A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 41 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Doze

 

Rodaram quase vinte minutos sem falar. Na entrada da cidadezinha de Bridgton, ela parou numa loja de conveniência e encheu o tanque. MOBIL, uma marca que Roland já conhecia de andanças anteriores. Quando ela entrou na loja para pagar a gasolina, Roland ergueu os olhos e viu los ángeles correndo clara e vigorosamente pelo céu. O Caminho do Feixe de Luz, e já mais forte, a não ser que fosse apenas sua imaginação. Mas tanto fazia. Se o Feixe já não estivesse mais forte, logo ia estar. Tinham conseguido salvá-lo, embora isso não estivesse trazendo alegria a Roland.

A sra. Tassenbaum saiu da lojinha segurando uma camiseta com a es-tampa de um carro de bois — um verdadeiro carro de bois — e palavras es-critas num círculo. Ele pôde entender EXPOSIÇÃO, mas só isso. Pergun-tou o que as palavras queriam dizer.

— EXPOSIÇÃO COMEMORATIVA DE BRIDGTON, 27 A 30 DE JULHO DE 1999 — disse ela. — Não importa realmente o que está escrito desde que cubra seu peito. Em algum momento vamos querer parar e temos um ditado por aqui: “Sem camisa, sem sapato, sem serviço.” Ainda que estejam surradas e rotas, acho que suas botas não vão impedi-lo de entrar na maioria dos lugares. Mas de topless? Hum-hum, sem chance, mane! Mais adiante lhe compro uma camisa melhor... uma camisa de gola... e também uma calça decente. Esse jeans está tão sujo que fica em pé sozi-nho. — Ela entrou num breve (mas furioso) debate interior, depois soltou: — Você tem, em termos muito gerais, dois bilhões de cicatrizes. E só nas partes que posso ver.

Roland não respondeu.

— Tem dinheiro? — ele perguntou.

— Peguei trezentos dólares quando fui em casa pegar o carro e já ti-nha trinta ou quarenta comigo. Tenho também cartões de crédito, mas seu falecido amigo me disse para usar dinheiro vivo sempre que pudesse. E que o acompanhasse até você estar em condições de seguir sozinho. Ele disse que pode haver gente à sua procura. Uns tais de “homens baixos.”

Roland abanou a cabeça. Sim, devia haver homens baixos por ali e depois de tudo que ele e seu ka-tet haviam feito para atrapalhar os planos do Mestre deles, estariam duas vezes mais dispostos a conseguir sua cabe-ça. De preferência para vê-la fumando na ponta de um pau. E também a cabeça de sai Tassenbaum, se a descobrissem.

— O que mais Jake lhe contou? — Roland perguntou.

— Que tenho de levá-lo para a cidade de Nova York, se quisesse ir para lá. Disse que lá existe uma porta que pode deixá-lo num lugar chama-do Faydeg.

— E falou mais?

— Sim. Disse que havia outro lugar onde talvez você quisesse ir antes de usar a porta. — Ela arriscou uma tímida olhadela de lado para ele. — Há?

Roland pensou, depois abanou afirmativamente a cabeça.

— Também falou com o cachorro. Era como se estivesse dando... ordens... instruções... ao cachorro. — Olhou-o com ar de dúvida. — Isto seria possível?

Roland achava que sim. À mulher, Jake só poderia fazer pedidos. Quanto a Oi... bem, isso podia explicar por que o trapalhão não ficara ao lado do túmulo, por mais que tivesse vontade.

Seguiram algum tempo em silêncio. A estrada desembocava numa ro-dovia bastante movimentada com carros e caminhões correndo em alta velocidade por muitas pistas. Ela teve de parar junto a uma cabine de pe-dágio e dar dinheiro para continuar. O atendente era um robô com uma cesta no lugar do braço. Roland achou que pudesse dormir, mas viu o ros-to de Jake quando fechou os olhos. Depois o de Eddie, com o inútil cura-tivo lhe cobrindo a testa. Se é isto que vejo quando fecho os olhos, ele pensou, como serão os meus sonhos?

Tornou a abrir os olhos e observou Irene descendo uma rampa suave, de bom asfalto, entrando sem pausa no pesado fluxo de tráfego. Inclinou o corpo e olhou para cima através da janela. Lá estavam as nuvens, los ángeles, viajando sobre eles, na mesma direção. Continuavam no Caminho do Fei-xe.

 

TREZE

— Senhor? Roland?

Achou que ele estava cochilando de olhos abertos. Roland se virou do banco do carona com as mãos no colo, a mão boa dobrada sobre a mutila-da, escondendo-a. Ela achou que nunca vira ninguém tão pouco adequado a um Mercedes-Benz. Ou a qualquer automóvel. Também achou que nun-ca vira um homem que parecesse tão cansado.

Mas acho que não está esgotado. Acho que não está nem perto de esgotado, mesmo que pense que está.

— O animal... Oi?

— Oi, sim. — O trapalhão ergueu os olhos ao som de seu nome, mas não o repetiu, como ainda no dia anterior o teria feito.

— Esse bicho é um cachorro? Não chega exatamente a ser, não é?

— Ele, não esse bicho. E não, não é um cachorro.

Irene Tassenbaum abriu a boca, depois tornou a fechá-la. O que era difícil, pois o silêncio ao lado de outra pessoa não lhe parecia natural. E estava com um homem que julgava atraente, apesar da dor que ele sentia e da exaustão (talvez, até certo ponto, por causa dessas coisas). Um garoto agonizante lhe pedira para levar aquele homem a Nova York e aos lugares aonde ele precisava ir quando chegassem lá. O garoto dissera que a noção que o amigo tinha de Nova York era ainda pior que a noção que tinha do dinheiro e ela acreditou que fosse verdade. Mas também acreditava que aquele homem fosse perigoso. Teve vontade de fazer mais perguntas, mas e se ele de fato respondesse a elas? Irene entendeu que, quanto menos soubesse, melhores seriam, depois que ele partisse, suas chances de retor-nar à vida que tivera até as 15 para as quatro daquela tarde. Retornar como se retorna por um trevo à estrada principal. Aquilo seria o melhor.

Ela ligou o rádio e encontrou uma estação tocando “Amazing Gra-ce”. Quanto tornou a olhar para seu estranho acompanhante, viu como ele observava o céu cada vez mais escuro e chorava. Então olhou por acaso para baixo e viu algo muito mais estranho, algo que mexeu com seu cora-ção de um jeito que não sentira nos últimos 15 anos, desde a perda de seu primeiro e único esforço de ter um filho.

O animal, o não-cachorro, Oi... também estava chorando.

 

QUATORZE

Saiu da 95 logo depois da divisa com Massachusetts e pegou dois quartos vizinhos numa espelunca chamada Pousada Brisa Marinha. Não havia tra-zido os óculos que usava para dirigir, chamados por ela de “rabo de inseto” (por causa de: “quando estou usando essa coisa consigo enxergar pelo rabo de um inseto”), e seja como for ela não gostava de dirigir à noite. Rabo de inseto ou não, dirigir à noite fritava seus nervos, o que podia lhe trazer uma enxaqueca. Com enxaqueca não teria utilidade para nenhum deles e seu Imitrex estava guardado no agora inacessível armário de banheiro em East Stoneham.

— Além disso — comentou com Roland —, se esta Tet Corporation que está procurando fica num prédio comercial, não vai conseguir entrar lá antes de segunda-feira. — Provavelmente não era bem assim; Roland pare-cia o tipo de homem capaz de entrar nos lugares quando bem entendesse. Não seria possível detê-lo. Achou que isso era outro elemento da atração que exercia sobre um certo tipo de mulher.

Seja como for, ele não fez objeções ao motel. Não, Roland não ia sair para jantar com ela e então ela encontrou o menos pior fast-food das pro-ximidades e trouxe um jantar tardio do KFC. Comeram no quarto de Ro-land. Irene arranjou um prato para Oi por contra própria. Oi só comeu um pedaço da galinha, que segurou cuidadosamente com as patas; depois en-trou no banheiro e pareceu adormecer no tapete diante da banheira.

— Por que chamam isto aqui de Brisa Marinha? — Roland pergun-tou. Ao contrário de Oi, estava comendo de tudo, mas sem nenhum sinal de prazer. Comia como um homem cumprindo uma tarefa. — Não sinto o menor cheiro do oceano.

— Bem, deve ser possível quando o vento estiver na direção certa e soprando um furacão — disse ela. — É o que chamamos de licença poéti-ca, Roland.

Ele abanou a cabeça, mostrando uma inesperada (ao menos para ela) compreensão.

— Mentiras bonitas — disse.

— É, suponho que sim.

Irene ligou a televisão achando que ia diverti-lo, mas ficou chocada com sua reação (embora tenha dito a si mesma que só achou engraçado). Quando Roland lhe disse que não podia enxergá-la, ela não soube muito bem como interpretar a coisa; seu primeiro pensamento foi que se tratava de alguma espécie de crítica oblíqua e terrivelmente intelectual acerca da pró-pria mídia. Depois achou que ele podia estar falando (de forma igualmente oblíqua) de sua dor, seu estado de luto. Só quando Roland disse a ela que sim, conseguia ouvir as vozes, mas só enxergava linhas que faziam seus olhos lacrimejarem foi que ela percebeu que o homem estava falando a verdade literal: não conseguia ver as imagens na tela. Nem a reprise de Ro-seanne, nem o comercial da Ab-Flex, nem a cabeça falante do telejornal lo-cal. Ela quis ver toda a reportagem sobre Stephen King (levado pelo heli-cóptero de resgate ao Hospital Central Geral do Maine, em Lewiston, onde uma cirurgia realizada no início da noite parecia ter salvo sua perna direita; estado regular, ainda que com novas cirurgias pela frente, provavelmente um longo e incerto caminho para a recuperação), mas depois desligou a TV.

Irene juntou o lixo — por alguma razão havia sempre muito lixo após uma refeição do KFC —, deu a Roland um hesitante boa-noite (que ele retribuiu de modo distraído, tipo não-estou-realmente-aqui, que a deixou nervosa e triste) e foi para seu próprio quarto vizinho. Ali viu uma hora de um filme antigo onde Yul Brynner fazia o papel de um robô-caubói defei-tuoso antes de desligá-lo e ir escovar os dentes no banheiro. Então ela per-cebeu que tinha — é claro, querrida! — esquecido sua escova de dentes. Fez o melhor que pôde usando o dedo e se estendeu na cama de sutiã e calci-nha (tampouco trouxera a camisola de dormir). Passou uma hora assim, antes de perceber que estava procurando sons vindos do outro lado da pa-rede fina como papel e, em particular, um som: o estampido do revólver que Roland sem dúvida não se esquecera de levar do carro para o quarto do motel. O tiro indicando que dera fim à sua angústia do modo mais dire-to possível.

Quando não pôde mais suportar o silêncio vindo do outro lado da parede, Irene se levantou, tornou a se vestir e saiu para ver as estrelas. Lá, encontrou Roland, sentado no meio-fio, com o não-cachorro do lado. Te-ve vontade de perguntar como tinha conseguido sair do quarto sem ela dar conta (as paredes eram tão finas e ficara ouvindo com tanta atenção!), mas não perguntou. Em compensação, perguntou o que estava fazendo lá fora e sentiu-se despreparada tanto para a resposta quanto para a expressão ab-solutamente franca do rosto que se virou para o dela. Estava esperando uma patina de civilização — um aceno para as amenidades —, mas não houve nenhuma. A honestidade dele era aterradora.

— Estou com medo de dormir — disse. — Estou com medo que meus amigos mortos voltem e que vê-los possa me matar.

Ela o olhou atentamente na mistura de luz: a que caía de seu quarto e o horrível e impiedoso clarão de Halloween que vinha das lâmpadas de sódio do estacionamento. Seu coração batia com força suficiente para sa-cudir todo o peito, mas quando ela falou a voz parecia bastante calma.

— Ajudaria se eu me deitasse com você?

Ele pensou nisto e abanou a cabeça.

— Acho que sim.

Irene pegou a mão dele e foram para o quarto que alugara para Ro-land. Ele tirou as roupas sem o menor constrangimento e ela contemplou, impressionada, assustada, as cicatrizes que marcavam e recortavam a parte de cima de seu corpo: o franzido vermelho de um corte de faca num dos bíceps, a cicatriz leitosa de uma queimadura no outro, o xadrez esbranqui-çado de talhos e, sobre as omoplatas, três covinhas profundas que só podi-am ser velhos buracos de balas. E, naturalmente, havia os dedos perdidos na mão direita. Ficou curiosa, mas sentiu que jamais se atreveria a pergun-tar sobre isso.

Irene tirou suas roupas de cima, hesitou, mas tirou também o sutiã. Os seios caíram e num deles havia a cicatriz denteada não de um ferimento de bala, mas de uma lumpectomia. E daí? Nunca fora uma modelo da Vic-toria’s Secret, mesmo quando moça. E mesmo quando moça jamais come-tera o erro de se considerar um conjunto de tetas e bunda ligado a um sis-tema de manutenção da vida. Nem deixara outras pessoas — incluindo o marido — cometerem este erro.

Irene, no entanto, não tirou a calcinha. Se tivesse se depilado, talvez a tivesse tirado. Se soubesse, ao acordar naquela manhã, que ia se deitar no quarto de um hotel barato com um homem desconhecido enquanto um animal esquisito tirava uma soneca no tapete do banheiro. Claro que teria trazido uma escova de dentes e um tubo de Crest, também.

Quando ele pôs os braços à sua volta, ela arfou e ficou tensa, mas de-pois relaxou. Só que muito devagar. O quadril de Roland fez pressão con-tra seu traseiro e ela sentiu o considerável peso de seu pênis, mas parecia que o que ele queria era apenas conforto; seu pau estava mole.

Ele agarrou seu seio esquerdo e passou o polegar pela cavidade da ci-catriz deixada pela lumpectomia.

— O que é isto? — perguntou.

— Bem — disse ela (agora a voz não estava mais calma) —, segundo o meu médico, em mais cinco anos teria virado um câncer. Então cortaram antes que pudesse dar uma... bem, não sei exatamente... a metástase vem depois, se chegar a acontecer.

— Cortaram antes que pudesse florescer? — ele perguntou.

— Sim. Certo. Bom. — O mamilo estava agora duro como rocha e certamente ele devia sentir isso. Oh, aquilo era tão estranho!

— Por que seu coração está batendo com tanta força? — ele pergun-tou. — Eu a assusto?

— Eu... sim.

— Não tenha medo — disse ele. — A matança acabou. — Uma lon-ga pausa na escuridão. Podiam ouvir o barulho abafado dos carros na es-trada. — Ao menos por enquanto — ele acrescentou.

— Oh — disse ela numa voz muito baixa. — Bom.

A mão dele em seu seio. A respiração dele no pescoço. Após um tempo interminável, que podia ter sido de uma hora ou de apenas cinco minutos, a respiração de Roland ficou mais profunda e Irene percebeu que ele tinha dormido. Ela ficou ao mesmo tempo satisfeita e frustrada. Alguns minutos mais tarde, Irene também dormiu e foi o melhor sono que tivera em anos. Se Roland teve pesadelos com os amigos mortos não perturbou-a com isso. Quando ela acordou eram oito horas da manhã e Roland estava de pé à janela, nu, olhando através de uma abertura que fizera com um de-do nas cortinas.

— Você dormiu? — ela perguntou.

— Um pouco. Vamos continuar?

 

QUINZE

Podiam ter chegado a Manhattan por volta das três da tarde e o trajeto pa-ra o centro num domingo seria muito mais fácil que na hora do rush de uma manhã de segunda, mas hotéis em Nova York eram caros e a simples estadia de duas noites já exigiria a utilização de um cartão de crédito. Fica-ram então no Motel 6 em Harwich, Connecticut. Ela pegou apenas um quarto e, naquela noite, eles transaram. Não exatamente porque ele quises-se, ela intuiu, mas porque Roland entendeu que era o que ela queria. Talvez o que precisava.

Foi extraordinário, embora ela não pudesse dizer precisamente como; apesar de sentir todas aquelas cicatrizes nas mãos — algumas ásperas, al-gumas suaves —, teve a impressão de estar transando com seu sonho. E naquela noite ela realmente sonhou. Sonhou com um campo cheio de rosas e uma enorme Torre feita de ardósia preta em sua extremidade. A meio caminho do topo, luzes vermelhas brilhavam... só que ela desconfiava que não se tratava exatamente de lâmpadas, mas de olhos.

Olhos terríveis.

Ouvia muitas vozes cantando, milhares delas, e compreendeu que al-gumas eram as vozes dos amigos perdidos dele. Acordou com lágrimas no rosto e uma sensação de perda, embora ele ainda estivesse a seu lado. De-pois daquele dia não o veria mais. O que sem dúvida era melhor. Ainda assim, daria qualquer coisa para transar novamente com ele, embora perce-besse que não fora realmente com ela que Roland havia transado; mesmo quando a penetrou, os pensamentos dele estavam distantes, com aquelas vozes.

Com aquelas vozes perdidas.