A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo III · O Rei Rubro e a Torre Negra
UM
Tanto a estrada quanto a história têm sido longas, você não concordaria? A viagem tem sido longa e o custo tem sido alto... mas nunca uma coisa grande foi alcançada com facilidade. Uma longa história, como uma Torre alta, tem de ser construída pedra por pedra. Agora, porém, quando chega-mos mais perto do fim, é preciso observar aqueles dois viajantes cami-nhando para nós com grande cuidado. O homem mais velho — o que tem a cara bronzeada, enrugada, e o revólver na cinta — está puxando o carri-nho que chamam de Ho Fat II. O mais novo — com o imenso bloco de desenho enfiado sob o braço, o que o deixa parecido com um estudante de antigamente — está andando ao lado do veículo. Sobem o aclive suave, comprido, de um morrote, não muito diferente das centenas de outros que já subiram. A estrada meio invadida pela vegetação que seguem está cheia, de ambos os lados, dos restos de muros de pedra; rosas silvestres crescem em bonita profusão entre as pedras caídas. Pelos terrenos marcados de ma-to, além daqueles muros caídos, há estranhas construções de pedra. Alguns lembram as ruínas de castelos, outros têm a aparência de obeliscos egíp-cios, outros ainda são claramente Círculos Falantes do tipo onde demônios podem ser invocados; uma antiga ruína com colunas e pedestais de pedra tem a aparência de Stonehenge. Quase esperaríamos ver druidas encapuza-dos reunidos no centro daquele grande círculo, quem sabe jogando as ru-nas, mas os zeladores desses monumentos, esses precursores do Grande Monumento, estão todos desaparecidos. Só pequenos rebanhos de bisões pastam ali, onde se faziam cultos.
Não importa. Não é para velhas ruínas que queremos olhar perto do fim de nossa longa jornada, mas para o velho pistoleiro puxando as alças do carro. Parados na crista da lombada, esperamos que ele venha até nós. Ele vem. E vem. Implacável como sempre, um homem que sempre apren-de a falar a linguagem da terra (pelo menos um pouco dela) e a lidar com os costumes do país; é também um homem que endireitaria os quadros em anônimos quartos de hotel. Muita coisa nele mudou, mas não isso. Ele chega ao topo da lombada, agora tão próximo de nós que podemos sentir o cheiro ácido de seu suor. Ergue a cabeça, o olhar rápido e automático que costuma atirar primeiro para cima e depois para os lados quando chega ao topo de qualquer colina... Verifiquem sempre sua posição era a norma de Cort e o último de seus alunos ainda não a esquecera. Olha para cima sem interesse, depois para baixo... e pára. Após um momento contemplando o calçamento rachado, infestado de mato da estrada, torna a erguer os olhos, desta vez mais devagar. Muito mais devagar. Como se com medo do que já possa ter visto.
E é aqui que temos de nos juntar a ele (mergulhar dentro dele), em-bora verificar a posição do coração de Roland num momento como este, quando a meta obsessiva de sua existência finalmente está à vista, seja mais do que este pobre contador de histórias pode fazer. Certos momentos es-tão além da imaginação.
DOIS
Roland ergueu rapidamente os olhos quando chegou ao topo da lombada, não porque esperasse problemas, mas porque o hábito estava arraigado demais para ser rompido. Verifiquem sempre sua posição, dizia Cort, martelan-do isso em suas cabeças desde quando eram pouco mais que bebês. Ele se virou e olhou a estrada que deixara para trás (ficava cada vez mais difícil passar entre as rosas sem esmagar nenhuma, embora, pelo menos até aque-le ponto, tivesse conseguido fazer o truque). Então, num reflexo atrasado, percebeu o que acabara de ver.
O que você pensou que viu, Roland disse a si mesmo, ainda olhando para a estrada, provavelmente é apenas outra das estranhas ruínas por que passamos desde que começamos de novo a andar.
Mas Roland já havia percebido que não era assim. O que tinha visto não estava nem de um lado nem de outro da Torre Negra, mas bem à fren-te.
Ergueu de novo a cabeça, ouvindo o pescoço ranger como dobradi-ças numa porta velha. Ali, quilômetros ainda à frente mas já visível no ho-rizonte, real como as rosas, estava o topo da Torre Negra. O que Roland vira em mil sonhos enxergava agora com os olhos vivos. Sessenta ou 80 metros à frente, a estrada subia para uma colina mais alta, onde um antigo Círculo Falante se desfazia em hera e madressilva de um lado e desaguava num pequeno bosque de pau-ferro do outro. No centro daquele horizonte próximo, a forma escura se elevava, borrando uma minúscula porção de céu azul.
Patrick parou ao lado de Roland e soltou um de seus piados.
— Está vendo isto? — Roland perguntou. A voz era seca, entrecor-tada pelo assombro. Então, antes que Patrick pudesse responder, o pisto-leiro apontou para o que o garoto usava no pescoço. No fim das contas, o binóculo tinha sido o único item na ínfima tralha de Mordred que valera a pena pegar.
— Passe pra mim, Pat.
Patrick obedeceu de bom grado. Roland levou o binóculo aos olhos, fez um ajuste mínimo na peça móvel do foco e prendeu a respiração quan-do o topo da Torre entrou no campo de visão. Parecia suficientemente próximo para ser tocado. Que parte do topo estava aparecendo no hori-zonte? Para quanto da Torre estava olhando? Seis metros? Talvez 15? Não sabia, mas podia ver pelo menos três das estreitas fendas de janelas que ascendiam em espiral pelo corpo da Torre. E podia ver, lá no alto, uma sacada, suas muitas cores cintilando no sol da primavera e seu centro escu-ro parecendo espreitar de volta através do próprio binóculo, como o Olho do Todash.
Patrick piou e estendeu a mão para o binóculo. Queria dar sua pró-pria olhada e Roland passou o binóculo sem um murmúrio. Sentia-se ton-to, não realmente ali. Ocorreu-lhe que tinha às vezes se sentido assim nas semanas que precederam sua batalha com Cort, como se fosse um sonho ou um raio de luar. Sentira algo chegando, alguma grande alterado, e era isso que estava experimentando naquele momento.
Lá está, ele pensou. Lá está meu destino, o fim da estrada de minha vida. E contudo meu coração ainda bate (um pouco mais rápido que antes, é verdade), meu san-gue ainda corre e sem dúvida quando me curvo para agarrar as alças deste mal abençoa-do carrinho minhas costas gemem e pode ser que eu solte um pouquinho de gás. Absolu-tamente nada mudou.
Esperou pelo desapontamento que este pensamento certamente pres-sagiava — a decepção. Ela não veio. O que sentiu foi uma estranha, difusa exaltação que parecia começar em sua mente e depois se espalhar para os músculos. Pela primeira vez, desde que pegaram o caminho no meio da manhã, as imagens de Oi e Susannah deixaram sua mente. Sentia-se livre.
Patrick baixou o binóculo. Quando voltou a olhar para Roland, havia uma vibração em seu rosto. Apontou para a coluna escura despontando no horizonte e deu um piado.
— Sim — disse Roland. — Algum dia, em algum mundo, alguma versão de você vai pintá-la, juntamente com Llamrei, o cavalo de Arthur Eld. Isto eu sei, pois tenho tido a prova. E agora, é onde temos de ir.
Patrick piou de novo, depois mostrou um ar meio ansioso. Pôs as mãos nas têmporas e balançou a cabeça de um lado para o outro, como alguém que tivesse uma terrível dor de cabeça.
— Sim — disse Roland. — Também tenho medo. Mas para isso não há saída. Tenho de ir lá. Quer ficar aqui, Patrick? Ficar esperando por mim? Se quiser, dou licença para que fique.
Patrick balançou de imediato a cabeça numa negativa. E, para o caso de Roland não ter entendido bem, o garoto mudo se agarrou com força no braço dele. A mão direita, a mão com que desenhava, era como aço.
Roland abanou a cabeça. Chegou a tentar sorrir.
— Sim — disse ele —, está ótimo. Fique comigo pelo tempo que qui-ser. Mas entenda que, no final, terei de avançar sozinho.
TRÊS
Agora, à medida que passavam de cada depressão de terreno a cada novo topo de morro, a Torre Negra parecia brotar mais perto. Um número mai-or de janelas subindo em espiral pela grande circunferência ia ficando visí-vel. Roland pôde ver dois mastros de aço saindo do topo. As nuvens que seguiam os caminhos dos dois Feixes em funcionamento pareciam irrom-per das portas, formando uma grande forma de X no céu. As vozes fica-ram mais altas e Roland percebeu que estavam cantando os nomes do mundo. De todos os mundos. Não entendia como ele podia saber disso, mas tinha certeza. Aquela sensação de leveza continuava a dominá-lo. Fi-nalmente, quando atingiram a crista de uma colina onde, à esquerda, havia grandes homens de pedra em marcha para o norte (o que sobrava de suas faces, pintadas num tom vermelho-sangue, olhava fixamente para eles), Roland mandou Patrick subir no carrinho. Patrick pareceu surpreso. Soltou uma série de piados que Roland achou que significavam: Mas você não está cansado?
— Estou, mas mesmo assim preciso de uma âncora. Sem isso, sou capaz de começar a correr para aquela Torre, embora parte de mim saiba que isso não seria muito inteligente. E se a boa e simples exaustão não es-tourar meu coração, o Rei Vermelho é capaz de tirar minha cabeça com um dos seus brinquedos. Suba, Patrick!
Patrick obedeceu. Viajou arqueado para a frente, os binóculos pres-sionados contra os olhos.