A Torre Negra, Vol. 7
Quatro
Agora, sentado com Oi na frente da vazia Taberna Trevo, com seus anún-cios de cerveja em néon e um jukebox, Jake pensava em como Roland agi-ra certo. Ele se sentia muito grato. Depois de uns 45 minutos de vigília, o pistoleiro vira sua terrível tristeza e o tirara do quarto onde Eddie estava estendido. Eddie ia perdendo centímetro por centímetro da vitalidade, dei-xando a marca de uma notável força de vontade em cada um daqueles úl-timos centímetros da tapeçaria de sua vida.
A equipe de atendimento que Ted Brautigan tinha organizado levara de maça o jovem pistoleiro para a Unidade Corbett, onde o deitaram no espaçoso quarto da suíte do supervisor no primeiro andar. Os que carrega-ram a maça permaneceram no pátio do dormitório e, à medida que a tarde ia caindo, o resto dos Sapadores juntava-se a eles. Quando Roland e Jake chegaram, uma mulher gorducha, de cabelo ruivo, se pôs no caminho de Roland.
Senhora, eu não faria isso, Jake havia pensado. Não esta tarde.
A despeito dos alarmes e agitações do dia, a mulher — que lembrava a Jake a presidente vitalícia do clube de jardinagem de sua mãe — encon-trara tempo para aplicar uma camada razoavelmente pesada de maquiagem: pó-de-arroz, ruge e um batom vermelho como um carro de bombeiro do Devar. Ela se apresentou como Grace Rumbelow (que vivera anteriormen-te em Aldershot, Hampshire, Inglaterra) e disse que queria saber o que ia acontecer agora — para onde eles iam, o que iam fazer, quem ia tomar conta deles. As mesmas perguntas que o taheen com cabeça de galo tinha feito, ainda que em outras palavras.
— Pois sempre tivemos quem cuidasse de nós — disse Grace Rumbe-low em tons metálicos (Jake ficou fascinado com o sotaque britânico) — e não temos condições, ao menos por enquanto, de cuidar de nós mesmos.
Neste ponto, houve exclamações de concordância. Roland olhou-a de cima a baixo e algo no olhar dele despojara a senhora de sua calculada in-dignação.
— Saia da minha frente — disse o pistoleiro — ou a derrubo no chão.
Ela empalideceu sob a maquiagem e fez o que ele estava mandando sem dizer mais nada. Um murmúrio com pios de desaprovação seguiu Jake e Roland para a Unidade Corbett, mas só começou quando o pistoleiro estava fora de vista e ninguém tinha mais medo de cair sob o brilho per-turbador de seus olhos azuis. Os Sapadores faziam Jake se lembrar de uns garotos que freqüentaram com ele a escola Piper, bobalhões da classe dis-postos a gritar coisas como essa prova é uma porra! ou morda meu saco!... mas só quando o professor estava fora da sala.
O hall no primeiro andar do Corbett brilhava com luzes fluorescentes e tinha um cheiro muito forte da fumaça que vinha da Casa Damli e da Unidade Feveral. Dinky Earnshaw estava sentado numa cadeira dobrável à direita da porta com a inscrição SUÍTE DO SUPERVISOR, fumando um cigarro. Ergueu a cabeça quando Roland e Jake se aproximaram, Oi tro-tando com eles em sua posição habitual, logo atrás do calcanhar de Jake.
— Como ele está? — Roland perguntou.
— Morrendo, cara — disse Dinky, e deu de ombros.
— E Susannah?
— É forte. Assim que ele se for... — Dinky abanou de novo os om-bros, como para dizer que a coisa podia seguir um caminho ou outro, não importa.
Roland bateu devagar na porta.
— Quem é? — A voz de Susannah, abafada.
— Roland e Jake — disse o pistoleiro. — Vamos incomodar?
A pergunta encontrou o que, para Jake, foi uma pausa excessivamente longa. Roland, contudo, não pareceu surpreso. Aliás, nem Dinky. Por fim, Susannah respondeu:
— Entrem.
Eles entraram.