A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 6 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Sete

O modo de levar a coisa, ambos concordavam, era contar a John Cullum tanto da história dos dois quanto achassem que a credulidade (e sanidade) do homem podia suportar. Então, se tudo corresse bem, iam passar-lhe o importantíssimo recibo de compra e venda e mandar que procurasse Aa-ron Deepneau. Com ordens estritas para que falasse a Deepneau em parti-cular, longe do não inteiramente confiável Calvin Tower.

— Cullum e Deepneau podem trabalhar em conjunto para encontrar Moses Carver — disse Eddie —, e acho que posso dar a Cullum suficiente informação sobre Suze... coisas particulares... para convencer Carver de que ela ainda está viva. Depois disso, porém... bem, tudo depende do grau de convencimento que os dois consigam. E da vontade deles de trabalhar para a Tet Corporation em seus últimos anos de vida. Ei, eles podem nos surpreender! Não consigo ver Cullum de terno e gravata, mas viajar pelo país metendo o bedelho nos negócios da Sombra? — Inclinou a cabeça e refletiu, daí sorriu com convicção. — É. Posso ver isso muito bem.

— O padrinho de Susannah é capaz de ser outro velho meio esquisi-tão — Roland observou. — Só de uma cor diferente. Caras como eles fre-qüentemente falam a mesma língua quando estão an-tet. E talvez eu possa dar a John Cullum alguma coisa que ajudará a convencer Carver a se juntar a nós.

— Um sigul?

— Sim.

— De que tipo? — Eddie estava intrigado.

Mas, antes que Roland pudesse responder, viram uma coisa que fez Eddie socar o pedal do freio. Estavam em Lovell agora, e na rota 7. A fren-te deles, andando sem firmeza ao longo do acostamento havia um homem velho, o cabelo branco emaranhado, espigado. Usava uma roupa tosca, o tecido sujo, algo que de nenhuma forma poderia ser chamado de manto. Os braços e pernas esquálidos estavam marcados de arranhões. Também tinham feridas, numa vermelhidão mortiça. Os pés estavam descalços e, em vez de dedos, eram equipados com garras amarelas, feias, de aspecto perigoso. Preso debaixo de um dos braços ia um objeto de madeira, lasca-do, parecendo uma lira quebrada. Eddie achou que ninguém podia parecer mais deslocado naquela estrada, onde os únicos pedestres que até então tinham visto eram corredores de ar sério, obviamente moradores “de fo-ra”, parecendo sempre muito distintos nas bermudas de náilon para coo-per, chapéus de beisebol e camisetas (a camiseta de um deles trazia a inscri-ção NÃO ATIRE NOS TURISTAS).

A coisa que caminhava penosamente pelo acostamento da rota 7 se virou para eles, e Eddie deixou escapar um involuntário grito de horror. Os olhos se uniam sobre a ponte do nariz, lembrando um ovo de gema dupla numa frigideira. Um canino pendia de uma narina como uma meleca de osso. De alguma forma, no entanto, o pior de tudo era o mortiço brilho esverdeado que se irradiava da face da criatura. Era como se tivessem pas-sado alguma pasta rala e fosforescente na pele.

A coisa os viu e imediatamente correu para a mata, deixando cair a li-ra lascada.

— Cristo! — Eddie gritou. Se aquilo fosse um aparecido, esperava ja-mais se encontrar com outro.

— Pare, Eddie! — Roland gritou, se apoiando com a palma de uma das mãos contra o painel quando o velho Ford de Cullum guinou para o lado levantando poeira e parou no ponto onde a coisa desaparecera. — Abra o porão de trás — disse Roland, abrindo a porta do seu lado. — Pe-gue meu fazedor de viúva.

— Roland, estamos com uma certa pressa e a Via do Casco da Tarta-ruga ainda está a 5 quilômetros daqui. Realmente acho que devíamos...

— Cale sua boca de tolo e vá pegar a coisa! — Roland berrou, correndo pa-ra a orla da mata. Respirou fundo e, quando gritou para a tosca criatura, seu tom fez um arrepio subir pelos braços de Eddie. Só ouvira Roland falar assim uma ou duas vezes, mas no meio-tempo fora fácil esquecer que o sangue de um rei corria nas veias dele.

Roland falou várias frases que Eddie não compreendeu, mas enten-deu uma delas:

— Então apareça, Filho de Roderick, criança mimada e perdida, e curve sua cabeça diante de mim, Roland, filho de Steven, da Linhagem do Eld!

Por um momento nada aconteceu. Eddie abriu a mala do Ford e en-tregou o revólver a Roland. Roland o colocou na cintura sem olhar uma só vez para Eddie, muito menos lhe dispensar alguma palavra de agradeci-mento.

Decorreram talvez uns trinta segundos. Eddie abriu a boca para falar. Antes que pudesse, a barrenta folhagem na margem da estrada começou a se agitar. Daí a um momento, a coisa bizarra reapareceu. Cambaleava de cabeça baixa. Na frente de seu manto havia uma grande área molhada. Ed-die pôde sentir o fedor da urina daquela coisa tão mórbida, um cheiro ás-pero e muito forte.

Então a criatura arriou um joelho e levou a mão deformada até a tes-ta, um resignado gesto de fidelidade que deixou Eddie com vontade de chorar.

— Salve, Roland de Gilead, Roland do Eld! Quer me mostrar algum sigul, meu caro?

Numa cidade chamada River Crossing, uma velha mulher que se chamava tia Talitha dera a Roland uma cruz de prata num fino colar de prata. Desde então ele a usava no pescoço. Ele pôs a mão dentro da camisa e mostrou a cruz para a criatura que se ajoelhava (um Vago Mutante mor-rendo das seqüelas da radiação, Eddie estava bem certo), e a coisa deu um entrecortado grito de admiração.

— Gostaria de encontrar a paz no fim de seu trajeto, Filho de Rode-rick? Gostaria de encontrar a paz da clareira?

— Ié, meu caro — disse a coisa soluçando e logo acrescentando um monte de outras palavras. Um tom de algaravia que Eddie não foi capaz de entender. Ele olhava para ambos os lados da rota 7, esperando ver carros passando (afinal, estavam no apogeu do verão), mas nada viu em qualquer direção. Ao menos por ora continuavam a ter sorte.

— Quantos de vocês existem por aqui? — Roland perguntou, inter-rompendo o penado, puxando o revólver e erguendo a velha e fatal enge-nhoca até apoiá-la na camisa.

O Filho de Roderick atirou a mão para o horizonte sem erguer os o-lhos.

— Para lá, pistoleiro — disse ele —, pois aqui os bosques são ralos, digo anro con fa; sei-sei desene fanno bilhete cober can. Eu Chevin devar dan do. Por-que sinto tristeza por eles. Can-toi, can-tah, can Discórdia, aven la cam mah can. Mai-mi? Iffin lah vainen, eth...

— Quantos dan devar?

Ele pensou sobre a pergunta de Roland, depois estendeu os dedos (havia dez dedos, Eddie reparou) cinco vezes. Cinqüenta. Embora Eddie não soubesse cinqüenta de quê.

— E Discórdia? — Roland perguntou num tom vigoroso. — Disse realmente isso?

— Oh, ié, foi o que eu disse, Chevin de Chayven, filho de Hamil, menestrel das Campinas do Sul que foram um dia meu lar.

— Diga o nome da cidade que fica perto do Castelo Discórdia e eu o libertarei.

— Ah, pistoleiro, todos ali estão mortos.

— Acho que não. Diga.

— Fedic! — gritou Chevin de Chayven, um músico errante que jamais teria suspeitado que sua vida acabaria num lugar tão estranho e distante... não nas campinas do Mundo Médio, mas nas montanhas do Maine ociden-tal. Subitamente ele ergueu o rosto horrendo e brilhante para Roland. A-bria bem os braços, como alguém que tivesse sido crucificado. — Fedic na extremidade de Trovoada, no Caminho do Feixe Luminoso! Em Shardik V, em Ma-turin V, na estrada para a Torre N...

O revólver de Roland detonou uma única vez. A bala acertou a coisa ajoelhada no centro da testa, completando a ruína da face já arruinada. Quando a criatura voou para trás, Eddie viu sua carne se transformar numa fumaça esverdeada tão efêmera quanto as asas de um vespão. Por um mo-mento Eddie viu os dentes de Chevin de Chayven flutuarem como um fan-tasmagórico anel de coral, mas logo eles desapareceram.

Roland voltou a pôr o revólver no coldre, depois esticou os dois de-dos que sobravam em sua mão direita e virou-os para baixo na frente do rosto, um gesto de bênção, Eddie não teve nenhuma dúvida.

— Tenha a paz — disse Roland. Então desafivelou o cinturão e no-vamente começou a enrolar a arma nele.

— Roland, isso era... era um vago mutante?

— Sim, acho que o chamaria assim, pobre coitado. Mas os Rodericks são de além de quaisquer terras que eu já tenha conhecido, embora antes de o mundo seguir adiante tenham jurado fidelidade a Arthur Eld. — Ele se virou para Eddie, os olhos azuis queimando no rosto cansado. — Fedic é o lugar para onde Mia foi para ter o bebê, não tenho dúvida. Para onde levou Susannah. Junto ao último castelo. Teremos de acabar voltando a Trovoada, mas é para Fedic que devemos ir primeiro. É bom saber.

— Ele disse que sentia tristeza por alguém. Quem?

Roland só balançou a cabeça, sem responder à pergunta de Eddie. Um caminhão da Coca-Cola passou com estrondo e, para os lados do oes-te, ecoou um trovão.

— Fedic da Discórdia — o pistoleiro murmurou. — Fedic da Morte Rubra. Se conseguirmos salvar Susannah... e Jake... voltaremos para as Cal-las. Mas retornaremos quando nosso assunto aqui estiver resolvido. E quando virarmos de novo para sudeste...

— O quê? — Eddie perguntou nervoso. — O que vai acontecer, Ro-land?

— Aí não haverá mais parada até atingirmos a Torre. — Ele estendeu as mãos, viu-as tremer ligeiramente, e ergueu os olhos para Eddie. O rosto mostrava cansaço, mas nenhum medo. — Nunca estive tão perto. Ouço todos os meus amigos perdidos e seus pais perdidos murmurando para mim. Murmuram junto ao próprio respirar da Torre.

Eddie ficou um minuto observando Roland, fascinado e assustado, e então quebrou o clima com um esforço quase físico.

— Bem — disse ele, recuando para a porta do motorista do Ford —, se alguma dessas vozes lhe disser como falar com Cullum... qual seria o melhor meio de convencê-lo a fazer o que queremos... não deixe de me informar.

Eddie entrou no carro e fechou a porta antes que Roland pudesse responder. Mentalmente, continuou vendo Roland apontando o grande revólver. Viu-o fazer mira contra a figura ajoelhada e apertar o gatilho. A-quele era o homem que chamava ao mesmo tempo de dinh e amigo. Mas quem podia garantir, com qualquer grau de precisão, que Roland não faria a mesma coisa com ele... ou Suze... ou Jake... se acreditasse de coração que isso o colocaria mais próximo de sua Torre? Ninguém podia. E no entanto continuaria com ele. Teria continuado mesmo se estivesse convencido — oh, que Deus não permita! — de que Susannah morrera. Porque tinha de continuar. Porque Roland tinha se tornado muito mais que um mero dinh ou amigo.

— Meu pai — Eddie murmurou a meia-voz pouco antes de Roland abrir a porta do carona e entrar.

— Falou alguma coisa, Eddie? — Roland perguntou.

— Sim — disse Eddie. — “Rodamos um pouco mais.” Foi o que eu disse.

Roland abanou a cabeça. Eddie engatou a primeira marcha e pôs o Ford rolando para a Via do Casco da Tartaruga. Ainda ao longe — mas um pouco mais perto que antes — ecoou de novo o trovão.