Chá da Tarde ou mesmo Grande Chá, e não importa o que sirva — queijo cottage e fruta, um sanduíche com a casca cortada, pudim de leite e bolo, os canapés que sobraram de algum coquetel na noite passada —, ela canta a mesma musi-quinha quando põe a mesa: “Um lanchinho que está longe e pequeno, um pouco pra você e um pouco pra mim, geléia de amora e chá de amora.”
Há uma televisão no quarto dele, e todo dia enquanto seus pais estão fora ele leva para lá o lanche pós-aula e assiste assiste assiste e ouve o rádio dela na cozinha, sempre as músicas velhas, sempre a WCBS, e às vezes ouve a própria, ouve a sra. Greta Shaw cantando com as Four Seasons∗ Wanda Jackson Lee “Iá-Iá” Dorsey, e às vezes finge que os pais morreram num desastre de avião e ela de certa forma se torna mesmo mãe dele e o chama de pobre rapazinho e pobre garotinho perdido e então por alguma transformação mágica ela o ama em vez de apenas tomar conta dele, o ama o ama o ama assim como ele a ama, ela é sua mãe (ou talvez sua esposa, ele se confunde sobre a diferença entre as duas), mas ela o chama de ‘Bama em vez de doce-de-coco
(sua mãe de verdade)
ou craque
(seu pai) e embora ele saiba que é uma idéia estúpida, pensar nela na cama é en-graçado, pensar nela melhora pra cacete a chatura de pensar na mosca da Morte que viria zumbir sobre seu cadáver quando ele morresse com a língua no fundo da garganta como pedra num poço. À tarde, quando chega da petiscola (quando já tem a idade para entender que na verdade se chama pré-escola já terá saído dela), assiste ao Filme de Um Milhão de Dólares em seu quarto. No programa Filme de Um Milhão de Dólares mostravam exatamente o mesmo filme exatamente na mesma hora — quatro horas — todo dia, durante uma semana. Na semana antes de os pais viajarem e a sra. Greta Shaw passar a noite lá em vez de ir para casa
(oh, que felicidade, pois a sra. Greta Shaw nega a Discórdia, pode dizer amém)
todo dia havia música vinda de duas direções, havia as antigas na cozinha
(WCBS pode dizer Deus-bomba)
e na TV James Cagney andando por aí de chapéu derby e cantando Harrigan-H-A-duplo R-I, Harrigan, sou eu! Também aquela sobre ser um verdadeiro sobri-nho de meu tio Sam.
Então é uma nova semana, a semana em que seus pais viajam, e um novo filme, e da primeira vez que ele o vê é apavorante e tira a porra da sua respiração. O filme se chama O Continente Perdido e apresenta o sr. César Romero, e quando Jake torna a vê-lo (com a avançada idade de 10 anos) se perguntará como pode ter sentido medo de um filme tão estúpido. Porque é sobre exploradores que ficam perdidos na selva, claro, e há dinossauros na selva, e aos quatro anos de idade ele não percebeu que os dinossau-
* Conjunto musical norte-americano dos anos 60. ros não passavam de uma merda de DESENHO ANIMADO, em nada diferente de Tweety e Sylvester e O Marinheiro Popeye, ach-ach-ach, pode dizer Ula-Ula, pode me dar Olívia Palito. O primeiro dinossauro que ele vê ê um triceratopus que sai des-norteado da selva, e a garota exploradora
(Enlouquecedoras te-tas, sem a menor dúvida o pai teria dito, era o que o pai sempre dizia sobre o que a mãe de Jake chamava Um Certo Tipo de Garota)
gritava a plenos pulmões, e Jake também gritaria se pudesse mas seu peito está pa-ralisado de terror, ah, cá está a Discórdia encarnada! Nos olhos do monstro ele vê o completo nada, que significa o fim de tudo, pois súplicas não vão funcionar com um monstro daqueles e gritos não vão funcionar com um monstro daqueles, isso é tolice de-mais, tudo que a gritaria faz é atrair a atenção do monstro, e assim acontece, ele se vira para a Pérola da Casa com as enlouquecedoras te-tas e então ele ataca a Pérola da Casa com as enlouquecedoras te-tas, e na cozinha (a enorme cozinha) ele ouve os To-kens, saídos das paradas mas não dos corações, eles estão cantando sobre a selva, a tranqüila selva, e ali na frente dos enormes olhos apavorados do garotinho está uma sel-va que é tudo menos tranqüila, e não tem um leão mas uma coisa que anda pesado que parece mais ou menos com um rinoceronte só que maior, e tem uma espécie de colar de osso em volta do pescoço, e mais tarde Jake descobrirá que aquele tipo de monstro se chama triceratopus, mas por enquanto ele não tem nome, o que o torna ainda pior, sem nome é pior. “Wimeweh”, cantam os Tokens, “wee-ummm-a-weh”, e é claro César Romero baleia o monstro pouco antes de ele conseguir rasgar a garota com as enlouquece-doras te-tas de cima a baixo, o que resolve o problema daquela vez, mas naquela noite o monstro retorna, o triceratopus retorna, está no armário dele, porque mesmo aos qua-tro anos ele compreende que às vezes seu armário não é um armário, que sua porta pode se abrir em diferentes lugares onde há coisas ainda mais brabas esperando.
Ele começa a gritar, à noite ele pode gritar e a sra. Greta Shaw entra no quarto. Senta-se na beira da cama dele, o rosto fantasmagórico com uma lama de beleza cinza-azulada e pergunta qual é o problema ‘Bama e ele é realmente capaz de contar a ela. Nunca podia ter dito ao pai ou a mãe, mesmo que um deles tivesse estado ali, e claro que não estão, mas ele pode contar a sra. Shaw porque embora ela não seja muito dife-rente das outras auxiliares — as baby-sitters estrangeiras, as babás, as moças que an-dam até o colégio — é um pouco diferente, o bastante para pôr seus desenhos na gela-deira com os pequenos ímãs, o bastante para fazer toda a diferença, para sustentar a torre da sanidade de um menininho tolo, digam aleluia, digam achado não perdido, di-gam amém.
Ela escuta tudo que ele tem a dizer, assentiu com a cabeça e o faz repetir tri-CER-a-TOPUS até ele conseguir dizer direito. Dizer direito é melhor. E então ela diz: “Essas coisas já foram reais, mas morreram há cem milhões de anos ‘Bama. Talvez até mais. Então não me chame de novo porque preciso dormir.”
Jake assiste a O Continente Perdido no Filme de Um Milhão de Dóla-res todos os dias daquela semana. Cada vez que assiste a ele, fica com um pouco menos de medo. Um dia, a sra. Greta Shaw entra e vê parte do filme com ele. Depois lhe traz o lanche, com uma boa tigela de Flocos Havaianos (uma também para ela) e canta a maravilhosa musiquinha: “Um lanchinho está frio e não demora, um pouco pra você e um pouco pra mim, geléia de amora e chá de amora.” Não existem amoras nos Flocos Havaianos, é claro, e eles tomam o resto do suco de fruta Welch’s, em vez de chá, para acompanhar, mas a sra. Greta Shaw diz que é o pensamento que conta. Ela o ensinou a dizer um-brinde-à-saúde-de-todos antes de beber e a tilintar os copos. Jake pensa que isto é muito legal, o máximo.
Muito em breve os dinossauros chegam. ‘Bama e a sra. Greta Shaw estão senta-dos lado a lado, comendo Flocos Havaianos e vendo quando um dos grandes (a sra. Greta Shaw diz que aquela espécie é chamada de Tiranorrex sauros) come o explora-dor mau. “Dinossauros de desenho animado”, diz entre duas fungadas a sra. Greta Shaw. “Que pobreza.” Pelo que Jake podia se lembrar, é a crítica de cinema mais bri-lhante que jamais ouviu em sua vida. Brilhante e útil.
Finalmente os pais voltam. Top Hat é agora o filme que é exibido durante uma semana no programa Filme de Um Milhão de Dólares e os terrores noturnos do pequeno Jake não são sequer mencionados. Finalmente ele perde o medo do tricerato-pus e do tiranorrex.
SETE
Agora, deitado na grama verde e alta e observando a clareira enevoada por entre as folhas de uma samambaia, Jake descobriu que certas coisas a pes-soa nunca esquece.
Cuidado com a armação mental, tinha dito Jochabim e, olhando para o desajeitado dinossauro — um triceratopus de desenho animado numa selva real como um sapo imaginário num verdadeiro jardim —, Jake percebeu que era aquilo. Aquela era a armação mental. O triceratopus não era real por mais assustador que fosse seu ronco, por mais que Jake pudesse realmente sentir o cheiro dele — a exuberante vegetação apodrecendo nas dobras macias onde suas pernas curtas encontravam o estômago, a merda embo-lada em sua vasta couraça traseira, o interminável bolo alimentar escorren-do entre a mandíbula ornada de presas — e ouvir a respiração ofegante. Não podia ser real, era um desenho, pelo amor de Deus!
E no entanto sabia que era real o bastante para matá-lo. Se caísse ali, o triceratopus de desenho animado ia despedaçá-lo exatamente como teria despedaçado a Pérola da Casa com as enlouquecedoras te-tas se César Romero não tivesse aparecido a tempo de pôr uma bala no Único Ponto Vulnerável da coisa com seu rifle de grande safári. Jake conseguira se livrar da mão que tentara mexer com os controles do seu motor — batera todas aquelas portas com tanta força que tinha sem dúvida cortado os dedos in-trusos da mão —, mas aquilo era diferente. Não podia fechar os olhos e meramente caminhar; aquele era um verdadeiro monstro que sua mente traidora havia criado e que realmente poderia despedaçá-lo.
Ali não havia nenhum César Romero para impedir que isso aconte-cesse. E nenhum Roland.
Havia apenas os homens baixos, correndo atrás de seu rastro e che-gando sempre mais perto.
Como se para enfatizar este ponto, Oi olhou para trás, para o cami-nho por onde tinham vindo, e latiu uma vez, perfurantemente alto.
O triceratopus ouviu e respondeu com um rugido. Jake achou que Oi ia se encolher contra a sua perna ante a força daquele som, mas Oi continuou a olhar para trás pelo ombro de Jake. Era com os homens baixos que Oi es-tava preocupado, não com o triceratopus abaixo deles ou o Tiranorrex sauros que talvez viesse a seguir, ou...
Porque Oi não o vê, ele pensou.
Ficou mexendo com esta idéia sem conseguir afastá-la. Oi não o chei-rara nem ouvira. A conclusão era inevitável: para Oi o terrível triceratopus na enorme selva lá embaixo não existia.
O que não muda o fato que ele existe para mim. É uma armação que foi deixa-da para mim ou para qualquer outra pessoa equipada com uma imaginação que pudesse acreditar nela. Alguma engenhoca do Povo Antigo, sem dúvida. Muito mau não estar quebrada como a maioria das outras coisas deles, mas não está. Vejo o que vejo e não há nada que eu possa fazer...
Não, espere.
Espere só um segundo.
Jake não sabia até que ponto sua conexão mental com Oi era boa, mas achou que não tardaria a descobrir.
— Oi!
As vozes dos homens baixos estavam agora terrivelmente próximas. Logo veriam o garoto e o trapalhão parados ali e partiriam para o ataque. Oi podia cheirá-los vindo, mas mesmo assim olhava para Jake bastante calmo. Para seu bem-amado Jake, por quem morreria se fosse preciso.
— Oi, pode trocar de lugar comigo?
Oi sem dúvida podia.
OITO
Oi balançava ereto com Ake nos braços, indo de um lado para o outro, horrorizado em descobrir como era estreita a escala de equilíbrio do garo-to. A idéia de andar mesmo uma curta distância apenas em duas pernas era terrivelmente assustadora; isso, contudo, teria de ser feito imediatamente. Foi o que disse Ake.
Por seu lado, Jake sabia que teria de fechar os olhos emprestados pe-los quais estava olhando. Estava na cabeça de Oi mas ainda podia ver o triceratopus; de repente viu também um pterodáctilo cruzando o ar quente so-bre a clareira, as asas rijas estendidas ao máximo para captar as correntes quentes sopradas pelos exaustores de ar.
Oi! Você tem de fazer isto sozinho. E se queremos continuar na frente deles tem de fazer isto agora.
Ake!, Oi respondeu, dando um cauteloso passo à frente. O corpo do garoto oscilava de um lado para o outro, atingindo o limite máximo de e-quilíbrio e quase caindo depois. O corpo bobão de duas pernas de Ake tombava para os lados. Oi tentava salvá-lo e só piorava o movimento, ca-indo pelo lado direito do garoto e batendo nos pêlos da cabeça de Ake.
Oi tentou expressar com um latido sua frustração. O que saiu da boca de Ake foi uma coisa estúpida, que era antes palavra que som:
— Lat! Lat! Porra-lat!
— Estou ouvindo o garoto! — alguém gritou. — Corram! Vamos lá, força nos pés, seus molengas de merda! Antes que o filho-da-puta alcance a porta!
As orelhas de Ake não eram afiadas, mas como as paredes de azulejos amplificavam os sons, isso não era problema. Oi pôde ouvir as pisadas dos homens correndo.
— Você precisa se levantar e seguir! — Jake tentou gritar, mas o que saiu foi uma frase truncada, com algo de latido: — Ake-Ake, affa! Lev e seg! — Sob outras circunstâncias a coisa podia ter sido engraçada, não naquelas.
Oi se levantou pondo as costas de Ake contra a parede e empurrando com as pernas de Ake. Por fim estava entendendo os controles do motor; ficavam num lugar que Ake chamava Dogan e eram razoavelmente simples. À esquerda, um corredor em arco levava a uma sala enorme repleta de um maquinário que brilhava como espelho. Oi sabia que se entrasse naquele lugar (a câmara onde Ake guardava todos os seus maravilhosos pensamen-tos e seu estoque de palavras) ficaria perdido para sempre.
Felizmente não foi preciso entrar. Tudo que queria estava no Dogan. Pé esquerdo... para a frente. (E pausa.) Pé direito... para a frente. (E pausa.) Segurar a coisa que parece um zé-trapalhão mas que é realmente seu amigo e usar o outro braço para equilibrar-se. Resistir ao impulso de cair de qua-tro e rastejar. Os perseguidores vão alcançá-lo se fizer isso; já não consegue sentir o cheiro deles (não com aquele narizinho de nada, impressionante-mente estúpido, de Ake), mas tem certeza disso.
Por seu lado, Jake podia sentir nitidamente o cheiro deles; pelo menos uma dúzia, chegando talvez a 16. Seus corpos eram perfeitos mecanismos de mau cheiro e emitiam o aroma numa nuvem suja que seguia à frente deles. Jake podia cheirar o aspargo que um deles tinha comido no jantar; sentia o aroma carnudo, maléfico, do câncer que se desenvolvia em outro, provavelmente em sua cabeça ou talvez na garganta.
Então ouviu o triceratopus rugir outra vez. Foi respondido pela coisa-pássaro cortando o ar acima dele.
Jake fechou os olhos — bem, os olhos de Oi. No escuro, o movi-mento de um lado para o outro do trapalhão ficou ainda pior. Preocupado, Jake estimou que, se tivesse de continuar suportando aquilo (especialmente de olhos fechados), acabaria vomitando as próprias tripas. Iam chamá-lo de ‘Bama, o Marinheiro com Enjôo.
Vamos, Oi, ele pensou. O mais depressa que puder. Não torne a cair, mas... vá o mais rápido que puder!
NOVE
Se Eddie estivesse ali, talvez se lembrasse da sra. Mislaburski que morava no quarteirão: a sra. Mislaburski em fevereiro, após uma tempestade de neve, quando a calçada estava coberta de gelo e ninguém havia jogado sal ainda. Mas, gelo ou não, ela não se sentiu impedida de comprar a costeleta de sempre ou uma posta de peixe no mercado Castle Avenue (ou de ir à missa dominical, pois a sra. Mislaburski era talvez a católica mais devota da Co-Op City). E assim lá ia ela, pernas grossas e muito abertas, meias Ken-dall cor-de-rosa, um braço agarrando a bolsa contra seu imenso busto, o outro meio estendido para manter o equilíbrio; cabeça baixa, olhos procu-rando as ilhas de cinzas que algum zelador responsável já tivesse espalhado (Jesus e Santa Maria abençoem esses bons homens), também pelos peda-ços traiçoeiros que a derrotariam, que fariam ecoar seu grito e onde seus grandes joelhos cor-de-rosa voariam um para cada lado e então ela acabaria caindo sentada ou talvez de costas, uma mulher podia quebrar a espinha, uma mulher podia ficar paralisada como a pobre filha da sra. Bernstein de-pois do acidente de carro em Mamaroneck, essas coisas aconteciam. E as-sim, ignorando os assobios das crianças (Henry Dean e seu pequeno irmão com freqüência entre elas), ela seguiu seu caminho, cabeça baixa, braço estendido em busca de equilíbrio, a bolsa da vigorosa senhora negra atra-vessada no meio do peito, certa de que, se fosse realmente agarrada por trombadinhas, protegeria custe o que custasse a bolsa e o que ela continha; cairia sobre ela como Joe Namath caindo sobre a bola de futebol após um ataque.
Assim, Oi do Mundo Médio conduziu o corpo de Jake por uma ex-tensão de corredor subterrâneo que pareceu (pelo menos a ele) muito pa-recida com todo o resto. A única diferença que conseguiu notar foram os três buracos de cada lado, com grandes olhos de vidro olhando para eles, olhos que produziam um zumbido baixo e contínuo.
Em seus braços havia algo parecido com um trapalhão, os olhos fe-chados, muito apertados. Se estivessem abertos, Jake poderia ter identifica-do aquelas coisas como dispositivos de projeção. Ou mais provavelmente nem as teria visto.
Caminhando devagar (Oi sabia que os outros se aproximavam, mas também sabia que caminhar devagar era melhor do que cair), pernas espar-ramadas, avançando de forma arrastada, levando Ake enroscado em seu peito exatamente como a sra. Mislaburski carregava sua bolsa naqueles dias de neve, ele foi passando pelos olhos de vidro. O zumbido foi sumindo. Já estava longe o suficiente? Esperava que sim. Andar como um ser humano era de fato muito difícil, deixava seus nervos em frangalhos. Assim como ficar perto de toda a maquinaria pensante de Ake. Sentiu uma enorme von-tade de se virar e olhar — olhar para aquelas brilhantes superfícies espe-lhadas! —, mas não o fez. Olhar podia muito bem resultar em hipnose. Ou em alguma coisa pior.
Parou.
— Jake! Olhe! Veja!
Jake tentou responder tudo bem, mas em vez disso latiu. Muito engra-çado. Ele abriu cuidadosamente os olhos e viu paredes azulejadas dos dois lados. Mato e pequenos pés de samambaia ainda cresciam na frente delas, é verdade, mas o forte era o azulejo. Era um corredor. Olhou para trás e viu a clareira. O triceratopus os esquecera. Estava envolvido numa batalha de morte com o Tiranorrex, uma cena do Continente Perdido de que Jake se lem-brava com absoluta clareza. A moça com as enlouquecedoras te-tas tinha assistido à batalha na segurança dos braços de César Romero e, quando o Tiranorrex de desenho animado cravou sua enorme boca na cara do tricera-topus numa mordida fatal, a moça enterrara o rosto no peito másculo de César Romero.
— Oi! — Jake latiu, mas latir era pouco convincente e ele então resolveu pensar.
Torne a trocar comigo!
Oi estava ávido para obedecer — nunca quisera tanto uma coisa —, mas antes que pudessem efetuar a alteração, seus perseguidores tiveram a primeira visão dos dois.
— Ihhh! — gritou o que tinha sotaque de Boston (fora ele quem pro-clamara que o padreco era jantar). — Ihhh taum eles! Peguem! Atirem!
E enquanto Jake e Oi mandavam as mentes de volta aos respectivos corpos, as primeiras balas começaram a cortar o ar em volta deles como dedos estalando.
DEZ
O sujeito que liderava os perseguidores era um homem chamado Flaherty. Dos 17, era o único humano. Os demais, salvo um, eram homens baixos e vampiros. A exceção era um taheen com a cabeça de um furão inteligente e um par de enormes pernas peludas saindo de bermudas. Embaixo das per-nas havia pés estreitos que terminavam em espinhos brutalmente afiados. Um único chute de um dos pés de Lamla poderia cortar um homem ple-namente adulto em duas partes.
Flaherty — criado em Boston, pelos últimos vinte anos um dos ho-mens do Rei em umas vinte Nova Yorks de fins do século XX — tinha reunido seu pelotão com a maior rapidez, na mais enervante agonia de me-do e fúria. Nada entra no Pig. Fora isso que Sayre havia dito a Meiman. Qualquer coisa que conseguisse entrar não devia, em hipótese alguma, conse-guir sair. Isso valia em dobro para o pistoleiro ou qualquer membro de seu ka-tet. Suas intromissões tinham há muito ultrapassado o estágio da mera irritação e ninguém precisava ser da elite para saber disso. Mas agora Mei-man, chamado de Canário por seus poucos amigos, estava morto e o garo-to tinha de alguma forma conseguido passar adiante. Um garoto, pelo amor de Deus! A porra de um garoto! Mas como iam saber que os dois tinham um totem tão poderoso quanto aquela tartaruga? Se a maldita coisa não tivesse rolado por acaso para baixo de uma das mesas, talvez ainda estives-sem paralisados no salão.
Flaherty sabia que isso era verdade, mas também sabia que Sayre ja-mais aceitaria este fato como argumento válido. Nem mesmo daria a ele, Flaherty, a chance de defender-se. Não, ele estaria morto muito antes dis-so, e os outros também. Esparramados no chão com os insetos-médicos se empanturrando do sangue deles.
Era fácil dizer que o garoto seria detido na porta, que não ia saber — não poderia saber — de nenhuma da frases de autorização que a abriam, mas Flaherty não confiava mais nessas certezas, por mais tentadoras que pudessem ser. Todas as apostas estavam suspensas e Flaherty experimen-tou uma poderosa sensação de alívio quando viu o garoto e seu pequeno companheiro peludo parados à frente. Muitos elementos do grupo atira-ram, mas não acertaram. Flaherty não estava espantado. Havia uma espécie de área verde entre eles e o garoto, que parecia uma porra de trecho de sel-va sob a cidade, e uma névoa estava se erguendo, tornando difícil fazer pontaria. Fora uma espécie de ridículos desenhos de dinossauros! Um deles ergueu a cabeça manchada de sangue e roncou para eles, mantendo as pe-quenas patas dianteiras contra o peito escamoso.
Parece um dragão, Flaherty pensou, e diante de seus olhos o dinossauro de desenho animado virou um dragão. Rugiu e jorrou um jato de fogo que colocou em chamas várias trepadeiras e um tapete de musgo. Enquanto isso o garoto entrara de novo em movimento.
Lamla, o taheen com cabeça de furão, forçou caminho para a frente e levou à testa um punho peludo. Flaherty retornou o cumprimento com impaciência.
— Que tem ali embaixo, Lam? Você sabe?
O próprio Flaherty jamais estivera embaixo do Pig. Quando viajava a negócios, era sempre entre Nova Yorks, o que significava usar ou a porta na rua 47, entre a Primeira e a Segunda avenidas, ou a que ficava no depó-sito sempre vazio da rua Bleecker (em alguns mundos o depósito era um prédio eternamente construído pela metade) ou a porta na subida da rua 94 (esta última ficava fora de serviço boa parte do tempo e ninguém, é claro, sabia consertá-la). Havia outras portas na cidade — Nova York estava en-tulhada de portais para outros ondes e quandos —, mas aqueles eram os úni-cos que ainda funcionavam.
E havia o portal de Fedic, é claro. Aquele bem à frente.
— Um construtor de miragem — disse a coisa-furão. A voz estava melosa, rouca e muito diferente de uma voz humana. — A máquina pesca o que você tem medo e transforma em coisa real. Sayre deve ter ligado a coisa quando ele e seu tet passaram com a garota de pele negra. Para de-fender a retaguarda, você entende.
Flaherty abanou a cabeça. Uma armadilha mental. Muito esperto. Mas até que ponto a coisa era realmente boa? De alguma forma a maldita porra do garoto tinha passado, não era?
— O que o garoto viu se transformará no que nós tememos — disse o taheen. — Funciona à base da imaginação.
Imaginação. Flaherty se agarrou à palavra.
— Ótimo. Seja o que for que vejam lá embaixo, peça que apenas ig-norem.
Ergueu um braço para fazer os homens avançarem, grandemente ali-viado pelo que Lam tinha dito. Tinham de apertar a caçada, não é? Sayre (ou Walter das Sombras, que era ainda pior) muito provavelmente mataria todos eles se não conseguissem deter aquele melequento bebê. Mas Fla-herty tinha realmente medo da imagem de dragões, isso era outro detalhe; tinha medo desde que o pai lera para ele uma história de dragões quando era criança.
O taheen parou na sua frente antes que pudesse completar o gesto de vamos.
— O que foi agora, Lam? — Flaherty rosnou.
— Não está entendendo. O que está ali é suficientemente real para matá-lo. Para matar a todos nós.
— Mas o que você está vendo? — Não era hora de ser curioso, mas essa sempre fora a maldição de Conor Flaherty.
Lamla baixou a cabeça.
— Prefiro não dizer. É bastante mau. O que importa, sai, é que va-mos morrer se não tivermos cuidado. O que vier a acontecer vai ficar pare-cendo para um contador de corpos uma parada respiratória, um ataque do coração ou um colapso qualquer, mas terá sido provocado pelo que virmos lá embaixo. Quem acha que a imaginação não pode matar é um bobo.
Os demais já tinham se agrupado atrás do taheen. Alternavam olhade-las para a clareira enevoada com olhadas para Lamla. Flaherty não gostou nem um pouco do que viu em seus rostos. Matar um ou dois daqueles me-nos dispostos a disfarçar a angústia nos olhos poderia restaurar o entusi-asmo dos demais, mas de que isto ia servir se Lamla tivesse razão? Maldi-tos velhacos, sempre deixando os brinquedos para trás! Brinquedos perigo-sos! Como eles complicavam a vida de um homem! Uma praga a cada um!
— Então como vamos passar? — Flaherty gritou. — E vamos lá, como o pirralho passou?
— Sobre o pirralho não sei — disse Lamla —, mas nós só precisamos atirar nos projetores.
— Que porra de projetores são esses?
Lamla apontou para baixo... ou ao longo do corredor, se era verdade o que o puto feioso havia dito.
— Ali — disse Lam. — Sei que não pode vê-los, mas aceite minha palavra, estão lá. De um lado e de outro.
Com um certo fascínio, Flaherty contemplava a clareira na selva ene-voada de Jake, que continuava, diante de seus olhos, a se transformar numa densa e escura floresta, como em... Era uma vez, quando todo mundo morava na densa floresta negra e ninguém morava em nenhum outro lugar, um dragão veio destru-ir...
Flaherty não sabia o que Lamla e os demais estavam vendo, mas dian-te de seus olhos o dragão (que não muito tempo atrás fora um Tiranorrex sauro) obedientemente atacou, incendiando as árvores e procurando rapazi-nhos católicos para comer.
— Não estou vendo NADA! — ele gritou para Lamla. — Acho que você está fora da porra de seu JUÍZO perfeito!
— Já vi os projetores desligarem — disse Lamla em voz baixa — e posso fazer uma idéia de onde eles se encontram. Se deixar trazer quatro homens e botá-los a atirar em cada lado, acho que não vamos demorar muito para apagá-los de vez.
E o que Sayre vai dizer quando eu contar a ele que liquidamos com sua preciosa armadilha mental?, Flaherty podia ter dito. O que, por favor me digam, Walter das Sombras vai achar? Porque o que está arruinado jamais pode se consertar, não por gente como nós, que sabemos esfregar duas varas e fazer fogo, mas não muito mais isso.
É o que podia ter falado, mas não falou. Porque pegar o garoto era mais importante que qualquer velha engenhoca do Povo Antigo, mesmo uma tão incrível como aquela armadilha mental. E foi Sayre quem a colo-cara funcionando, não foi? Claro que sim! Se houvesse explicações a dar, que isto ficasse por conta de Sayre! Que ele se ajoelhasse diante dos figura-ços e falasse até ser silenciado! uma continuação do corredor azulejado com o rastro de poeira dos que tinham recentemente passado por ali. De um lado e de outro, viam-se as lentes despedaçadas dos projetores.
E nesse meio-tempo, o garotinho sórdido, amaldiçoado pelos deuses, ia recuperando a vantagem que Flaherty (com visões de ser glorificado por partir de forma tão decidida contra o inimigo) e seus homens tinham tão drasticamente reduzido. Se ao menos um deles tivesse tido a sorte de acer-tar o garoto quando ele e o amiguinho peludo foram avistados! Ah, faz um desejo em uma mão, caga na outra! Veja qual enche primeiro.
— Tragam nossos melhores atiradores — disse Flaherty com seu so-taque Back Bay∗/ John F. Kennedy. — Façam isso.
Lamla ordenou que três homens baixos e um dos vampiros avanças-sem, pôs dois de cada lado e falou rapidamente com eles em outra língua. Flaherty achou que alguns deles já tinham estado lá e, como Lam, não teri-am esquecido os projetores escondidos nas paredes.
Enquanto isso, o dragão de Flaherty — ou mais propriamente falan-do, o dragão de seu papai — continuava a incursão na densa e escura flo-resta (a selva anterior desaparecera por completo) e punha fogo nas coisas.
Por fim — embora parecesse um tempo muito longo a Flaherty, pro-vavelmente teriam se passado menos de trinta segundos — franco-atiradores começaram a atirar. Quase de imediato a floresta e o dragão es-maeceram diante dos olhos de Flaherty, transformando-se em algo que parecia filme fotográfico superexposto.
— Lá está um deles, caras! — Lamla gritou numa voz que se tornava de-sagradavelmente ovina quando se elevava. — Acertem! Acertem pelo amor de seus pais!
Metade do grupo de homens de Lamla provavelmente jamais tivera tal coisa, Fla-herty pensou triste. Então veio o barulho bem nítido de vidro estilhaçado e o dragão ficou congelado no lugar com ondas de chama saindo da boca, das narinas e das guelras nos lados encouraçados da garganta.
Encorajados, os franco-atiradores começaram a disparar mais depres-sa e, poucos momentos depois, tanto a clareira quanto o dragão paralisado desapareceram por completo. Onde eles haviam estado sobrara apenas
* Bairro de Boston. (N. da E.)
— Tudo bem! — Flaherty gritou após transmitir a Lamla um aceno de aprovação. — Vamos atrás do garoto, agora duas vezes mais rápido, e vamos pegá-lo. Vamos trazê-lo com a cabeça numa estaca! Estão comigo?
Rosnaram um acordo selvagem, nenhum rosnado mais alto que o de Lamla, cujos olhos mostravam o mesmo e funesto brilho amarelo-alaranjado da respiração do dragão.
— Bom, então! — Flaherty se afastou resmungando uma cantoria que qualquer turma de ordem unida da marinha teria reconhecido: Não importa até onde você corra...
— NÃO IMPORTA ATÉ ONDE VOCÊ CORRA! — gritaram de vol-ta enquanto aceleravam ombro a ombro, cruzando o lugar onde estivera a selva de Jake. Os pés faziam barulho ao esmagar os estilhaços de vidro.
— Vamos trazê-lo de volta antes do fim do dia!
— VAMOS TRAZÊ-LO DE VOLTA ANTES DO FIM DO DIA!
— Pode correr pra Lud ou Cain...
— PODE CORRER PRA LUD OU CAIN!
— Vamos te comer as bolas e beber teu sangue!
Eles gritavam sempre em retorno, e Flaherty foi acelerando um pou-co mais.
ONZE
Jake ouviu-os chegando de novo, venha-venha-commala. Ouviu-os prome-tendo comer suas bolas e beber seu sangue.
Bravata, bravata, bravata, ele pensou, mas mesmo assim tentou correr mais rápido. Ficou assustado ao descobrir que não podia. Fazer a troca mental com Oi o deixara cansado além da conta...
Não.
Roland lhe ensinara que a auto-ilusão não passava de orgulho disfar-çado, uma indulgência a ser negada. Jake se esforçara ao máximo para se-guir este conselho, e o resultado era que “estar cansado” não parecia mais descrever sua situação. A pontada do lado ganhara dentes, que tinham mergulhado a fundo na axila. Jake sabia que levava vantagem sobre seus perseguidores; também sabia dos gritos em cadência de marcha que com-pensaram a distância que haviam perdido. Logo estariam atirando nele e também em Oi e, embora ninguém conseguisse ter boa pontaria enquanto estivesse correndo, era sempre possível que alguém desse sorte.
Agora via alguma coisa à frente, bloqueando o corredor. Uma porta. E enquanto se aproximava, Jake se permitiu perguntar o que faria se Su-sannah não estivesse do outro lado. Ou se estivesse mas não soubesse co-mo ajudá-lo.
Bem, ele e Oi iriam batalhar, só isso. Sem cobertura, sem possibilida-de de reencenar o Passo das Termópilas desta vez, mas atiraria pratos e cortaria cabeças até ser abatido.
Se fosse preciso, é claro.
Talvez não fosse.
Jake avançou determinado em direção à porta, a respiração agora quente na garganta — quase queimando — e pensou: Tinha de ser assim. Sem dúvida eu não ia agüentar correr por muito mais tempo.
Oi chegou primeiro. Pôs as patas da frente na madeira reciclada e er-gueu os olhos como se estivesse vendo as palavras estampadas na porta e lendo a mensagem piscando embaixo delas. Então se virou para Jake, que vinha arfando com uma das mãos pressionada contra a axila e os Orizas restantes tilintando alto ao baterem de um lado para o outro na bolsa.
N O RT H C EN TRAL PO SI TRO N I C S, LTD A.
N o va Y o rk/F ed i c
SEG U RAN Ç A M ÁXI M A
EN TRAD A VERBAL C Ó D I G O REQ U ERI D O
#9 PAD RÃO FI N AL
Mexeu na maçaneta, mas foi apenas uma formalidade. Quando o me-tal gelado se recusou a obedecer a seu aperto e girar, Jake nem se preocu-pou em tentar outra vez. Em vez disso, bateu com as costas de ambas as mãos na madeira:
— Susannah! — gritou. — Se está aí, me deixe entrar!
Você pode soprar e bufar, mas aqui não vai entrar, ouviu o pai dizer, e ouviu também a mãe, num tom muito mais grave, como se ela soubesse que con-tar uma história era assunto sério: I heard a fly buzz... when I died.
De trás da porta não vinha nada. Atrás de Jake, as vozes que cantaro-lavam no pelotão do Rei Rubro chegavam mais perto.
— Susannah! — ele berrou, e quando desta vez não houve resposta ele se virou, apoiou as costas na porta (afinal não soubera sempre que acabaria daquele jeito, encurralado diante de uma porta trancada?) e segurou um Oriza em cada mão. Oi permanecia entre seus pés, o pêlo arrepiado, a pele aveludada do focinho se contraindo para mostrar os dentes.
Jake cruzou os braços, assumindo a postura de “carga”.
— Venham então, seus putos! — disse ele. — Para Gilead e o Eld. Para Roland, filho de Steven. Para mim e Oi!
A princípio continuou febrilmente concentrado em morrer bem, le-vando pelo menos um deles consigo (o sujeito que disse que o Père era jantar seria sua preferência pessoal) e mais de um se conseguisse. Então percebeu que estava escutando uma voz vinda do outro lado da porta, não de sua própria mente.
— Jake! É você mesmo, docinho?
Seus olhos se arregalaram. Oh, por favor, que aquilo não fosse um truque. Se fosse, Jake achava que jamais veria outro.
— Susannah, eles estão vindo! Você sabe como...
— Sim! Ainda deve ser chassit, está me ouvindo? Se Nigel estiver cer-to, a palavra ainda deve ser cha...
Jake não lhe deu oportunidade para acabar de repeti-la. Agora podia ver o regimento acercando-se dele, correndo a pleno vapor. Alguns brandi-am revólveres e já atiravam para o alto.
— Chassit! — ele berrou. — Chassit pela Torre! Abra! Abra, sua filha-da-puta!
Atrás de suas costas, a porta entre Nova York e Fedic estalou e abriu. E Flaherty, à frente da força atacante, viu aquilo acontecer, soltou o pior palavrão de seu léxico e disparou uma bala. Ele tinha boa pontaria e toda a força da vontade nada desprezível de Flaherty acompanhou o disparo, ten-tando guiá-lo. Sem dúvida a bala teria perfurado a testa de Jake acima do olho esquerdo, entrando em seu cérebro e dando fim à sua vida, se, neste exato momento, uma forte mão de dedos marrons não o tivesse pegado pelo colarinho e o puxado para trás através do agudo zumbido de poço de elevador que soa interminavelmente entre os níveis da Torre Negra. A bala passou raspando pela cabeça de Jake, mas nela não entrou.
Oi foi junto, latindo com estridência o nome do amigo (Ake-Ake, Ake-Ake!), e a porta bateu atrás deles. Flaherty alcançou-a vinte segundos depois e esmurrou-a até os punhos ficarem sangrando (quando Lamla ten-tou contê-lo, Flaherty o empurrou com tanta ferocidade que o taheen se estatelou no chão), mas não havia nada que pudesse fazer. Dar murros não adiantava; dizer palavrões não adiantava; nada adiantava mais.
No último exato minuto, o garoto e o trapalhão tinham passado a perna neles. E por um tempinho a mais, o coração do ka-tet de Roland permaneceu intacto.