A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 63 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Coda

ENCONTRADO

ENCONTRADO

(CODA)

 

UM

Levei minha história do início ao fim e estou satisfeito. Foi (tenho a mão na consciência quando falo sobre ela) do tipo que só um Deus bondoso poderia guardar por último, cheia de monstros e maravilhas e viagens de um lado para o outro. Posso parar agora, pousar a caneta e repousar minha mão cansada (ainda que talvez não para sempre; a mão que conta histórias tem uma certa vontade própria e acaba ficando inquieta). Posso fechar os olhos para o Mundo Médio e tudo que jaz além do Mundo Médio. Mas sei que alguns de vocês, que forneceram os ouvidos sem os quais nenhuma história consegue sobreviver um só dia, provavelmente não pensam exa-tamente assim. São as implacáveis pessoas orientadas para objetivos claros e sempre incapazes de perceber que a felicidade está antes na jornada que no destino, por mais que isto já lhes tenha sido provado. São os infelizes que ainda fazem uma tremenda confusão entre o ato amoroso e o esguicho insignificante que acontece quando o ato chega ao fim (o orgasmo, afinal, é o meio de Deus nos dizer que acabamos, pelo menos por ora, e devemos dormir). São as pessoas cruéis que negam os Portos Nevoentos, onde os personagens cansados vão para descansar. Dizem que querem saber como tudo acaba. Dizem que querem acompanhar Roland até o interior da Tor-re, dizem que é para isso que deram seu dinheiro; querem o show que vie-ram ver.

Espero que a maioria de vocês saibam que não é bem assim. Não queiram que seja assim. Espero que tenham vindo realmente ouvir a histó-ria, não apenas mastigar as páginas até o final. Aliás, para chegar logo ao final, basta virar a última página e dar uma olhada no que está escrito. Os finais, porém, não têm coração. Um final é uma porta fechada que nenhum homem (ou manni) consegue abrir. Além disso, já escrevi muito, ainda que pela mesma razão que me leva a vestir uma calça antes de sair do quarto de manhã — porque é o costume.

E assim, meu caro e Fiel Leitor, eu lhe digo o seguinte: você pode pa-rar aqui. Pode deixar sua última memória ser a visão de Eddie, Susannah e Jake no Central Park, de novo juntos pela primeira vez, ouvindo o coro de crianças cantar “O Menino Nasceu”. Você pode se alegrar sabendo que, mais cedo ou mais tarde, Oi também entrara no quadro (provavelmente numa versão canina, com pescoço comprido, curiosos olhos rodeados de dourado e um latido que, às vezes, vai soar estranhamente como fala). É um belo quadro, não é? Eu penso que sim. E também parece bastante per-to do felizes para sempre. Perto o bastante para o governo, como diria Ed-die.

Se você continuar, ficará certamente desapontado, talvez até de cora-ção partido. Tenho uma chave guardada no meu cinto, mas tudo que ela abre é aquela porta final, aquela com a marca . . O que está por trás dela não vai melhorar a vida afetiva de ninguém, fazer crescer o cabelo na careca ou dar uns cinco anos ao seu tempo de vida (sequer cinco minutos). Não existe essa coisa de final feliz. Nunca encontrei nenhum capaz de se igualar ao “Era uma vez”.

Os finais não têm coração.

O final é só outro nome para o adeus.

 

DOIS

Ainda queres?

Muito bem, então vem. (Me ouves suspirar?) Aí está a Torre Negra, final do Fim do Mundo. Olhe-a, eu te peço.

Olhe-a muito bem.

Aí está a Torre Negra no pôr-do-sol.

 

TRÊS

Roland chegou a ela com a mais estranha sensação de estar recordando; era aquilo que Susannah e Eddie chamavam déjà vu.

As rosas do Can’-Ka No Rey se abriam diante dele numa trilha para a Torre Negra, os sóis amarelos no fundo de suas copas parecendo apreciá-lo como olhos. E enquanto caminhava para aquela coluna cinza-escuro, Roland sentiu que começava a escapulir do mundo que sempre conhecera. Chamava os nomes dos amigos e entes queridos, como sempre prometera a si mesmo; chamava-os na penumbra do entardecer, e com plena força, pois já não era preciso conservar energia para resistir ao apelo da Torre. Ceder (finalmente) foi o maior alívio de sua vida.

Chamou os nomes de seus compadres e amores, e embora cada um vies-se de um lugar mais profundo no seu coração, era como se cada um tivesse cada vez menos a ver com ele. Sua voz rolava para o horizonte vermelho cada vez mais escuro, nome apóos nome. Chamou o nome de Eddie e o de Susannah. Chamou o de Jake e, depois de todos, chamou o seu próprio. Quando o som de seu nome se extinguiu, o toque de uma grande trompa respondeu. Não vinha da Torre, mas das rosas que se estendiam num tape-te em toda a sua volta. Aquela trompa era a voz das rosas e lhe gritava as boas-vindas com um toque majestoso.

Quando eu sonhava, a trompa era sempre minha, ele pensou. Eu devia ter per-cebido que não era bem assim, pois perdi a minha quando estava com Cuthbert, na Co-lina de Jericó.

Uma voz murmurou acima dele: Não teria lhe custado mais de três segundos se abaixar para pegá-la. Mesmo no meio da fumaça e da morte. Três segundos. O tem-po, Roland — sempre se volta a isso.

Aquela, ele pensou, era a voz do Feixe — daquele que tinham salvo. Se falava por gratidão podia ter poupado a saliva, pois de que lhe serviam agora tais palavras? Lembrou-se de um verso do poema de Browning: Um sabor dos velhos tempos pondo tudo em ordem.

Sua experiência nunca foi essa. Para ele as lembranças só traziam tris-teza. Elas eram o alimento de poetas e tolos, doces que deixavam um gosto amargo na boca e na garganta.

Roland parou um instante a dez passos da madeira reutilizada da por-ta na base da Torre e deixou o eco das vozes das rosas — aquela trompa de boas-vindas — se extinguir. A sensação de déjà vu ainda era forte, como se ele já estivesse de fato estado lá. E sem dúvida tinha estado, em mil e um sonhos premonitórios. Ergueu os olhos para a sacada onde o Rei Ru-bro tentara desafiar o ka e barrar seu caminho. Lá, uns 2 metros acima das caixas que guardavam os poucos pomos de ouro restantes (afinal, ao que parecia, o velho lunático não tivera mesmo outras armas), viu dois olhos vermelhos flutuando na atmosfera cada vez mais escura. Contemplavam-no com ódio eterno. Atrás deles, o fino prateado dos nervos ópticos (ago-ra, sob a luz do sol poente, tingidos de um laranja-avermelhado) se dissipa-va no nada. O pistoleiro desconfiou que os olhos do Rei Rubro iam per-manecer para sempre ali, observando o Can’-Ka No Rey enquanto seu do-no perambulava no mundo para onde a borracha de Patrick e o olho en-cantado do Artista o haviam mandado. Mais provável, no entanto, seria que tivesse caído no espaço entre os mundos.

Roland caminhou até o final da trilha, parando diante do negro retân-gulo de madeira com tiras de aço. Sobre ela, à três quartos da distância até o alto, estava gravado um sigul agora bem conhecido:

 

Ali ele pousou duas coisas, as últimas de sua tralha: a cruz de tia Talitha e o revólver de seis balas que ainda levava consigo. Quando se levantou, viu que os primeiros dois hieróglifos tinham sumido:

NÃO-ENCONTRADA se transformara em ENCONTRADA.

 

Ergueu a mão como se fosse bater, mas a porta se escancarou espon-taneamente antes que pudesse encostar nela, revelando os primeiros de-graus de uma escada que subia em espiral. Havia uma voz que sussurrava: Bem-vindo, Roland, tu que és do Eld. Era a voz da Torre. Aquele edifício não era absolutamente de pedra, embora pudesse parecer de pedra; aquilo era uma coisa viva, talvez o próprio Gan, e a pulsação que ele sentira tão no fundo da cabeça, mesmo a milhares de quilômetros de lá, fora sempre o pulsar da força vital do Gan.

Commala, pistoleiro. Commala-venha-venha.

E no sopro que chegou veio um odor alcalino, amargo como lágri-mas. O cheiro de... de que? De que, exatamente? Antes que conseguisse identificá-lo, o odor desapareceu, deixando Roland a conjecturar que o i-maginara.

Roland deu um passo para dentro e a Canção da Torre, que sempre ouvira — mesmo em Gilead, onde ela se escondera na voz da mãe cantan-do canções de ninar —, finalmente cessou. Ouviu um suspiro. A porta ba-teu com estrondo, mas ele não foi deixado no escuro. A luz que sobrava vinha do brilho das janelas em espiral misturado ao clarão do pôr-do-sol.

Degraus de pedra, uma passagem que só dava para uma pessoa, de-graus que subiam.

— Agora Roland está chegando! — ele gritou e as palavras pareceram se prolongar em espiral até o infinito. — Tu que estás aí, no topo, ouve e se puderes dá-me boas-vindas. Se fores meu inimigo, quero que saibas que vim desarmado e que não pretendo te fazer mal.

Começou a subir.

Dezenove degraus o levaram ao primeiro patamar (e 19 degraus o le-variam a cada um dos outros). Viu uma porta aberta e, atrás dela, uma pe-quena sala redonda. Havia milhares de rostos entrelaçados gravados nas pedras da parede. Muitos ele conhecia (um era o rosto de Calvin Tower, espreitando com ar esperto por cima de um livro aberto). Os rostos o con-templavam e ele os ouvia murmurar.

Bem-vindo, Roland, tu de tantos quilômetros e tantos mundos; bem-vindo tu de Gilead, tu que és do Eld.

Na extremidade da sala havia uma porta flanqueada por uma grinalda vermelho-escura, com fios de ouro. A quase 2 metros da porta — e na al-tura exata de seus olhos — havia uma pequena janela redonda, pouco mai-or que o olho mágico de um bandido. Sentiu um aroma doce que foi capaz de identificar: sachê de pinho, como o que a mãe colocara primeiro em seu berço, depois, mais tarde, em sua primeira cama de verdade. O cheiro o fazia voltar aquele tempo com grande nitidez, como os aromas sempre fa-zem; se algum sentido funciona para nós como máquina do tempo é o sen-tido do olfato.

Então, assim como o amargo odor alcalino, o aroma desapareceu.

A sala não estava mobiliada, mas havia uma coisa no chão. Roland avançou para pegá-la. Era uma pequena presilha de cedro, as hastes enro-ladas em fita de seda azul. Ele vira tais coisas há muito tempo, em Gilead; mesmo já devia ter usado uma. Quando o médico cortava o cordão umbili-cal de um bebê recém-nascido, separando mãe e filho, era colocada uma presilha dessas no umbigo do bebê. A presilha ficaria lá e cairia com o res-to do cordão (o umbigo era chamado tet-ka can Gan). O pedaço de seda naquela presilha dizia que pertencera a um garoto. Uma presilha de menina teria sido envolvida em fita rosa.

Essa era a minha, ele pensou. Olhou-a mais um momento, fascinado, depois tornou a colocá-la cuidadosamente no mesmo lugar. No lugar ao qual ela pertencia. Quando tornou a se levantar, viu uma face de bebê

(Será que este é o meu querido bah-bo? Se você diz assim, que seja assim!)

entre a multidão de outras. Estava contorcida, como se seu primeiro sopro de ar fora do útero não tivesse sido dos melhores e ele já estivesse contaminado de morte. Logo aquela face tornaria manifesto o que achava de sua nova situação com um grito agudo, capaz de ecoar de uma ponta à outra dos aposentos de Steven e Gabrielle, fazendo sorrir de alívio os ami-gos e servos que o escutassem (só Marten Capa Preta fecharia a cara). O parto acontecera e fora de criança viva, dêem graças ao Gan e a todos os deuses. Havia um herdeiro da Linhagem do Eld e, portanto, havia pelo menos uma chance mínima de que o deplorável e embaralhado caminhar do mundo para a ruína pudesse ser revertido.

Roland deixou aquela sala, o senso de déjà vu mais forte que nunca, Também era a sensação que entrara no corpo do próprio Gan.

Virou-se para a escada e mais uma vez começou a subir.

 

QUATRO

Outros 19 degraus o levaram ao segundo patamar e a segunda sala. Ali ha-via pedaços de tecido espalhados pelo piso circular. Roland não teve a me-nor dúvida de que já tinham sido fralda de bebê, fralda reduzida a franga-lhos por um certo intruso impertinente, alguém que, depois, fora até a sa-cada para dar mais uma olhada no campo de rosas e, de repente, se vira fechado ali. Era uma criatura de monumental malícia, cheio de maligna sa-bedoria... mas que no final escorregara e agora teria de pagar por séculos e séculos.

Se era apenas uma olhada que ele queria dar, por que saiu com toda aquela mu-nição?

Porque era sua única tralha e estava pendurada nas costas, murmurou um dos rostos gravados na curva da parede. Era a face de Mordred. Agora Roland não encontrava nenhum ódio nela, só a tristeza de uma criança abandona-da. Era uma face solitária como apito de trem em noite sem lua. Não tivera presilha para o umbigo de Mordred quando ele veio ao mundo, só tinha havido a mãe, a quem ele recorrera como primeira refeição. Nenhuma pre-silha, em nenhuma hipótese, pois Mordred jamais fizera parte do tet do Gan. Não, ele não.

Meu Pai Vermelho nunca andaria desarmado, sussurrou o menino de pe-dra. Não quando estava longe de seu castelo. Estava louco, mas não assim tão louco.

Naquela sala havia o cheiro do talco que a mãe passara em seu corpo nu deitado sobre uma toalha, o banho recém-tomado e ele brincando com os recém-descobertos dedos dos pés. Ela acalmara sua pele com o talco e cantava enquanto o acariciava: Bebê guri, bebê cabeça, bebê me traga sua cesta a-qui!

Aquele cheiro também foi embora tão depressa quanto havia chega-do.

Avançando entre os farrapos de fraldas, Roland cruzou a sala até a pequena janela e olhou para fora. Os olhos sem corpo perceberam seu movimento e deram uma girada vertiginosa para contemplá-lo. Um olhar envenenado de fúria e sentimento de perda.

Saia, Roland! Saia e fique frente a frente comigo! Homem a homem! Um olho por um olho, o que acha?

— Acho que não — disse Roland —, pois tenho mais o que fazer. Pelo menos um pouco mais.

Foram suas últimas palavras com o Rei Rubro. Embora o lunático fi-casse gritando pensamentos atrás dele, gritaria em vão, pois Roland não ia mais olhar para trás. Tinha novos degraus a subir e mais salas a investigar em seu caminho para o topo.

 

CINCO

No terceiro patamar olhou pela porta e viu um vestido de veludo cotelê que sem dúvida fora seu quando ele tinha apenas um ano de idade. Entre as faces naquela parede viu a de seu pai, só que como um homem muito mais novo. Mais tarde aquele rosto se tornara cruel — acontecimentos e responsabilidades o alteraram. Mas não ali. Ali, os olhos de Steven Descha-in eram os olhos de um homem contemplando algo que o agradava de-mais; nada havia conseguido nem jamais conseguiria agradá-lo tanto. Ro-land sentiu um aroma masculino e doce que identificou como o sabonete de barbear do pai. Uma voz fantasmagórica sussurrou: Olhe, Gabby, olhe! Ele está sorrindo! Sorrindo pra mim! E tem um novo dente!

No piso da quarta sala estava jogada a coleira de seu primeiro cachor-ro, Ring-A-Levio. Ringo, para abreviar. Morrera quando Roland tinha três anos, o que não deixara de ser uma espécie de dádiva. Um menino de três anos ainda podia chorar a perda de um animalzinho de estimação, mesmo um menino com o sangue do Eld nas veias. Ali o pistoleiro sentira um a-roma que era maravilhoso, mas que não tinha nome, embora ele o tenha reconhecido como o cheiro do sol da Terra Plena no pêlo de Ringo.

Talvez duas dúzias de andares acima da Sala de Ringo, o chão tinha migalhas de pão e uma trouxa de penas que, um dia, haviam sido de um falcão chamado David — não era um animal de estimação, mas era certa-mente um amigo. Fora objeto do primeiro dos muitos sacrifícios que a-companharam Roland até a Torre Negra. Num trecho da parede havia o entalhe de David em pleno vôo, as asas curtas se abrindo sobre toda a cor-te de Gilead reunida (Marten, o Encantador, não deixando de se destacar entre eles). E à esquerda da porta que levava à sacada, a imagem de David fora novamente gravada. Ali tinha as asas dobradas e caia sobre Cort como bala cega, desatento ao bastão que Cort segurava.

Velhos tempos.

Velhos tempos e velhos crimes.

Não longe de Cort estava a face sorridente da prostituta com quem o garoto tinha se divertido naquela noite. O cheiro na Sala de David era do perfume dela, doce e barato. Quando o pistoleiro o inspirou, lembrou-se do toque nos pêlos pubianos da prostituta e ficou chocado ao recordar de novo o que tinha se lembrado quando seus dedos deslizaram para a fenda melosa dela. Tinha se imaginado saindo de seu banho de bebê com as mãos da mãe ainda sobre ele.

Quando começou a ter uma ereção, Roland fugiu assustado daquela sala.