A Torre Negra, Vol. 7
Dezesseis
A sra. Tassenbaum saltou bruscamente da entrada de Cara Ri e entrou em segunda na Via do Casco da Tartaruga, o motor do velho caminhãozinho picape rateando muito (se houvesse um marcador de giros no painel, o ponteiro teria sem a menor dúvida atingido o vermelho), algumas ferra-mentas lá atrás sambando loucamente na caçamba enferrujada.
Roland tinha somente um pouquinho do toque — praticamente nada em comparação a Jake —, mas conhecera Stephen King e conseguira fazê-lo mergulhar no sono falso da hipnose. Isso era um poderoso vínculo já estabelecido entre os dois e assim ele não ficou de todo espantado quando conseguiu tocar a mente que Jake não fora capaz de alcançar. Provavel-mente o mérito disso não era diminuído pelo fato de King estar pensando neles.
Ele freqüentemente faz isso em suas caminhadas, Roland pensou. Quando está sozinho, ouve a Canção da Tartaruga e percebe que tem um trabalho a fazer. Um tra-balho de que está se esquivando. Bem, meu amigo, isto acaba hoje.
Se, é claro, conseguissem salvá-lo.
Ele se inclinou pela frente de Jake e fitou a mulher.
— Não pode fazer esta coisa amaldiçoada pelos deuses andar mais depressa?
— Posso — disse ela. — Creio que posso. — E então, para Jake: — Consegue de fato ler as mentes, filho, ou é só um jogo que você e seu ami-go fazem?
— Não posso ler mentes, exatamente, posso tocá-las — disse Jake.
— Espero como diabo que isto seja verdade — disse ela —, porque a Via do Casco da Tartaruga tem muitas subidas e descidas e em certos pon-tos só há uma pista. Se sentir algo vindo pelo outro lado terá de me avisar.
— Aviso.
— Excelente — disse Irene Tassenbaum, mostrando os dentes num sorriso. Realmente não havia mais qualquer dúvida: aquela era a melhor coisa que havia lhe acontecido. A coisa mais vibrante. Agora, além de ouvir as vozes cantantes, podia ver rostos nas folhas das árvores às margens da estrada, como se houvesse uma multidão a vigiá-los. Podia sentir uma tre-menda força tomando vulto ao redor e, de repente, se viu possuída por uma noção vertiginosa: se pisasse fundo no acelerador da velha e enferru-jada picape de Chip McAvoy, poderia ir mais rápido que a velocidade da luz. Abastecida pela energia que sentia à sua volta, talvez pudesse ir além do próprio tempo.
Bem, vamos tirar isso a limpo, ela pensou levando o I-H para o meio da Via do Casco da Tartaruga, pisando com força na embreagem e empurran-do a alavanca de câmbio para a terceira. O velho caminhãozinho não co-meçou a ir mais rápido que a velocidade da luz, como também não foi a-lém do tempo, mas o ponteiro do velocímetro subiu para os 80 quilôme-tros... e passou daí. O veículo chegou à crista de uma subida e, quando começou a descer pelo outro lado, pairou um instante no ar.
Pelo menos alguém estava feliz; a exaltação fazia Irene Tassenbaum gritar.
DEZESSETE
Stephen King tem duas caminhadas, a curta e a longa. A curta o leva pelo cruzamento da estrada de Warrington com a rota 7 e depois de volta à casa, Cara Ri, pelo mesmo caminho. Tem 5 quilômetros. A longa caminhada (que por acaso é também o nome de um livro que um dia, antes de o mundo seguir adiante, ele escreveu com o nome de Ba-chman,∗ o leva para depois do cruzamento da Warrington, desce pela rota 7 até a Slab City Road e volta pela rota 7 até Berry Hill, contornando a estrada de Warrington. Este trajeto, que o leva para casa pela ponta norte da Via do Casco da Tartaruga, tem pouco mais de 6 quilômetros. É o caminho que pretende fazer hoje, mas quando chega ao cruzamento da 7 com a estrada de Warrington ele pára, pensando na possibilidade de voltar pelo caminho curto. Sabe que é meio perigoso caminhar pelo acostamento da rodovia pública, embora não haja tráfego pesado na rota 7, mesmo no verão; só há real-
* Em português é Caminhada da Morte. (N. da E.) mente movimento naquela estrada na época do Festival de Fryeburg, que só começa na primeira semana de outubro. De qualquer modo a maioria dos ângulos de visão são bons. Geralmente é possível avistar algum barbeiro (ou bêbado) quando ele ainda está a uns 400 metros de distância, o que dá à pessoa tempo mais que suficiente para se afas-tar. Há somente uma subida cega, a que vem logo depois do cruzamento com a Warring-ton. Ela oferece, no entanto, um exercício aeróbico, que faz o velho coração realmente saltar. E afinal, não é para isso que está fazendo todas aquelas caminhadas idiotas? Para promover o que os especialistas dos programas de TV chamam de “saúde coroná-ria”? Parou de beber, parou de se drogar, quase parou de fumar, faz exercícios. O que mais é preciso?
Mesmo assim uma voz lhe sussurra. Saia da estrada principal, ela diz. Vá tomando o caminho de casa. Ficará com uma hora de sobra antes de ter de sair para se encontrar com o resto do pessoal na festa do outro lado do lago. Pode trabalhar um pouco. Talvez começar a próxima história da Torre Negra; você sabe como ela vem entrando em sua cabeça.
E, vem mesmo, mas ele já está trabalhando em uma história e gosta muito dela. Voltar à história da Torre significa mergulhar em águas profundas. Talvez se afogar nelas. Contudo, ele de repente percebe, parado ali no cruzamento, que se voltar mais cedo vai começar. Não conseguirá evitar. Terá de dar atenção ao que às vezes concebe como Ves’-Ka Gan, a Canção da Tartaruga (e às vezes como Canção de Susannah). Vai deixar para lá a história atual, dará as costas à segurança de terra firme e mergulhará de novo naquela água escura. Já fez isto quatro vezes, mas agora terá de nadar até o outro lado.
Nadar ou se afogar.
— Não — diz ele. Fala em voz alta e por que não? Não há ninguém ali para ouvi-lo. Distingue, porém, debilmente, o barulho em surdina de um veículo que se apro-xima (ou são dois?, um pela rota 7 e outro pela estrada de Warrington?), mas isso é tudo.
— Não — ele torna a dizer. — Vou continuar caminhando e depois vou à fes-ta. Hoje não escrevo mais. Principalmente não aquilo.
E assim, deixando o cruzamento para trás, começa a fazer a subida íngreme com seu curto ângulo de visão. Avança em direção ao som do Dodge Caravan que se apro-xima, que é também o som de sua morte próxima. O ka do mundo racional quer vê-lo morto; o do Primal quer vê-lo vivo, cantando sua canção. Assim é que, naquela tarde ensolarada no oeste do Maine, a força irresistível corre para o objeto imóvel e, pela pri-meira vez desde o recuo do Primal, todos os mundos e toda a existência voltam-se para a Torre Negra que permanece na extremidade de Can’-Ka No Rey, o que significa di-zer os Campos Vermelhos do Nada. Mesmo o Rei Rubro pára com seus gritos irados. Pois é a Torre Negra que vai decidir.
— A resolução exige um sacrifício — diz King, e embora só os passarinhos escu-tem aquilo e ele nem tenha idéia do que está falando, não está preocupado. Vive sempre cochichando consigo mesmo; é como se houvesse uma Caverna de Vozes em sua cabeça, cheia de imitadores brilhantes (mas não necessariamente inteligentes)
Caminha, sacudindo os braços junto às coxas metidas na calça jeans, inconsciente de que seu coração está
(não está)
em suas poucas batidas finais, que sua mente está
(não está)
pensando seus últimos pensamentos, que suas vozes estão
(não estão)
fazendo seus últimos pronunciamentos de oráculo.
— Ves’-Ka Gan — ele diz, divertido pelo som... mas também atraído por ele. Já prometeu a si mesmo que não vai sufocar suas fantasias sobre a Torre Negra com pala-vras impronunciáveis em alguma linguagem inventada (para não dizer fodida) — mes-mo porque seu editor, Chuck Verrill, de Nova York, cortará a maioria delas se ele o fizer —, mas mesmo assim sua mente parece estar se enchendo de tais palavras e frases; ka, ka-tet, sai, soh, can-toi (esta pelo menos vem de outro livro seu, Desespero), tahe-en. Será que Cirith Ungol, de Tolkien, e Nyarlathotep, o Grande Violinista Cego de H. P. Lovecraft, ficariam muito atrás?
Ele ri e começa a cantar uma música que uma de suas vozes lhe trouxe. Aposta que vai usá-la no próximo livro do pistoleiro, quando finalmente conceder de novo voz à Tartaruga.
— Commala-venha-venha — ele canta enquanto caminha —, há um rapaz com um revólver. O rapaz perdeu seu bem quando ela o pegou sem vintém.
O rapaz é o Eddie Dean? Ou o Jake Chambers?
— Eddie — ele diz em voz alta. — Eddie é o atirador com o bem. — Está tão imerso em pensamentos que demora a ver a capota do Dodge Caravan azul que aparece no curto horizonte à sua frente, e não percebe que o veículo não vem absolutamente pela pista, mas pelo acostamento onde ele está andando. E também não ouve o barulho da picape que se aproxima pelas suas costas.
DEZOITO
Apesar da batida hip-hop da música, Bryan ouve mexer a tampa do isopor e, ao olhar pelo retrovisor, fica aflito e ultrajado ao ver que o Bala, sempre o mais afoito dos dois rotties, saltara do bagageiro na traseira da van para a área dos bancos. Com as pernas traseiras em cima do banco sujo, sacode feliz o rabinho e tem o nariz enterrado no isopor de Bryan.
Neste ponto qualquer motorista razoável encostaria na margem da estrada, desli-garia o motor e cuidaria do genioso animal. Bryan Smith, contudo, nunca consegue mui-tos pontos em termos de sensatez quando está atrás do volante e tem o prontuário para prová-lo. Em vez de encostar, ele se contorce para a direita, dirigindo com a mão esquer-da e empurrando inutilmente a cabeça chata do rottweiler com a mão direita.
— Largue isso! — grita para o Bala enquanto a minivan resvala para o acosta-mento da direita e sobe nele. — Não ouviu o que eu disse, Bala? Está maluco? Lar-gue isso! — Na realidade ele consegue afastar a cabeça do cachorro por um momento, mas não há pêlo onde os dedos possam se agarrar e o Bala, embora não seja um gênio, tem inteligência suficiente para saber que dispõe pelo menos de mais uma chance para agarrar a coisa que está no papel branco, acoisa que irradia aquele cheiro vermelho e arrebatador. Mergulha sob a mão de Bryan e a mandíbula se apodera da embalagem do hambúrguer.
— Solte isso! — Bryan grita. — Solte agora... JÁ!
Afim de ganhar o equilíbrio necessário para se contorcer ainda mais no banco do motorista, Bryan pressiona firmemente os dois pés para baixo. Um deles, infelizmente, está sobre o acelerador. A van dá um salto de velocidade a caminho do alto da subida. Neste momento, nervoso e indignado, Bryan já esqueceu completamente onde está (rota 7) e o que devia estar fazendo (dirigindo uma van). Tudo que agora lhe importa é tirar a embalagem de carne da boca do Bala.
— Dê isso! — ele grita, puxando. O rabo se sacode mais furiosamente que nunca (para o cachorro agora é tanto um jogo quanto um rango); o Bala puxa de volta. Há o barulho do papel de açougue sendo rasgado. A van já está completamente fora da estrada. Na frente há um bosque de velhos pinheiros iluminado pela suave luz da tarde: uma névoa de verde e dourado. Bryan só pensa na carne. Não quer comer hambúrguer com baba de cachorro, podem ter certeza que não.
— Dê isso! — ele diz, não vendo o homem no caminho de sua van, não vendo o caminhão que se aproxima bem por trás do homem, não vendo a porta do carona do caminhão sendo aberta nem o tipo magricela de caubói que salta, um revólver com um grande cabo amarelo escorregando do coldre em sua cintura quando ele cai no chão; o mundo de Bryan Smith se resume a um cachorro mau e a uma embalagem de carne. Na luta pela carne, rosas de sangue vão florescendo, como tatuagens, no papel de açougue.
DEZENOVE
— Lá está ele! — o garoto chamado Jake gritou, mas Irene Tassenbaum não precisava que ninguém o dissesse. Stephen King usava uma calça jeans, uma camisa esporte de cambraia e um boné de beisebol. Estava bem de-pois do ponto onde a estrada de Warrington cruzava com a rota 7, na altu-ra de um quarto da subida.
Irene meteu o pé na embreagem, engrenou uma segunda como um piloto de NASCAR de olho na bandeira xadrez, e virou bruscamente para a esquerda, girando o volante com ambas as mãos. A picape de Chip McA-voy balançou, mas não tombou. Ela viu o sol faiscar sobre metal quando um veículo vindo pelo outro lado atingiu o alto da ladeira que King subia. Ouviu o homem sentado junto à porta gritar:
— Encosta atrás dele!
Ela fez o que lhe mandava, embora pudesse ver que o veículo que se aproximava estava fora da estrada e a qualquer momento poderia bater ne-les pelo lado. Para não mencionar a possibilidade de Stephen King ficar imprensado num sanduíche metálico entre os dois veículos.
A porta se escancarou e o homem chamado Roland meio rolou, meio pulou da picape.
Depois disso, as coisas aconteceram muito, muito depressa.