A Torre Negra, Vol. 7
Dez
A sala de Marian Carver ficava na esquina noroeste do 99º andar. Ali as paredes eram inteiramente de vidro, sem uma única escora ou esquadria, e a vista tirou o fôlego do pistoleiro. Parar naquele canto e olhar para fora era como estar suspenso no ar sobre um horizonte mais fabuloso do que qualquer mente poderia imaginar. Contudo era uma paisagem que já tinha visto antes. Reconheceu a ponte suspensa assim como alguns dos grandes edifícios por aquele lado. Não podia deixar de reconhecer a ponte, pois quase tinham morrido ao atravessá-la em outro mundo. Jake acabara sendo seqüestrado de lá por Gasher e levado para o Homem do Tiquetaque. Lá estava a Cidade de Lud como ela devia ter sido em seus primórdios.
— Chamam de Nova York? — ele perguntou. — É isso, não é?
— Sim — disse Nancy Deepneau.
— E aquela ponte ali que sobe e desce?
— É a ponte George Washington — disse Marian Carver. — Ou simplesmente GWB, se você for nascido aqui.
Então, lá embaixo, estava não apenas a ponte que os havia conduzido a Lud mas aquela ao lado da qual Père Callahan caminhara ao deixar Nova York para dar início a seus dias de perambulação. Uma lembrança que Ro-land guardava, e muito bem, da história dele.
— Não vão querer beber alguma coisa? — Nancy perguntou.
Ele começou a dizer que não, mas tomou consciência de como sua cabeça estava mexida e mudou de idéia. Alguma coisa sim, mas só se ser-visse para aguçar as percepções que precisavam ser aguçadas.
— Um pouco de chá, se tiver — disse ele. — Chá quente e forte com açúcar ou mel. Pode ser?
— Pode — disse Marian, apertando um botão em sua mesa. Falou com alguém que Roland não pôde ver e de imediato a existência da mulher na saleta externa (aquela que parecia falar sozinha) fez mais sentido.
Depois de pedir o chá quente com sanduíches (que para Roland seri-am sempre imaginados como popquins), Marian se inclinou para a frente e capturou o olhar do pistoleiro.
— Acho ótimo estarmos nos encontrando em Nova York, Roland, acho mesmo, mas nosso tempo aqui... não é vital. E desconfio que você sabe por quê.
O pistoleiro pensou no assunto, depois abanou a cabeça. Um pouco cautelosamente, mas no correr do tempo sua natureza fora desenvolvendo um certo grau de cautela. Em certas pessoas — Alain Johns fora uma de-las, Jamie DeCurry outra — o senso de cautela era inato, mas este nunca fora o caso de Roland, cuja tendência era atirar primeiro e perguntar de-pois.
— Nancy o mandou ler a placa no Jardim do Feixe — disse Marian.
— Será que...
— Jardim do Feixe, digam Senhor! — Moses Carver interveio. Ao pas-sar pelo corredor em direção à sala da filha, ele tirara uma bengala de um suporte que imitava um pé de elefante e agora, em busca de ênfase, batia com ela no dispendioso carpete. Marian suportava pacientemente aquilo. — Digam Deus-bomba!
— A recente amizade de meu pai com o reverendo Harrigan, que faz ponto lá embaixo, não foi exatamente o melhor momento da minha vida — disse Marian com um suspiro —, mas não importa. Você leu a placa, Roland?
Ele abanou a cabeça. Nancy Deepneau tinha usado uma palavra dife-rente (mensagem ou sigul), mas ele compreendia que dava no mesmo.
— As letras se transformaram em Grandes Letras. Pude ler muito bem.
— E o que ela dizia?
— DOADA PELA TET CORPORATION, EM HONRA DE EDWARD CANTOR DEAN E JOHN “JAKE” CHAMBERS. — Ele fez uma pausa. — Depois a placa dizia: “Cam-cam-mal, Pria-toi, Gan delah”, que se poderia traduzir como O BRANCO SOBRE O VERMELHO, ASSIM DESEJA O GAN PARA SEMPRE.
— E para nós — disse Marian — a placa diz: O BEM SOBRE O MAL, ESTA É A VONTADE DE DEUS.
— Deus seja louvado! — disse Moses Carver batendo com a bengala. — Possa o Primal se erguer!
Houve uma leve batida na porta e a mulher da saleta entrou com uma bandeja de prata. Roland ficou fascinado ao ver um pequeno troço preto suspenso na frente de seus lábios e uma estreita cinta preta desaparecendo em seu cabelo. Alguma espécie de instrumento para conversa a distância, sem dúvida. Nancy Deepneau e Marian Carver ajudaram-na a pousar xíca-ras de chá e café, tigelas de açúcar e mel, uma jarrinha de creme de leite. Havia também um prato de sanduíches. O estômago de Roland roncou. Pensou nos amigos enterrados — não mais popquins para eles — e tam-bém em Irene Tassenbaum, sentada no pequeno jardim do outro lado da rua, pacientemente à espera dele. Qualquer um desses dois pensamentos devia ter sido suficiente para liquidar seu apetite, mas o estômago tornou a fazer o barulho desobediente. Certas partes da pessoa não tinham consci-ência, um fato que ele achou que sabia desde criança. Assim, serviu-se de um popquim, mergulhou uma colher cheia de açúcar no chá e acrescentou uma boa quantidade de mel. Queria resolver tudo ali o mais depressa pos-sível e voltar para Irene, mas enquanto isso...
— Que o alimento lhe faça bem — disse Moses Carver soprando sua xícara de café. — Pelos dentes, pelas gengivas, pelas tripas, lá vai descendo! Hehehe!
— Eu e papai temos uma casa em Montauk Point — disse Marian, pondo creme em seu café — e estivemos lá no último final de semana. Por volta das cinco e 15 da tarde de sábado, recebi uma chamada de um dos seguranças daqui. A Associação Hammarskjöld Plaza os emprega, mas a Tet Corporation lhes paga um bônus para que possamos ficar a par... de certas coisas de interesse, digamos... assim que elas ocorram. Andamos ob-servando aquela placa do saguão com extraordinário interesse à medida que se aproximava o 19 de junho, Roland. Você ficaria surpreso em saber que até mais ou menos as 15 para as cinco daquele dia ela dizia: DOADA PELA TET CORPORATION EM HONRA DA FAMÍLIA DO FEIXE E EM ME-MÓRIA DE GILEAD?
Roland pensou, sorveu o chá (que estava quente, era forte e gostoso), balançou a cabeça.
— Não.
Ela se inclinou para a frente, olhos brilhando.
— E por que não ficaria surpreso?
— Porque até sábado à tarde, entre quatro e cinco horas, nada estava seguro. Mesmo com os Sapadores detidos, as coisas só ficaram seguras de-pois que Stephen King foi salvo. — Deu uma olhada em volta. — Sabem dos Sapadores?
Marian abanou afirmativamente a cabeça.
— Não dos detalhes — disse —, mas sabemos que o Feixe que esta-vam tentando destruir está agora livre deles e que ainda não tinha sido da-nificado a ponto de não poder mais ser regenerado. — Ela hesitou, mas logo acrescentou: — E sabemos de sua perda. De suas duas perdas. Senti-mos muito, Roland.
— Aqueles rapazes estão em segurança nos braços de Jesus — disse o pai de Marian. — E mesmo que não estejam, estão juntos na clareira.
Roland, que queria acreditar naquilo, abanou a cabeça e agradeceu. Depois tornou a se virar para Marian.
— A coisa com o escritor foi por um triz. Ficou ferido, gravemente ferido. Jake morreu para salvá-lo. Pôs o corpo entre King e a van-móbile que acabou levando sua vida.
— King vai ficar bom — disse Nancy. — E vai voltar a escrever. Soubemos por uma fonte muito confiável.
— Quem?
Marian se inclinou para a frente.
— Você vai saber — disse ela. — O que interessa, Roland, é que a-creditamos nisso, temos certeza disso e a segurança de King já assegurada, pelos próximos anos, significa que seu trabalho se cumpriu: Ves’-Ka Gan.
Roland abanou a cabeça. A canção ia continuar.
— Mas ainda temos bastante trabalho pela frente — Marian continu-ou. — Calculamos ainda uns trinta anos de trabalho, mas...
— Mas é nosso trabalho, não seu — disse Nancy.
— Foi o que ouviram da mesma “fonte confiável”? — Roland per-guntou sorvendo o chá. Mesmo quente como estava, ele já pusera metade do conteúdo da enorme xícara no estômago.
— Sim. Seu empenho em derrotar as forças do Rei Rubro deu bom resultado. O próprio Rei Rubro...
— Aquilo nunca foi a missão desse homem e você sabe disso! — disse o homem centenário sentado ao lado da bela negra, mais uma vez batendo com a bengala no chão em busca de ênfase. — Sua missão é...
— Já chega, papai! — Agora a voz dela fora suficientemente áspera para fazer o velho piscar.
— Naum, deixe-o falar — disse Roland e os três se viraram para ele, surpresos (e um pouco assustados) com o tom áspero da intervenção. — Deixe-o falar, pois ele diz a verdade. Se vamos descascar a coisa, vamos fazê-lo bem. Para mim, os Feixes nunca foram mais do que meios para a-tingir um fim. Se eles quebrassem, a Torre teria caído. Se a Torre caísse, eu jamais teria chegado até ela, e subido até o topo.
— Está dizendo que se importou mais com a Torre Negra em si que com a continuação da existência do universo? — Nancy Deepneau disse. Falava num tom me-deixe-ter-certeza-de-que-foi-exatamente-isto-que-ouvi e encarou Roland com um misto de admiração e desprezo. — A continua-ção da existência de todos os universos!
— A Torre Negra é a própria existência — disse Roland —, e nos úl-timos anos tenho sacrificado muitos amigos para alcançá-la, incluindo um menino que me chamava de pai. Sacrifiquei minha própria alma na barga-nha, minha senhora-sai, e peço que vire sua boca imprudente para outro lugar. Por favor faça isto logo e faça com atenção.
O tom foi educado mas terrivelmente frio. Toda a cor sumiu da face de Nancy Deepneau e a xícara de chá tremeu tanto em sua mão que Ro-land estendeu o braço e pegou a xícara, para que o chá não derramasse e a queimasse.
— Não me leve a mal — disse ele. — Entenda o que eu digo, pois jamais voltaremos a nos falar. O que está feito está feito em ambos os mundos, para o bem e para o mal, pelo ka e contra ele. Há, no entanto, mais. Mais coisas além de todos os mundos que você conhece e mais coi-sas atrás deles do que você seria capaz de imaginar. Meu tempo é curto, por isso vamos continuar.
— Disse-o bem, senhor! — resmungou Moses Carver, batendo outra vez com a bengala.
— Se o ofendi, peço realmente que me desculpe — disse Nancy.
Roland não respondeu, pois sabia que ela não tinha a menor intenção de se desculpar — estava apenas com medo dele. Foi um desconfortável momento de silêncio que Marian Carver finalmente quebrou.
— Não temos nenhum Sapador aqui, Roland, mas no rancho em Taos empregamos uma dúzia de telepatas e precognitivos. O que fazem juntos é às vezes incerto, mas é sempre maior que a soma das partes. Co-nhece o termo “mente boa”?
O pistoleiro abanou afirmativamente a cabeça.
— Põem em prática uma versão da coisa — disse ela —, embora eu tenha certeza de que não tão extensa ou poderosa quanto a que os Sapado-res eram capazes de produzir em Trovoada.
— Porque eram centenas de pessoas — o velho resmungou. — E es-tavam melhor alimentados.
— Também porque os servos do Rei estavam sempre mais do que dispostos a seqüestrar quem fosse particularmente poderoso — disse Nancy —, eles tinham sempre o que chamávamos “a melhor escolha da ninhada”. Os nossos, no entanto, sempre nos serviram muito bem.
— De quem foi a idéia de pôr essa gente trabalhando para você? — Roland perguntou.
— Por mais estranho que possa lhe parecer, parceiro — disse Moses —, ela partiu de Cal Tower. Se bem que ele não era de contribuir muito... Estava sempre ocupado colecionando seus livros e se arrastando, sujeiti-nho ganancioso, pretensioso, era isso que ele era, um filho-da-puta que era...
A filha atirou-lhe um olhar de advertência. Roland teve de lutar para manter uma expressão séria. Moses Carver podia ter cem anos de idade, mas conseguira resumir Calvin Tower numa única expressão.
— De qualquer modo, ele havia lido sobre a possibilidade de pôr te-lepatas em ação numa série de livros de ficção científica. Conhece ficção científica?
Roland balançou a cabeça numa negativa.
— Bem, não importa — disse Moses Carver. — A maioria da coisa é besteira, mas de vez em quando aparece uma idéia legal. Agora preste aten-ção no que estou dizendo. Vai entender melhor, sabendo do que Tower e seu amigo, sr. Dean, conversaram há 22 anos, quando o sr. Dean conse-guiu salvar o Tower de dois bandidos branquelos.
— Pai! — disse Marian num tom de advertência. — Pare agora com essa conversa negra! Você é velho, mas não burro!
Ele se virou; os olhos velhos e turvos brilharam com alegria malicio-sa; tornou a se voltar para Roland e repetiu a piscadela furtiva.
— Dois branquelos, bandidos comedores de espaguete!
— Sim, Eddie me falou nisso — disse Roland.
O sotaque sulista desapareceu da voz de Carver; suas palavras ficaram mais enfáticas.
— Então sabe que falaram de um livro chamado The Hogan, A Oca, de Benjamin Slightman. O título foi mal impresso, assim como o nome do escritor, o que era exatamente o tipo de coisa que enchia o saco do velho gordinho.
— Sim — disse Roland. O título original mal impresso era The Dogan, O Dogan, uma palavra que passara a ter grande significado para Roland e seu tet.
— Bem, após a visita de seu amigo, Cal Tower ficou novamente mui-to interessado naquele sujeito e descobriu que ele havia escrito outros qua-tro livros sob o nome de Daniel Holmes. Era tão branco quanto o lençol de um membro da Ku Klux Klan, aquele Slightman, mas o nome que esco-lheu para assinar seus outros livros foi o nome do pai de Odetta. E aposto que isso não lhe causa o menor espanto, não é?
— Não — disse Roland. Fora apenas outro leve clique, o botão com a combinação do ka girando.
— E todos os livros que ele escreveu sob o nome de Holmes eram histórias de ficção científica, com o governo contratando telepatas e pre-cognitivos para descobrir coisas. E foi aí que nós pegamos a idéia. — O-lhou para Roland e deu uma triunfante batida com a bengala. — Há mais para contar, muito mais, mas acho que você não tem tempo. No fim che-gamos sempre a isso, não é? Tempo. E neste mundo ele corre num único sentido. — Ele pareceu melancólico. — Daria muita coisa, pistoleiro, para ver de novo minha afilhada, mas acho que isto não está nas cartas, não é? A não ser que nos encontremos na clareira.
— Acho que diz a verdade — disse Roland —, mas darei notícias a ela, direi como ainda está cheio de energia e chama...
— Diga de Deus, diga de Deus-bomba! — o velho aparteou e bateu com a bengala. — Repita isso, irmão! E diga isso a ela!
— Vou dizer. — Roland tomou o último gole do chá, pousou a xíca-ra na mesa de Marian Carver e se levantou apoiando o quadril direito com a mão. Levaria muito tempo para se acostumar à ausência de dor ali, muito provavelmente mais tempo do que tinha. — E agora tenho de me despe-dir. Há um lugar não longe daqui aonde preciso ir.
— Sabemos onde é — disse Marian. — Haverá alguém para acompa-nhá-lo quando chegar lá. O lugar tem sido mantido seguro para você. Se a porta que procura ainda existir e ainda funcionar, vai passar por ela.
Roland fez uma ligeira mesura.
— Obrigado- sai.
— Mas fique mais um pouco, se não se importar. Temos presentes para você, Roland. Não é suficiente para recompensá-lo por tudo que fez... não importa que seu objetivo principal pudesse ser outro... mas coisas que, ainda assim, pode querer. Um é uma notícia de nosso pessoal de mente boa em Taos. Outro vem de... — Ela pensou um pouco. —... pesquisado-res mais normais, gente que trabalha para nós aqui neste prédio. Eles se autodenominaram Calvins, mas não devido a algum viés religioso calvinista. Acho que é uma pequena homenagem ao sr. Calvin Tower, que morreu há nove anos de um ataque cardíaco em sua nova livraria. Ou talvez seja ape-nas uma piada.
— De mau gosto, se for — Moses Carver resmungou.
— E há dois presentes... nossos. De Nancy, meu, de meu pai e de al-guém que se foi. Pode se sentar um pouco mais?
E embora ansioso para partir, Roland fez o que lhe pediam. Pela pri-meira vez desde a morte de Jake, uma verdadeira emoção, e uma emoção diferente da dor, brotara em sua mente.
Curiosidade.
ONZE
— Primeiro as notícias das pessoas no Novo México — disse Marian quando Roland voltou a sentar. — Tentaram acompanhá-lo o mais que puderam e embora o que vissem do lado-Trovoada estivesse sempre no mínimo nebuloso, eles acreditam que Eddie contou alguma coisa a Jake Chambers... talvez algo de importância... pouco antes de morrer. Prova-velmente enquanto estava caído no chão, antes de... não sei...
— Antes de começar a entrar na escuridão? — Roland sugeriu.
— Sim — Nancy Deepneau concordou. — Achamos que sim. O que quer dizer, eles acham que aconteceu assim. Nossa versão dos Sapadores.
Marian fez uma expressão dura, sugerindo ser uma senhora que não gostava de ser interrompida. Depois voltou sua atenção para Roland.
— Ver as coisas que acontecem de nosso lado é mais fácil para nossa gente e muitos não têm a menor dúvida... mesmo que não o afirmem dire-tamente... de que Jake passou a mensagem adiante antes que ele próprio morresse. — Fez uma pausa. — Esta mulher com quem está viajando, a sra. Tannenbaum...
— Tassenbaum — Roland corrigiu. Fez isso sem pensar, porque sua mente estava ocupada com outra coisa. Furiosamente ocupada.
— Tassenbaum — Marian concordou. — Sem a menor dúvida ela disse a você algo do que Jake lhe contou antes de partir, mas ainda pode haver mais. Não algo que esteja se negando a revelar, mas algo que não reconheceu como importante. Você por favor peça que reveja mais uma vez o que ouviu de Jake antes de vocês se separarem?
— Vou pedir — disse Roland e sem dúvida o faria, mas não acredita-va que Jake tivesse passado a mensagem de Eddie para a sra. Tassenbaum. Não, não para ela. De repente percebeu que quase se esquecera de Oi des-de que Irene tinha estacionado o carro, mas Oi estava com eles, é claro; estaria agora deitado nos pés de Irene, que estava sentada no pequeno jar-dim do outro lado da rua, tomando um pouco de sol e à sua espera.
— Tudo bem — disse ela. — Isso é bom. Vamos continuar. Marian abriu a grande gaveta do centro de sua escrivaninha. Tirou de lá um enve-lope acolchoado e uma pequena caixa de madeira. O envelope ela passou a Nancy Deepneau. A caixa ela colocou na sua frente na escrivaninha.
— E agora é a vez de Nancy — disse ela. — Só peço que seja breve, Nancy, porque este homem parece muito ansioso para ir embora.
— Fale — disse Moses batendo com a bengala.
Nancy olhou para ele, depois para Roland... ou pelo menos em sua di-reção. Um tom vermelho estava aflorando em seu rosto e ela parecia per-turbada.
— Stephen King... — disse ela. Então limpou a garganta e disse de novo. A partir daí, no entanto, parecia não saber como continuar. O ver-melho queimava ainda mais sob a pele.
— Respire fundo — disse Roland — e segure o ar.
Ela fez o que ele dizia.
— Agora deixe sair.
Fez isto também.
— Agora me diga o que queria me dizer, Nancy, sobrinha de Aaron.
— Stephen King já escreveu quase quarenta livros — disse ela, e em-bora o vermelho continuasse nas bochechas (Roland achou que não demo-raria a descobrir o que toda aquela cor significava), a voz estava mais cal-ma. — Num número incrível deles, inclusive já nos primeiros, há algum tipo de referência à Torre Negra. É como se ela estivesse sempre presente em sua cabeça, desde o início.
— O que você diz é verdade — concordou Roland entrelaçando as mãos —, eu digo obrigado.
Isto pareceu acalmá-la ainda mais.
— Daí os Calvins — disse ela. — Três homens e duas mulheres de vocação acadêmica que não fazem nada das oito da manhã às quatro da tarde além de ler os livros de Stephen King.
— Não se limitam a ler — disse Marian. — Eles cruzam as referên-cias por cenário, personagens, temas, à medida que eles vão se sucedendo, até mesmo pela menção de produtos de marcas conhecidas.
— Parte do trabalho deles é procurar referências a pessoas que vivem ou viveram no Mundo-chave — disse Nancy. — Em outras palavras, pes-soas reais. E referências à Torre Negra, é claro. — Ela lhe passou o enve-lope acolchoado e Roland sentiu, lá dentro, o contorno do que seria certa-mente um livro. — Se King algum dia escreveu um livro-chave, Roland... fora, é claro, a própria série da Torre Negra... achamos que só pode ser este.
A aba do envelope estava fechada por um clipe. Roland olhou de lado tanto para Marian quanto para Nancy. Elas abanaram as cabeças. O pisto-leiro tirou o clipe e puxou um volume extremamente grosso com uma capa vermelha e branca. Nela não havia nenhuma ilustração, só o nome de Ste-phen King e uma única palavra.
Vermelho pelo Rei, Branco por Artbur Eld, ele pensou. O Branco sobre o Vermelho, assim quer o Gan para sempre.
Ou talvez fosse apenas uma coincidência.
— O que significa esta palavra? — Roland perguntou, batendo com o dedo no título.
— Insônia — disse Nancy. — Isso quer dizer...
— Sei o que quer dizer — disse Roland. — Por que me dão o livro?
— Porque a história gira em torno da Torre Negra — disse Nancy — e porque existe nela um personagem chamado Ed Deepneau. Que por aca-so é o vilão da obra.
O vilão da obra, Roland pensou. Não admira que fique vermelha.
— Você tem alguém com esse nome em sua família? — ele pergun-tou a Nancy.
— Existia — disse ela. — Em Bangor, a cidade de que fala King quando escreve sobre Derry, como faz neste livro. O verdadeiro Ed De-epneau morreu em 1947, ano em que King nasceu. Era um contador, tão inofensivo quanto leite e biscoitos. O que aparece em Insônia, no entanto, é um lunático que cai sob a influência do Rei Rubro. Tenta transformar um avião numa bomba e atirá-la contra um edifício, matando milhares de pes-soas.
— Rezem para que jamais aconteça — disse sombriamente o velho Moses, contemplando o horizonte de Nova York. — Deus sabe que não é impossível.
— Na história o plano fracassa — disse Nancy. — Embora algumas pessoas sejam mortas, o personagem principal do livro, um velho chamado Ralph Roberts, consegue impedir que pelo menos o pior aconteça.
Roland olhava atentamente para a sobrinha-neta de Aaron Deepneau.
— O Rei Rubro é mencionado aqui? — ele perguntou. — Pelo seu nome?
— Sim — disse ela. — O Ed Deepneau de Bangor... o verdadeiro Ed Deepneau... era primo de meu pai, de quarto ou quinto grau. Os Calvins poderiam lhe mostrar sua árvore genealógica se você quisesse, mas nela realmente não há uma conexão direta para o ramo do tio Aaron. Achamos que King pode ter usado o nome no livro como meio de atrair sua aten-ção... ou a nossa... sem sequer perceber o que estava fazendo.
— Uma mensagem de sua inframente — o pistoleiro ponderou.
— Do subconsciente dele, sim! — Nancy se iluminou. — Sim, é exa-tamente o que achamos!
Não era exatamente o que Roland estava pensando. O pistoleiro esta-va se lembrando de como hipnotizara King no ano de 1977; como manda-ra que King prestasse atenção na Ves’-Ka Gan, a Canção da Tartaruga. Te-ria a inframente de King, a parte dele que nunca deixaria de tentar obede-cer ao comando hipnótico, colocado naquele livro parte da Canção da Tar-taruga? Um livro que os Servos do Rei poderiam ter negligenciado porque não estava incluído no “Ciclo da Torre Negra”? Roland achou que podia ser e que o nome Deepneau podia de fato ser um sigul. Mas...
— Não posso ler isto — disse ele. — Uma palavra aqui e outra ali, talvez, mas só.
— Você não pode, mas minha menina sim — disse Moses Carver. — Minha menina Odetta, que você chama Susannah.
Roland abanou devagar a cabeça. E embora já tivesse começado a ter dúvidas, a mente produziu uma brilhante imagem dos dois sentados junto de uma fogueira — uma fogueira grande, pois a noite estava fria — com Oi no meio. Nas rochas sobre eles o vento fazia soar amargos lamentos de inverno, mas eles não ligavam, pois as barrigas estavam cheias, os corpos quentes, vestidos com as peles de animais que eles próprios haviam mata-do. E tinham uma história para diverti-los.
A história de insônia de Stephen King.
— Ela vai ler isto para você na trilha — disse Moses. — Em sua úl-tima trilha, diga Deus!
Sim, Roland pensou. Uma última história a ouvir, uma última trilha a seguir. A que leva a Can’-Ka No Rey e à Torre Negra. Ou pelo menos seria bom pensar as-sim.
— Na história — disse Nancy —, o Rei Rubro está usando Ed De-epneau para matar uma determinada criança, um garoto chamado Patrick Danville. Pouco antes do ataque, enquanto Patrick e sua mãe estão espe-rando uma mulher que vai fazer um discurso, o garoto faz um desenho, um desenho que mostra você, Roland, e o Rei Rubro, sendo que o Rei Ru-bro parece estar aprisionado no topo da Torre Negra.
Roland deu um pulo na cadeira.
— No topo? Aprisionado no topo?
— Calma — disse Marian. — Tenha calma, Roland. Os Calvins estão há anos analisando a obra de King, cada palavra e cada referência. Tudo que produzem é encaminhado às pessoas de mente boa no Novo México. Embora esses dois grupos jamais tenham se encontrado, seria perfeitamen-te correto dizer que eles trabalham em conjunto.
— O que não quer dizer que estejam sempre de acordo — disse Nancy.
— Certamente não estão! — Marian falou no tom exasperado de quem tinha de servir de árbitro num número não insignificante de disputas. — Mas uma coisa em que estão de acordo é que as referências de King à Torre Negra são quase sempre camufladas e às vezes não significam abso-lutamente nada.
Roland assentiu.
— Fala nisso porque sua inframente não pára de pensar na coisa, mas às vezes ele cai num palavreado sem sentido.
— Sim — disse Nancy.
— Só que, obviamente, vocês não teriam me dado o livro se achas-sem que tudo nele é pista falsa.
— De fato não achamos — disse Nancy. — Mas isto não significa que o Rei Rubro esteja necessariamente aprisionado no topo da Torre. Em-bora eu admita que possa estar.
Roland pensou em sua crença de que o Rei Rubro estaria trancado fo-ra da Torre, numa espécie de sacada. Seria uma verdadeira intuição ou ape-nas algo em que queria acreditar?
— De qualquer modo, achamos que devia ficar de olho para este tal de Patrick Danville — disse Marian. — Há consenso de que se trata de uma pessoa real, mas ainda não conseguimos achar qualquer traço dele a-qui. Talvez possa achá-lo em Trovoada.
— Ou além — interveio Moses.
Marian abanava a cabeça.
— Segundo a história que King conta em Insônia... como você vai ver... Patrick Danville morre jovem. Mas talvez isto não seja verdade. Está compreendendo?
— Não tenho certeza.
— Quando você encontrar Patrick Danville... ou quando ele encon-trar você... talvez ele seja ainda a criança descrita neste livro — disse Nancy — ou talvez seja velho como tio Mose.
— Má sorte dele se for esta segunda hipótese! — disse o velho dando uma risadinha.
Roland ergueu o livro, contemplou a capa vermelha e branca, passou o dedo nas letras ligeiramente em relevo formando uma palavra que ele não era capaz de ler.
— Certamente é apenas uma história, não é?
— Desde a primavera de 1970, quando Stephen King datilografou a linha o homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás — disse Marian Carver —, muito pouco do que ele escreveu foi “apenas uma história”. Talvez ele não acreditasse na coisa; nós acreditamos.
Mas talvez, depois de anos lidando com o Rei Rubro, vocês tenham pegado a ma-nia de ver tudo pelo lado da sombra, ora me façam o favor, Roland pensou. E per-guntou em voz alta:
— Se não são histórias, o que são?
Foi Moses Carver quem respondeu.
— Achamos que podem ser mensagens em garrafas... — No seu mo-do de falar esta palavra (quase garfas), Roland sentiu um comovente eco de Susannah. De repente quis vê-la e saber que ela estava bem. O desejo foi tão forte que lhe deixou um gosto amargo na língua. —... esse grande mar.
— Perdi o que falou — disse o pistoleiro. — Estava distraído.
— Eu disse que acreditamos que Stephen King atirou suas garrafas no grande mar. Naquele que chamamos de Primal. Com a esperança de que as garrafas chegassem até você e que as mensagens lá dentro possibilitas-sem que você e minha Odetta atingissem seu objetivo.
— O que nos traz a nossos últimos presentes — disse Marian. — Nossos verdadeiros presentes. Eis o primeiro... — Entregou-lhe a caixa.
Havia uma dobradiça. Roland pousou a mão esquerda na tampa com a intenção de puxá-la para trás. De repente parou e estudou seus interlocu-tores. Estavam olhando para ele com esperança e um interesse ansioso, expressões que o deixavam nervoso. Uma idéia maluca (mas surpreenden-temente sedutora) lhe ocorreu: que aqueles eram os verdadeiros agentes do Rei Rubro e que, quando abrisse a caixa, a última coisa que ia ver seria um pomo de ouro engatilhado, completando a contagem dos últimos cliques para o zero vermelho. E que o último som que ia ouvir antes do mundo explodir à sua volta seria o riso louco deles e um grito de salve o Rei Verme-lho! Não era impossível, mas havia um ponto em que a pessoa tinha de confiar em alguma coisa, porque a alternativa era a loucura. Se o ka quiser assim que seja assim, ele pensou e abriu a caixa.
DOZE
Lá dentro, pousado em veludo azul-escuro (que eles podiam ou não saber que era a cor da Corte Real de Gilead), havia um relógio no meio de uma corrente enrolada. Gravados na tampa de ouro havia três objetos: uma chave, uma rosa e — entre e ligeiramente acima delas — uma torre com diminutas janelas marchando ao redor de sua circunferência numa espiral ascendente.
Roland ficou espantado ao sentir que seus olhos novamente se enchi-am de lágrimas. Quando voltou a olhar para os outros — duas jovens e um velho, cérebros e vísceras da Tet Corporation —, viu, a princípio, seis pes-soas em vez de três. Piscou duas vezes para se livrar dos sósias.
— Abra a tampa e dê uma olhada por dentro — disse Moses Carver. — E não é preciso esconder as lágrimas em nossa presença, filho de Ste-ven, pois não somos as máquinas pelas quais gostariam de nos substituir, se pudessem.
Roland viu que o velho falava a verdade, pois corriam lágrimas pela pele curtida e escura do rosto dele. Nancy Deepneau também chorava a-bertamente. E embora Marian Carver sem dúvida tivesse orgulho de ser feita de substância mais dura, seus olhos tinham um brilho suspeito.
Ele apertou o pino que havia no alto do relógio e a tampa pulou. Lá dentro, ponteiros finamente ornamentados marcavam a hora e os minutos, e com absoluta precisão, ele não tinha dúvidas. Mais abaixo, num pequeno círculo, um ponteiro menor corria pelos segundos. Gravado por trás da tampa havia isto:
Para a Mão de ROLAND DESCHAIN
Das Mãos de
MOSES ISAAC CARVER
MARIAN ODETTA CARVER
NANCY REBECCA DEEPNEAU
Com Nossa Gratidão
O Branco sobre o Vermelho, esta é a vontade eterna de DEUS
— Obrigado-sai — disse Roland com uma voz áspera e trêmula. — Agradeço como meus amigos agradeceriam, se estivessem aqui para falar.
— Eles sempre falam em nossos corações, Roland — disse Marian. — E em sua face conseguimos vê-los muito bem.
Moses Carver estava sorrindo.
— Em nosso mundo, Roland, dar um relógio de ouro a um homem tem um significado todo especial.
— E qual seria? — Roland perguntou. Levantava o relógio até o ou-vido (sem dúvida o mais primoroso relógio que já tivera na vida) e prestava atenção na delicada e precisa batida de sua máquina.
— Que seu trabalho já se completou e chegou o tempo de ir pescar ou brincar com os netos — disse Nancy Deepneau. — Mas lhe demos o relógio por outro motivo. Para que marque as horas daqui até seu objetivo e informe quando você estiver perto dele.
— Como pode fazer isso?
— Temos um sujeito de mente excepcionalmente boa no Novo Mé-xico — disse Marian. — Seu nome é Fred Towne. Vê muita coisa e rara-mente ou nunca se engana. Este relógio é um Patek Philippe, Roland. Cus-ta 19 mil dólares e os fabricantes garantem total ressarcimento do preço se ele um dia adiantar ou atrasar. Não precisa de corda, pois funciona com uma bateria... não fabricada pela North Central Positronics ou qualquer subsidiária dela, posso lhe assegurar. Uma bateria capaz de durar cem anos. Apesar disso, segundo Fred, quando você se aproximar da Torre Negra o relógio pode parar.
— Ou começar a andar para trás — disse Nancy. — Preste atenção nele.
— Creio que vai ficar atento, não é? — disse Moses Carver.
— Ié — Roland concordou e pôs cuidadosamente o relógio num bol-so (após outra olhada demorada nos relevos sobre a tampa dourada) e a caixa em outro. — Vou vigiar muito bem este relógio.
— E também deve ficar atento a outra coisa — disse Marian. — Mordred.
Roland esperou.
— Temos razões para crer que ele assassinou o homem que você chamava de Walter. — Ela fez uma pausa. — E vejo que isso não o espan-ta. Posso saber por quê?
— Por fim Walter saiu dos meus sonhos, exatamente como a dor saiu de minha perna e de minha cabeça — disse Roland. — A última vez que Walter visitou meus sonhos foi em Calla Bryn Sturgis, na noite do Feixe-moto. — Não iria contar-lhes como aqueles sonhos tinham sido terríveis, sonhos onde vagava, perdido, sozinho, pelo corredor úmido de um castelo com teias de aranhas cobrindo seu rosto; onde havia o passo sinistro de algo que vinha da escuridão e se aproximava por trás dele (talvez por cima dele) e onde, pouco antes de acordar, surgiam brilhantes olhos vermelhos e o murmúrio de uma voz não-humana: Pai.
Olhavam-no com ar severo. Por fim Marian disse:
— Cuidado com ele, Roland. Fred Towne, o sujeito que mencionei, diz que Mordred está sempre com fome. Diz que é fome literal. Fred é um homem corajoso, mas está com medo de seu... seu inimigo.
De meu filho, por que não diz logo?, Roland pensou, mas achava que sabia. Ela se reprimia preocupada com seus sentimentos.
Moses Carver se levantou e pôs a bengala ao lado da escrivaninha da filha.
— Tenho mais uma coisa para você — disse ele —, uma coisa que na realidade sempre lhe pertenceu. Deve transportá-la e só largá-la quando chegar aonde está indo.
Roland estava verdadeiramente perplexo e ficou ainda mais perplexo quando o velho começou a desabotoar devagar a frente da camisa. Marian fez um gesto para ajudá-lo, mas ele a repeliu bruscamente. Debaixo da ca-misa havia uma daquelas camisolas interiores sem manga, aquilo que o pis-toleiro chama de slinkum. Embaixo havia uma forma que Roland reconhe-ceu de imediato e seu coração pareceu parar no peito. Por um momento ele foi devolvido a um pequeno chalé na frente do lago — o chalé de Bec-khardt, com Eddie a seu lado — e ouviu suas próprias palavras: Ponha a cruz da titia em volta do pescoço e quando se encontrar com sai Carver mostre a ele. Pode ser bem útil para convencê-lo de que você fala a verdade. Mas primeiro...
A cruz estava agora numa corrente com belos anéis dourados. Moses Carver tirou a corrente debaixo do slinkum, contemplou a cruz por um ins-tante, ergueu os olhos para Roland com um pequeno sorriso nos lábios e baixou-os de novo para a cruz. Soprou nela. Bem fraca, fazendo o pêlo se erguer nos braços do pistoleiro, veio a voz de Susannah:
— Enterramos Pimsey debaixo da macieira...
Então a voz se foi. Por um momento não houve mais nada e Carver, agora franzindo a testa, tomou fôlego para soprar de novo. Não foi preci-so. Antes que ele o fizesse, o arrastado sotaque ianque de John Cullum brotou, aparentemente não da própria cruz, mas do ar logo acima dela.
— Fizemos tudo que pudemos, parceiro... paaarr-ceiro... e espero que tenhamos feito bem. Eu sempre soube que isto só era meu por emprésti-mo e aqui está, de volta a quem pertence. Você sabe onde deve acabar, eu... — Então as palavras, que tinham começado a se enfraquecer desde aqui está ficaram inaudíveis mesmo para os ouvidos aguçados de Roland. Mas ele já ouvira bastante. Pegou a cruz de tia Talitha, que prometera de-positar diante da Torre Negra, e de novo pendurou-a no pescoço. Voltara para ele e, afinal, por que não? O ka não era uma roda?
— Eu lhe agradeço, sai Carver — disse ele. — Por mim, por meu ka-tet que foi e em nome da mulher que me deu esta cruz.
— Não me agradeça — disse Moses Carver. — Agradeça a Johnny Cullum. Ele me deu quando estava morrendo. Aquele homem tinha uma couraça muito forte.
— Eu... — Roland começou e, por um momento, não conseguia di-zer mais nada. Seu coração estava transbordando. — Agradeço a todos vocês — disse por fim. Curvou a cabeça com a palma do punho direito contra a testa e os olhos fechados.
Quando tornou a abri-los, Moses Carver estendia seus braços velhos e finos.
— Agora temos de seguir nosso caminho e você tem de seguir o seu — disse ele. — Ponha os braços à minha volta, Roland, me dê um beijo de adeus e pense em minha garota quando o fizer, pois gostaria de lhe dizer adeus se puder.
Roland fez o que lhe pediam e em outro mundo, enquanto cochilava a bordo de um trem com destino a Fedic, Susannah pôs a mão no rosto, pois lhe pareceu que papai Mose se aproximara dela, pusera um braço à sua volta e deixara seu adeus, boa sorte, boa viagem.
TREZE
Quando Roland saiu do eleva-torre e pisou no saguão, não ficou surpreso ao ver uma mulher usando um pulôver cinza-esverdeado e uma calça com-prida cor de musgo. Ela estava parada na frente do canteiro, ao lado de um folken de ar sobriamente respeitoso. Um animal que não era exatamente um cachorro estava sentado ao lado de seu sapato esquerdo. Roland se apro-ximou dela e tocou seu cotovelo. Irene Tassenbaum se virou para ele, o-lhos cheios de admiração.
— Está ouvindo? — perguntou. — É como a canção que escutamos em Lovell, só que cem vezes mais doce.
— Estou ouvindo — disse Roland curvando para pegar Oi. Encarou os brilhantes olhos orlados de dourado do trapalhão enquanto as vozes cantavam. — Amigo de Jake — disse —, que mensagem ele passou?
Oi tentou, mas o máximo que conseguiu foi soltar algo que soava como dândi-ô, uma palavra que Roland se lembrava de ter ouvido numa velha canção de bar, onde rimava com Adelina diz que é fã de gandhi-ô.
Roland encostou a testa na cabeça de Oi e fechou os olhos. Sentiu o cheiro quente da respiração do trapalhão. E mais: um forte aroma em seu pêlo que era o feno onde Jake e Benny Slightman tinham se revezado, sal-tando, não há tanto tempo assim. Em sua mente, misturada com o doce cântico daquelas vozes, ouviu a voz de Jake Chambers pela última vez:
Conte a ele que Eddie disse: “Cuidado com o Dandelo.” Não esqueça!
E Oi não esquecera.
QUATORZE
Lá fora, quando desciam os degraus do Hammarskjöld Plaza 2, uma voz reverente os chamou:
— Senhor? Madame?
Era um homem de terno preto e um boné preto macio. Estava para-do ao lado do carro mais comprido e preto que Roland já vira. Olhar para ele deixava o pistoleiro nervoso.
— Quem nos mandou uma carreta funerária? — ele perguntou.
Irene Tassenbaum sorriu. A rosa a revigorara — a fizera vibrar, a dei-xara muito feliz —, mas ela estava cansada. E ansiosa para entrar em con-tato com David, que a estas alturas provavelmente já estaria alucinado de preocupação.
— Não é um carro fúnebre — disse ela. — É uma limusine. Um car-ro para pessoas especiais... ou pessoas que acham que são especiais. — En-tão, para o motorista: — Enquanto estamos andando, será que alguém na sua central me conseguiria algumas informações sobre vôos?
— É claro, senhora. Posso saber que empresa aérea prefere e qual é seu destino?
— Meu destino é Portland, no Maine. Minha companhia preferida é a Rubberband Airlines, se tiver vôo hoje à tarde.
As janelas da limusine eram de vidro escuro, o interior sombrio mas rodeado de luzes coloridas. Oi pulou para um dos assentos e ficou obser-vando com interesse a cidade rolando lá fora. Roland ficou um pouco es-pantado ao ver que havia um bar muito bem sortido num dos lados do comprido compartimento de passageiros. Pensou numa cerveja, mas achou que mesmo uma bebida tão leve seria suficiente para turvar seu discerni-mento. Irene não tinha esse tipo de preocupação. Serviu-se de uma bebida numa garrafinha que parecia uísque. Depois passou a garrafa a ele.
— Possa sua estrada levar sempre para cima e o vento estar sempre às suas costas, meu valente rapaz — disse ela.
— Belos votos — disse Roland abanando a cabeça. — Obrigado-sai.
— Estes foram os três dias mais impressionantes da minha vida. Eu é que tenho de agradecer a você, sai. Por ter me escolhido. — Também por ter trepado comigo, ela pensou mas não acrescentou. Ela e Dave de vez em quando ainda se divertiam na cama, mas não como na noite anterior. Ja-mais fora assim. E se Roland não andasse distraído? Muito provavelmente ela teria implodido por dentro, como aquelas bombinhas chamadas de Ga-to Preto.
Roland abanava a cabeça e via passarem as ruas da cidade — uma versão de Lud, mas ainda uma cidade jovem, cheia de vida.
— E o seu carro? — ele perguntou.
— Se o quisermos antes de voltarmos a Nova York, podemos man-dar alguém dirigi-lo até o Maine. Provavelmente o ∗ Beamer de David vai dar. É uma das vantagens de ser rica... Por que está me olhando assim?
— Vocês têm um cartomóbile chamado Beamer?
— É gíria — disse ela. — Na realidade é um BMW. Sigla de Bavarian Motor Works.
— Ah. — Roland tentou fazer uma cara de quem compreendia.
— Roland, posso lhe fazer uma pergunta?
Ele girou a mão mandando-a seguir.
— Quando salvamos o escritor, salvamos também o mundo? De cer-ta forma foi isso, não foi?
— Sim — disse ele.
— Como é possível que um escritor que nem mesmo é muito bom... e sei o que estou dizendo, li quatro ou cinco livros dele... acaba encarrega-do do destino do mundo? Ou de todo o universo?
— Se ele não é muito bom, por que você não parou no primeiro li-vro?
A sra. Tassenbaum sorriu.
— Touché. Dá para se ler, concedo-lhe isto... Sabe contar uma história, mas tem um mau ouvido para a linguagem. Respondi à sua pergunta, agora responda à minha. Deus sabe que certos escritores acham que o mundo inteiro depende do que eles dizem. Penso em Norman Mailer, assim como em Shirley Hazzard e John Updike. Mas parece que no caso de que esta-mos tratando o mundo realmente depende da coisa. Como isso aconteceu?
Roland deu de ombros.
— Ele ouve as vozes certas e canta as canções certas. O que significa dizer, ka.
Foi a vez de Irene Tassenbaum se virar e fazer uma cara de que com-preendia.
* Apelido comum para carros da marca BMW. (N. da E.)