A Torre Negra, Vol. 7
Parte Dois
CÉU AZUL
DEVAR-TOI
CAPÍTULO I
O DEVAR-TETE
UM
Os quatro viajantes reunidos (cinco, contando Oi do Mundo Médio) para-ram na frente da cama de Mia, contemplando o que restara da gêmea de Su-sannah, sua dupla, como também se poderia dizer. Sem as roupas murchas dando ao cadáver alguma definição, provavelmente nenhum deles seria capaz de dizer com certeza o que fora aquilo. Mesmo o emaranhado de cabelo sobre a cumbuca quebrada da cabeça de Mia não parecia ter nada de humano; lembrava antes uma bola de poeira excepcionalmente grande.
Roland baixou os olhos para os traços que iam desaparecendo, admi-rado de que tão pouco restasse da mulher cuja obsessão — o chapinha, o chapinha, sempre o chapinha — chegara muito perto de fazer a missão deles afundar para sempre. E fora eles cinco, quem ainda poderia enfrentar o Rei Rubro e seu chanceler diabolicamente esperto? John Cullum, Aaron Deepneau e Moses Carver eram três velhos, um deles com a enfermidade de boca preta, que Eddie chamava can’t, sir, câncer.
Você fez tanto, Roland pensou, olhando embevecido para a face seca, poeirenta. Você fez tanto e teria feito muito mais, ié, e tudo sem uma dúvida ou preo-cupação. Assim o mundo vai terminar, eu acho, antes uma vítima do amor que do ódio. Pois o amor sempre foi a arma mais destrutiva, sem dúvida.
Ele se inclinou, sentindo um cheiro de flores murchas ou velhos tem-peros, e soltou o ar. A coisa que parecia vagamente uma cabeça mesmo agora voou, como paina ou uma bola de dente-de-leão.
— Ela não pretendia prejudicar o universo — disse Susannah, a voz não de todo firme. — Só queria o privilégio de toda mulher: ter um bebê. Alguém para amar e criar.
— É — Roland concordou —, você diz a verdade. E isso é o que torna seu fim tão negro.
— Às vezes penso — disse Eddie — que todos nós estaríamos me-lhor se as pessoas que têm boas intenções se afastassem de mansinho e morressem.
— Esse seria também o nosso fim, Grande Ed — Jake alertou.
Todos pensaram no assunto e, quando se deu conta, Eddie estava se perguntando quantos eles já haviam matado com suas intromissões bem-intencionadas. Não se importava com os maus, mas tinha havido outros — Susan, o amor perdido de Roland, fora somente um desses.
Então Roland deixou os restos poeirentos do cadáver de Mia e se a-proximou de Susannah, que estava sentada numa das camas vizinhas com as mãos entrelaçadas entre as coxas.
— Conte tudo que aconteceu desde que nos deixou na estrada do Leste, após a batalha — disse ele. — Precisamos sa...
— Roland, nunca pretendi deixar vocês. Foi Mia. Ela me dominou. E se eu não tivesse um lugar de socorro... um Dogan... talvez tivesse me do-minado completamente.
Roland abanou a cabeça para mostrar compreensão.
— Mesmo assim conte como chegou a este devar-tete. E Jake, gosta-ria de ouvir o mesmo de você.
— Devar-tete — disse Eddie. A expressão não lhe era de todo des-conhecida. Não tinha algo a ver com Chevin de Chayven, o vago mutante que Roland livrara de sua desgraça em Lovell? Achava que sim. — O que significa?
Roland sacudiu a mão no quarto com todas aquelas camas, cada uma com um capacete e tubos segmentados de ferro, sem dúvida alguma parte de alguma máquina; camas onde só os deuses sabiam quantas crianças das Callas tinham se deitado e sido arruinadas.
— Significa pequena prisão ou câmara de tortura.
— Não me parece tão pequena — disse Jake. Não podia dizer quan-tas camas havia lá, mas calculava algo em torno de trezentas. Pelo menos trezentas.
— Talvez ainda venhamos a nos deparar com uma bem maior antes de concluirmos nossa tarefa. Conte sua história, Susannah, e você também, Jake.
— Daqui vamos para onde? — Eddie perguntou.
— Talvez a história nos diga — Roland respondeu.
DOIS
Roland e Eddie ouviram em silenciosa fascinação Susannah e Jake reconta-rem suas aventuras, de cá para lá e de lá para cá. Roland deteve Susannah pela primeira vez quando ela falava sobre Mathiessen van Wyck, que lhe dera dinheiro e lhe alugara um quarto de hotel. O pistoleiro questionou Eddie sobre a tartaruga no forro da bolsa.
— Eu não sabia que era uma tartaruga. Achei que fosse uma pedra.
— Se me contar de novo esta parte, vou ouvir com prazer — disse Roland.
Então, pensando com cuidado, tentando se lembrar completamente (pois tudo parecia ter acontecido há muito, muito tempo), Eddie relatou como ele e Père Callahan tinham subido até a Gruta da Porta e aberto a caixa de madeira reaproveitada que guardava o Treze Preto. Esperavam que o Treze Preto lhes abrisse a porta, e assim foi, mas primeiro...
— Colocamos a bolsa entre nós — disse Eddie. — A bolsa que dizia SOMENTE STRIKES NAS PISTAS DA MIDTOWN em Nova York e SOMENTE STRIKES NAS PISTAS DO MUNDO MÉDIO no lado de Calla Bryn Sturgis. Estão lembrados?
Todos lembravam.
— E senti alguma coisa no forro da bolsa. Me virei para Callahan e ele disse... — Eddie refletiu um pouco. — Ele disse: “Não é hora de inves-tigar isto.” Ou algo parecido. Concordei. Me lembro de ter pensado que já tínhamos suficientes mistérios nas mãos, era melhor deixar aquele para ou-tro dia. Roland, quem, em nome de Deus, pôs aquela coisa na bolsa, o que você acha?
— E para aproveitar, quem deixou a bolsa no terreno baldio? — Su-sannah perguntou.
— Ou a chave? — Jake fez coro. — Encontrei a chave da casa em Dutch Hill naquele mesmo terreno. Foi a rosa? Será que a rosa, de alguma maneira... não sei... fez tudo isso?
Roland pensou.
— Se eu tivesse que adivinhar — disse ele —, diria que sai King dei-xou esses sinais e siguls.
— O escritor — disse Eddie. Ele pesou a idéia, depois abanou deva-gar a cabeça. Lembrou-se vagamente de um conceito da escola secundária: o deus-da-máquina, como era chamado. Havia também um sofisticado termo latino, mas desse ele não conseguiu lembrar. Provavelmente estaria escrevendo o nome de Mary Lou Kenopensky na carteira enquanto os ou-tros garotos fariam obedientemente suas anotações. O conceito básico era que se um dramaturgo ficasse sem saída poderia fazer descer o deus, que descia do alto numa carruagem cheia de flores e resgatava os personagens que estivessem em apuros. Isto sem dúvida agradava aos espectadores mais religiosos, que acreditavam que Deus — não o efeito-especial que descia de alguma plataforma no alto do palco, que a platéia não podia ver, mas Aquele que habitava no céu — realmente salvava as pessoas que o mereciam. Tais idéias tinham sem a menor dúvida saído de moda na era moderna, mas Eddie achava que os romancistas populares — do tipo que sai King parecia em vias de se tornar — provavelmente ainda usavam a técnica, ain-da que sob um certo disfarce. Como pequenos alçapões. Ou cartazes di-zendo PASSE LIVRE, ESCAPOU DOS PIRATAS. Ou ainda: TEMPES-TADE INESPERADA PROVOCA FALTA DE ENERGIA, EXECU-ÇÃO ADIADA. O deus da máquina (que na realidade era o escritor), tra-balhando pacientemente para manter os personagens a salvo para que sua história não acabasse com um parágrafo nada agradável tipo: “E assim o ka-tet foi varrido da colina de Jericó e os maus venceram, a Discórdia to-mou conta de tudo, pena, talvez tenham mais sorte da próxima vez (que próxima vez?, ah-ah), THE END.”
Pequenas redes de segurança como uma chave. Para não mencionar uma tartaruga de marfim.
— Se ele introduziu essas coisas na história — disse Eddie —, foi lo-go após o encontrarmos em 1977.
— Ié — Roland concordou.
— E não acho que as tenha criado — disse Eddie. — Não realmente. Ele apenas... não sei, ele é só um...
— Um imbustor? — Susannah perguntou, sorrindo.
— Não! — disse Jake, parecendo meio chocado. — Isso não. É um comunicador. Um transmissor. — Estava pensando em seu pai e no traba-lho do pai na rede de TV.
— Bingo — disse Eddie, apontando um dedo para o garoto. Aquela idéia o levou a outra: que se Stephen King não permanecesse vivo o tempo suficiente para escrever aquelas coisas na história, a chave e a tartaruga não estariam ali quando precisassem dela. Jake teria sido comido pelo porteiro na casa em Dutch Hill... sempre presumindo que conseguisse chegar até aquele ponto, o que provavelmente não teria acontecido. E se ele escapasse do monstro da Dutch Hill, teria sido comido pelos Avós (os vampiros Ti-po Um de Callahan) no Dixie Pig.
Susannah pensou em contar sobre a visão que tivera quando Mia es-tava dando início à sua última jornada do Plaza-Park Hotel para o Dixie Pig. Nesta visão ela estava presa na cela de uma cadeia em Oxford, no Mis-sissippi, e havia vozes vindo de uma TV. Chet Huntley, Walter Cronkite, Frank McGee: locutores de noticiários entoando os nomes dos mortos. Alguns desses nomes, como o do presidente Kennedy e os irmãos Diem, ela conhecia. Outros, como Christa McAuliffe, não. Mas um dos nomes fora o de Stephen King, ela estava bem certa disso. O parceiro de Chet Huntley
(boa-noite Chet boa-noite David) ∗
dizia que Stephen King fora atingido e morto por uma minivan Dod-ge, enquanto caminhava perto de casa. De acordo com Brinkley, King ti-nha 52 anos.
Se Susannah tivesse lhes contado isso, muitíssimas coisas podiam ter acontecido de modo diferente, ou talvez nem tivessem ocorrido. Ela estava abrindo a boca para adicionar esse detalhe à conversa (uma lasca de pedra caindo numa encosta de montanha bate numa pedra que bate numa pedra maior que bate então em duas outras e dá início a uma queda de barragem) quando ouviu o barulho de uma porta se abrindo e o estalar de passos se aproximando. Todos se viraram, Jake estendendo a mão para pegar um prato ’Riza, os outros buscando os revólveres.
— Relaxem, companheiros — Susannah murmurou. — Está tudo bem. Conheço este cara. — Ela então se virou para o DNK 45932, DO-MÉSTICO: — Não esperava vê-lo de novo tão cedo. De fato dei como certo que nunca mais ia vê-lo. Qual é a boa, Nigel, meu velho?
Desta vez algo que podia ter sido falado não foi e o deus ex machina que podia ter descido para resgatar um escritor que tinha um encontro com uma minivan Dodge num dia do final da primavera no ano de 1999 ficou onde estava, bem acima dos mortais que, lá embaixo, desempenha-vam seus papéis.
TRÊS
O que os robôs tinham de bom, na opinião de Susannah, era que a maioria deles não guardava ressentimentos. Nigel disse a ela que não havia nin-guém disponível para consertar seu equipamento visual (talvez ele próprio fosse capaz de fazê-lo, mas só se tivesse acesso ao componentes, aos dis-
∗ Chet Huntley e seu parceiro David Brinkley, âncoras de tevê nos anos 60, fechavam assim o noticiário. (N. E.) cos certos e aos tutoriais de ajuda), por isso voltara para lá, confiando no infravermelho, para pegar os restos da incubadeira estraçalhada (e inteira-mente desnecessária). Agradeceu a ela pelo interesse e se apresentou a seus amigos.
— Prazer conhecê-lo, Nige — disse Eddie —, mas você vai querer começar os seus reparos, eu tenho certeza, por isso não vamos deter você. — A voz de Eddie era simpática e o revólver voltara para o coldre, mas a mão continuava pousada na coronha. Na verdade, estava um pouco assus-tado pela semelhança entre Nigel e um certo robô mensageiro da cidade de Calla Bryn Sturgis. Aquele tinha guardado ressentimento.
— Não. Fique — disse Roland. — Talvez tenhamos tarefas para vo-cê, mas por enquanto eu prefiro que fique quieto. Desligado, se não se im-portar. — E também se se importar, o tom sugeria.
— Certamente, sai — Nigel respondeu em seu afetado sotaque britâ-nico. — Pode me reativar com as palavras: Nigel, preciso de você.
— Está ótimo — disse Roland.
Nigel cruzou os braços no peito, braços de aço inox, magrelos (mas sem a menor dúvida potentes), e ficou parado.
— Voltou para pegar o vidro quebrado — disse Eddie maravilhado. — Talvez a Tet Corporation pudesse vendê-los. Cada dona-de-casa da América ia querer dois... um para a casa e um para o quintal.
— Quanto menos estivermos envolvidos com ciência, melhor — Su-sannah disse num tom sombrio. Apesar de um breve cochilo quando esta-va encostada na porta entre Fedic e Nova York, parecia pálida, quase mor-rendo de cansaço. — Não esqueça para onde ela levou este mundo.
Roland acenou para Jake, que contou suas aventuras com Père Calla-han na Nova York de 1999, começando com o táxi que quase atropelara Oi e terminando com o ataque dos dois aos homens baixos e aos vampiros no salão de jantar do Dixie Pig. Não deixou de contar como tinham se li-vrado do Treze Preto guardando-o num guarda-volumes do World Trade Center, onde ficaria seguro até o início de junho de 2002, e contou como tinham encontrado a tartaruga, que Susannah deixara cair, como uma men-sagem numa garrafa, no meio-fio na frente do Dixie Pig.
— Coisa tão valente — disse Susannah, mexendo no cabelo de Jake. Depois se curvou para alisar a cabeça de Oi. O trapalhão esticou o pescoço comprido para maximizar a carícia, os olhos semicerrados e um sorriso no pequeno focinho de raposa. — Tão incrivelmente valente. Obrigado-sai, Jake.
— Gado Ake! — Oi concordou.
— Se não fosse pela tartaruga, teriam pegado nós dois. — A voz de Jake estava firme, mas o rosto tinha ficado pálido. — Mesmo assim, o Père... ele... — Jake enxugou uma lágrima com as costas das mãos e enca-rou Roland. — Você usou a voz dele para me mandar em frente. Ouvi muito bem.
— É, tive de fazer isso — o pistoleiro concordou. — Nada mais do que o Père queria.
— Os vampiros não o pegaram — disse Jake. — Ele usou minha Ru-ger antes que pudessem pegar seu sangue e transformá-lo num deles. Se bem que não iam fazer exatamente isso. Iam dilacerá-lo e comê-lo. Esta-vam furiosos.
Roland assentiu.
— O último recado que ele mandou... acho que disse em voz alta, mas não tenho certeza... foi... — Jake pensou um pouco. Agora estava cho-rando abertamente. — Ele disse: “Que você encontre sua Torre, Roland, consiga penetrar nela e escalá-la até o topo!” Depois... — Jake deixou es-capar um pequeno sopro pelos lábios apertados. — Ele se foi. Como a chama de uma vela. Para outros dos mundos que há.
Calou-se. Por vários momentos, todos calaram e o silêncio parecia al-go premeditado. Então Eddie falou:
— Tudo bem, voltamos a nos reunir. E agora que diabo vamos fazer?