A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 17 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Seis

O homem fora quase-imortal (uma expressão pelo menos tão tola quanto “extremamente singular”) e deu uma lendária refeição. Após se empantur-rar ao máximo, o primeiro impulso de Mordred — forte mas não de todo insuperável — foi vomitar. Ele se controlou, como controlou seu outro desejo, que era ainda mais forte: retomar sua identidade de bebê e dormir.

Se queria encontrar a porta da qual Walter havia falado, aquele era o momento para fazer a coisa e numa forma que lhe permitisse correr a uma grande velocidade: a forma da aranha. Assim, passando sem um olhar pelo cadáver dissecado, Mordred avançou entorpecido pelo alçapão, descendo os degraus e entrando num corredor abaixo. A passagem tinha um forte cheiro de álcalis e parecia ter sido aberta na própria rocha do deserto.

Todo o conhecimento de Walter — pelo menos mil e quinhentos a-nos dele — berravam em seu cérebro.

O rastro do homem das sombras acabou levando a um elevador. Quando uma garra arrepiada apertou o botão SUBIR, o único efeito foi um rumor cansado vindo muito de cima e um cheiro de couro de sapato sendo frito vindo dos fundos do painel de controle. Mordred, então, subiu pela parede interior do carro, empurrou a escotilha de manutenção com uma perna delgada e se espremeu por ela. Que tivesse de se espremer não o espantou; estava maior agora.

Subiu pelo cabo

(a pequena aranha pela mangueira d’água subindo)

até chegar à porta onde, pelo que diziam seus sentidos, Walter tomara o elevador, e daí levado na sua última descida. Vinte minutos mais tarde (e ainda enegrecido por todo aquele maravilhoso sangue; galões da coisa, ao que parecia), chegou a um lugar onde o rastro de Walter se bifurcava. A-quilo podia tê-lo confundido, pois no fundo ainda era uma criança, mas ali o odor e a percepção da presença de outros juntaram-se ao rastro de Wal-ter. Mordred seguiu por aquele caminho, já agora mais preocupado com Roland e seu ka-tet que com as meras pegadas do mago. Walter devia tê-los seguido por algum tempo e depois feito a volta para encontrar Mor-dred. Para encontrar seu destino.

Vinte minutos depois, o carinha chegou a uma porta onde não havia palavra alguma, só um sigul que ele pôde entender com facilidade:

 

A dúvida era se devia abri-la de imediato ou esperar. A impaciência infantil clamava pela primeira hipótese, a prudência em formação pela se-gunda. Tinha se alimentado bem e não precisaria de mais alimento, princi-palmente se retornasse por algum tempo à forma humana. Além disso, Ro-land e seus amigos podiam estar ainda do outro lado daquela porta. E se realmente estivessem e sacassem as armas ao vê-lo? Eram diabolicamente rápidos e ele poderia ser morto pelos tiros.

Podia esperar; não sentia qualquer necessidade mais profunda, apesar da avidez da criança que queria tudo e queria já. Certamente não experi-mentava a vigorosa intensidade do ódio de Walter. Suas sensações eram mais complexas, tingidas pela tristeza, pela solidão e — sim, era melhor admitir isso — pelo amor. Mordred sentiu que queria desfrutar por algum tempo esta melancolia. Haveria bastante comida do outro lado daquela porta, tinha certeza disso. Ia comer e crescer. E ficar de olho. Ia vigiar seu pai, sua mãe-irmã e seus irmãos em ka, Eddie e Jake. Ia observá-los acam-pando à noite, acendendo suas fogueiras e formando seu círculo em volta delas. Ia vigiá-los de fora, que era seu lugar. Talvez percebessem sua presen-ça e olhassem inquietos na escuridão, se perguntando o que havia lá fora.

Aproximou-se da porta, ergueu-se diante dela e tocou-a indagadora-mente com uma das patas. Pena, sem dúvida, não haver um olho mágico. E quem sabe não seria mais seguro atravessar agora. O que Walter havia dito? Que o ka-tet de Roland pretendia soltar os Sapadores, quem quer que eles pudessem ser (isso estava na mente de Walter, mas Mordred não se preocupara em procurar).

Encontrarão muita coisa de que se ocupar no ponto mesmo onde saíram... Podem achar a recepção um pouco quente!

Será que Roland e seus filhos tinham sido mortos do outro lado? Emboscados? Mordred acreditava que saberia se isso tivesse acontecido. Teria sentido a coisa na mente, como um Feixemoto.

De qualquer modo, esperaria um pouco antes de se introduzir pela porta com o sigul da nuvem e do raio. E quando tivesse atravessado? Ora, ia encontrá-los. E ouvir alguma coisa da palestra deles. E observá-los, tanto acordados quanto dormindo. Mais que tudo, observaria aquele que Walter tinha chamado seu Pai Branco. Agora seu único verdadeiro pai, se Walter estivesse certo sobre o Rei Rubro ter ficado insano.

E no momento?

Agora posso dormir um pouquinho.

A aranha subiu pela parede daquele cômodo, que estava cheio de grandes objetos pendurados, e fiou uma teia. Mas foi o bebê — nu, e agora parecendo já ter um ano de idade — que dormiu nela, cabeça para baixo, o corpo bem acima de quaisquer predadores que pudessem ir caçar por ali.