A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 12 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Capítulo VII · REUNIÃO

 

 

UM

Flaherty parou na porta Nova York/Fedic, que fora marcada por vários tiros mas, a não ser isso, continuava inteira, barreira intransitável que a porra do garoto tinha de alguma forma ultrapassado. Lamla permanecia em silêncio ao lado dele, esperando que a raiva de Flaherty se esgotasse. Os outros também esperavam, mantendo o mesmo silêncio prudente.

Finalmente os golpes que Flaherty aplicava na porta começaram a fi-car mais lentos. Ele desferiu o último golpe com as costas da mão e Lamla estremeceu vendo o sangue do humano voar do meio dos nós dos dedos.

— E então? — Flaherty perguntou, vendo sua careta. — E então? O que que você tem a dizer?

Lamla não gostou muito dos círculos brancos em volta dos olhos de Flaherty nem das duras rosas vermelhas em suas bochechas. Menos ainda do modo como a mão de Flaherty subiu para a coronha da Glock automá-tica que balançava sob sua axila.

— Nada — ele disse. — Nada, sai.

— Vá lá, diga o que tem na cabeça, por favor diga! — Flaherty insis-tiu. Tentou sorrir, mas só conseguiu mostrar um horrível esgar... o trejeito malicioso de um louco. Discretamente, com um leve sussurro, o resto do grupo recuou. — Outros terão muita coisa a dizer; por que não começar com você, meu parceiro? Eu o perdi! Seja o primeiro a me criticar, seu tremendo filho-da-puta!

Estou morto, Lamla pensou. Após uma vida de serviço ao Rei, uma expressão imprudente na presença de um homem que precisa de um bode expiatório, e estou morto.

Olhou para o lado, confirmando que nenhum dos outros entraria na conversa para ajudá-lo e disse:

— Flaherty, se de alguma maneira o ofendi, sinto m...

— Ah, você me ofendeu, sem a menor dúvida! — Flaherty gritou, o so-taque de Boston ficando mais pesado à medida que a raiva ascendia. — Tenho certeza de que vou pagar pelo trabalho desta noite, pois é, mas acho que você vai pagar pri...

Houve uma espécie de arfada no ar em volta deles, como se o próprio corredor tivesse inalado fortemente. O cabelo de Flaherty e o pêlo de La-mla se mexeram. O destacamento de homens baixos e vampiros de Fla-herty começou a dar meia-volta. De repente um deles, um vampiro cha-mado Albrecht, gritou e desviou o corpo, permitindo que Flaherty tivesse uma visão dos dois recém-chegados, homens com gotas de chuva ainda frescas e escuras nas calças jeans, botas e camisas. Havia tralha poeirenta aos pés e revólveres pendurados nos quadris. Flaherty viu os cabos de sân-dalo um instante antes de o mais novo sacar, mais rápido que o brotar de uma labareda, e compreendeu de imediato por que Albrecht havia corrido. Só um tipo de homem carregava revólveres parecidos com aqueles.

O jovem deu um único tiro. O cabelo louro de Albrecht pulou como se golpeado por uma mão invisível e logo o vampiro caiu para a frente, murchando dentro de suas roupas.

— Salve, servos do Rei — disse o forasteiro mais velho, falando num tom de conversa descontraída. Flaherty, as mãos ainda sangrando por cau-sa das extravagantes batidas na porta através da qual o pirralho melequento havia desaparecido, parecia não estar entendendo o sentido daquilo. Era o homem de quem tinham sido advertidos, certamente era Roland de Gilead, mas como havia chegado lá, e sem ser visto? Como?

Os frios olhos azuis de Roland os observavam.

— Quem neste lamentável rebanho responde como dinh? Não vai querer nos dar a honra de dar um passo à frente? Não? — Seus olhos ob-servavam o grupo; a mão esquerda abandonou o entorno da arma e viajou para o canto da boca, onde havia florescido um sorrisinho sarcástico. — Não? Que pena. Cês são covardes afinal, lamento perceber. Mataram um padre e caçaram um menino, mas não são capazes de dar as caras para ga-nhar o dia de trabalho. São covardes e filhos de cov...

Flaherty deu um passo à frente. A mão direita, sangrando, encostava na coronha do revólver pendurado sob a axila esquerda num coldre estrei-to.

— Está querendo falar comigo, Roland-de-Steven?

— Então sabe meu nome, verdade?

— Ié! Conheço seu nome por sua face e sua face por sua boca. É a mesma boca de sua mãe, que chupou John Farson com tamanha vontade até que ele goz...

Enquanto falava, Flaherty sacou o revólver, um truque de guerrilheiro que sem dúvida já praticara e usara com bons resultados. Mas embora Fla-herty fosse rápido e o indicador da mão esquerda de Roland ainda estivesse tocando o lado da boca, o pistoleiro superou-o com facilidade. A primeira bala passou entre os lábios do principal perseguidor de Jake, reduzindo os dentes na frente do maxilar superior a fragmentos de osso que Flaherty sugou com sua última respiração. A segunda bala perfurou a testa de Fla-herty entre as sobrancelhas e ele foi atirado contra a porta Nova York/Fedic. Ainda sem disparar, a Glock caiu de sua mão detonando, pela última vez, no piso do corredor.

A maioria dos outros sacaram uma fração de segundo mais tarde. Ed-die matou os seis da frente, tendo tido tempo para recarregar o tambor que usara contra Albrecht. Quando o revólver ficou vazio, ele rolou para trás de seu dinh para recarregar, como tinham lhe ensinado. Roland acertou os próximos cinco, depois rolou suavemente para trás de Eddie, que acertou os que sobraram, menos um.

Lamla fora esperto demais para tentar e assim apenas ele ficara de pé erguendo as mãos vazias, os dedos peludos e as palmas suaves.

— Vai ter misericórdia de mim, pistoleiro, se eu lhe prometer paz?

— De jeito nenhum — disse Roland e empinou o revólver.

— Que a maldição caia sobre seu zeloso ka — disse o taheen. Roland de Gilead acertou-o ali mesmo, e Lamla de Galee caiu morto.

 

DOIS

O pelotão de Flaherty estava empilhado diante da porta como toras de madeira, Lamla na frente, de bruços. Nem um só deles tivera a oportuni-dade de atirar. O corredor forrado de azulejos cheirava à fumaça de revól-ver que pairava numa camada azul. Então os exaustores começaram a fun-cionar, motores cansados, roncando na parede. Os pistoleiros sentiram o ar se agitando e logo passando em seus rostos num movimento de sugar. Eddie recarregou o revólver (agora dele, pelo que lhe tinham dito) e dei-xou-o cair outra vez no coldre. Depois se aproximou dos mortos e empur-rou quatro deles distraidamente para o lado, para poder alcançar a porta.

— Susannah! — chamou. — Suze, você está aí?

Será que algum de nós, exceto nos sonhos, espera voltar de fato a es-tar junto de seus amores mais profundos quando eles se afastam, mesmo que só por alguns minutos, para cumprir uma tarefa das mais banais? Não, de jeito nenhum. Cada vez que saem de nossas vistas, nossos corações os dão como mortos. Tendo recebido tanto, é o nosso raciocínio, como po-deríamos esperar não sermos levados tão baixo quanto Lúcifer, pela tre-menda presunção de nosso amor?

Por isso Eddie não esperava que ela respondesse, mas ela o fez... De outro mundo e através de uma simples espessura de madeira.

— Eddie? Docinho, é você?

A cabeça de Eddie, que segundos atrás parecia perfeitamente normal, ficara de repente pesada demais para segurar. Ele inclinou a cabeça contra a porta. Seus olhos também estavam pesados demais para se manterem abertos e ele os fechou. O peso deve ter sido por causa das lágrimas, pois de repente Eddie estava nadando nelas. Podia senti-las rolando pelas faces, quentes como sangue. E pôde sentir a mão de Roland, tocando nas suas costas.

— Susannah — disse Eddie, com os olhos ainda fechados. Tinha os dedos chapados na porta. — Pode abri-la?

Jake respondeu:

— Não, mas você pode.

— Qual é a senha? — Roland perguntou. Ele estivera alternando o-lhares para a porta com olhares para trás, quase esperando que o inimigo trouxesse reforços (pois seu sangue estava quente), mas o corredor azule-jado continuou vazio. — Qual é a senha, Jake?

Houve uma pausa — breve, mas que pareceu muito longa a Eddie — e então ambos falaram juntos.

— Chassit — eles disseram.

Eddie não tinha forças para dizer aquilo; a garganta estava cheia de-mais de lágrimas. Roland não tinha esse problema. Tirou vários outros corpos da frente da porta (incluindo o de Flaherty, cujo rosto fixava no seu último rosnado) e falou a palavra. Mais uma vez a porta entre os mundos clicava e abria. Foi Eddie quem acabou por escancará-la e logo os quatro estavam de novo frente a frente, Susannah e Jake num mundo, Roland e Eddie em outro — entre eles uma membrana brilhantemente transparente, como mica. Susannah estendeu as mãos, que mergulharam entre a mem-brana. Foi como as mãos de alguém emergindo de uma vasilha d’água que tivesse sido magicamente virada de lado.

Eddie as pegou. Deixou os dedos de Susannah se fecharem nos seus e puxarem-no para Fedic.

 

TRÊS

No momento em que Roland atravessou, Eddie já tinha erguido Susannah e a segurava nos braços. Jake olhou para o pistoleiro. Nenhum deles sorriu. Oi sentou-se aos pés do garoto e sorriu pelos dois.

— Salve, Jake — disse Roland.

— Salve, pai.

— Vai querer me chamar assim?

Jake abanou a cabeça.

— Sim, se eu puder.

— Vou sempre gostar — disse Roland. E então, devagar... como al-guém executando uma ação com a qual não está familiarizado... ele esten-deu os braços. Olhando solenemente para Roland, jamais tirando os olhos do rosto dele, o menino Jake entrou no espaço entre as mãos do matador e esperou que elas se entrelaçassem em suas costas. Tivera sonhos com aqui-lo, sonhos que jamais se atrevera a contar.

Nesse meio-tempo, Susannah ia cobrindo de beijos o rosto de Eddie.

— Quase pegaram Jake — ela estava dizendo. — Sentei-me do meu lado da porta... e estava tão cansada que cochilei. Ele deve ter me chamado três, quatro vezes antes que eu...

Mais tarde Eddie ouviria a história, cada palavra, até o fim. Mais tarde haveria tempo para palestrar. Por agora ele apenas lhe pôs a mão debaixo do seio — o esquerdo, para que pudesse sentir a batida forte, firme do co-ração — e deteve sua fala com a boca.

Jake não dizia nada. Permanecia com a cabeça virada para que o rosto pudesse descansar contra o peito de Roland. Tinha os olhos fechados. Po-dia farejar a chuva, a poeira e o sangue na camisa do pistoleiro. Pensou nos pais, que estavam perdidos; no amigo Benny, que estava morto; no Père, que fora dominado por aqueles de quem, por tanto tempo, havia fugido. O homem que abraçava o traíra uma vez pela Torre, o deixara cair, e Jake não poderia garantir que aquilo não ia acontecer de novo. Certamente havia quilômetros à frente e seriam difíceis. Por ora, no entanto, estava contente. A mente estava tranqüila e o coração magoado em paz. Era suficiente a-braçar e ser abraçado.

Suficiente ficar ali com os olhos fechados, pensando: Meu pai veio me buscar.