A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo II · Na Avenida das Terras Áridas
UM
Saíram por um arco na encosta de um morrote erodido, ao lado de um gal-pão Quonset, similar em formato mas muito menor que a Estação Expe-rimental Arco 16. O telhado da pequena construção estava coberto de fer-rugem. Havia pilhas de ossos espalhados na frente, formando um rude a-nel. As rochas em volta estavam queimadas e lascadas em vários lugares: um pedregulho do tamanho da casa estilo Queen Anne — onde os Sapa-dores tinham sido mantidos — estava partido em dois, revelando um inte-rior cheio de minérios cintilantes. O ar estava frio e podiam ouvir o gemi-do incessante do vento, mas as rochas bloqueavam as rajadas mais fortes e os dois, numa gratidão muda, viraram os rostos para o céu fortemente azul.
— Houve alguma batalha aqui, não foi? — ela perguntou.
— Sim, eu digo que sim. Uma das grandes, muito tempo atrás. — Ele parecia extremamente cansado.
Diante da porta semi-aberta do galpão, havia uma placa caída. Susan-nah insistiu para ser posta no chão. Assim poderia virar a placa e ler. Ro-land fez o que ela pediu e sentou-se encostado numa rocha, contemplando o Castelo Discórdia, agora atrás deles. Duas torres se projetavam para o azul, uma inteira, a outra despedaçada pouco abaixo de onde Roland acha-va que devia ter ficado o topo. Ele se concentrava em recuperar o fôlego. O solo estava muito frio e Roland já sabia que a jornada através das Terras Áridas ia ser difícil.
Enquanto isso, Susannah tinha levantado a placa. Suspendeu-a com uma das mãos e limpou uma velha camada de poeira com a outra. As pala-vras que descobriu estavam em inglês e lhe deram um forte calafrio:
ESTE POSTO DE CONTROLE
ESTÁ FECHADO.
PARA SEMPRE
Embaixo, em vermelho, parecendo encará-la, estava o Olho do Rei.
DOIS
Não havia nada no cômodo principal do galpão, salvo pedaços de armas destruídas, e mais esqueletos, nenhum inteiro. No cômodo anexo, no en-tanto, ela encontrou uma deliciosa surpresa: prateleiras e prateleiras de co-mida em lata — mais do que conseguiriam carregar — e também mais Sterno (achava que Roland já não faria pouco caso do fogo enlatado e es-tava certa). Enfiou a cabeça numa porta nos fundos do depósito quase como uma lembrança tardia, não esperando encontrar mais nada além de mais alguns esqueletos, e havia um. O prêmio era o veículo onde a nova e desordenada aglomeração de ossos estava repousando: uma carroça de du-as rodas que lembrava um pouco onde sentara no alto do castelo, durante a palestra com Mia. Esta, no entanto, era menor e estava em muito melhor estado. Em vez de madeira, as rodas eram de metal revestido de uma fina camada de alguma coisa sintética. Cabos para as mãos saíam dos lados e ela percebeu que não era absolutamente uma carroça, mas uma espécie de ri-quixá.
Vá se preparando pra puxar sua beleza, Roland, carne ruim!
Um dos pensamentos tipicamente desagradáveis de Detta Walker, mas mesmo assim conseguiu fazer Susannah dar uma risada.
— O que achou tão engraçado? — Roland perguntou.
— Você vai ver — ela respondeu se esforçando para manter Detta pelo menos fora da voz. No que não foi de todo bem-sucedida. — Tu logo vai vê, pode espera!
TRÊS
Havia um pequeno motor atrás do riquixá, mas ambos perceberam de i-mediato que ele já não funcionava há séculos. No depósito, Roland encon-trou algumas ferramentas, incluindo uma chave de grifa. Tinha emperrado com a grifa toda aberta, mas uma aplicação de óleo (vindo de uma lata vermelha e preta com os dizeres 3-EM-l, que Susannah achou muito fami-liar) colocou-a de novo em operação. Roland usou a chave para tirar o mo-tor de seu suporte e jogá-lo de lado. Enquanto ele trabalhava nisso e Su-sannah fazia o que papai Mose teria chamado de observação séria, Oi con-tinuava sentado a quarenta passos do arco por onde haviam passado, os-tensivamente de guarda contra a coisa que os seguira no escuro.
— Não aliviaremos mais que uns sete quilos — disse Roland, lim-pando as mãos na calça jeans e contemplando o motor jogado —, mas a-cho que vou ficar satisfeito de termos nos livrado disto até o fim deste ne-gócio.
— Quando partimos? — ela perguntou.
— Assim que tivermos colocado atrás do carro o máximo de comida em lata que eu possa carregar — disse ele dando um forte suspiro. Seu ros-to estava pálido, barbado. Havia olheiras embaixo dos olhos e as novas rugas que marcavam as faces desciam para o queixo pelos cantos da boca. Parecia magro como um palito.
— Roland, você não pode! Não tão cedo! Está esgotado!
Roland fez um gesto para Oi, tão pacientemente sentado, e para a go-ela de escuridão, quarenta passos atrás.
— Quer se ver assim tão perto deste buraco quando a escuridão chegar?
— Podemos fazer uma fogueira...
— Ela pode ter amigos — disse ele — que não se retraiam com o fo-go. — Enquanto estávamos lá embaixo no túnel, aquela coisa não deve ter pensado em nos compartilhar com outros porque não achava que tivesse de compartilhar. Agora pode estar pensando de modo diferente, principal-mente se estiver com intenções de vingança.
— Uma coisa daquelas não pode pensar. Certamente não. —Agora, que estavam fora, era mais fácil acreditar nisso. Susannah sabia que talvez mudasse de idéia quando as sombras da noite começassem a se alongar e a se unir.
— Acho que não podemos nos dar ao luxo de correr este risco — disse Roland.
Ela concluiu, com muita relutância, que Roland tinha razão.
QUATRO
Felizmente para eles, o primeiro trecho do caminho estreito que serpente-ava para as Terras Áridas era quase todo plano. Quando chegaram de fato a um trecho de aclive, Roland não se opôs a que Susannah saltasse e, pulan-do valentemente, seguisse atrás do que ela apelidara Táxi Ho Fat de Luxo, até o alto da subida. Pouco a pouco, o Castelo Discórdia ia ficando para trás. Roland continuou seguindo depois das rochas terem bloqueado a tor-re danificada de suas vistas, mas quando a outra também sumiu, ele apon-tou para um pedregulho protegido ao lado da trilha e disse:
— É aqui que acampamos esta noite, a não ser que você tenha obje-ções.
Susannah não tinha nenhuma. Tinham trazido um número suficiente de ossos e trapos caqui para fazer uma fogueira, mas Susannah sabia que o combustível não ia durar muito tempo. Os pedaços de fazenda arderiam com uma rapidez de jornal e os ossos iam desaparecer antes que os pontei-ros do fabuloso relógio novo de Roland (que ele lhe mostrara com uma espécie de reverência) se unissem à meia-noite. E na noite do dia seguinte provavelmente não haveria nenhuma fogueira e teriam de comer comida fria diretamente das latas. Susannah tinha consciência de que as coisas po-diam estar muito piores — avaliava a temperatura durante o dia em mais ou menos sete graus, e eles de fato tinham comida —, mas daria tudo por um suéter, para não falar num par de ceroulas.
— Provavelmente encontraremos mais coisas que possamos usar como combustível à medida que avançarmos — disse ela num tom espe-rançoso depois da fogueira acesa (os ossos que ardiam deixavam escapar um cheiro muito desagradável e os dois tomaram o cuidado de sentar a favor do vento). — Mato... arbustos... mais ossos... talvez até galhos secos.
— Acho que não — disse ele. — Não deste lado do castelo do Rei Rubro. Nem mesmo erva-do-diabo, que cresce em qualquer porra de lugar no Mundo Médio.
— Não pode saber. Não com certeza. — Ela não podia suportar a i-déia de dias e dias de frio contínuo, com os dois vestidos para nada mais desafiador que um dia de primavera no Central Park.
— Acho que ele acabou com esta terra quando escureceu Trovoada — Roland ponderou. — Provavelmente nunca foi grande coisa e ela agora está estéril. Mas se considere abençoada. — Roland estendeu a mão e to-cou numa espinha que tinha brotado ao lado do lábio inferior de Susannah. — Há cem anos esta espinha já teria escurecido, se espalhado e comido sua pele até os ossos. Teria entrado no cérebro para enlouquecê-la antes de matá-la.
— Câncer? Radiação?
Roland abanou os ombros como dizendo que não importava.
— Em algum lugar além do castelo do Rei Rubro podemos chegar a savanas e até mesmo a florestas, mas provavelmente a relva vai estar enter-rada sob a neve quando chegarmos lá, pois entramos na estação errada. Posso sentir isto no ar, perceber pelo modo como o dia está escurecendo tão depressa.
Ela gemeu, esforçando-se para que fosse um ato cômico, mas o que saiu foi realmente um som de medo e fraqueza, algo tão real que chegou a assustá-la. Oi levantou as orelhas e olhou para eles.
— Não quer me animar um pouquinho, Roland?
— Você precisa saber da verdade — disse ele. — Podemos continuar como estamos por um bom tempo, Susannah, mas não vai ser agradável. Temos comida suficiente naquele carrinho para nos manter por um mês ou mais, se economizarmos... e vamos fazer isso. Quando chegarmos a terras vivas, vamos encontrar animais mesmo se houver neve. E é o que eu quero. E não porque já estaremos famintos por carne fresca, e será assim mesmo, mas porque vamos precisar das peles. Espero que não cheguemos ao pon-to de precisar desesperadamente das peles, espero que a coisa não fique assim tão má, mas...
— Mas você acha que pode ficar...
— Sim — disse ele. — Acho que pode. Levando em conta um longo período de tempo, poucas coisas nos tiram tanto a vontade de viver quanto o frio constante... Um frio não suficiente para nos matar, talvez, mas que esteja sempre à nossa volta, roubando nossa energia, nossa determinação e a gordura do nosso corpo, grama por grama. Acho que talvez tenhamos de enfrentar um período muito difícil. Você vai ver.
Ela viu.
CINCO
Poucas coisas nos tiram tanto a vontade de viver quanto o frio constante.
Os dias não eram tão maus. Pelo menos estavam em movimento, se exercitando e mantendo o sangue quente. Mesmo de dia, no entanto, ela passou a temer as áreas abertas que às vezes encontravam, áreas onde o vento uivava por quilômetros de rocha nua, escarpada, e por entre alguma meseta ou torre de rocha. Os rochedos subiam para o impassível céu azul como dedos vermelhos de gigantes de pedra ali enterrados. O vento pare-cia se tornar cada vez mais cortante à medida que avançavam sob o rede-moinho muito branco das nuvens ao longo do Caminho do Feixe. Ela le-vantava as mãos rachadas para proteger o rosto, detestando quando os de-dos, em vez de ficarem completamente dormentes, se convertiam em coi-sas agitadas cheias de sensações de formigamento. Seus olhos se enchiam d’água e as lágrimas jorravam pelas faces. O rastro das lágrimas nunca con-gelava; o frio não era assim tão forte, mas era intenso o suficiente para transformar a vida dos dois numa miséria em lenta ascensão. Por que ni-nharia Susannah não teria vendido sua alma imortal durante aqueles maus dias e horríveis noites! Às vezes ela achava que um simples suéter teria sido capaz de comprá-la; em outras ocasiões, no entanto, pensava: Não, querida, sua auto-estima é demasiado grande, mesmo agora. Estaria disposta a passar uma eter-nidade no inferno — ou talvez na escuridão todash — em troca de um simples suéter? Certamente não!
Bem, talvez não. Mas se o diabo a tentasse mostrando onde encontrar um par de protetores para as orelhas...
E na realidade faltava tão pouco para se sentirem bem. Era no que Susannah não parava de pensar. Tinham comida e tinham água, pois a in-tervalos de 25 quilômetros havia bombas que ainda funcionavam e que traziam, das funduras das Terras Áridas, grandes jatos de água fria com gosto de minerais.
Terras Áridas. Teve horas, dias e, agora, semanas para meditar sobre essa expressão. O que tornava as terras áridas? Água envenenada? A água que saía daquela terra não era saborosa, em nenhuma hipótese, mas tam-bém não era venenosa. Falta de comida? Tinham comida, embora ela a-chasse que isso podia se tornar um problema mais tarde, se não achassem mais. Nesse meio-tempo, ia ficando incrivelmente farta de carne picada, para não mencionar passas no café-da-manhã e passas quando queria so-bremesa. Tudo aquilo, no entanto, era comida. Combustível para o corpo. O que tornava áridas as Terras Áridas quando se tinha água e comida? Ver o céu ficar primeiro dourado e castanho-avermelhado no oeste; vê-lo se tornar roxo e depois ficar salpicado de estrelas no leste. Contemplava o final de cada dia com crescente temor: imaginava mais uma noite intermi-nável, os três se acotovelando enquanto o vento gemia, abrindo caminho através das rochas, e as estrelas cintilavam. Cruzando extensões interminá-veis de gélido purgatório, com os pés e os dedos formigando, Susannah pensava: Se ao menos eu tivesse um suéter e uma par de luvas, podia me sentir bem. Não seria preciso mais que isso, só um suéter e um par de luvas. Porque realmente não faz assim tanto frio.
Exatamente quanto frio fazia depois do cair do sol? Nunca menos de zero grau Celsius, ela sabia, porque a água que punha para Oi beber nunca chegava a congelar. Achava que a temperatura caía para algo em torno dos quatro, cinco graus entre a meia-noite e o amanhecer; em certas noites tal-vez chegasse a um grau positivo, porque via minúsculas beiradas de gelo ao redor da vasilha em que era servida a comida de Oi.
Começou a se interessar pela cobertura de pêlos de Oi. A princípio disse a si mesma que não passava de um exercício especulativo, um meio de matar o tempo... Exatamente com que nível de calor o metabolismo do trapalhão funcionava e exatamente que quentura aquele casaco (aquele grosso, luxuriantemente grosso, espantosamente grosso casaco) lhe proporcio-nava? Pouco a pouco ela foi reconhecendo suas sensações pelo que de fato eram: inveja, que murmurava na voz de Detta. O tipão num fica mal dispois que o sol se põe, num é? Num, ele não! Tu num reconhece que podia tira dois pares de luvas daquele pêlo?
Susannah repelia de imediato esses pensamentos, angustiada e horro-rizada, se perguntando, e não querendo saber, se quando o espírito huma-no queria ser asqueroso, frio, radicalmente egoísta, não haveria limite de baixeza.
Aquele frio entrava cada vez mais fundo dentro deles, dia após dia, noite após noite. Era como uma lasca de madeira. Os dois dormiam abra-çados com Oi entre eles; depois viravam para que os lados que tivessem estado de frente para a noite virassem para dentro. O verdadeiro sono res-taurador jamais durava muito tempo, por mais cansados que estivessem. Quando a lua começou a encher, iluminando a escuridão, passaram duas semanas andando à noite e dormindo durante o dia. Isso foi um pouco melhor.
A única vida selvagem que viram foram grandes pássaros negros vo-ando no horizonte de sudeste ou reunidos numa espécie de convenção no topo das mesetas. Quando a direção do vento era favorável, Roland e Su-sannah podiam ouvir a conversa deles, agitada e estridente.
— Acha que essas coisas seriam boas para comer? — Susannah per-guntou um dia ao pistoleiro. A lua quase se fora e tinham novamente pas-sado a viajar de dia para poderem perceber qualquer perigo potencial (fre-qüentemente encontravam fendas profundas cruzando a trilha e, certa vez, se depararam com um buraco que parecia não ter fundo).
— O que você acha? — Roland perguntou.
— Acho que provavelmente não seriam boas para comer, mas eu não me importaria de pegar uma para descobrir. — Fez uma pausa. — Do que você acha que se alimentam?
Roland se limitou a sacudir a cabeça. Ali a trilha serpenteava através de um fantástico jardim petrificado. Eram formações rochosas abruptas como agulhas. Um pouco à frente, pelo menos uma centena de pássaros negros, semelhantes a corvos, circundavam uma mesa de topo muito plano ou permaneciam imóveis em suas beiradas, olhando na direção de Roland e de Susannah (como uma bancada de jurados de olhos atentos).
— Talvez devêssemos nos desviar um pouco do caminho — disse e-la. — Ver o que podemos descobrir.
— Se sairmos da trilha, talvez nunca mais voltemos a encontrá-la — disse Roland.
— Isso é besteira! Oi poderia...
— Susannah, não quero mais ouvir falar neste assunto! — Roland fa-lou num tom de raiva extrema que ela jamais tinha ouvido. Bravo sim; ela já vira muitas vezes Roland bravo. Mas agora havia uma mesquinhez, um mau humor que a preocupava. E que também a assustava um pouco.
Continuaram em silêncio pela meia hora seguinte, Roland puxando o Taxi Ho Fat de Luxo e Susannah sentada nele. Então o caminho estreito (avenida das Terras Áridas, como ela passara a chamá-lo) se inclinou para cima e ela pulou do rinquixá, emparelhando com Roland e passando a se-guir a seu lado. Para fazer isso, rasgara pela metade a camiseta da Exposi-ção Comemorativa que fora de Roland e a enrolara em volta das mãos. Isto a protegia de pedras agudas e também aquecia seus dedos, pelo menos um pouco.
Ele a olhou de relance, depois voltou a se concentrar no caminho à frente. Seu lábio inferior estava um pouco projetado, e Susannah achou que certamente Roland não percebia como essa expressão revelava uma absurda contrariedade — como a de um menino de três anos a quem se disse que ele não ia mais à praia. Roland não percebia e não era ela quem ia lhe dizer. Mais tarde, talvez, quando pudessem relembrar aquele pesadelo e rir dele. Quando não pudessem mais recordar o que, exatamente, havia de tão terrível numa noite em que a temperatura era de cinco graus e você estava deitado insone, tremendo no chão gelado, vendo o riscado do fogo frio de algum meteoro atravessar o céu: Só um suéter, você pensava, é tudo de que eu preciso. Só um suéter e eu seguiria feliz como um periquito na hora da comida. E então você se perguntava se havia suficiente pêlo em Oi para fazer um cal-ção quente para os dois, se matá-lo não seria de fato fazer um favor ao po-bre animalzinho; ele andava triste desde que Jake fora para a clareira.
— Susannah — disse Roland —, ainda há pouco fui áspero com você e peço desculpas.
— Não é preciso — disse ela.
— Acho que é. Já temos problemas demais e não precisamos criar outros. Não precisamos de ressentimentos entre nós.
Susannah ficou calada. Ergueu a cabeça para Roland, que olhava ago-ra para sudeste, para os pássaros que se moviam em círculo.
— Tantas gralhas — disse ele.
Ela continuou calada, esperando.
— Quando eu era criança — disse Roland —, as chamávamos às ve-zes de Melros de Gan. Contei a Eddie e a você como eu e meu amigo Cu-thbert jogamos miolo de pão para os pássaros depois que o cozinheiro foi enforcado, não contei?
— Contou.
— Os pássaros eram exatamente como esses, que alguns também chamavam Gralhas do Castelo. Do castelo, mas não Gralhas Reais, porque eram aves carniceiras. Você perguntou do que aquelas gralhas se alimen-tam. Talvez estejam procurando carniça nos pátios e nos corredores do castelo dele, agora que ele partiu.
— Le Casse Roi Russe ou como quer que o chame.
— É. Não sei dizer com certeza, mas...
Roland não terminou, nem precisava. Depois disso ela ficou de olho nos pássaros e sim, eles pareciam estar indo e vindo do sudeste. O avista-mento dos pássaros podia indicar que, afinal, eles estavam avançando. Não era grande coisa, mas foi o suficiente para manter à tona o espírito de Su-sannah pelo resto daquele dia e pelo meio dos tremores de outra daquelas noites tremendamente frias.
SEIS
Na manhã seguinte, enquanto estavam fazendo outro desjejum frio, e no-vamente acampados sem fogueira (Roland tinha prometido que naquela noite usariam um pouco do Sterno e teriam comida pelo menos morna), Susannah perguntou se podia dar uma olhada no relógio que Roland ga-nhara da Tet Corporation. Ele não hesitou em lhe passar o relógio. Susan-nah examinou demoradamente os três siguls gravados na tampa, especial-mente a Torre com a espiral ascendente de janelas. Depois abriu o relógio, olhou em seu interior e falou sem levantar a cabeça:
— Conte de novo o que lhe disseram.
— Só me passaram o que ouviram de um de seus colaboradores de “boa mente”. Um sujeito extremamente talentoso, na avaliação deles, em-bora eu não me lembre do nome. Segundo essa pessoa, o relógio pode pa-rar quando estivermos perto da Torre Negra ou pode começar a andar para trás.
— Difícil imaginar um Patek Philippe andando para trás — disse ela. — Pelo que estou vendo, são 8hl6 da manhã ou da noite em Nova York. Aqui parece ser umas 6h30 da manhã, mas acho que isso não quer dizer grande coisa. Bem, como poderíamos saber se esta coisinha está andando depressa ou devagar demais?
Roland tinha parado de arrumar as sacolas e estava pensando na per-gunta dela:
— Vê o ponteiro bem pequeno aí embaixo? Que gira isolado dos ou-tros?
— É o ponteiro dos segundos.
— Me diga quando ele estiver bem na vertical.
Ela acompanhou o ponteiro dos segundos em sua esfera especial até ele atingir a posição do meio-dia:
— Agora! — disse Susannah.
Roland estava de cócoras, uma posição em que já podia se manter com facilidade, pois a dor nos quadris se fora. Ele fechou os olhos e pôs os braços em volta dos joelhos. Cada respiração que soltava formava uma né-voa fina. Susannah tentou não olhar para aquilo; era como se o frio odiado tivesse adquirido força suficiente para se materializar, ainda meio fantas-magórico, mas já visível.
— Roland, o que está fazen...
Ele ergueu a mão, palma levantada, e não abriu os olhos. Ela se calou.
O ponteiro dos segundos avançou ao redor de seu círculo, primeiro para baixo, depois subindo de novo até a posição do meio-dia. Quando chegou lá...
Roland abriu os olhos e disse:
— Passou um minuto. Um verdadeiro minuto, como eu vivo sob o Feixe.
Susannah ficou de queixo caído.
— Pelo amor de Deus, como fez isso?
Roland sacudiu a cabeça. Não sabia. Só sabia de Cort dizendo que ti-nham sempre de ser capazes de conservar o tempo nas cabeças, porque não se podia confiar em relógios. Nenhum relógio de sol funcionava num dia nublado. Ou à meia-noite, é claro. Certo verão, mandara cada um deles para a Floresta Bebê a oeste do castelo, noite após noite incômoda (era assustador na floresta, pelo menos quando o sujeito se via sozinho, mesmo que, como é óbvio, nenhum deles jamais comentasse isto em voz alta, nem mesmo dentro do grupo), até que cada um conseguisse voltar ao pátio que ficava atrás do Grande Salão num determinado minuto especificado por Cort. Era estranho que aquela coisa do relógio-dentro-da-cabeça pudesse dar certo. E a princípio realmente não dava. Nem depois. Nem depois. A raiva fechava a mão cheia de calos de Cort, a mão baixava e batia, e Cort resmungava: Arre, gusano, de volta para o bosque amanhã à noite! Deve estar gos-tando daquilo lá! Mas quando o relógio mental começava a bater, não falhava nunca mais. Por algum tempo Roland perdera essa aptidão, exatamente como o mundo perdera seus pontos cardeais, mas agora a coisa estava de volta, o que o deixou muitíssimo satisfeito.
— Você conta cada segundo? — ela perguntou. — Mississippi-um, Mississippi-dois, assim?
Ele balançou negativamente a cabeça.
— Eu simplesmente sei. Sei quando acaba um minuto ou uma hora.
— Engane outra! — ela zombou. — Você chutou!
— Acha que foi um chute ter falado exatamente quando o ponteiro completou a volta?
— Acho que tu teve sorte — disse Detta a observá-lo com um ar ma-licioso, um olho quase fechado de todo, uma expressão que Roland detes-tava (mas nunca o confessou, ou Detta não ia parar de tentar irritá-lo com aquilo em todas as ocasiões em que se manifestasse).
— Quer tentar de novo? — ele perguntou.
— Não — disse Susannah, suspirando. Basta sua palavra e vejo que seu relógio está marcando perfeitamente o tempo. O que significa que não estamos perto da Torre Negra. Ainda não.
— Talvez não perto o bastante para afetar o relógio, porém mais per-to que nunca — disse Roland calmamente. — Em termos gerais, já esta-mos quase na sombra da Torre. Acredite, Susannah... eu sei.
— Mas...
De cima de suas cabeças veio um grasnido ao mesmo tempo estriden-te e estranhamente abafado: Cruu, cruu!, em vez de coó, coó! Susannah ergueu os olhos e viu um dos enormes pássaros negros — do tipo que Roland chamara de Gralhas do Castelo — voando suficientemente baixo para que pudessem ouvir o trabalhoso bater das asas. Pendurado no comprido bico em forma de gancho havia um filamento de alguma coisa verde-amarelada. Para Susannah parecia um pedaço morto de alga marinha. Só que não intei-ramente morto.
Ela se virou para Roland, olhando-o com olhos agitados.
Ele abanou a cabeça.
— Erva-do-diabo. Provavelmente trazendo para forrar o ninho de sua parceira. Certamente não para dar de comer aos filhotes. Não essa coi-sa! Mas a erva-do-diabo sempre aparece por último quando se está entran-do nas terras de ninguém e a primeira que aparece quando se está saindo delas, como é o nosso caso. Como finalmente é o nosso caso. Agora preste atenção, Susannah. Quero que escute e gostaria que mantivesse aquela can-sativa filha-da-puta da Detta o mais afastada possível de nós. E por favor não me faça perder tempo dizendo que ela está longe, porque posso vê-la dançando a commala dentro de seus olhos.
Susannah pareceu surpresa, depois irritada, à beira de protestar. Então se virou para o lado sem dizer nada. Quando voltou a encará-lo, já não sentia a presença daquela que Roland chamara de “cansativa filha-da-puta”. E Roland não deve mais ter detectado sua presença, porque retomou o que estava dizendo:
— Acho que logo vai parecer que estamos saindo das Terras Áridas, mas seria bom você não confiar muito no que vê... Alguns prédios e talvez uma breve pavimentação na estrada não significarão segurança nem civili-zação. E não vamos demorar muito para chegar ao castelo chamado Le Casse Roi Russe, o castelo dele. É quase certo que o Rei Rubro já não está lá, mas pode ter nos deixado alguma armadilha. Quero que apenas olhe e escute. Se houver alguma conversa a ser mantida, quero que deixe a coisa por minha conta.
— O que você sabe que eu não sei? — ela perguntou. — O que está escondendo?
— Nada! — disse ele (com o que era, para ele, uma rara veemência). — É apenas um pressentimento, Susannah. Agora estamos perto de nossa meta, não importa o que possa dizer o relógio. Estamos perto de conquis-tar nosso caminho para a Torre Negra. Mas meu professor, Vannay, cos-tumava dizer que existe apenas uma regra sem exceções: Antes da vitória vem a tentação. E quanto maiores os louros a conquistar, maior a tentação a que é preciso resistir.
Susannah estremeceu e pôs os braços ao redor de si mesma.
— Tudo que eu quero é ser aquecida — disse. — Se ninguém me o-ferecer uma boa carga de lenha e uma ceroula de flanela para desistir da Torre, acho que resistirei a qualquer tentação.
Roland se lembrou de uma das máximas mais sérias de Cort (Nunca fale do pior em voz alta!), mas conservou a boca fechada, pelo menos com relação a esse assunto. Depois de guardar cuidadosamente o relógio, ele se levantou, pronto a seguir em frente.
Mas Susannah se demorou um pouco.
— Tenho sonhado com o outro — disse ela. Não era preciso dizer de quem estava falando. — Três noites seguidas, como se ele estivesse em nosso rastro. Acha que realmente está?
— Ah, sim — disse Roland. — E acho que está de barriga vazia.
— Faminto, Mordred está faminto — disse ela, palavras que também tinha ouvido no sonho.
Susannah estremeceu de novo.