A Torre Negra, Vol. 7
Dez
Embora Joe Collins morasse sozinho, seu banheiro tinha um toque agra-davelmente feminino. Já na primeira vez que o usara Susannah havia repa-rado nisso. O papel de parede era rosa com folhas verdes e (o que mais?) rosas silvestres. O vaso parecia perfeitamente moderno exceto pelo assen-to, que era de madeira e não de plástico. Será que ele mesmo o entalhara? Não achava que isso estivesse fora de cogitação, embora fosse mais prová-vel que o robô tivesse trazido o assento de algum depósito esquecido. O Gago Carl? Fora assim que Joe chamara o robô? Não, Bill. O Gago Bill.
De um lado do vaso havia um banco, do outro uma banheira com os pés em forma de garra e um chuveiro que a fez pensar em Psicose de Hitch-cock (na realidade todo chuveiro a fazia pensar naquele maldito filme desde que o vira em Times Square). Havia também uma pia de louça instalada num gabinete de madeira da altura da cintura — ela achou que o gabinete era de bom e velho carvalho, não de pau-ferro. Havia um espelho sobre a pia, presumivelmente a porta de um armário onde haveria comprimidos e outros remédios guardados. Todos os confortos do lar.
Tirou o guardanapo com um tremorzinho e um pequeno grito sussur-rado. Grudava no sangue e puxá-lo doía. Ficou impressionada com a quan-tidade de sangue na bochecha, nos lábios e no queixo — para não mencio-nar o pescoço e o ombro da blusa. Disse a si mesma que não ia se desespe-rar por causa daquilo; se você arrancava a casca de alguma coisa, ela ia san-grar, só isso. Só impressionava por estar na porra da sua cara.
Ouviu Joe dizer alguma coisa na sala, mas não conseguia saber o quê. Ouviu também a resposta de Roland com uma risadinha no final. Tão estra-nho ouvi-lo falar assim, ela pensou. Era quase como se estivesse embriagado. Mas algum dia vira Roland embriagado? Percebeu que nunca. Nunca bêbado até cair, nunca peladão, nunca às gargalhadas... até aquele momento.
Cuide de suas coisas, mulher!, Detta lhe disse.
— Está bem — ela murmurou. — Está bem, está bem.
Pensando em pelado. Pensando em embriaguez. Pensando nas garga-lhadas. Pensando que tudo isso era quase a mesma coisa.
Talvez fossem mesmo.
Então Susannah subiu no banco e abriu a água. Ela veio num bom ja-to, abafando a conversa que vinha da sala.
Deixou a água fria correr, jogando-a com cuidado no rosto e depois usando uma toalhinha de rosto — com cuidado ainda maior — para lim-par a pele ao redor da ferida. Finalmente apalpou a própria ferida, o que doeu bem menos do que ela temia. Susannah ficou um pouco mais anima-da. Enxaguou a toalhinha de rosto de Joe antes que as manchas de sangue pudessem marcá-la e se inclinou para o espelho. O que viu a fez soltar um suspiro de alívio. Bater imprevidentemente com a mão no rosto tinha tira-do toda a casca da ferida, mas talvez fosse melhor assim. De uma coisa não havia dúvida: se Joe tivesse um vidro de mertiolato ou alguma espécie de pomada com antibiótico no armário do banheiro, ela aproveitaria o fato de a ferida estar descoberta e faria uma tremenda limpeza. E não se importava se ardesse. Tal limpeza era mais do que merecida e oportuna. Assim que acabasse, faria um curativo e depois era só torcer para o melhor.
Estendeu a toalhinha do lado da pia para secar e puxou uma toalha (no mesmo tom de rosa que o papel de parede) da pilha que havia numa prateleira vizinha. Aproximou-a do rosto e, de repente, ficou paralisada. Havia um pedaço de papel em cima da outra toalha da pilha. No alto o de-senho de um banco cheio de flores sendo arriada por uma dupla de felizes caricaturas de anjos. Sob isso uma linha impressa em negrito:
E, numa desbotada escrita a caneta-tinteiro:
Franzindo a testa, Susannah puxou a folha de bloco da pilha de toa-lhas. Quem a deixara ali? Joe? Tinha sérias dúvidas. Virou o papel. Do ou-tro lado a mesma caligrafia tinha escrito:
No outro cômodo, Joe continuava a falar e desta vez Roland explodiu numa gargalhada em vez de apenas em risadinhas. Susannah teve a impres-são de que Joe retomara seu monólogo. De certo modo podia compreen-der isso — ele estava fazendo algo de que gostava, algo que há um bom número de anos não tinha a oportunidade de fazer —, mas parte dela não gostava absolutamente da idéia. Que Joe tivesse retomado a coisa enquanto ela estava no banheiro se arrumando, que Roland o deixasse recomeçar. Que o estivesse ouvindo e rindo enquanto ela estava sangrando. Parecia uma atitude grosseira e meio safada de garotos. Tinha se acostumado a ser mais bem tratada por Eddie.
Por que você não esquece por enquanto os rapazes e se concentra no que tem na sua frente? O que isto significa?
Uma coisa parecia óbvia: alguém tinha esperado que ela fosse até lá e encontrasse aquele bilhete. Não Roland, nem Joe. Ela. Que menina ruim, es-tava escrito. Menina.
Mas quem podia ter sabido? Quem podia ter tido tanta certeza? Nun-ca tivera o hábito de esbofetear o próprio rosto (nem o peito, nem o joe-lho) quando ria; não podia se lembrar de nenhuma outra situação em que...
Mas podia. Uma vez. Num filme com Dean Martin e Jerry Lewis. Pa-lermas no Mar ou algo parecido. Ela reagira da mesma maneira. Estava rindo simplesmente porque o riso tinha alcançado um certo ponto de massa crí-tica e se tornara auto-sustentado. Toda a platéia (se não estava enganada, no Clark, em Times Square) estava fazendo o mesmo, balançando de um lado para o outro, sacudindo-se para a frente, borrifando pipocas de bocas que não eram mais deles. Bocas que tinham passado a pertencer, pelo me-nos por alguns minutos, a Martin e a Lewis, àqueles palermas no mar. Mas só acontecera daquela vez.
Comédia mais tragédia igual a conto-de-fada. Mas ali não havia tragédia, havia?
Não esperava uma resposta a isto, mas conseguiu uma. Que veio na fria voz da intuição.
Ainda não, por enquanto não há.
Por alguma razão, fosse lá qual fosse, ela se viu pensando na Lippy. Na sorridente, horripilante Lippy. Será que as pessoas riam no inferno? Su-sannah estava de alguma forma certa que sim. Mostravam os dentes como Lippy, o Esqueleto-Maravilha, quando Satã dava início à sua
(peguem meu cavalo... por favor)
rotina, e começavam a rir. Sem esperança. Sem controle. Por toda a eternidade, mesmo que isso não parecesse de todo agradável.
Que diabo está havendo com você, mulher?
No outro cômodo, Roland tornava a rir. Oi latiu e isso também ficou parecido com uma risada.
Odd’s Lane, Odd Lane... Dê uma pensada.
O que havia para pensar? Uma era o nome da rua, a outra era a mes-ma coisa, só que sem...
— Volte, espere um minuto — disse ela em voz baixa. Na realidade, fora pouco mais que um sussurro... Mas quem ela achou que poderia escu-tar? Joe estava falando (sem parar, parecia), e Roland ria. Então quem ela achava que poderia estar ouvindo? O habitante do porão, se realmente houvesse alguém por lá?
— Vamos lá, só um minuto, dê um tempo.
Fechou os olhos e, mais uma vez, viu as duas placas de sinalização no poste, placas que sempre ficariam um pouco abaixo dos peregrinos, pois os recém-chegados estavam num banco de neve com três metros de altura. ESTRADA DA TORRE, dizia uma das placas — a que apontava para a estrada limpa que desaparecia no horizonte. A outra, indicando a pista com as casinhas, dizia ODD’S LANE, só que...
— Só que não era isso — ela murmurou, cerrando num punho a mão que não estava segurando o bilhete. — Não era.
Podia vê-lo claramente no olho de sua mente: ODD’S LANE, com o apóstrofe e o S a mais. E por que alguém faria isso? Seria o modificador da placa algum compulsivo que não suportava...
O quê? O que ele não suportava?
Do outro lado da porta fechada do banheiro, Roland riu mais alto que nunca. Alguma coisa caiu e quebrou. Ele não está acostumado a rir assim, Su-sannah pensou. É melhor ter cuidado, Roland, ou vai acabar tendo problemas. Cri-ando uma hérnia ou algo do gênero.
Pense nisso, advertira seu desconhecido correspondente, e ela estava tentando. Havia alguma coisa nas palavras ∗ odd e lane que alguém não que-ria que percebessem? Se assim fosse, a pessoa não precisava se preocupar, pois certamente Susannah não estava percebendo. Gostaria que Eddie esti-vesse ali. Era Eddie quem era bom naquele jogo: piadas, adivinhações e... e...
Sua respiração parou. Uma compreensão de arregalar os olhos come-çou a cobrir seu rosto e o rosto de sua gêmea no espelho. Não tinha lápis e era terrível por causa do tipo de arranjo mental que teria agora de fazer...
Equilibrada no banco, Susannah se inclinou sobre o suporte da pia da altura da cintura e soprou no espelho, embaçando-o. Depois usou o dedo para escrever ODD LANE. Olhou a expressão com uma compreensão e uma aflição crescentes. Na sala, Roland ria mais do que nunca e agora ela reco-nhecia o que já devia ter percebido trinta valiosos segundos atrás: aquele riso não era alegre. Era irregular, sem controle, o riso de um homem lutan-
* Respectivamente, estranho e pista, em inglês. (N. da E.)
do para respirar. Roland estava rindo do modo como o folken ria quando a comédia virava tragédia. Do modo como o folken ria no inferno.
Embaixo de ODD LANE, usou a ponta do dedo para escrever DANDELO, o anagrama de ODD LANE que talvez Eddie tivesse percebido de imediato, as-sim como teria percebido que o apóstrofe e o S acrescentados na placa e-ram alterações feitas para confundi-los.
No outro cômodo o riso baixou e se modificou, transformando-se num ruído que era alarmante, não divertido. Oi estava latindo frenetica-mente e Roland...
Roland estava sufocando.