A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 7 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Capítulo IV · DAN-TETE

 

 

UM

Quando a hora de o bebê nascer se aproximou, Susannah Dean olhou ao redor, mais uma vez contando seus inimigos como Roland havia ensinado. Nunca deve sacar, ele tinha dito, antes de saber quantos há contra você ou até se certi-ficar de que jamais poderá saber ou até concluir que é seu dia de morrer. Queria pelo menos não ter sido obrigada a lidar com aquele terrível capacete que tinha na cabeça, invadindo seus pensamentos, mas fosse o que fosse aquela coi-sa, ela pareceu alheia ao esforço de Susannah para contar quem estava pre-sente à chegada do chapinha de Mia. E isso era bom.

Lá estava Sayre, o encarregado. O homem baixo, com uma daquelas manchas vermelhas pulsando no centro da testa. Do outro lado Scowther, o médico entre as pernas de Mia, preparando-se para oficiar o parto. Sayre fora duro com o médico quando Scowther deu mostras de uma arrogância um tanto exagerada, mas provavelmente não o bastante para interferir com sua eficiência. Havia mais cinco homens baixos além de Sayre, mas ela só pegara dois nomes. O sujeito com a papada de buldogue e a barriga pesada e caída era o Haber. Ao lado de Haber havia uma coisa-pássaro com uma cabeça marrom cheia de penas e os maldosos olhos fixos de um falcão. O nome desta criatura parecia ser Jey, ou possivelmente Gee. Eram sete, to-dos armados, em cinturões atravessados no peito, com algo parecido com metralhadoras. A arma de Scowther saía do jaleco branco sempre que ele se curvava. Susannah já tinha marcado aquela como sua.

Havia também três coisas humanóides, vigilantes e pálidas, paradas atrás de Mia. Essas, envoltas por auras azul-escuras, eram vampiros, Su-sannah tinha certeza absoluta. Provavelmente do gênero que Callahan ha-via chamado Tipo Três (o Père uma vez se referira a eles como pilotos tu-barão). Somavam dez. Dois dos vampiros carregavam bahs, o terceiro uma espécie de espada elétrica, por enquanto reduzida a mero cetro irradiador de luz. Talvez conseguisse pegar a arma de Scowther (o problema era quan-do pegá-la, querida, ela acrescentou — tinha lido O Poder do Pensamento Posi-tivo e ainda acreditava em cada palavra que o rev. Peale havia escrito). Pri-meiro iria virá-la contra o homem com a espada elétrica. Só Deus sabia quanto dano uma arma daquelas podia causar, mas Susannah Dean não queria descobrir.

Havia também uma enfermeira com a cabeça de um grande rato mar-rom. O olho vermelho e pulsante no centro da testa fez Susannah acreditar que a maior parte do folken baixo estaria usando máscaras que os humani-zavam, provavelmente para não complicar o jogo quando andassem lá fora, pelas calçadas de Nova York. Talvez não tivessem uma aparência exata de ratos por baixo, mas tinha certeza de que nenhum deles se parecia com Robert Goulet. ∗ A enfermeira com cabeça de rato era a única criatura pre-sente que não trazia arma, pelo menos nenhuma que Susannah pudesse ver.

Onze ao todo. Onze naquela enfermaria vasta e quase inteiramente deserta que não ficava, estava realmente certa, sob o distrito de Manhattan. E se ia acabar com eles, teria de fazê-lo enquanto estavam ocupados com o bebê de Mia — o precioso chapinha.

— Está vindo, doutor! — a enfermeira gritou num êxtase nervoso.

Estava. A contagem de Susannah parou enquanto o apogeu da dor ainda rolava sobre ela. Sobre as duas. Soterrando-as. Gritavam uma atrás da outra. Scowther mandava Mia fazer força, fazer força AGORA!

Susannah fechou os olhos e também fez força, pois o bebê também

 

∗Crooner norte-americano, famoso nos anos 60. (N. da E.) era... ou fora... dela. Então, ao sentir a dor escorrer como um redemoinho descendo por um ralo escuro, experimentou uma profunda tristeza, como jamais sentira. Pois era para Mia que o bebê estava fluindo; aquelas eram as últimas poucas linhas da mensagem viva que, de alguma forma, o corpo de Susannah tinha sido feito para transmitir. Era o fim. Não importava o que acontecesse depois, aquela parte estava encerrada e Susannah Dean deixou escapar um grito onde se misturava alívio e pesar; um grito que era em si mesmo como uma canção.

E nesse momento, antes que o horror começasse (algo tão terrível de que ela se lembraria até o dia de sua entrada na clareira, cada detalhe sur-gindo sempre sob o clarão de uma luz brilhante), sentiu uma pequena mão quente agarrar seu pulso. Susannah virou a cabeça, que levava o desagradá-vel peso do capacete. Sentiu sua respiração ofegante. Seus olhos encontra-ram os de Mia. Mia abriu os lábios e falou uma única palavra. Susannah não conseguiu ouvi-la por causa do resmungar de Scowther (ele estava se curvando, espreitando entre as pernas de Mia e erguendo o fórceps diante da testa). Mas conseguiu entender, ver que Mia tentava cumprir sua promes-sa.

Eu te soltava, se a sorte permitir, dissera sua seqüestradora e a palavra que Susannah agora ouvia em sua mente e via nos lábios da mulher em traba-lho de parto era chassit.

Susannah, está me ouvindo?

Estou ouvindo muito bem, disse Susannah.

E compreende nosso pacto?

Sim. Vou ajudá-la a escapar disso com seu chapinha, se eu puder. E...

E se não puder é para nos matar!, concluiu ferozmente a voz. Nunca fora tão alta. Isso era parcialmente obra do cabo de conexão, Susannah tinha certeza. Diga, Susannah, filha de Dan!

Vou matar os dois se você...

Ela parou aí. Mia pareceu satisfeita e isso era bom, porque Susannah não poderia ter continuado mesmo que a vida das duas dependesse disso. Por acaso seu olho tinha batido no alto daquele enorme salão, no teto so-bre as alas de camas. E ali ela viu Eddie e Roland. Estavam nevoentos, flu-tuando de um lado para o outro, observando-a lá embaixo como peixes num aquário.

Outra dor, mas esta não tão severa. Ainda podia sentir as coxas se endurecendo, empurrando, mas isso já parecia muito distante. E sem im-portância. O que importava era saber se estava ou não realmente vendo o que achava que estava vendo. Será que sua mente extremamente estressa-da, ansiosa por socorro, tinha criado aquela alucinação para confortá-la?

Ela podia quase acreditar. Teria, muito provavelmente, acreditado se os dois não estivessem nus e cercados por uma estranha coleção de tralhas flutuantes: uma caixa de fósforo, um amendoim, cinzas, uma moeda. E um tapete de carro, por Deus! Um tapete de carro com a palavra FORD im-pressa.

— Doutor, posso ver a ca...

Ouviu-se um gritinho sufocado quando o dr. Scowther, que não era exatamente um cavalheiro, deu, sem nenhuma cerimônia, uma cotovelada na enfermeira Ratona, colocando-a de lado e se curvando ainda mais para a junção das coxas de Mia. Como se pretendesse puxar o chapinha com os próprios dentes. A coisa-falcão, Jey ou Gee, falava com o sujeito chamado Haber num dialeto nervoso, cheio de zumbidos.

Estão realmente ali, Susannah pensou. O tapete prova isso. Não sabia mui-to bem como o tapete provava, só que era assim. E murmurou a palavra que Mia lhe dera: chassit. Era uma senha. Abriria pelo menos uma porta e talvez muitas. Perguntar se Mia dissera a verdade não passou sequer pela mente de Susannah. Estavam amarradas uma na outra, não apenas pelo cabo e os capacetes, mas pelo mais primitivo (e muito mais poderoso) ato de dar à luz. Não, Mia não havia mentido.

— Força, maldita puta preguiçosa! — Scowther quase uivou, e Roland e Eddie desapareceram do teto para sempre, como se soprados pela força da respiração do homem. Pelo que Susannah percebera, fora isso mesmo.

Ela se virou para o lado, sentindo o cabelo se grudar em mexas na ca-beça, consciente de que seu corpo estava derramando galões de suor. Ar-rastou-se para um pouco mais perto de Mia, um pouco mais perto de Scowther, um pouco mais perto do relevo da coronha da pistola automáti-ca de Scowther, que balançava.

— Fique quieta, meu bem, me escute por favor — disse um dos ho-mens baixos, tocando no braço de Susannah. A mão era fria e flácida, co-berta com anéis de gordura. A carícia lhe dava asco. — Tudo estará acaba-do num minuto e então todos os mundos mudam. Quando isto aqui se juntar aos Sapadores em Trovoada...

— Cale a boca, Straw! — Haber berrou, empurrando o pretenso con-solador de Susannah para trás. Depois tornou a se virar avidamente para o parto.

Mia arqueou as costas, gemendo. A enfermeira com cabeça de rato pôs as mãos nos quadris de Mia e empurrou-os suavemente de volta para a cama.

— Não faça isso, não faça. Força na barriga.

— Vá à merda, sua puta! — Mia gritou e, embora Susannah sentisse uma débil pontada de sua dor, isso foi tudo. A conexão entre as duas esta-va se desfazendo.

Usando toda a sua concentração, Susannah gritou para o poço da própria mente. Ei! Ei dona Positronics! Ainda está aí?

— O link... caiu — disse a agradável voz feminina. Como antes, fala-va no meio da cabeça de Susannah, mas ao contrário de antes, parecia lon-gínqua, não mais perigosa que uma voz no rádio que vem de muito longe devido a algum problema atmosférico. — Repito: o link... caiu. Esperamos que se lembre da North Central Positronics para todas as suas necessidades de reforço mental. E da Sombra Corporation! Um líder na comunicação mente a mente desde os dez mil!

No fundo da cabeça de Susannah, houve um BII-IIIIP de fazer bater os dentes e a conexão cessou. Não era apenas a ausência da horrivelmente agradável voz feminina; era tudo. Teve a impressão de ter sido liberta de alguma dolorosa armadilha que apertava seu corpo.

Mia tornou a gritar e Susannah também deixou escapar um grito. Par-te dele pelo fato de Susannah não querer que Sayre e os comparsas perce-bessem que o laço entre ela e Mia fora rompido; em parte por autêntico pesar. Perdera uma mulher que, em certo sentido, se transformara em sua verdadeira irmã.

Susannah! Suze, você está aí?

Ela se apoiou nos cotovelos ao ouvir aquela nova voz, por um mo-mento quase se esquecendo da mulher a seu lado. Aquilo fora...

Jake? É você, querido? É, não é? Está me ouvindo?

SIM!, ele gritou. Finalmente! Deus, com quem você esteve falando? Continue gritando para que eu possa localizá-la no...

A voz se interrompeu, mas não antes de ela ouvir o fantasmagórico ruído de um tiroteio distante. Jake atirando em alguém? Achava que não. Achava que alguém estava atirando nele.

 

DOIS

— Agora! — Scowther gritou. — Agora, Mia! Força! Por sua vida! Dê o máximo que puder! FORÇA!

Susannah tentou rolar para mais perto da outra mulher (oh, estou preo-cupada e querendo consolo, veja como estou preocupada, preocupada e querendo consolo é isso é), mas o tipo que se chamava Straw puxou-a para trás. O segmentado cabo de ferro se agitou e se esticou entre elas.

— Mantenha distância, puta — disse Straw e, pela primeira vez, Su-sannah se defrontou com a possibilidade de não a deixarem se apoderar do revólver de Scowther. Ou de qualquer outro revólver.

Mia tornou a gritar, rezando a um estranho deus numa estranha lín-gua. Quando tentou erguer o tórax da mesa, a enfermeira (Alia — Susan-nah achou que o nome da enfermeira era Alia) forçou-a a se deitar de novo e Scowther deu um breve e áspero grito, aparentemente de satisfação. Ati-rou para o lado o fórceps que estivera segurando.

— Por que fez isso? — Sayre perguntou. Os lençóis embaixo das pernas abertas de Mia estavam agora molhados de sangue e o chefe Sayre parecia perturbado.

— Não vamos precisar do fórceps! — Scowther retornou num tom jovial. — Ela foi feita para ter bebês, poderia ter mais de uma dúzia num campo de arroz e não perder uma fileira da colheita. Aí vem ele, em forma, claro que sim!

Scowther fez um gesto de quem ia agarrar a bacia grande posta na cama do lado, mas concluiu que não tinha tempo e deslizou as mãos rosa-das e sem luvas entre as coxas de Mia. Desta vez, quando Susannah fez um esforço para chegar mais perto de Mia, Straw não a deteve. Todos eles, homens baixos e também vampiros, observavam o último estágio do nas-cimento com absoluta fascinação, a maioria deles aglomerados na frente das duas camas que, postas uma ao lado da outra, formavam uma só. Ape-nas Straw continuava perto de Susannah. O vampiro com a espada de fogo acabara de perder seu lugar; ela concluiu que agora Straw seria o primeiro a morrer.

— Mais uma vez! — Scowther gritou. — Pelo seu bebê!

Assim como os homens baixos e os vampiros, também Mia se esque-cera de Susannah. Os olhos feridos, cheios de dor, se fixaram em Sayre.

— Posso ficar um pouco com ele, senhor? Por favor diga que posso ficar um pouco com ele, mesmo que por um tempo mínimo!

Sayre pegou a mão dela. A máscara que cobria sua verdadeira face sorriu.

— Sim, minha querida — disse ele. — O chapinha será seu durante muitos anos. Mas faça força pelo menos mais uma vez.

Mia, não acredite nas mentiras dele!, Susannah gritou, mas o grito não chegou a lugar algum. Provavelmente isso era ótimo. Era ótimo estar pas-sando inteiramente despercebida.

Susannah voltou os pensamentos numa nova direção. Jake! Jake, onde você está?

Nenhuma resposta. Nada bom. Por favor, Deus queira que ele ainda esteja vivo.

Talvez só esteja ocupado. Correndo... se escondendo... lutando. O si-lêncio não significa necessariamente que ele...

Mia gritou o que parecia ser uma série de obscenidades, mas sem pa-rar de fazer força. Os lábios de sua já distendida vagina se abriram ainda mais. Um jorro de sangue escorreu, ampliando a turva forma de delta no lençol embaixo dela. E então, entre as ondas de rubro, Susannah viu uma coroa de branco e preto. O branco era pele. O preto era cabelo.

O mosqueado de branco e preto começou a se fundir no vermelho e Susannah achou que o bebê recuara, ainda não pronto de todo para o mundo, mas Mia estava cansada de esperar. Ela empurrou com toda a sua considerável força, as mãos erguidas diante dos olhos em punhos fechados e trêmulos, os olhos semicerrados, os dentes arreganhados. Uma veia pul-sava de modo alarmante no centro de sua testa; outra despontava no meio da garganta.

— EEEIÁÁÁÁ! — ela gritou. — COMMALA, SEU GRANDE FI-LHO-DA-PUTA! COMMALA-VENHA-VENHA!

— Dan-tete — murmurou Jey, a coisa-falcão, e os outros continua-ram numa espécie de murmúrio reverente: Dan-tete... dan-tete... commala dan-tete. A chegada do pequeno deus.

Desta vez a cabeça do bebê não apenas despontou, mas avançou para a frente. Susannah viu as mãos dele em frente ao peito salpicado de sangue, pequenos punhos que tremiam com vida. Viu olhos azuis, muito arregala-dos e assustadores por sua consciência e sua semelhança com os de Ro-land. Viu pestanas pretas, úmidas, marcadas com gotinhas de sangue, como um bárbaro enfeite de natal. Susannah viu (e jamais esqueceria) como o lábio inferior do bebê se agarrou momentaneamente no lábio interior da vulva da mãe. A boca do bebê, algum tempo aberta, revelou uma perfeita fileira de dentinhos no maxilar inferior. Eram dentes — não presas mas dentinhos perfeitos. Mesmo assim, vê-los na boca de um recém-nascido fez Susannah ter um calafrio. O mesmo aconteceu com a visão do pênis do chapinha, desproporcionalmente grande e plenamente ereto. Susannah a-chou mais comprido que seu dedo mínimo.

Gemendo de dor e triunfo, Mia se apoiou nos cotovelos, olhos sal-tando das órbitas e lágrimas caindo. Estendeu o braço e agarrou a mão de Sayre com uma força de garra de ferro quando Scowther puxou habilmente o bebê. Sayre resmungou e tentou se esquivar, mas seria como tentar... bem, tentar se esquivar de um guarda do xerife em Oxford, Mississippi. O canto tinha cessado e houve um momento de chocado silêncio. Nele, os ouvidos extremamente atentos de Susannah perceberam claramente o som de ossos roçando no pulso de Sayre.

— ELE VIVE? — Mia gritou para o rosto sobressaltado de Sayre. Cuspe voou de seus lábios. — DIGA, SEU VARIOLENTO FILHO-DA-PUTA, SE MEU CHAPINHA VIVE!

Scowther ergueu o chapinha, ficando cara a cara com a criança. Os olhos castanhos do médico encontraram os olhos azuis do bebê. E en-quanto o chapinha permanecia ali, nos braços de Scowther, o pênis saltan-do desafiante para cima, Susannah viu claramente a marca rubra no calca-nhar esquerdo. Era como se o pé do bebê tivesse sido mergulhado em san-gue pouco antes de ele deixar o útero de Mia.

Em vez de bater nas nádegas do bebê, Scowther respirou fundo e so-prou rajadas de ar diretamente nos olhos do chapinha. O chapinha de Mia piscou numa surpresa cômica (e inegavelmente humana). O chapinha tam-bém respirou fundo, segurou o ar por um momento e deixou-o sair. Talvez fosse o Rei dos Reis ou o destruidor de mundos, mas entrou na vida como tantos antes dele, gritando contra a violência. Mia explodiu em lágrimas de contentamento quando ouviu o som daquele grito. As maléficas criaturas reunidas em volta da nova mãe eram servos do Rei Rubro, mas isso não as tornava imunes ao que tinham acabado de presenciar. Irromperam em a-plausos e risos. Susannah estava quase satisfeita por juntar-se a eles. Com o barulho, o bebê olhou em volta com uma nítida expressão de espanto.

Chorando, com lágrimas escorrendo pelas faces e o nariz pingando muito, Mia estendeu os braços.

— Dêem pra mim! — ela chorou; assim chorou Mia, filha de nin-guém e mãe de um. — Deixem-me segurá-lo, por favor, me deixem segu-rar meu filho! Me deixem segurar meu chapinha! Me deixem segurar meu precioso garoto!

E o bebê virou a cabeça ao som da voz de sua mãe. Susannah teria dito que tal coisa era impossível, mas sem dúvida também teria dito que um bebê nascer de olhos bem abertos, com a boca cheia de dentes e um pênis ereto também era impossível. Contudo, sob todos os outros aspectos, o bebê parecia completamente normal: gordinho e bem formado, humano e com ar engraçadinho. Tinha a marca vermelha no calcanhar, sim, mas quantas crianças, normais sob todos os outros aspectos, não nasciam com algum tipo de marca de nascença? Não tinha o próprio pai de Susannah nascido de mãos vermelhas, segundo uma lenda de família? Aquela marca sequer apareceria, a não ser quando o menino estivesse na praia.

Ainda segurando o recém-nascido próximo ao rosto, Scowther olhou para Sayre. Houve uma pausa momentânea durante a qual Susannah podia ter se apoderado facilmente do automático de Scowther. Mas ela nem se-quer pensou nisso. Esquecera o grito telepático de Jake; tinha igualmente esquecido a estranha visita que recebera de Roland e do marido. Estava tão arrebatada quanto Jey, Straw, Jaber e todos os outros, arrebatada por aque-le momento de entrada de uma criança num mundo exausto.

Sayre abanou a cabeça, quase imperceptivelmente, e Scowther entre-gou o bebê Mordred, ainda chorando (e ainda olhando pelo ombro, apa-rentemente para a mãe), aos braços ansiosos de Mia.

Mia virou-o de imediato para poder olhá-lo e o coração de Susannah teve um baque de aflição e horror. Pois Mia tinha ficado louca. A coisa bri-lhava em seus olhos; estava no modo como a boca conseguia mostrar re-pugnância, sorrir e babar, tudo ao mesmo tempo, uma boca que ia ficando vermelha e grossa com o sangue da língua mordida, escorrendo pelos lados do queixo. Mais que tudo, no entanto, a loucura estava no riso triunfante. Talvez Mia recuperasse a sanidade daí a alguns dias, mas...

Puta nunca vai voltá, disse Detta, não sem compaixão. Tê ido assim tão longe e daí se livrar dele acabou quebrando a cachola. Ela rebentou, e você sabe disso tão bem quanto eu...

— Oh, quanta beleza! — Mia cantarolou. — Oh, ver teus olhos azuis, tua pele branca como o céu antes da primeira neve da Terra Chave! Ver teus mamilos, frutinhas tão perfeitas que são, ver teu pau e tuas bolas ma-cias como pêssegos novos! — Olhou para o lado, primeiro para Susannah (mas os olhos deslizaram pela face de Susannah sem absolutamente qual-quer reconhecimento) e depois para os outros. — Estão vendo meu chapinha, seus infelizes, seus vermes, meu precioso filho, meu bebê, meu garoto! — Gritava para eles, cobrava deles, ria com os olhos loucos e chorava com a boca torta. — Vejam o que me fez abrir mão da eternidade! Vejam meu Mordred, olhem com muito cuidado, pois nunca mais verão alguém como ele!

Extremamente ofegante, cobriu a face atenta e ensangüentada do be-bê com beijos, manchando ainda mais a boca, ficando parecida com uma bêbada que tivesse tentado passar batom nos lábios. Rindo, ela beijou a aba gorducha da papada da criança, seus mamilos, seu umbigo, a ponta empi-nada do pênis. Depois segurou bem alto, com braços trêmulos, a criança que pretendia chamar de Mordred e beijou seus joelhos e cada pezinho. A criança virava os olhos para Mia com uma cômica expressão de assombro, e Susannah ouviu a primeira sucção daquela sala: não o bebê no seio da mãe, mas a boca de Mia em cada dedo do pé perfeitamente formado.

 

TRÊS

A criança é a perdição de meu dinh, Susannah pensou friamente. Se eu não fizer nada mais, posso pelo menos me apoderar da arma de Scowther e atirar. Seria obra de dois segundos.

Com sua velocidade — a fantástica velocidade de um pistoleiro — is-to provavelmente poderia ser feito. Mas de repente ela se sentiu incapaz de se mexer. Tinha previsto muitos desfechos para aquele ato da peça, mas não a loucura de Mia, nunca isso, a coisa a pegara inteiramente de surpresa. Passou pela mente de Susannah que ela tivera muita sorte pelo fato de o link da Positronics ter se rompido mais cedo. Se tivesse demorado mais, ela poderia estar maluca como Mia.

Só que este link pode dar uma retornada, irmã... Não seria melhor entrar em a-ção enquanto pode?

Mas não podia, o detalhe era esse. Estava paralisada de admiração, pre-sa de encantamento.

— Pare com isso! — Sayre gritou com Mia. — Sua tarefa não é brin-car com ele, mas alimentá-lo! Se pretende conservá-lo, mexa-se! Dê-lhe de mamar! Ou prefere que eu chame uma ama-de-leite? Há muitas que dariam os olhos pela oportunidade!

— Nunca mais... repita... ISSO! — Mia gritou, rindo, mas levou a cri-ança ao peito e, impaciente, puxou para o lado o corpete da camisola toda branca que usava, desnudando o seio direito. Susannah pôde ver por que os homens eram seduzidos por ela; aquele seio continuava sendo um per-feito globo com ponta de coral, mais adequado à mão de um homem, um homem com desejo, que à nutrição de um bebê. Mia baixou o chapinha para o seio. Por um momento, ele procurou do mesmo jeito cômico com que havia arregalado os olhos para a mãe, o rosto batendo no mamilo e ricocheteando. Quando ele tornou a descer, no entanto, o rosado da boca se fechou na ponta rosada e ereta do seio, começando a sugar.

Sempre rindo, Mia alisou os anéis pretos e ensopados de sangue do cabelo emaranhado do chapinha. Para Susannah, aquele riso soava como gritos.

Ouviram-se pancadas no assoalho quando um robô se aproximou. Sem dúvida era um pouco parecido com Andy, o Robô Mensageiro — a mesma figura magrela com dois metros a dois metros e meio de altura, os mesmos eletrizados olhos azuis, o mesmo corpo brilhante, repleto de jun-tas. Levava nos braços uma grande caixa de vidro com uma luz verde.

— O que a porra deste robô veio fazer aqui? — Sayre berrou. Parecia simultaneamente irritado e perplexo.

— É uma incubadora — disse Scowther. — Achei que era melhor prevenir do que remediar.

Quando ele se virou para olhar, o coldre com o revólver, preso no ombro, virou em direção de Susannah. Era uma ótima chance, a melhor que Susannah já tivera, e ela sabia disso, mas antes que pudesse pegar a arma, o chapinha de Mia se alterou.

 

QUATRO

Susannah viu a luz vermelha deslizando na pele suave da criança, do alto da cabeça para o calcanhar manchado no pé direito. Não era um feixe, mas um clarão, iluminando a criança de fora: Susannah teria jurado que era as-sim. E então, quando a luz atingiu a barriga esvaziada de Mia, onde a crian-ça fechava os lábios ao redor de um mamilo, o clarão vermelho foi seguido por uma escuridão que se ergueu no ar e se espalhou, transformando a cri-ança num gnomo escuro, um negativo do bebê rosado que escapara do útero de Mia. Ao mesmo tempo o pequeno corpo começou a se atrofiar, as pernas se derretendo na barriga, a cabeça escorregando para baixo (e pu-xando o seio de Mia com ela), caindo sobre o pescoço, que inchou como a garganta de um sapo. Os olhos azuis ficaram escuros como breu, depois voltaram a ficar azuis.

Susannah tentou gritar e não conseguiu.

Tumores incharam ao longo dos lados da coisa negra, depois explodi-ram e expeliram pernas. A mancha vermelha que marcava o calcanhar ain-da era visível, mas se tornara um inchaço, como a marca rubra na barriga de uma aranha viúva-negra. Pois era isso que era aquela coisa: uma aranha. O bebê, contudo, não se fora de todo. Uma excrescência branca brotou das costas da aranha. Nela Susannah pôde ver uma face minúscula, defor-mada, e centelhas azuis que eram olhos.

— O quê...? — Mia perguntou e de novo se apoiou sobre os cotove-los. O sangue tinha começado a escorrer de seu seio. O bebê o tomava como leite, sem perder uma só gota. Ao lado de Mia, Sayre permanecia imóvel como uma estátua, a boca aberta e os olhos saltando das órbitas. Seja lá o que tivesse esperado daquele nascimento, o que quer que o tives-sem mandado esperar, não era aquilo. A parte Detta de Susannah teve pra-zer em fazer uma comparação maldosa e infantil ao ver a expressão choca-da do homem: parecia o comediante Jack Benny fazendo de tudo para es-tender a risada do público.

Por um momento, Mia pareceu perceber o que tinha acontecido, pois sua face começou a se alongar com uma espécie bem justificada de horror — e talvez mágoa. Então o sorriso dela voltou, aquele angélico sorriso de madona. Ela estendeu o braço e alisou a anomalia em seu seio, ainda com-pletando a metamorfose, a aranha negra com a minúscula cabeça humana e a marca vermelha na barriga peluda.

— Não é bonito? — ela gritou. — Meu filho não é bonito, não é belo como o sol de verão?

Foram essas suas últimas palavras.

 

CINCO

Sua face não pareceu exatamente paralisada, mas aplacada. As bochechas, testa e pescoço, muito coradas pelo esforço do nascimento um momento atrás, esmaeceram para a brancura de cera de pétalas de orquídea. Os olhos brilhantes ficaram quietos e fixos nas órbitas. E de repente foi como se Susannah estivesse olhando não para uma mulher deitada na cama, mas para a gravura de uma mulher. Uma gravura extraordinariamente boa, mas ainda assim algo que tivesse sido criado no papel com os movimentos de um lá-pis de desenho e algumas cores pálidas.

Susannah lembrou como voltara ao Plaza-Park Hyatt Hotel após sua primeira visita ao torreão do Castelo Discórdia e como chegara lá, em Fe-dic, após sua última palestra com Mia, no abrigo das ameias. Lembrou co-mo o céu, o castelo e cada pedra das ameias tinham se rasgado. E então, como se seu pensamento tivesse provocado isso, a face de Mia foi rasgada do queixo ao contorno do cabelo. Os olhos fixos, vidrados, caíram (olhan-do de soslaio) para os lados. Os lábios se fenderam num sorriso dentuço e enlouquecido. E não foi sangue o que vazou da brecha que se abria em seu rosto, mas um pó branco com cheiro rançoso. Susannah teve uma lem-brança fragmentada de T. S. Eliot

(homens ocos homens empalhados elmos cheios de palha)

e Lewis Carroll

(mas você não passa de um baralho de cartas)

antes do dan-tete de Mia erguer sua indescritível cabeça após a pri-meira refeição. A boca manchada de sangue se abriu e ele se levantou, as pernas inferiores se debatendo em busca de apoio na esvaziada barriga da mãe, as superiores quase parecendo fazer um treino de boxe com Susan-nah.

A coisa deu um grito de triunfo e, se nesse momento tivesse realmen-te atacado a outra mulher que a trouxera ao mundo, Susannah Dean teria sem dúvida morrido ao lado de Mia. Em vez disso, a coisa voltou ao esva-ziado volume do seio onde havia sugado e o rasgou. Mastigando, fez um barulho frouxo e molhado. Um momento mais tarde, a coisa se entocou no buraco que tinha feito, a face humana branca desaparecendo enquanto a de Mia era destruída pela poeira que saía fervendo de dentro de sua cabe-ça agora murcha. Houve um barulho de sugar muito áspero, quase mecâni-co, e Susannah pensou: Está tirando todo líquido que há dentro dela, toda umidade que sobrou. E olhem ali! Olhem para o inchaço! Como sanguessuga no pescoço de um cavalo!

Nesse momento uma voz ridiculamente inglesa (era a afetada inflexão do eterno cavalheiro dos cavalheiros) disse:

— Perdão, senhores, mas irão querer esta incubadora? Pois a situação parece ter se modificado um pouco, se me permitem a observação.

Isto rompeu a paralisia de Susannah. Ela se ergueu com uma das mãos enquanto a outra se apoderava da pistola automática de Scowther. Puxou, mas a arma estava presa na coronha e não queria se soltar. Seu in-dicador, no entanto, encontrou o pequeno puxador deslizante que era o dispositivo de segurança e empurrou. Logo virava a pistola, com coldre e tudo, para a costela de Scowther.

— Que diab... — ele começou e então Susannah puxou o gatilho com o dedo médio, ao mesmo tempo usando toda a sua força para dar um pu-xão na correia presa no ombro. As correias prendiam o coldre ao corpo de Scowther; a mais fina, no entanto, que mantinha a pistola automática no lugar, arrebentou e, quando Scowther caiu para o lado, tentando olhar para o fumegante buraco negro no jaleco branco, Susannah adquiriu plena pos-se da arma. Atirou em Straw e no vampiro ao lado dele, aquele que tinha a espada elétrica. Por um momento o vampiro ficou lá, ainda contemplando a aranha-deus que, no início, fora tão parecida com um bebê. Então sua aura se extinguiu. A carne da coisa sumiu com ela. Por um momento não houve mais nada onde o vampiro tinha estado, só uma camisa vazia enfia-da numa calça jeans vazia. Aí as roupas murcharam.

— Matem-na! — Sayre gritou, estendendo a mão para sua própria ar-ma. — Matem essa puta!

Susannah rolou para longe da aranha agachada no corpo da mãe, que rapidamente desinchara, puxando o capacete que ainda estava usando, en-quanto saía da cama. Houve um momento de aflição martirizante quando achou que o capacete não ia sair, mas então ela caiu no assoalho, livre da coisa. Ficou pendurado ao lado da cama, emoldurada por seu cabelo. A coisa-aranha, momentaneamente afastada de seu poleiro quando o corpo da mãe mexeu, piou irritada.

Susannah rolou para baixo da cama quando uma série de tiros passa-ram sobre ela. Ouviu um alto SPROINK quando uma bala atingiu a mola de uma cama. Viu os pés e a parte de baixo das pernas peludas da enfer-meira com cabeça de rato e pôs uma bala num de seus joelhos. A enfer-meira deu um grito, se virou e começou a se afastar mancando, chorando muito.

Sayre se inclinou, apontando o revólver para a improvisada cama du-pla, pouco além do corpo murcho de Mia. Já havia três buracos fumegan-tes, chamejantes no lençol. Antes que ele pudesse adicionar um quarto, uma das pernas da aranha acariciou sua bochecha, rasgando a máscara que ele usava e revelando a bochecha peluda que havia por baixo. Sayre recuou, gritando. A aranha se virou para ele e produziu uma espécie de miado. A coisa branca no alto de suas costas — um nódulo com face humana — olhou fixamente, como se mandasse Sayre se afastar de sua refeição. Então a coisa voltou a prestar atenção na mulher — que na realidade nem era mais reconhecível como mulher; lembrava antes os restos de alguma mú-mia incrivelmente antiga, reduzida a trapos e poeira.

— Digo, isto é mesmo um pouco confuso — comentou o robô com a incubadora. — Será que me retiro? Talvez possa voltar quando as coisas estiverem um pouco mais claras.

Susannah rolou para o outro lado, saindo de baixo da cama. Viu que dois dos homens baixos haviam fugido. Jey, o homem-falcão, parecia inca-paz de tomar uma decisão. Ir ou ficar ali? Susannah resolveu a coisa por ele, dando um único tiro na cabeça lisa e marrom. Sangue e penas esvoaça-ram.

Susannah levantou-se do jeito que pôde, agarrando o lado da cama para manter o equilíbrio, mantendo a pistola de Scowther apontada na sua frente. Já pegara quatro. A enfermeira com cabeça de rato e uma outra ti-nham conseguido fugir. Sayre largara o revólver e agora tentava se escon-der atrás do robô com a incubadora.

Susannah atirou nos dois vampiros restantes e no homem baixo com a cara de buldogue. Este — Haber — não tinha esquecido Susannah; segu-rava-se e esperava ter ângulo para o tiro. Ela obteve o ângulo primeiro e viu-o cair para trás com profunda satisfação. Haber, ela pensou, fora o mais perigoso.

— Senhora, será que poderia me dizer... — começou o robô e Susan-nah plantou dois rápidos tiros em sua face de aço, apagando os olhos elé-tricos e azuis. Um truque que aprendera com Eddie. O toque de uma gi-gantesca sirene irrompeu de imediato. Susannah sentiu que, se ficasse ou-vindo aquilo muito tempo, ficaria surda.

— FIQUEI CEGO POR TIROS! — o robô gritou, sempre naquele tom absurdo do gostaria-madame-de-mais-uma-xícara-de-chá? — VISÃO ZERO, PRECISO DE AJUDA, CÓDIGO 7, DIGO, SOCORRO!

Sayre começou a se afastar, mãos no alto. Susannah não podia ouvi-lo com a sirene e o alvoroço do robô, mas conseguiu ler as palavras que saí-ram dos lábios do puto: Eu me rendo, vai aceitar minha palavra?

Ela sorriu achando a idéia divertida, mas inconsciente de que sorriu. Na realidade um sorriso sem humor, sem misericórdia e significando uma única coisa: teve vontade de vê-lo lamber os cotos de suas pernas, assim como ele obrigara Mia a lamber suas botas. Mas não houve tempo. Ele viu o destino que o esperava no sorriso dela, virou-se para fugir e Susannah acertou-o duas vezes atrás da cabeça: uma por Mia, uma por Père Callahan. O crânio de Sayre se despedaçou num festival de sangue e massa cerebral. Ele chegou até a parede, lutou para se agarrar a uma prateleira cheia de e-quipamentos e suprimentos médicos e caiu morto no chão.

Susannah, então, fez mira no deus-aranha. A minúscula cabeça hu-mana branca no lombo preto e peludo da coisa virou-se para ela. Os olhos azuis, tão incomodamente parecidos com os de Roland, se inflamaram.

Não, não pode fazer isso! Não há de fazer! Pois sou o único filho do Rei!

Não posso?, ela respondeu, nivelando a pistola automática. Oh, docinho, você está simplesmente... tão... ERRADO!

Mas antes que Susannah pudesse puxar o gatilho, houve um tiro atrás dela. Uma bala passou raspando pelo seu pescoço. Susannah reagiu instan-taneamente, virando e se atirando para o lado no corredor. Um dos ho-mens baixos que haviam corrido tinha mudado de opinião e voltado. Su-sannah pôs duas balas em seu peito e o fez lamentar mortalmente a nova decisão.

Ela se virou, ávida por mais (sim, era isto o que ela queria, era para aquilo que tinha sido feita e iria sempre reverenciar Roland, por ter lhe en-sinado isto), mas os outros ou estavam mortos ou já tinham fugido. Com suas muitas pernas, a aranha desceu correndo pelo lado da cama onde nas-cera, deixando para trás o cadáver papier-maché da mãe. Por um instante vi-rou para ela a cabeça branca e infantil.

Vai ser melhor me deixar passar, Negra, ou...

Ela atirou na coisa, mas ao fazê-lo tropeçou na mão estendida do Homem-Falcão. A bala que devia ter matado a abominação seguiu um tan-to torta, só conseguindo arrancar uma das oito pernas cabeludas. Um lí-quido rubro-amarelado, mais semelhante a pus que a sangue, jorrou do lu-gar onde a perna estivera unida ao corpo. A coisa gritou de dor e susto. A parte audível do grito foi percebida com dificuldade por causa do intermi-nável ciclo de barulho da sirene do robô, mas ela acabou conseguindo ou-vi-lo alto e claro dentro da cabeça.

Vou lhe dar o troco por isso! Eu e meu pai, nós vamos lhe dar o troco! Fazê-la implorar pela morte, é o que faremos!

Não vai ter essa oportunidade, docinho, Susannah respondeu, tentando ir-radiar toda a confiança que conseguisse reunir, não querendo que a coisa percebesse no que ela acreditava: que a munição da arma automática de Scowther estava esgotada. Fez pontaria com uma ênfase desnecessária e a aranha fugiu a toda pressa, atirando-se primeiro atrás do robô cuja sirene não parava de tocar e depois se arremessando por uma porta escura.

Tudo bem. Nada maravilhoso, não a melhor solução por qualquer medida, mas ela continuava viva e isso já era muito importante.

E o fato de toda a equipe de sai Sayre estar morta ou correndo dali? Isso também não era mau.

Susannah atirou o revólver de Scowther para o lado e selecionou ou-tro, agora uma Walther PPK. Tirou-a do coldre que Straw usara no peito, depois remexeu em seus bolsos, onde encontrou meia dúzia de pentes adi-cionais de balas. Por um instante pensou em adicionar a espada elétrica do vampiro a seu arsenal, mas acabou deixando-a onde estava. Melhor contar com as ferramentas conhecidas, não com as desconhecidas.

Tentou entrar em contato com Jake e, ao não conseguir ouvir o pró-prio pensamento, virou-se para o robô.

— Ei, garotão! Que tal parar com a porra dessa sirene?

Não fazia a menor idéia se ia funcionar, mas funcionou. O silêncio foi imediato e esplêndido, com a textura sensual de uma seda muito brilhante. O silêncio podia ser útil. Se houvesse um contra-ataque, ela os ouviria che-gar. E a terrível verdade! Esperava um contra-ataque, queria que voltassem e pouco importava se isso fazia sentido ou não. Tinha uma pistola e o san-gue estava quente. Era só o que importava.

(Jake! Jake, está me ouvindo, garoto? Se está, responda a sua irmãzona!)

Nada. Nem mesmo o matraquear de algum tiroteio distante. Ele esta-va fora de...

Então, uma única palavra... era uma palavra?

(wimeweh)

Mais importante, era Jake?

Não tinha certeza, mas achava que sim. E a palavra, de alguma forma, lhe parecia familiar.

Susannah reuniu toda a sua concentração, pretendendo desta vez chamar mais alto, e então uma estranha idéia lhe ocorreu, uma idéia forte demais para ser chamada de intuição. Jake estava tentando ficar em silên-cio. Será que estava... se escondendo? Quem sabe se preparando para dar início a alguma emboscada? A idéia parecia louca, mas talvez o sangue dele também estivesse fervendo. Não sabia, mas achava que, se Jake não havia lhe mandado aquela única e curiosa palavra

(wimeweh)

de propósito, ela escapulira. De um modo ou de outro, talvez por en-quanto fosse melhor deixá-lo agir a seu modo.

— Eu digo, fiquei cego por causa de tiros! — o robô insistia. Sua voz, embora ainda alta, caíra para um nível pelo menos próximo do normal. — Não consigo ver nadica e tenho esta incubadora...

— Largue-a — disse Susannah.

— Mas...

— Largue-a, Chumley.

— Peço perdão, senhora, mas meu nome é Nigel, o Mordomo, e re-almente não posso...

Susannah estivera se arrastando para mais perto dele durante aquele breve diálogo (você não esquece os velhos meios de locomoção só porque desfrutou de um breve período de férias com pernas, foi o que ela estava descobrindo) e leu o nome e o número de série estampados na placa de cromo da barriga do robô.

— Nigel DNK 45932, largue a porra dessa caixa de vidro, muito o-brigada!

O robô (DOMÉSTICO, era o que estava estampado logo abaixo do número de série) soltou a incubadora e choramingou quando ela se espati-fou junto a seus pés de aço.

Susannah continuou a avançar para Nigel e teve de dominar um mo-mento de medo antes de esticar o braço e pegar aquela mão de aço com apenas três dedos. Precisou se lembrar que aquele não era o Andy, de Calla Bryn Sturgis, nem poderia Nigel saber algo de Andy. Não sabia se o robô-mordomo era ou não suficientemente sofisticado para ansiar por vingança (Andy certamente fora), mas antes ele teria de ser capaz de entender o que acontecera.

Torcia para que fosse assim.

— Nigel, me levante do chão.

Houve um guincho de servomecanismos quando o robô se curvou.

— Não, querido, vai ter de chegar um pouquinho à frente. Há vidro quebrado no lugar onde está.

— Perdão, senhora, mas estou cego. Acredito que foi a senhora quem atirou nos meus olhos.

Oh. Isso.

— Bem — disse ela, esperando que o tom de irritação disfarçasse o medo que havia por baixo —, acho que não vou poder lhe conseguir no-vos olhos se não me tirar do chão, certo? Agora depressa, faça isso. Esta-mos perdendo tempo.

Nigel deu um passo à frente, esmagando vidro quebrado com os pés, mas se mantendo firme na direção da voz dela. Susannah controlou o ím-peto de se encolher, mas, quando o robô doméstico pôs os braços nela, o toque foi extremamente gentil. Ele a ergueu.

— Agora me leve até a porta.

— Senhora, peço perdão, mas há muitas portas na enfermaria 16. Um número ainda maior sob o castelo.

Susannah não pôde conter a curiosidade.

— Quantas?

Uma breve pausa.

— Eu diria que 595 estão atualmente em operação. — Ela notou de imediato que cinco mais nove mais cinco davam 19. Davam chassit.

— Se importa de me dar uma carona para aquela que atravessei antes de o tiroteio começar? — Susannah apontou para a extremidade da sala.

— Não, senhora, eu não me importo absolutamente, mas sinto dizer que isso de nada lhe servirá — disse Nigel com sua voz afetada. — Aquela porta, NOVA YORK #7/ FEDIC só conduz numa direção. — Uma pau-sa. Relês clicando no domo de aço de sua cabeça. — Além disso, incendi-ou-se após seu último uso. Foi, podia se dizer, para a clareira no final do caminho.

— Oh, isso é simplesmente maravilhoso! — Susannah gritou, mas per-cebeu que não ficara exatamente surpresa com a notícia que Nigel lhe dava. Lembrava-se do áspero rumor que ouvira a porta fazer pouco antes de Sa-yre empurrá-la brutalmente através dela, lembrava-se de ter pensado, mes-mo em sua aflição, que era uma porta com os dias contados. E sim, a porta morrera. — Simplesmente maravilhoso!

— Sinto que está perturbada, madame.

— Tem toda a razão, estou perturbada! Então a maldita porta só fun-cionava num sentido! E agora está completamente trancada!

— Exceto para a default — Nigel concordou.

— Default? O que está querendo dizer com isso, default?

— Seria a NOVA YORK # 9 / FEDIC — respondeu Nigel. — Em certa época, houve mais de trinta portas de sentido único Nova York a Fe-dic, mas acredito que a # 9 seja a única que sobrou. Todos os comandos pertinentes à NOVA YORK # 7 / FEDIC terão sido passados à # 9.

Chassit, ela pensou... quase implorando que fosse mesmo aquilo. Está falando sobre chassit, eu acho. Ó Deus, espero que sim.

— Está se referindo a coisas como senha, Nigel?

— Ora, sim senhora.

— Leve-me até a porta # 9.

— Como quiser.

Nigel começou a subir rapidamente o corredor entre as centenas de camas vazias, os lençóis esticados e brancos reluzindo sob as brilhantes lâmpadas do teto. A imaginação de Susannah povoou momentaneamente aquela sala com crianças assustadas, gritando, recentemente chegadas de Calla Bryn Sturgis, talvez também das Callas vizinhas. Viu não uma única enfermeira com cabeça de rato, mas batalhões delas, ávidas para prender os capacetes nas cabeças das crianças seqüestradas e dar início ao processo que... que fazia o quê? Que de alguma forma conseguia arruiná-las. Sugava a inteligência de suas cabeças, colocava seus hormônios de crescimento fora de ordem e as destruía para sempre. Susannah supôs que, a princípio, as crianças ficariam encorajadas ouvindo uma voz tão agradável em suas cabeças, uma voz lhes dando as boas-vindas ao maravilhoso mundo da North Central Positronics e do Grupo Sombra. Parariam de chorar, os o-lhos se enchendo de esperança. Talvez pensassem que as enfermeiras na-queles uniformes brancos seriam boazinhas, apesar dos rostos peludos, assustadores, e das garras amarelas. Boazinhas como a voz da simpática senhora.

Então o zumbido teria começado, aumentando rapidamente de vo-lume enquanto ia atingindo o centro de suas cabeças e de novo a sala se enchia de seus gritos de pavor...

— Madame? A senhora está bem?

— Sim. Por que pergunta, Nigel?

— Creio que a senhora tremeu.

— Não importa. Me leve até a porta para Nova York, aquela que ain-da funciona.

 

SEIS

Assim que deixaram a enfermaria, Nigel atravessou rapidamente um corre-dor com ela, depois outro. Chegaram a escadas rolantes que pareciam estar há séculos imobilizadas. Na metade da descida de uma delas, uma bola de aço com pernas piscou seus olhos cor de âmbar para Nigel e gritou: “houp! houp!”, e Nigel respondeu: “houp! houp!”; depois disse a Susannah (no tom confidencial que certa gente tagarela adota quando fala sobre a vida Da-queles que lhes Dão Pena):

— É um contramestre mecânico que se prendeu aqui há mais de oi-tocentos anos... placas fritas, imagino. Pobre alma! Mas ainda tenta fazer o melhor que pode.

Nigel perguntou duas vezes se ela achava que seus olhos poderiam ser substituídos. Da primeira vez, Susannah disse que não sabia. Da segunda — com um pouco de pena dele (agora definitivamente dele, não da coisa) — perguntou o que ele pensava.

— Penso que meus dias de serviço estão quase encerrados — disse Nigel, acrescentando depois uma coisa que fez os braços de Susannah formigarem num arrepio: — Oh, Discórdia!

Os Irmãos Diem estão mortos, ela pensou, recordando (fora um sonho?, uma visão?, um relance da Torre, dela?) alguma coisa de seu período com Mia. Ou fora o tempo que passara em Oxford, Mississippi? Ou as duas coisas? Papa Doc Duvalier está morto. Christa McAuliffe está morta. Stephen King está morto, o popular escritor morrera durante um passeio à tarde, oh, Discórdia, oh, perdido!

Mas quem era Stephen King? E aliás, quem era Christa McAuliffe?

A certa altura passaram por um homem baixo que estivera presente ao nascimento do monstro de Mia. Ele se achava enrascado no chão em-poeirado de um corredor como um camarão humano. Tinha o revólver numa das mãos e um buraco na cabeça. Susannah achou que cometera sui-cídio. Supunha que, de certa forma, fazia sentido. Porque as coisas tinham dado errado, não era? E se o bebê de Mia não achasse o caminho para o lugar que era seu de direito, o Grande Papai Rubro ia ficar furioso. Aliás podia ficar furioso mesmo se Mordred conseguisse achar o caminho de casa.

O outro pai dele. Pois aquele era um mundo de duplos, imagens no espelho, e Susannah agora compreendia mais sobre o que tinha visto do que queria compreender. Mordred também era um duplo, uma criatura tipo o-médico-e-o-monstro com dois egos, e ele — ou ele, a coisa — tinha as faces de dois pais para lembrar.

Depararam-se com alguns outros cadáveres; todos pareciam suicidas aos olhos de Susannah. Ela perguntou se Nigel poderia confirmar (pelos cheiros, ou algo parecido), mas ele respondeu que não.

— Quantos ainda estão por aqui, tem idéia? — ela perguntou. Seu sangue tivera tempo de esfriar um pouco e agora se sentia nervosa.

— Não muitos, senhora. Creio que a maioria seguiu adiante. Muito provavelmente para a Derva.

— O que é a Derva?

Nigel disse que lamentava terrivelmente, mas essa informação era re-servada e só poderia ser acessada com a devida senha. Susannah tentou chassit, mas não deu certo. Nem dezenove ou, sua última tentativa, noventa e nove. Achou que devia se contentar com o fato de saber que a maioria deles haviam sumido.

Nigel virou à esquerda, pegando um novo corredor com portas de ambos os lados. Ela o fez parar pelo tempo suficiente para tentar abrir uma delas, mas do outro lado não havia nada digno de nota. Era um escritório, há muito abandonado a julgar pela grossa camada de pó. Achou interessan-te ver, numa das paredes, um pôster com adolescentes envolvidos em al-guma dança frenética. Mais embaixo, em grandes letras azuis, havia isto:

OLHEM SÓ, GATOS LEGAIS E GATINHAS CHOCANTES!

EU ENTREI NO ROCK NA FESTINHA COM ALAN FREED!

CLEVELAND, OHIO, OUTUBRO 1954

Susannah estava bem certa que o cantor no palco era Richard Penni-man. Freqüentadores de clubes como ela, fãs de folk, tentavam mostrar desprezo por todos que gostavam de um rock mais duro que o de Phil Ochs, mas o coração de Suze sempre cultivara uma fraqueza por Little Ri-chard; ∗ Good Golly /Miss Molly /you sure like to ball . Ela achava que era uma coisa de Detta.

Será que essas pessoas algum dia usaram suas portas para passar férias em inú-meros ondes e quandos de sua escolha? Será que usaram o poder dos Feixes para conver-ter certos andares da Torre em atração turística?

Perguntou a Nigel, que lhe disse ter certeza de que não sabia. Nigel ainda parecia triste por causa da perda dos olhos.

Finalmente chegaram a uma rotunda cheia de ecos e com portas enfi-leiradas por toda a volta de sua enorme circunferência. Os ladrilhos de mármore no chão estavam dispostos num padrão em xadrez preto-e-bran-co, que Susannah lembrava de certos sonhos conturbados onde Mia ali-mentava o chapinha. Acima, bem lá no alto, constelações de estrelas elétri-cas cintilavam num firmamento azul que agora se mostrava cheio de ra-chaduras. Aquele lugar a fez se lembrar do Berço de Lud e ainda mais for-temente da Grande Estação Central. Em algum lugar nas paredes, apare-lhos de ar condicionado ou exaustores funcionavam cheios de ferrugem. O cheiro no ar era estranhamente familiar e, após um breve esforço, Susan-nah o identificou: Purificador Comet. O fabricante patrocinava O Preço Cer-to, que ela às vezes assistia na televisão quando passava uma manhã em ca-sa. “Sou Don Pardo, agora por favor vamos aplaudir nosso apresentador, sr. Bill Cul-len!” Susannah experimentou um momento de vertigem e fechou os olhos.

Bill Cullen está morto. Don Pardo está morto. Martin Luther King está morto, baleado em Memphis. Governa a Discórdia!

O Cristo, essas vozes, será que nunca vão parar?

Ela abriu os olhos e viu portas com as inscrições XANGAI / FE-DIC, BOMBAIM / FEDIC e uma indicando DALLAS (NOVEMBRO 1963) / FEDIC. Em outras havia runas que nada significavam para ela. Por fim Nigel parou na frente de uma que ela reconheceu.

 

* Letra de uma famosa música de Little Richard, roqueiro dos anos 50. (N. da E.)

N O RT H C EN TRAL PO SI TRO N I C S LTD A.

N o va Y o rk / F ed i c

S eg u ran ç a M Áxi m a

 

Susannah já vira tudo isto do outro lado, mas embaixo de C Ó D I G O VERBAL D E AC ESSO REQ U ERI D O , brilhando num vermelho sinistro, havia a seguinte mensagem:

#9 D EFAU LT

 

SETE

O que gostaria de fazer agora, madame? — Nigel perguntou.

— Me coloque no chão, docinho.

Ela teve tempo de se perguntar qual seria sua reação se Nigel se recu-sasse a fazer isso, mas ele nem hesitou. Susannah caminhou-saltitou-se ar-rastou para a porta no seu estilo antigo e encostou as mãos nela. Sentiu embaixo das mãos uma textura que não era nem madeira nem metal. A-chou que estava ouvindo um zumbido muito baixo. Pensou em tentar chas-sit (sua versão do abre-te, sésamo de Ali Babá), mas não valia a pena. Não havia sequer uma maçaneta. Sentido único significava sentido único, ela admitiu; sem brincadeiras.

(JAKE!)

Mandou o pensamento com toda a sua força.

Nenhuma resposta. Nem mesmo aquela fraca

(wimeweh)

palavra sem sentido. Esperou mais um momento, depois se virou e sentou-se com as costas apoiadas na porta. Deixou cair os pentes adicio-nais de balas entre os joelhos abertos e segurou a PPK de Walther com a mão direita. Uma boa arma para se ter com as costas para uma porta fe-chada, pensou; gostava do peso dela. Era uma vez, ela e alguns outros ti-nham sido treinados numa técnica de protesto chamada resistência passiva. Deite-se no chão do refeitório, proteja a barriga mole e as partes íntimas mais moles ainda. Não responda aos que a golpeiam, a insultam, amaldiço-am seus pais. Cante em suas correntes, como o mar. O que seus velhos amigos achariam do que ela tinha se tornado?

— Sabe de uma coisa? — disse Susannah. — Estou cagando pra isso. Resistência passiva também é uma coisa morta.

— Madame?

— Não é nada, Nigel.

— Madame, posso perguntar...

— O que estou fazendo?

— Exatamente, madame.

— Esperando um amigo, Chumley. Só esperando um amigo.

Ela achou que o DNK 45932 iria lembrar a ela que se chamava Nigel, mas não o fez. Em vez disso, perguntou quanto tempo ela ia esperar pelo amigo. Susannah disse que até o inferno congelar. Isto provocou um longo silêncio. Finalmente Nigel perguntou:

— Então posso ir, madame?

— Ir para onde?

— Mudei para infravermelho. É menos satisfatório que a macrovisão em três dimensões, mas será suficiente para que eu chegue às baias de ma-nutenção.

— Há alguém nas baias de manutenção que possa repará-lo? — Su-sannah perguntou com discreta curiosidade. Pressionou o botão que solta-va o pente de balas da coronha da Walther, depois tornou a encaixá-la, des-frutando um certo prazer elementar ao ouvir o CLAQUE! metálico, oleoso, que ela produziu.

— Não sei bem dizer, madame — Nigel respondeu —, embora a probabilidade de haver seja muito baixa, certamente menos de um por cen-to. Se ninguém aparecer, eu, como a senhora, ficarei esperando.

Ela abanou a cabeça, subitamente cansada e muito convencida de que a grande busca havia terminado — lá, contra aquela porta. Mas você ainda não desistiu, não é? Desistir era para os covardes, não para pistoleiros.

— Que você tenha sorte, Nigel... e obrigada pela carona. Longos dias e belas noites. Espero que consiga seus olhos de volta. Lamento ter atirado neles, mas eu me senti num certo aperto e não sabia de que lado você esta-va.

— E felicidades para a senhora, madame.

Susannah abanou a cabeça. Nigel se afastou caminhando pesado e lo-go ela estava sozinha, apoiada na porta para Nova York. Esperando por Jake. Pronta para ouvir Jake.

Tudo que ouvia era o chiado enferrujado, agonizante, da maquinaria nas paredes.