A Torre Negra, Vol. 7
Nove
Se a espinha de Moses Carver estivesse reta, ele e Roland teriam se encara-do olho a olho. Curvado, Carver precisava olhar um pouco para cima, o que fazia empinando a cabeça como um pássaro. Parecia incapaz de real-mente virar o pescoço; a artrite o fixara no lugar. Seus olhos eram casta-nhos, os brancos tão turvos que ficava difícil dizer onde acabavam as pupi-las, mas estavam cheios de riso jovial atrás dos óculos de aro dourado. A-inda conservava o bigodinho branco.
— Roland de Gilead! — disse ele. — Como desejei conhecer o se-nhor! Acho que foi isso que me manteve vivo tanto tempo depois da mor-te de John e Aaron. Me solte um minuto, Marian, solte! Tenho de fazer uma coisa!
Marian Carver soltou-o e olhou para Roland. Ele não ouviu a voz de-la na cabeça nem precisava; o que ela queria lhe dizer estava bem visível no olhar: Pegue-o se ele cair, sai.
Mas o homem que Susannah havia chamado de papai Mose não caiu. Conseguiu apertar um pouco o punho frouxo e artrítico, e levou-o à testa. Depois curvou o joelho direito, jogando todo o seu peso na trêmula perna direita.
— Salve, último pistoleiro, Roland Deschain de Gilead, filho de Ste-ven e verdadeiro descendente de Arthur Eld. Eu, o último daquilo que foi chamado entre nós de Ka-Tet da Rosa, o saúdo.
Roland pôs seu próprio punho na testa e fez mais do que curvar uma perna; pôs um joelho no chão.
— Salve, papai Mose, padrinho de Susannah, dinh do Ka-Tet da Ro-sa, eu o saúdo de todo o coração!
— Obrigado — disse o velho e riu como uma criança. — É ótimo nos encontrarmos na Casa da Rosa! Que durante a construção foi aponta-da como o Túmulo da Rosa! Ah! Diga-me que nunca fomos uma coisa dessas! Fomos?
— Não, era mentira.
— Fale mais! — o velho gritou e deixou de novo escapar aquele riso jovial que mandava tudo para o inferno. — Mas estou me esquecendo das boas maneiras, pela admiração que sinto, pistoleiro. Vê este belo pedaço de mulher do meu lado? Seria natural que você dissesse que é minha neta, pois eu já tinha 70 anos quando ela nasceu, em 1969. Mas a verdade... — Mas a fartade... foi o que entrou no ouvido de Roland — ... é que às vezes as melhores coisas da vida acontecem tarde e ter filhos... — fiuusss —... é em minha opinião uma delas. O que é um modo bastante rodeado de dizer: esta é minha filha, Marian Odetta Carver, presidente da Tet Corporation desde que me afastei em 1997, quando fiz noventa e oito anos. E será que alguns grãfinos não iriam congelar as bolas deles, Roland, se soubessem que este negócio, cujo valor atual gira em torno de uns 10 bilhões de dóla-res, é dirigido por uma negra? — Seu sotaque, cada vez mais acentuado à medida que cresciam o júbilo e a agitação, converteu as últimas palavras em uns tes pilhões de doles e digido pruma ni-gra?
— Chega, pai — disse a mulher alta ao lado dele. A voz era gentil mas não admitiria contradição. — Se não parar, o monitor que usa no co-ração vai dar o alarme e este homem não tem muito tempo.
— Ela me administra como uma ferrovia! — o velho gritou num tom indignado. Ao mesmo tempo virou ligeiramente a cabeça e, com o olho que a filha não podia ver, presenteou Roland com uma piscadela de astúcia e de bom humor.
Como se ela não conhecesse todos os seus truques, meu velho, Roland pensou, achando aquilo engraçado a despeito da dor que tinha no peito. Como se ela não estivesse por dentro de tudo já faz muitos anos... ora viva!
Marian Carver interveio:
— Só poderemos palestrar rapidamente com você, Roland, mas pri-meiro preciso ver uma coisa.
— Não temos a menor necessidade disto! — disse o velho, a voz fa-lhando de irritação. — A menor necessidade e você sabe que não! Será que criei uma jumenta?
— Muito provavelmente ele tem razão — disse Marian —, mas é sempre mais seguro...
— Não se desculpe — disse o pistoleiro. — Siga as suas normas, cla-ro. O que deseja verificar? O que pode garantir que eu sou quem digo que sou e fazê-la realmente acreditar nisso?
— Sua arma — disse ela.
Roland tirou a camiseta da exposição comemorativa da sacola de cou-ro e pegou o coldre. Depois de desenrolar o cinturão de balas, puxou o revólver com o cabo de sândalo. Ouviu Marian Carver inalar de maneira repetitiva, atemorizada, e preferiu ignorá-lo. Reparou que os dois guardas cujos ternos caíam bem tinham se aproximado, olhos arregalados.
— Vocês a vêem! — Moses Carver gritou. — Sim, cada um de vocês presentes aqui! Agradeçam a Deus! E um dia digam aos netos que viram Excalibur, a Espada de Arthur, pois isto aqui é a mesma coisa!
Roland estendeu para Marian o revólver de seu pai. Sabia que ela pre-cisaria pegá-lo para de fato confirmar quem ele era, sabia que ela precisava fazer isto antes de introduzi-lo nas entranhas da Tet Corporation (onde a pessoa errada poderia provocar danos terríveis), mas por um momento ela foi incapaz de assumir o que era de sua responsabilidade. Então ela se re-compôs e pegou o revólver, os olhos se abrindo ainda mais ao sentir-lhe o peso. Tomando cuidado para manter todos os dedos longe do gatilho, ela pôs o cano na altura dos olhos e observou um fragmento do ornamento que havia junto à boca da arma:
— Vai me dizer o que isto significa, sr. Deschain? — ela perguntou.
— Vou — disse ele —, se me chamar de Roland.
— Se quer assim, vou tentar.
— Esta é a marca de Arthur — disse ele, traçando a figura com o de-do. — A única marca que existe na porta de sua tumba é essa. Sua marca como dinh e que significa BRANCO.
O velho estendeu as mãos trêmulas, silencioso mas imperativo.
— Está carregada? — ele perguntou a Roland e então, antes que o outro pudesse responder: — É claro que está.
— Dê a ele — disse Roland.
Marian pareceu em dúvida, os dois guardas ainda mais. Papai Mose, no entanto, continuava com as mãos estendidas para o fazedor de viúvas e Roland abanava a cabeça. Então a mulher entregou relutantemente o re-vólver ao pai. O velho pegou-o, segurou-o com as duas mãos e fez uma coisa que ao mesmo tempo ferveu e gelou o coração do pistoleiro: ele bei-jou o cano com os lábios velhos, franzidos.
— Qual é o sabor que tem? — Roland perguntou, sinceramente curi-oso.
— Sabe aos anos, pistoleiro — disse Moses Carver. — Assim como eu. — E com isso estendeu de novo o revólver para a mulher, primeiro a coronha.
Ela o devolveu a Roland, parecendo contente por se ver livre daquele peso ameaçador, homicida, e Roland encaixou-o mais uma vez no cinturão de balas.
— Vamos entrar — disse ela. — E embora nosso tempo seja curto, vamos torná-lo tão agradável quanto sua dor permita.
— Amém! — disse o velho Moses, batendo no ombro de Roland. — Ela ainda está viva, minha Odetta... Aquela que você chama de Susannah. É isso. Achei que ficaria satisfeito em saber.
Roland estava satisfeito e agradeceu abanando a cabeça.
— Vamos agora, Roland — disse Marian Carver. — Venha comigo e seja bem-vindo à nossa casa, que é também sua. Sabemos que, muito pro-vavelmente, jamais voltará a visitá-la.