A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo XI · O Ataque Contra Algul Siento
UM
Era um dia mais tarde, não muito antes de a corneta sinalizar a troca mati-nal de turno. Logo a música ia começar, o sol acenderia e a equipe noturna de Sapadores deixaria o estúdio, enquanto a equipe diurna de Sapadores entraria. Tudo corria como devia correr, mas Pimli Prentiss dormira menos de uma hora na noite anterior e mesmo esse breve tempo fora povoado de sonhos amargos e caóticos. Finalmente, por volta das quatro (por volta daquilo que o relógio de sua mesinha-de-cabeceira marcava como quatro, mas quem podia garantir, e o que, aliás, isso importava, assim tão perto do fim), ele se levantara e sentou-se na cadeira do escritório, contemplando o Passeio escuro, deserto àquela hora, salvo por um solitário e inútil robô que tinha decidido patrulhar a área e agora sacudia seus seis braços (com tenazes nas pontas) aleatoriamente para o céu. Os robôs que ainda funcio-navam ficavam cada dia mais idiotas, mas tirar as baterias era perigoso, pois alguns tinham armadilhas e poderiam explodir. Não havia nada a fazer além de suportar suas palhaçadas, mantendo sempre em mente que logo tudo estaria acabado, louvado seja Jesus e o Pai Todo-Poderoso! A certa altura o ex-Paul Prentiss abriu a gaveta da escrivaninha que ficava em cima da abertura para as pernas, tirou de lá o Colt .40 Peacemaker e colocou-o no colo. Era a arma com a qual Humma, o Mestre anterior, havia executa-do Cameron, o estuprador. Pimli não tivera de executar ninguém em sua época e se congratulava com isso, mas pôr a pistola no colo, ver como era pesada, oferecia sempre um certo conforto. Mesmo que não soubesse mui-to bem por que devia ansiar por conforto em plena madrugada, especial-mente quando tudo estava correndo tão bem. O que sabia com certeza era que tinham ocorrido algumas interrupções fora do comum no que Finli e Jenkins, o principal responsável técnico, gostavam de chamar Telemetria Profunda, como se fossem instrumentos instalados no fundo do oceano e não num simples armário do subsolo adjacente à sala comprida, de teto baixo, onde era mantido o resto do equipamento mais útil. Pimli admitiu que o que estava sentindo — vamos falar na lata — era uma sensação de desgraça iminente. Mas no fundo ainda queria se convencer de que se tra-tava apenas do provérbio do avô, na prática — como já estava quase em casa, era hora de se preocupar com os ovos. Por fim entrara no banheiro, fechara a tampa do vaso e se ajoelhara para rezar. E ali, quieto, percebeu que algo tinha se alterado na atmosfera. Não ouvira passos, mas sabia que alguém havia entrado em seu escritório. A lógica sugeria quem havia de ser. Ainda sem abrir os olhos, ainda com as mãos agarradas à tampa abaixada do vaso, ele chamou:
— Finli? Finli de Tego? É você?
— Sim, chefe, sou eu.
O que ele estava fazendo ali antes do toque de corneta? Todos, inclu-sive os Sapadores, sabiam como Finli, o Fuinha, gostava de dormir. Mas paciência. Por ora Pimli estava ocupado com o Senhor (para falar a verda-de, tinha quase cochilado, ali, de joelhos, antes que algum profundo subins-tinto o advertisse de que não estava mais sozinho naquele primeiro andar do prédio da administração). Não se tratava com falta de consideração al-guém tão importante quanto o Senhor Deus dos Exércitos e ele acabou sua prece — “seja feita a Vossa vontade, amém!” — antes de se levantar com um estremecimento. As malditas costas não gostavam nem um pouco da barriga que tinham de ajudar a erguer.
Finli estava parado junto à janela, erguendo o Peacemaker sob a débil luminosidade, virando a arma de um lado para o outro e admirando as de-licadas volutas nas placas de encaixe da coronha.
— Foi esta que colocou Cameron para dormir, não foi? — Finli per-guntou. — Cameron, o estuprador.
Pimli assentiu e advertiu:
— Tome cuidado, filho, está carregada.
— Seis tiros?
— Oito! Está cego? Veja o tamanho do cilindro, pelo amor de Deus!
Finli não se preocupou em examinar e entregou a arma a Pimli.
— Sei puxar o gatilho, tenha certeza, e quando se trata de armas acho que basta.
— Bem, se estiver carregada. O que está fazendo de pé a uma hora dessas, afastando um homem de suas preces matinais?
Finli o encarou.
— E se eu perguntasse por que encontrei você nas suas preces, vestido e penteado em vez de estar de roupão e chinelos, só com um olho aberto? Que resposta ia me dar?
— Eu estou pilhado. A resposta é simples assim. Acho que você também está.
Finli sorriu, encantado.
— Pilhado! E coisa do tipo tremedeira, chilique, Mandraque?
— Mais ou menos... é.
O sorriso de Finli se ampliou, mas Pimli achou que não parecia de todo sincero.
— Gosto disso! Gosto muito mesmo! Pilhado! Pilhadaço!
— Não — disse Pimli. — Estou pilhado, é como se fala.
O sorriso de Finli se extinguiu.
— Também estou pilhado — disse ele. — Tenho tremor e suor. Me sinto meio Mandraque! Ando pilhado e você anda ilhado.
— Novas interrupções na Telemetria Profunda?
Finli deu de ombros, mas abanou a cabeça numa afirmativa. O pro-blema com a Telemetria Profunda era que nenhum deles sabia exatamente o que ela media. Podia ser telepatia ou (Deus os livrasse) telecinese, ou até mesmo tremores mais fortes na teia da realidade — precursores da iminen-te quebra do Feixe do Urso. Impossível dizer. Mas segmentos cada vez mais numerosos de equipamentos antes inertes, quietos, estavam ganhando vida nos últimos quatro meses.
— O que diz o Jenkins? — Pimli perguntou. Quase num gesto invo-luntário, ele deixou a arma calibre 40 escorregar para dentro do coldre pre-so ao ombro, deixando-nos um passo mais perto do que você não vai que-rer ouvir e eu não vou querer contar.
— Jenkins deixa escapar pela boca qualquer coisa que esteja viajando no tapete voador da língua — disse o Tego dando de ombros mal educa-damente. — Se ele nem sabe o que significam os símbolos dos mostra-dores e monitores da Telemetria Profunda, o que interessa a opinião dele?
— Calma — disse Pimli, pondo a mão no ombro do chefe de sua se-gurança. Ficou espantado (e um tanto alarmado) ao sentir a carne debaixo da fina camisa Turnbull & Asser se contrair ligeiramente. Talvez estreme-cer. — Calma, parceiro! Só estava perguntando.
— Não consigo dormir, não consigo ler, não consigo sequer foder — disse Finli. — Tentei todas essas coisas, por Gan! Por favor desça comigo até a Casa Damli. Vamos dar uma olhada nos malditos mostradores. Quem sabe você não tem algumas idéias.
— Sou um administrador, não um técnico — disse Pimli em voz bai-xa, embora já estivesse avançando para a porta. — De qualquer modo, como não tenho nada melhor a fazer...
— Talvez seja apenas o fim se aproximando — disse Finli, parando um instante na soleira da porta. — Como se pudesse falar apenas num caso assim.
— Talvez seja — Pimli disse num tom de serenidade —, e uma cami-nhada no ar da manhã não vai nos fazer mal alg... Ei! Ei, você! Você, aí! Você, Rod! Vire-se quando eu falar com você! Está ouvindo?
O Rod, um sujeito muito magro, usando um macacão velho de brim (muito usado, o traseiro já estava completamente branco), obedeceu. As bochechas eram gorduchas e sardentas, os olhos tinham um atraente tom de azul, mesmo alarmados. Na realidade, ele só não tinha boa aparência por causa do nariz, que faltava quase inteiramente de um lado, dando-lhe a bizarra aparência de alguém com uma narina só. Estava levando uma cesta. Pimli tinha quase certeza de que nunca tinha visto aquele arrastador de pés rondando por aí, mas não tinha certeza absoluta; achava todos os Rods muito parecidos.
Não importava. Identificação era trabalho de Finli e ele agora tomava a dianteira. Puxou uma luva de borracha do cinto e calçou-a enquanto dava uns passos para a frente. O Rod se encolheu contra uma parede, agarrando com mais força a cesta de vime e deixando escapar um peido alto, que só podia ser resultado do nervoso. Pimli teve de morder o interior das boche-chas, com bastante força, para impedir que um sorriso aparecesse na boca.
— Naum, naum, naum! — gritou o chefe de segurança, batendo com força na cara do Rod com a mão enluvada (não valia a pena tocar direta-mente na pele dos Filhos de Roderick; eles eram portadores de muitas en-fermidades). Um filete de cuspe saiu da boca do Rod e correu sangue do buraco no nariz. — Não fale comigo com seu ki’box, sai Haylis! Talvez o buraco que você tem na cabeça não seja melhor, mas pelo menos pode me dirigir uma palavra de respeito. Aliás, é melhor que possa!
— Salve, Finli de Tego! — o Haylis murmurou, esmurrando a própria testa com tanta força que a parte de trás da cabeça bateu na parede... pank! Aí não deu para segurar: Pimli explodiu numa gargalhada, mesmo sem que-rer. Finli não poderia censurá-lo na caminhada até a Casa Damli, pois ele também já estava sorrindo. Embora Pimli duvidasse que o Rod chamado Haylis pudesse encontrar grande consolo num sorriso que deixava à mos-tra um número tão grande de dentes afiados. — Salve, Finli da Vigília, lon-gos dias e belas noites para ti, sai.
— Melhor assim — Finli concedeu. — Não muito, mas um pouco. Que diabo está fazendo aqui antes do toque da Corneta e do Sol? E me diga o que há neste teu balaio... bobão?
Haylis abraçou a cesta ainda com mais força, os olhos cintilando de alarma. O sorriso de Finli desapareceu de imediato.
— Ou você puxa essa tampa e me mostra o que tem aí dentro neste segundo, amiguinho, ou logo vai se abaixar para catar os dentes no tapete! — As palavras saíram num resmungo baixo, uniforme.
Por um momento Pimli achou que o Rod não ia obedecer e sentiu uma pontada de verdadeiro sobressalto. Então, devagar, o sujeito ergueu a tampa da cesta de vime. Era um cesto com alças, conhecido na terra natal de Finli como balaio. O Rod inclinou-o com relutância. Ao mesmo tempo fechou os olhos ulcerados, cheios de remela, e virou a cabeça para o lado, como se antecipando um golpe.
Finli olhou. Por um bom tempo não disse nada, depois deu sua pró-pria gargalhada e convidou Pimli a dar uma olhada. O Mestre soube de imediato o que estava vendo, mas demorou um instante para compreender para que servia. Então sua mente se lembrou do dia em que espremera a espinha e oferecera a Finli o pus com sangue — como se poderia oferecer a um amigo um salgadinho que sobrou ao término de um grande jantar. No fundo da cesta do Rod havia uma pequena pilha de papéis amassados. Na realidade, Kleenex usados.
— Tammy Kelly mandou que pegasse a ralé esta manhã? — Pimli perguntou.
O Rod abanou temerosamente a cabeça.
— Ela disse que podia ficar com o que achasse e quisesse dos latões?
Achou que o Rod ia mentir. Se e quando isso acontecesse, o Mestre mandaria que Finli desse uma surra no sujeito, como uma lição pela falta de sinceridade.
Mas o Rod — Haylis — balançou negativamente a cabeça com ar triste.
— Tudo bem — disse Pimli aliviado. Era realmente cedo demais para espancamentos, gritos e lágrimas. Estragaria o café-da-manhã de qualquer um. — Pode ir e levar o troféu. Mas da próxima vez, amiguinho, peça permissão ou vai sair machucado daqui! Está entendendo?
O Rod sacudiu energicamente a cabeça.
— Vá então, vá! Saia de minha casa e saia de minha vista! Viram-no se afastar com a cesta de lenços de papel melequentos que, sem a menor dúvida, ia comer como bombons de chocolate. Um olhou para o outro, ambos procurando manter uma expressão grave e severa até o pobre e des-figurado filho de ninguém desaparecer. Então explodiram num vendaval de riso. Finli de Tego cambaleou contra a parede com força suficiente para fazer um quadro cair do prego, depois deslizou para o chão, uivando histe-ricamente. Pimli pôs a cabeça nas mãos e riu até sua considerável barriga começar a doer. O riso varreu a tensão com que cada um começara o dia, dando vazão a tudo que se acumulara.
— Um sujeito perigoso, sem dúvida! — disse Finli quando conseguiu de novo falar. Esfregava os olhos lacrimejantes com uma peluda mão-pata.
— O Sabotador Meleca! — Pimli concordou, o rosto muito verme-lho.
Trocaram um olhar e perderam de novo o controle, urrando ondas de riso até despertarem a governanta lá em cima, no terceiro andar. Tammy Kelly permanecera deitada na cama estreita, atenta ao berreiro dos ka-mais lá embaixo, contemplando com ar reprovador a escuridão. Em sua opinião, os homens eram todos iguais, a despeito do tipo de pele que usassem.
Lá fora, o Mestre humo e o chefe de segurança taheen subiram o Pas-seio, de braços dados. O Filho de Roderick, enquanto isso, passava em disparada pelo portão norte, cabeça baixa, coração saltando furiosamente no peito. Fora por um triz! Ié! Se o cabeça-de-fuinha tivesse perguntado: “Haylis, plantaste alguma coisa?”, ele teria mentido como pôde, mas gente como ele não conseguia mentir convincentemente ao Finli de Tego; jamais! Teria sido descoberto, sem dúvida. Mas não fora descoberto, que Deus fos-se louvado! A coisa-bola que o pistoleiro lhe dera estava agora bem guar-dada no quarto dos fundos, zumbindo suavemente. Ele a pusera na cesta de lixo, como o tinham mandado fazer. E cobrira com lenços de papel limpos, tirados de uma caixa que havia em cima da pia, também como ti-nham lhe mandado fazer. Ninguém tinha dito que ele podia aproveitar os lenços sujos da cesta, mas Haylis não fora capaz de resistir ao cheiro denso e delicioso. E tudo acabara dando certo, não era? Claro! Pois em vez de o encherem de um monte de perguntas a que não saberia responder, riram dele e o deixaram ir. Gostaria de poder subir de novo a montanha e brincar com o trapalhão, gostaria muito, mas o velho humo de cabelos brancos chamado Ted tinha mandado que fosse embora, para bem longe, assim que sua missão estivesse cumprida. E se ouvisse algum tiroteio, Haylis devia se esconder até que tudo acabasse. E isso ele faria, sem dúúúvida. E já não ti-nha feito o que Roland de Gilead pedira? A primeira das bolas que zumbi-am estava agora em Feveral, um dos dormitórios, outras duas estavam na Casa Damli, onde os Sapadores trabalhavam e os guardas de folga dormi-am. A última estava na Casa do Mestre... onde ele quase fora apanhado! Haylis não sabia para que serviam as bolas com zumbido. Nem queria sa-ber. Iria embora, possivelmente com sua amiga, Garma, se conseguisse encontrá-la. Se começasse algum tiroteio, os dois se esconderiam num bu-raco profundo e ele ia compartilhar os lenços com ela. Alguns tinham ape-nas traços de creme de barbear, mas outros tinham muco e grandes mele-cas. Naquele momento mesmo podia sentir o aroma atraente. Guardaria o melhor dos lenços, aquele com o sangue gelatinoso, para Garma, e talvez ela o deixasse fuque-fuque. Haylis andou mais depressa, sorrindo ante a perspectiva de fazer fuque-fuque com Garma.
DOIS
Sentada no Cruzador Trike, no esconderijo proporcionado por um dos galpões vazios no norte do complexo, Susannah viu Haylis sair. Reparou que o pobre, desfigurado sai estava sorrindo, portanto as coisas provavel-mente tinham corrido bem. Sem dúvida uma boa notícia. Assim que Haylis saiu de vista, Susannah voltou a prestar atenção em sua ponta do Algul Si-ento.
Podia ver as duas torres de pedra (embora só a metade de cima da que ficava à esquerda; o resto estava oculto pelo contorno de uma encos-ta). Pareciam rodeadas por algum tipo de hera. Cultivada, não selvagem, apostou Susannah, por causa da aridez das terras na região. Havia um sujei-to na torre oeste, sentado no que parecia ser uma poltrona, talvez uma ca-deira de papai. De pé junto ao parapeito da torre leste, havia um taheen com cabeça de castor e um homem baixo (se fosse humo, Susannah pen-sou, seria uma porra tremendamente feia). Os dois conversavam, sem dú-vida à espera do toque de corneta que os dispensaria do turno e os coloca-ria a caminho do café-da-manhã no comissariado. Entre as duas torres de vigia havia a tripla linha de cercas, cada uma correndo razoavelmente longe da outra; assim, mais sentinelas poderiam caminhar nos espaços entre os arames sem medo de levar uma carga letal de eletricidade. Susannah, con-tudo, não viu ali nenhuma sentinela naquela manhã. O pouco folken que andava dentro da primeira cerca caminhava distraído, ninguém exatamente com pressa de chegar a parte alguma. A menos que a cena lânguida que via na sua frente fosse a maior trapaça do século, Roland tinha razão: eram vulneráveis como um bando de leitões rechonchudos ganhando a última refeição antes do abate (venha-venha-comala, costelas a seguir). E embora os pistoleiros não tivessem conseguido nenhum tipo de armamento guiado por controle remoto, tinham descoberto que três dos rifles tipo ficção-científica estavam equipados com certos comandos chamados INTER-VAL. Eddie achava que tais rifles eram armas a laser, embora nada neles sugeria lazer a Susannah. Jake sugerira que pegassem um deles e, longe do Devar-Toi, fizessem uma experiência, mas Roland vetou de imediato a i-déia. Isso acontecera na tarde anterior, quando repassavam o plano mais ou menos pela centésima vez.
— Ele tem razão, garoto — dissera Eddie. — Os paspalhos lá de bai-xo podem saber que estamos disparando essas coisas mesmo sem ver nem ouvir nada. Não sabemos que tipo de vibrações podem ser captadas pela telemetria deles.
Com a cobertura do escuro, Susannah havia colocado os três “lasers” em posição. Quando chegasse a hora, acionaria os comandos interval. Tal-vez as armas funcionassem, fortalecendo assim uma impressão que tentari-am criar; talvez não funcionassem. Susannah faria uma tentativa inicial quando a hora chegasse e era o máximo que poderia fazer.
Com o coração batendo forte, Susannah esperou pela música. Pela corneta. E pelos fogos, se os pomos de ouro que o Rod havia instalado funcionassem como Roland acreditava que iam funcionar.
— O ideal seria que todos esquentassem durante os cinco ou dez mi-nutos de troca de guarda — Roland dissera. — Sendo surpreendidos quando estivessem passeando de um lado para o outro, acenando para os amigos e jogando conversa fora. Bem, não podemos contar com tudo isso, não a sério... Mas temos esperanças de que aconteça!
Sim, podia acontecer tudo aquilo... mas desejo é uma coisa e a merda que dá é outra, teriam de ver qual o pote que enchesse primeiro. Seja como for, caberia a Susannah decidir quando disparar o primeiro tiro. Depois então, tudo aconteceria muito depressa.
Por favor, Deus, me ajude a escolher o momento certo.
Ela esperava, segurando uma das pistolas automáticas Coyote com o cano na cavidade do ombro. Quando a música começou (uma gravação do que ela identificara como “At’s Amore”), Susannah deu um solavanco no assento do Cruzador Trike e sem querer apertou o gatilho. Se a trava de segurança não tivesse sido puxada, ela teria disparado uma rajada de balas contra o teto do depósito, liquidando de imediato o plano que haviam tra-çado. Mas Roland fora bom instrutor e o gatilho não se mexeu sob a pres-são do dedo. Seu coração, no entanto, deu um salto triplo — quase mortal, talvez — e ela sentiu o suor escorrendo pelo corpo, embora a temperatura estivesse fresca de novo.
A música havia começado, o que era bom. Mas a música não bastava. Sentada no selim do triciclo, ela esperava pela corneta.
TRÊS
— Dino Martino — disse Eddie, quase baixo demais para ser ouvido.
— Hummm? — Jake perguntou.
Os três estavam atrás do vagão fechado com os dizeres LINHA SOO depois de terem aberto caminho pelo cemitério de velhas máquinas e trens. As duas portas de correr do vagão de carga estavam abertas e, por ali, os três podiam dar uma espiada na cerca, nas torres de vigia ao sul e no povo-ado de Vila Aprazível, que consistia em uma única rua. O robô armado de seis braços que mais cedo estivera no Passeio achava-se agora lá, subindo e descendo a rua Central, passando por lojas típicas (e fechadas), berrando o que lembrava fórmulas de equações matemáticas com toda a força de seus... pulmões?
— Dino Martino — Eddie repetiu. Oi estava sentado aos pés de Jake, erguendo a cabeça com seus brilhantes olhos rodeados de dourado; Eddie se curvou e deu um breve tapinha na cabeça dele. — Foi Dean Martin quem primeiro gravou esta música?
— Foi? — Jake perguntou num tom de dúvida.
— Claro. Só que costumávamos cantá-la assim: “When-a da moon hits-a yo’ lip like a big piece-a shit, at’s amore...”∗
— Calados, se me fazem o favor — Roland murmurou.
— Por acaso não sente ainda alguma fumacinha no ar... — perguntou Eddie.
Jake e Roland balançaram as cabeças. Roland tinha seu grande ferro com os cabos de sândalo. Jake estava armado com um AR-15, mas trazia mais uma vez a sacola de Orizas pendurada no ombro e não apenas para dar sorte. Se tudo corresse bem, ele e Roland logo estariam usando os pra-tos.
QUATRO
Como a maioria dos homens providos do que se conhece como “domésti-cos”, Pimli Prentiss não tinha noção clara de que seus empregados eram criaturas com objetivos na vida, ambições e sentimentos — em outras pa-
∗ Letra trocada, cantada com sotaque italiano: Quando a lua bate no seu beiço como um grande pedaço de bosta, é o amor. (N. da E.)
lavras, de que eram humos. Desde que houvesse alguém para lhe trazer o copo de uísque da tarde e pôr a costeleta (malpassada) na sua frente às seis e trinta, Pimli nem pensava neles. Certamente teria ficado muito espantado se soubesse que Tammy (a governanta) e Tassa (o caseiro) se detestavam. Afinal um tratava o outro com perfeito — mesmo que frio — respeito quando estavam na sua frente.
Só que naquela manhã Pimli não estava por ali quando “At’s Amore” (interpretado pela Bilhão de Cordas sem Graça) brotou dos alto-falantes ocultos de Algul Siento. O Mestre subia o Passeio, agora na companhia de Jakli, um taheen técnico com cabeça de corvo, assim como do chefe da segurança. Falavam da Telemetria Profunda e Pimli nem pensava na casa que, pela última vez, tinha deixado para trás. Certamente não lhe passou pela cabeça que Tammy Kelly (ainda de penhoar) e Tassa de Sonesh (ainda com a calça curta do pijama de seda) estivessem à beira de uma batalha sobre o estoque da despensa.
— Veja isto! — ela gritou. Estavam na cozinha, profundamente som-bria, um cômodo amplo, onde só três lâmpadas elétricas ainda não haviam queimado. Havia poucas lâmpadas no almoxarifado, e estavam reservadas para o estúdio.
— Ver o quê? — Irritado. Amuado. E será que não havia um resto de batom no dissimulado beiço daquela boquinha de Cupido? Ela achou que sim.
— Não está vendo os espaços vazios nas prateleiras? — ela pergun-tou num tom indignado. — Olhe! Não temos mais latas de feijão com açú-car mascavo...
— Ele não dá a menor importância ao feijão, como você sabe muito bem...
— Também não temos atum e não me digas que ele não gosta disso! Comeria até sair pelas orelhas, como tu sabes!
— Você não pode...
— Nem mais sopa...
— Bolas que não há! — ele gritou. — Veja essa, essa e ess...
— Não a sopa Campbell’s de tomate, a que ele mais gosta — Tammy berrou mais alto, se aproximando mais de Tassa em sua agitação. As brigas nunca tinham chegado à troca de socos, mas Tassa achava que hoje pudes-se ser a primeira vez. E se isso acontecesse, se aquele fosse o dia... oh! Ia adorar socar no olho aquela puta gorda, velha, de língua solta. — Conse-gue ver alguma sopa Campbell’s de tomate, Tassa de onde-quer-que-tenha-sido-criado?
— Por que você mesma não vai buscar uma caixa? — ele perguntou, dando seu próprio passo à frente; agora estavam quase nariz a nariz e, em-bora a mulher fosse grande e o jovem franzino, o criado pessoal do Mestre não mostrava sinais de medo. Tammy piscou e, pela primeira vez desde que Tassa entrara na cozinha arrastando os pés (não querendo mais que uma xícara de café, obrigado), um ar que não era de irritação cobriu seu rosto. Podia ter sido nervosismo; podia ter sido até medo. — Será que está tão fraca dos braços, Tammy de onde-quer-que- você-tenha-sido-criada, que não pode carregar uma caixa de latas de sopa do almoxarifado até aqui?
Ela se aproximou o máximo que pôde, muito ofendida. O queixo (o-leoso, brilhando com algum tipo de creme noturno) tremia de indignação.
— Ir buscar suprimentos de comida sempre foi tarefa do caseiro! O que tu sabes muito bem!
— Mas não existe nenhuma lei dizendo que você não possa ajudar. Ontem estive aparando a grama, como certamente você sabe; quando dei conta, você estava sentada na cozinha com um copo de chá gelado, não é? Confortável como a velha Ellie em sua poltrona preferida.
A cólera tomou conta dela, fazendo-a perder qualquer medo que pu-desse estar sentindo.
— Tenho direito a descansar como qualquer outra pessoa! Eu havia acabado de lavar o chão...
— Pelo que eu vi, foi Dobbie quem fez isso — disse ele. Dobbie era o tipo de robô doméstico conhecido como “duende do lar”, velho mas ainda bastante eficiente.
Tammy se esquentou ainda mais.
— O que você sabe de tarefas domésticas, sua bichinha afetada?
A cor coloriu as bochechas normalmente pálidas de Tassa. Ele teve consciência de que suas mãos tinham se fechado em punhos, mas só por ter sentido as unhas cuidadosamente tratadas se enfiando nas palmas. O-correu-lhe que aquele tipo pequeno de intriga era absolutamente ridículo, conjugava-se com o fim de tudo, com a escuridão que se abria diante deles; eram dois tolos brigando e soltando penas na própria beira do abismo, mas Tassa não se importava. A gorda e velha porca vinha há anos enchendo saco e agora viera o verdadeiro motivo. Ali estava na cara.
— É isso que a incomoda a meu respeito, sai? — ele indagou num tom suave. — O que eu faço do taco e do buraco, é só isso?
Agora havia tochas em vez de rosas flamejando nas bochechas de Tammy Kelly. Ela não pretendera chegar tão longe, mas já que tinha che-gado — que os dois tinham chegado, pois se entravam nas vias de fato a culpa era tanto dele quanto dela —, Tammy não ia recuar. O diabo que ia.
— A bíblia do Mestre diz que se fazer de mulher é um pecado — dis-se virtuosamente a ele. — Eu mesma li isso, foi verdade. Livro dos Leviti-craques, Capítulo Três, Versículo...
— E o que o Leviticraques fala do pecado da gula? — ele indagou. — O que diz sobre uma mulher com tetas do tamanho de almofadas e uma bunda do tamanho de um forno...
— E o que interessa o tamanho da minha bunda, seu boqueteiro?
— Pelo menos eu posso conseguir um homem — ele disse suavemente — e não tenho de ir para a cama com um pano de pó...
— Não se atreva! — ela berrou num tom estridente. — Feche essa boca suja antes que eu mesma a faça se fechar!
— ...que limpe as teias de aranha da minha chela para que eu possa...
— Vou tirar os dentes da tua boca se tu não...
— ...tocar minha velha e cansada língua de porco. — Então algo que poderia ofendê-la ainda mais profundamente lhe ocorreu. — Minha velha, suja e cansada língua de porco!
Ela fechou os próprios punhos, que eram consideravelmente maiores que os dele.
— Pelo menos eu nunca...
— Não faça isso, sai, estou lhe pedindo.
— ...nunca deixei um homem aproximar um nojento e sujo... nojen-to... sujo...
Ela deixou a frase morrer, parecendo confusa, e cheirou o ar. Ele cheirou-o também, e percebeu que o aroma que estava captando não era novo. Ele o estivera sentindo mais ou menos desde o início da briga, mas agora estava mais forte.
Tammy começou:
— Não está sentindo um cheiro de...
— ...fumaça! — ele concluiu e um olhou para o outro com alarme, a briga esquecida uns cinco segundos antes de chegarem aos socos. Os olhos de Tammy se fixaram no pano bordado pendurado ao lado do fogão. Ha-via panos como aquele por todo o Algul Siento, porque a maioria dos pré-dios que constituíam o complexo eram de madeira. De madeira velha. TE-MOS TODOS DE TRABALHAR JUNTOS PARA CRIAR UM AMBI-ENTE LIVRE DO FOGO, estava escrito lá.
Em algum lugar por perto — no corredor de trás — um dos detecto-res e fumaça que ainda funcionavam disparou com um uivo alto e assusta-dor. Tammy correu à despensa para pegar o extintor.
— Pegue o da biblioteca! — ela gritou, e Tassa correu sem uma pala-vra de protesto. O fogo era a única coisa que todos temiam.
CINCO
Gaskie de Tego, o subchefe de segurança, estava parado no vestíbulo da Casa Feveral, o dormitório imediatamente atrás da Casa Damli, conversan-do com James Cagney. Cagney era um can-toi de cabelo ruivo que gostava de camisas estilo caubói e botas que adicionavam sete centímetros ao 1,63 metro que ele possuía. Ambos seguravam pranchetas e discutiam certas alterações que seria preciso fazer durante a próxima semana na segurança de Damli. Seis dos guardas escalados para o segundo turno tinham sido atacados pelo que Gangli, médico do complexo, dizia ser uma enfermidade humo chamada momps. Era uma doença bastante comum em Trovoada — causada pelo ar, como todo mundo sabia, e o refugo venenoso do Povo Antigo —, mas sempre inconveniente. Gangli achava que tinham sorte por jamais terem enfrentado uma verdadeira praga, como a da Morte Negra ou a Tremedeira Quente.
Atrás deles, naquele início de manhã, na quadra cimentada dos fundos da Casa Damli, estava acontecendo um jogo de basquete com vários guar-das taheens e can-toi (que estariam oficialmente de serviço assim que a corneta tocasse) contra uma equipe improvisada de Sapadores. Gaskie viu quando Joey Rastosovich tentou fazer uma cesta bem de longe — zuuupa! Trampas pegou a bola e a levou para fora da quadra, erguendo brevemente o boné para dar uma coçada por baixo. Gaskie não morria de simpatia por Trampas, que cultivava uma afeição totalmente inadequada pelos animais talentosos que eram de sua responsabilidade. Perto deles, sentado na esca-da do dormitório e também vendo o jogo, encontrava-se Ted Brautigan. Como sempre, estava sorvendo uma lata de Nozz-A-La.
— Porra — disse James Cagney, falando no tom de alguém que quer pôr um ponto final numa discussão chata. — Se não se importam de afas-tar um dia ou dois alguns humos da cerca...
— O que Brautigan está fazendo de pé a uma hora dessas? — Gaskie interrompeu. — É difícil ele aparecer antes do meio-dia. Aquele garoto com quem ele anda também é assim. Como se chama?
— Earnshaw? — Brautigan também andava com o meio-idiota Ruiz, mas Ruiz não era um garoto.
Gaskie assentiu.
— É, Earnshaw, sem dúvida. Ele está de serviço hoje de manhã. En-contrei-o ainda há pouco no estúdio.
Cag (como os amigos o chamavam) estava cagando com o fato de Brautigan ter acordado com os pássaros (mesmo que não restassem muitos pássaros, pelo menos em Trovoada); ele só queria acertar aquele negócio da lista de serviço para poder dar uma chegada na Casa Damli e arranjar um prato de ovos mexidos. Um dos Rods tinha encontrado cebolinha fres-ca em algum lugar, pelo menos fora o que ele ouvira, e...
— Não está sentindo um cheiro estranho, Cag? — Gaskie de Tego perguntou de repente.
O can-toi que se imaginava James Cagney quase perguntou se Gaskie havia peidado, mas repensou a réplica cômica. Pois de fato estava sentindo um cheiro estranho. Não era fumaça?
Cag achou que era.
SEIS
Sentado nos frios degraus da Unidade Feveral, Ted respirava o ar malchei-roso e ouvia o abuso verbal dos humos e os taheens na quadra de basquete (não com os can-toi; em geral eles se recusavam a baixar o nível). O cora-ção de Ted estava batendo com força, mas não acelerado. Se existira algum Rubicão a ser cruzado, ele já o atravessara há algum tempo. Talvez na noite em que os homens baixos o trouxeram de volta de Connecticut ou, mais provavelmente, no dia em que abordara Dinky com a idéia de procurar os pistoleiros que Sheemie Ruiz insistia estarem por perto. Agora estava com a corda toda (ao máximo, Dinky teria dito), mas ansioso? Não. Ansiedade, pensou ele, era para pessoas que ainda não estavam decididas.
Quando ouviu, atrás dele, um idiota (Gaskie) perguntando a outro i-diota (Cagney) se não havia algum cheiro estranho, Ted teve certeza de que Haylis dera conta do recado; o jogo estava em marcha. Pôs a mão no bolso e tirou de lá um pedaço de papel. A frase que estava escrita nele podia ter sido tirada de um poema, embora dificilmente shakespeariano: VÃO PA-RA O SUL COM AS MÃOS LEVANTADAS E NÃO SERÃO FERI-DOS.
Olhou fixo para aquilo, preparando-se para transmitir.
Atrás dele, na sala Feveral de recreação, um detector de fumaça dispa-rou com um barulhento zurro.
Aqui vamos nós, aqui vamos nós, ele pensou olhando para o norte, onde esperava que o primeiro atirador — a mulher — estivesse escondido.
SETE
Cumpridos três quartos da caminhada pelo Passeio em direção à Casa Da-mli, Mestre Prentiss parou, com Finli de um lado e Jakli do outro. A corne-ta ainda não tinha tocado, mas havia um zurro chegando por trás. Mal ti-nham começado a se virar na direção do som quando outro zurro come-çou a sair da outra ponta do complexo — a ponta onde ficavam os dormi-tórios.
— Que diabo... — Pimli começou.
...é isso era como ele pretendia terminar mas, antes que conseguisse concluir, Tammy Kelly saiu correndo pela porta da frente do prédio da administração. Logo atrás dela vinha Tassa, o criado doméstico. Ambos sacudiam os braços sobre as cabeças.
— Fogo! — Tammy gritava. — Fogo!
Fogo? Mas é impossível, Pimli pensou. Se o que estou ouvindo em minha casa é um detector de fumaça e se o que estou ouvindo num dos dormitórios é também um detector de fumaça, então certamente...
— Tem de ser um alarme falso — ele disse a Finli. — Esses detecto-res fazem isso quando as baterias estão...
Antes que pudesse concluir esta avaliação otimista, uma janela lateral do prédio da administração foi arrancada por uma explosão. Os cacos de vidro foram seguidos por uma emanação de chamas alaranjadas.
— Deuses! — Jakli gritou na sua voz-zumbido. — É fogo sim!
Pimli olhava de boca aberta. E de repente outro alarme de fumaça-e-fogo disparou, este agora com uma série de berros altos, soluçantes. Bom Deus, doce Jesus, aquele era um dos alarmes da Casa Damli! Certamente nada poderia haver de errado na...
Finli de Tego agarrou o braço dele.
— Chefe — disse num tom bastante calmo —, temos um verdadeiro problema.
Antes que Pimli pudesse responder, a corneta começou a tocar, sina-lizando a troca de turnos. E de repente Pimli percebeu quanto ficariam vulneráveis nos próximos sete minutos. Vulneráveis a todo tipo de coisa.
Ele se recusava a deixar a palavra ataque entrar em sua consciência. Pelo menos ainda não.
OITO
Dinky Earnshaw estivera sentado na poltrona macia pelo que parecia uma eternidade, esperando impaciente que a festa começasse. Geralmente estar no estúdio o deixava animado — diabo, deixava todo mundo animado, era o efeito da “boa mente” —, mas naquele dia sentiu apenas os fios de tensão se enroscarem ainda mais dentro dele, transformando suas tripas numa bola. Percebia, de vez em quando, os taheens e os can-toi olhando das sa-cadas, aproveitando a onda de boa mente, mas não teve de se preocupar com a possibilidade de ser progado por eles; pelo menos disso estava salvo.
Era um alarme de fumaça? Poderia vir de Feveral?
Talvez. Mas também talvez não. Ninguém mais estava olhando em volta.
Espere, ele disse a si mesmo. Ted disse a você que isto seria a parte difícil, não disse? E pelo menos Sheemie está fora do caminho. Sheemie está seguro em seu quarto e a Unidade Corbett salva do fogo. Portanto calma. Relaxe.
Agora era o uivo de um alarme de fumaça. Dinky tinha certeza. Bem... quase certeza.
Um livrinho de palavras cruzadas estava aberto em seu colo. Durante os últimos cinqüenta minutos estivera enchendo uma das fileiras com letras sem sentido, ignorando completamente as definições. Agora, no topo da folha, escrevia em grandes e negras letras de forma: VÃO PARA O SUL COM AS MÃOS LEVANTADAS E NÃO SERÃO FE...
Foi quando um dos alarmes de incêndio nos andares de cima, prova-velmente o que ficava na ala oeste, disparou com um zurro alto, ondulante. Vários Sapadores, tirados brutalmente de um profundo estado de concen-tração, gritaram com grande sobressalto. Dinky também gritou, mas de alívio. Alívio e mais alguma coisa. Júbilo? Sim, muito provavelmente era júbilo. Porque quando o alarme de incêndio começou a zurrar, sentira esta-lar o poderoso rumor de boa mente. A fantástica força combinada dos Sa-padores tinha apagado como um sobrecarregado circuito elétrico. Por um momento, pelo menos, havia cessado o assalto contra o Feixe.
Enquanto isso, ele tinha um trabalho a fazer. Sem mais delongas. Le-vantou-se, deixando o livrinho de palavras cruzadas cair no tapete turco e concentrou a mente nos Sapadores que estavam no salão. Não era difícil; com a ajuda de Ted, andara praticando quase diariamente para aquele mo-mento. E se desse certo? Se os Sapadores captassem, retransmitindo e le-vando a um nível de comando o que Dinky podia apenas sugerir? Pois en-tão a coisa iria crescer. Iria tornar-se a corda principal de um novo gestalt de boa mente.
Pelo menos era essa a esperança.
(É UM INCÊNDIO PESSOAL HÁ FOGO NO PRÉDIO)
Como que sublinhando isto, houve um leve estouro e um retinir, co-mo se alguma coisa tivesse implodido. O primeiro sopro de fumaça vazou pelos painéis de ventilação. Os Sapadores olharam em volta com olhos ar-regalados, atordoados, alguns ficando de pé.
E Dinky enviou:
(NÃO SE PREOCUPEM NÃO ENTREM EM PÂNICO TU-DO ESTÁ SOB CONTROLE OU)
Enviou uma perfeita, bem praticada imagem da escada norte, depois acrescentou a ela os Sapadores. Sapadores subindo pela escada do norte. Sapadores atravessando a cozinha. Crepitar de fogo, cheiro de fumaça, ambos vindo da área onde os guardas dormiam na ala oeste. E quem iria questionar a veracidade daquela irradiação mental? Alguém ia perguntar quem estava projetando aquilo ou por quê? Não naquele momento. Na-quele momento eles estavam apenas assustados. Naquele momento esta-vam querendo que alguém lhes dissesse o que fazer e Dinky Earnshaw era esta pessoa.
(ESCADA NORTE SUBAM PELA ESCADA NORTE SIGAM PELO GRAMADO DOS FUNDOS)
E deu certo. Começaram a tomar aquele caminho. Como ovelhas se-guindo um carneiro ou cavalos seguindo um garanhão. Alguns estavam agarrando duas idéias básicas
(NADA DE PÂNICO NADA DE PÂNICO)
(ESCADA NORTE ESCADA NORTE)
e as retransmitindo. E, para melhorar a coisa, Dinky ouviu a reação vindo também de cima. Partindo dos can-toi e dos taheens que estavam observando pelas sacadas.
Ninguém correu e ninguém entrou em pânico, mas o êxodo pela es-cada norte tinha começado.
NOVE
Susannah estava sentada no selim do SCT, o Supercruzador Trike, que es-tava à janela do galpão onde ela se achava escondida. Já não se preocupava em ser avistada. Os detectores de fumaça — pelo menos três deles — ui-vavam. Um alarme de incêndio urrava ainda mais alto; esse vinha da Casa Damli, tinha absoluta certeza. Como se em resposta, uma série de altas grasnadas de ganso começaram a chegar da ponta do complexo que dava para a Vila Aprazível. A isto se juntava uma multidão de toques de sinos.
Com tanta coisa acontecendo no sul, não era de admirar que a mulher no lado norte do Devar-Toi visse apenas as costas dos três guardas nas torres de vigia cobertas de hera. Três parecia pouco, mas correspondia a cinco por cento do total. Era um começo.
Susannah olhou pelo cano do revólver para o guarda que estava na sua mira e rezou. Deus me conceda uma boa pontaria... uma boa pontaria...
Logo.
Seria logo.
DEZ
Finli agarrou o braço do Mestre. Pimli afastou-o e começou a se dirigir de novo para sua casa, contemplando com ar incrédulo a fumaça que se der-ramava por todas as janelas do lado esquerdo.
— Chefe! — Finli gritou, voltando a lhe apertar o braço. — Chefe, não se esqueça, é com os Sapadores que temos de nos preocupar! Com os Sapadores!
O grito não foi ouvido por ele, mas o chocante trinado do alarme de incêndio da Casa Damli foi. Virando nessa direção, Pimli esbarrou um ins-tante nos pequenos e vidrados olhos de pássaro de Jakli. Neles só havia pânico, o que acabou exercendo sobre Pimli um perverso mas salutar efei-to tranqüilizante. Sirenes e alarmes por todo lado. Um dos ruídos era um grasnar pulsante que jamais ouvira. Não vinha da direção de Vila Aprazí-vel?
— Vamos, chefe! — Finli de Tego quase implorou. — Temos de ga-rantir que fique tudo bem com os Sapadores...
— Fumaça! — Jakli gritou, agitando as asas escuras (e radicalmente inúteis). — Fumaça saindo da Casa Damli, saindo também do Feveral!
Pimli o ignorou. Puxou o Peacemaker do coldre sob o braço, se per-guntando brevemente que premonição fizera com que saísse com ele. Não tinha idéia, mas estava feliz por sentir o peso do revólver, agora na mão. Atrás dele, Tassa estava gritando (Tammy também), mas Pimli ignorava a dupla. Seu coração batia furioso, mas ele estava calmo de novo. Finli tinha razão. Os Sapadores eram a coisa importante naquele momento. Precisa-vam tomar cuidado para não perder um terço de seus parapsíquicos treina-dos por causa de um curto-circuito ou algum ato meio idiota de sabota-gem. Fez sinal para o chefe da segurança e os dois começaram a correr pa-ra a Casa Damli, Jakli grasnando e batendo as asas atrás deles como um refugiado de um desenho animado da Warner Bros. Em algum lugar lá em cima, Gaskie estava berrando. E então Pimli de Nova Jérsei ouviu um som que o congelou até os ossos, um rápido e sucessivo tá-tá-tá. Tiros! Se algum palhaço estava atirando em seus Sapadores, a cabeça do palhaço encerraria o dia na ponta de um mastro, pelos deuses que sim! Que os guardas e não os Sapadores pudessem estar sob ataque ainda não tinha, a essa altura, pas-sado pela sua mente, nem pela mente de Finli, um tanto mais astuto. Havia muita coisa acontecendo depressa demais.
ONZE
Na ponta sul do complexo do Devar, o buzinaço sincopado era quase alto o bastante para arrebentar os tímpanos.
— Cristo! — disse Eddie, e não pôde ouvir sua própria voz.
Nas torres de vigia ao sul, os guardas estavam de costas, olhando para o norte. Eddie ainda não conseguia ver a fumaça. Provavelmente os guar-das a estariam vendo de seus pontos privilegiados de observação.
Roland agarrou o ombro de Jake e apontou para o vagão com os di-zeres LINHA SOO. Jake abanou a cabeça e rastejou por baixo dele com Oi nos calcanhares. Roland ergueu as duas mãos para Eddie — fique onde está! — e depois seguiu em frente. Do outro lado do vagão o pistoleiro e o garoto ficaram de pé lado a lado. Teriam sido claramente visíveis para as sentinelas se a atenção daqueles valorosos soldados não tivesse sido distra-ída pelos detectores de fumaça e pelos alarmes de incêndio no interior do complexo.
De repente toda a fachada do Centro de Hardware de Vila Aprazível desceu por uma fenda que havia no chão. Um carro de bombeiro-robô, coberto de um vermelho bem forte e cromados brilhantes, saiu da garagem até então oculta. Uma fileira de luzes vermelhas pulsava no centro da car-roceria comprida e uma voz amplificada gritava: SAIAM DA FRENTE! ESTA É A EQUIPE BRAVO DE COMBATE AO INCÊNDIO! ABRAM CAMINHO PARA A EQUIPE BRAVO DE COMBATE AO INCÊNDIO!
Não deve haver tiroteio naquela parte do Devar, ainda não. A ponta sul do complexo deve parecer segura aos internos cada vez mais assustados de Algul Siento: não se preocupem, caras, aqui está seu porto seguro na porra da imprevista tempestade de hoje!
O pistoleiro puxou um ’Riza do suprimento cada vez menor de Jake e fez sinal para o garoto pegar outro. Roland apontou para o guarda na torre da direita, depois de novo para Jake. O garoto abanou a cabeça, pôs o bra-ço cruzado no peito e esperou que Roland desse a ordem.
DOZE
Assim que ouvira corneta indicando a mudança de turno, Roland tinha dito a Su-sannah, comece a pegá-los. Cause o maior estrago possível, mas não os deixe verem que estão enfrentando uma pessoa sozinha, pelo amor de seu pai!
Como se ele precisasse lhe dizer isso.
Ela podia ter acertado os guardas das três torres de vigia enquanto a corneta ainda estava tocando, mas algo a fez esperar. Alguns segundos mais tarde, achou ótimo ter agido assim. A porta dos fundos do prédio estilo Queen Anne foi escancarada com tanta violência que as dobradiças de cima se soltaram. Os Sapadores jorraram numa multidão, empurrando em pânico os que iam na frente (são esses os pretensos destruidores do universo, ela pensou, essas ovelhas). Entre eles, havia uma meia dúzia daqueles rapazes esquisitos com cabeças de animais e pelo menos quatro daqueles arrepian-tes humanóides que usavam máscaras.
Susannah pegou primeiro o guarda na torre oeste e voltou a pontaria para a dupla na torre leste antes que a primeira vítima da Batalha de Algul Siento caísse pelo parapeito e tombasse ao chão, os miolos pingando pelos cabelos e pelas faces. A pistola automática Coyote, ajustada em seqüência média, atirava em graves rajadas de três: Tchau! Tchau! Tchau!
O taheen e o homem baixo na torre leste rodaram batendo com as mãos um no outro, como figuras numa dança. O taheen se amarrotou na passarela que contornava o topo da torre de vigia; o homem baixo foi jo-gado contra o parapeito, voou sobre ele com os saltos das botas apontando para o céu e mergulhou de cabeça no chão. Ela ouviu o estalo que o pes-coço deu quando quebrou.
No amontoado de Sapadores, alguns viram a descida do infeliz vigia e gritaram.
— Mãos para cima! — Era Dinky, ela reconheceu a voz. — Mãos pa-ra cima se você é Sapador!
Ninguém questionou a idéia; naquelas circunstâncias, qualquer um que parecesse saber o que estava acontecendo ganhava uma posição de inquestionável autoridade. Alguns Sapadores — mas não todos, ainda não — levantaram as mãos. O que para Susannah não fazia diferença. Ela não precisava de mãos levantadas para reconhecer a diferença entre as ovelhas e os bodes. Uma espécie de claridade assombrada tomara conta de sua vi-são.
Deslocou a chave de controle de fogo de RAJADA para TIRO ÚNI-CO e começou a apanhar os guardas que tinham subido do estúdio com os Sapadores. Taheen... can-toi, pegue esse... uma mulher humo, mas não atire nela; é Sapadora embora não esteja com as mãos para cima... não me pergunte como eu sei, mas sei...
Susannah apertou o gatilho da Coyote e a cabeça do humo que a-companhava a mulher de calça esporte vermelho-tomate explodiu numa névoa de sangue e osso. Os Sapadores gritaram como crianças, vendo aqui-lo com os olhos esbugalhados e as mãos erguidas. E agora Susannah ouvia de novo Dinky, só que desta vez não sua voz física. O que ouvia era sua voz mental, que estava muito mais alta:
(VÃO PARA O SUL COM AS MÃOS LEVANTADAS E NÃO SERÃO FERIDOS)
O que era a deixa para ela sair do esconderijo e começar a se mover. Pegara oito daqueles maus elementos do Rei Rubro, contando os três nas torres — o que sem dúvida não era uma grande façanha, dado o pânico deles —, e não via mais nenhum, ao menos por enquanto.
Susannah mexeu o acelerador de mão e disparou com o SCT para um dos outros galpões abandonados. A arrancada da máquina foi tão vigorosa que ela quase caiu do assento tipo selim de bicicleta. Tentando não rir (e mesmo assim rindo), gritou com toda a força de seus pulmões, no melhor estilo grito-de-abutre de Detta Walker:
— Saiam daqui, seus fodidos de merda! Vão para o sul! Mãos no alto pra gente saber quem não é dos maus! Quem naum tiver a mão no alto vai levar uma bala no coco! Cês sabem que num tô mentindo!
A passagem pela porta do galpão vizinho arranhou a banda de um dos pneus-balão do SCT, mas não o bastante para derrubá-lo. Graças a Deus, pois ela jamais teria tido força para endireitá-lo sozinha. Lá dentro, um dos “lasers” estava montado sobre um tripé de encaixe. Ela empurrou o pino do comando marcado ON e estava se perguntando se seria preciso mexer com a chave INTERVAL quando o cano da arma emitiu um raio ofuscante de luz vermelho-púrpura. O raio voou por cima da tripla fileira de cercas e atingiu o complexo, fazendo um buraco no último andar da Casa Damli. Susannah achou o buraco muito grande, como aqueles abertos por cargas de artilharia à queima-roupa.
Isto é bom, ela pensou. Preciso botar os outros para andar.
Mas se perguntou se teria tempo. Já outros Sapadores iam aceitando a sugestão de Dinky, retransmitindo-a, e tornando-a mais vigorosa no pro-cesso:
(VÃO PARA O SUL! MÃOS LEVANTADAS! NÃO SERÃO FERIDOS!)
Ela deslocou a chave de controle de fogo da Coyote para FULL AU-TO e, para enfatizar o ponto, deu uma varrida no andar superior do dormi-tório mais próximo. Balas zumbiram e ricochetearam. Vidraças foram que-bradas. Os Sapadores gritavam e foram debandando pelo lado da Casa Damli com as mãos erguidas. Susannah viu Ted vindo pelo mesmo lado. Era difícil não vê-lo, porque ele estava indo contra a corrente. Ele e Dinky se abraçaram brevemente, depois levantaram as mãos e se juntaram ao flu-xo de Sapadores que seguia para o sul. Perdido o status de VIPs, os Sapa-dores se transformavam em mais um bando de fugitivos lutando para so-breviver numa terra escura envenenada.
Susannah acertara oito, mas não era o bastante. Ficara com fome, essa fome seca. Seus olhos viam tudo. Pulsavam, doíam em sua cabeça e viam tudo. Ela esperava que outros taheen, homem baixos ou guardas humos chegassem pelo lado da Casa Damli.
Queria mais.
TREZE
Sheemie Ruiz vivia na Unidade Corbett, que por acaso fora o dormitório que Susannah, sem imaginar quem poderia estar lá, tinha varrido com pelo menos uma centena de balas. Se Sheemie estivesse deitado, quase certa-mente teria sido morto. Por sorte estava de joelhos, aos pés da cama, re-zando pela segurança de seus amigos. Não chegou sequer a levantar a ca-beça quando a janela explodiu; só duplicou a força de suas súplicas. Podia ouvir os pensamentos de Dinky
(VÃO PARA O SUL)
martelando na cabeça, depois ouviu outros fluxos de pensamento se adicionando,
(COM AS MÃOS LEVANTADAS)
formando um rio. E de repente a voz de Ted estava lá, não apenas juntando-se às outras, mas tornando-as mais fortes, transformando o que fora um rio
(NÃO SERÃO FERIDOS)
num oceano. Sem perceber, Sheemie alterou sua prece. Nosso Pai Pro-teja meus Companheiros tornou-se Vão para o sul com as mãos levantadas, vocês não serão feridos. Não parou com isto sequer quando os tanques de gás propano atrás da cafeteria da Casa Damli explodiram num rugido repleto de estilha-ços.
QUATORZE
Gangli Tristum (é doutor Gangli ao seu dispor, obrigado) era, sob muitos aspectos, o homem mais temido da Casa Damli. Um can-toi que — per-versamente — assumira um nome taheen em vez de um nome humano e que, com pulso de ferro, comandava a enfermaria no terceiro andar da ala oeste. E ele se deslocava sobre patins.
As coisas ficavam razoavelmente tranqüilas quando Gangli estava em sua sala mexendo em papéis ou numa das rondas (o que geralmente signifi-cava visitar os Sapadores resfriados nos dormitórios), mas quando ele vol-tava à enfermaria, todo mundo — serventes e enfermeiras, assim como pacientes — ficava respeitosamente (e nervosamente) em silêncio. Um re-cém-chegado poderia rir da primeira vez que visse aquele homem-coisa atarracado, de pele escura e de grande papada, que rodava devagar pelo corredor central entre as camas, braços cruzados sobre o estetoscópio que trazia ao peito, as pontas do guarda-pó branco flutuando em seu rastro (um Sapador comentara um dia: “Parece John Irving depois de uma plásti-ca que não deu certo”). Contudo, quem fosse apanhado rindo jamais iria rir de novo. O dr. Gangli tinha uma língua realmente afiada e ninguém debo-charia impunemente de seus patins.
Agora, em vez de deslizar sobre eles, Gangli voava de um lado para o outro entre as camas, as rodas de ferro (que eram de um modelo bastante antigo) roncando nas tábuas corridas.
— Todos os papéis! — ele gritava. — Estão me ouvindo?... Se eu perder uma ficha na porra desta confusão, uma maldita ficha que seja, vou querer os olhos de alguém para o chá da tarde!
Os pacientes já tinham ido, é claro; Gangli os havia tirado das camas e os obrigado a descer as escadas logo ao primeiro zurro do detector de fu-maça ao primeiro bafo de fumaça. Um certo número de serventes — pro-dígios de covardia; Gangli conhecia cada um deles, oh, sim, e faria um rela-tório completo no momento oportuno — tinha fugido com os enfermos, mas cinco haviam permanecido ali, incluindo seu assistente pessoal, Jack London. Gangli estava orgulhoso deles, embora talvez não fosse possível deduzir isto do tom ameaçador de sua voz enquanto ele patinava pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, na fumaça cada vez mais densa.
— Peguem os papéis, estão ouvindo? É melhor obedecerem, por to-dos os deuses que já andaram ou flutuaram por aqui! É melhor!
Um clarão vermelho estourou nas janelas. Algum tipo de arma fez explodir a parede de vidro que separava sua sala da área dos leitos e incen-diou sua poltrona preferida.
Gangli se abaixou e patinou sob o raio laser, sem diminuir sequer a velocidade.
— Porra maldita! — gritou um dos serventes. Era um humo, extraor-dinariamente feio, os olhos se projetando da face pálida. — Que diabo foi is...
— Não importa! — Gangli berrou. — Não importa o que foi, seu paspalho bundão! Pegue os papéis! Caralho, pegue as porras dos papéis!
De algum lugar à frente (do Passeio?) veio o hediondo barulho (ron-cos e sons metálicos) da aproximação de algum veículo de socorro.
— SAIAM DA FRENTE! — Gangli ouviu. — ESTA É A EQUIPE BRAVO DE COMBATE AO FOGO!
Gangli nunca tinha ouvido falar em algo como a Equipe Bravo de Combate ao Fogo, mas havia muita coisa desconhecida naquele lugar. Bem, ele mal sabia usar um terço do equipamento do próprio gabinete ci-rúrgico! Não importa, o que agora tinha importância era...
Antes que ele pudesse concluir seu pensamento, os botijões de gás a-trás da cozinha explodiram. Houve um tremendo ronco — que parecia ter brotado diretamente debaixo dele — e Gangli Tristum foi atirado no ar, as rodas de metal dos patins ainda girando. Os outros também foram atirados e, de repente, o ar enfumaçado estava cheio de papéis voando. Olhando para eles, sabendo que os papéis iam se queimar e que teria sorte se não fosse queimado também, um nítido pensamento ocorreu ao dr. Gangli: o fim tinha chegado cedo.
QUINZE
Roland ouviu o comando telepático
(VÃO PARA O SUL COM AS MÃOS LEVANTADAS, VOCÊS NÃO SERÃO FERIDOS)
começando a bater em sua mente. Estava na hora. Fez sinal para Jake e os Orizas voaram. O estranho assobio não deve ter se destacado na caco-fonia geral, mas um dos guardas sem dúvida percebeu que vinha alguma coisa, pois estava começando a girar quando a ponta afiada do prato atin-giu sua cabeça e jogou-a no chão do complexo, as pestanas se agitando num grande e repentino espanto. O corpo sem cabeça deu dois passos e desmoronou de bruços sobre o parapeito, o sangue brotando do pescoço num jorro brilhante. O outro guarda já fora abatido.
Eddie rolou sem esforço sob o vagão com a inscrição LINHA SOO e saltou para o lado do complexo. Da estação até pouco tempo escondida atrás da fachada da loja de ferramentas, mais dois carros de bombeiros au-tomatizados saíram em disparada. Não tinham rodas, correndo aparente-mente sobre uma camada de ar comprimido. Para os lados da ponta norte do campus (pois assim a mente de Eddie insistia em identificar o Devar-Toi), alguma coisa explodiu. Ótimo. Lindo.
Roland e Jake tiraram novos pratos do suprimento cada vez menor e usaram-nos para cortar as três fileiras de cerca. As cercas de alta voltagem se partiram com um estalo doloroso, com muitos chiados e um breve lam-pejo de fogo azul. Eles entraram. Movendo-se depressa e sem falar, ultra-passaram as torres agora desguarnecidas, Oi sempre seguindo rente aos calcanhares de Jake. Saíram diante de um beco que corria entre a Henry Graham’s Drogaria & Lanchonete e a Livraria de Vila Aprazível.
No final do beco, olharam para os lados e viram que a rua Central es-tava vazia naquele momento, embora o penetrante odor elétrico (cheiro de subestação de metrô, Eddie pensou) dos últimos dois carros de bombeiro permanecesse no ar, tornando ainda pior o fedor geral. A distância, sirenes contra incêndio uivavam e detectores de fumaça urravam. Ali, em Vila A-prazível, Eddie não podia deixar de pensar na rua Central da Disneylândia: nenhum lixo nas sarjetas, nenhuma pichação nos muros, sequer uma poei-rinha nas vidraças das janelas. Era para lá que iam os Sapadores saudosos em busca de um pequeno sopro da América, ele supunha, mas será que ninguém desejou algo melhor, algo mais realista do que aquela fantasia plás-tica de natureza-morta? Talvez ela parecesse mais convidativa com pessoas nas calçadas e nas lojas, mas era difícil acreditar nisso. Pelo menos ele, Ed-die, achava difícil acreditar. Bom, talvez fosse apenas um chauvinismo de garoto de cidade grande.
Na frente deles havia a Vila Aprazível Sapataria, a Gay Paree Modas, o Cabelo Hoje e o Teatro Jóia ( ENTRE AR-REFRIGERADO dizia a placa pendurada pela marquise). Roland ergueu a mão, indicando que Eddie e Jake deviam atravessar para aquele lado da rua. Era ali, se tudo corresse como ele esperava (o que quase nunca acontecia) que montariam sua em-boscada. Atravessaram a rua agachados, Oi sempre correndo atrás dos cal-canhares de Jake. Até aquele momento tudo parecia estar funcionando como por encanto, o que sem dúvida deixava o pistoleiro nervoso.
DEZESSEIS
Qualquer general experiente em batalhas dirá que, mesmo em operações de pequena escala (como era aquela), chega-se sempre a um ponto onde se rompe a coerência, e o fluxo da narrativa, e qualquer noção verdadeira de como as coisas estão acontecendo. Os acontecimentos serão recriados mais tarde pelos historiadores. A necessidade de recriar um mito de coe-rência pode ser uma das razões que justificam a existência da própria histó-ria.
Não importa. Atingimos aquele ponto, aquele onde a Batalha de Al-gul Siento adquiriu uma vida própria. Tudo que posso fazer agora é apon-tar uma coisa aqui e ali e esperar que você consiga extrair sua própria or-dem do caos geral.
DEZESSETE
Trampas, o homem baixo atacado pela praga dos eczemas, o sujeito que inadvertidamente fizera Ted saber tanta coisa, correu para o rio de Sapado-res que fugia da Casa Damli e agarrou um deles, um ex-carpinteiro magri-cela, com boas entradas no cabelo, chamado Birdie McCann.
— Birdie, o que é isso? — Trampas gritou. Estava, como era seu há-bito, usando o boné bloqueador de pensamento, o que significava que não podia compartilhar a pulsão telepática ao seu redor. — O que está aconte-cendo, você sa...
— Tiros! — Birdie gritou, se libertando. — Tiros! Estão ali! — Apon-tava vagamente para trás.
— Quem? Qua...
— Cuidado, seus idiotas, a coisa não está diminuindo! — gritou Gaskie de Tego de algum lugar atrás de Trampas e McCann.
Trampas levantou a cabeça e ficou horrorizado ao ver o principal car-ro de bombeiro chegar roncando, sacolejando muito pelo centro do Pas-seio, as luzes vermelhas piscando, dois robôs-bombeiros de aço inox pen-durados na traseira. Pimli, Finli e Jakli saltaram para o lado. O mesmo fez Tassa, o criado doméstico. Mas Tammy Kelly estava estirada de bruços no gramado, numa poça cada vez maior de sangue. Fora esmagada pela Equi-pe Bravo de Combate ao Fogo, que na realidade há mais de oitocentos a-nos não enfrentava um incêndio. Os dias de lamentação de Tammy haviam chegado ao fim.
E...
— SAIAM DA FRENTE! — clamava o carro de bombeiros. Atrás dele, outros dois carros dobravam espalhafatosamente à esquerda e à direi-ta do prédio da administração. De novo Tassa, o caseiro, mal conseguiu pular a tempo de salvar a pele. — ESTA É A EQUIPE BRAVO DE COM-BATE AO INCÊNDIO! — Uma espécie de alçapão metálico subiu no cen-tro do veículo, se abriu e deixou sair um carrossel de aço que começou a jogar jatos de água de alta pressão em oito direções diferentes. — ABRAM CAMINHO PARA A EQUIPE BRAVO DE COMBATE AO INCÊNDIO!
E...
James Cagney (o taheen que estava parado ao lado de Gaskie no ves-tíbulo do dormitório da Unidade Feveral quando a confusão começou, lembram-se dele?) viu o que estava acontecendo e começou a gritar com os guardas que saíam da ala oeste da Casa Damli, cambaleando, olhos verme-lhos, tossindo, alguns com as calças em fogo, uns poucos (oh, louvado fos-se Gan, Bessa e todos os deuses) com armas.
Cag gritava para que saíssem do caminho e mal conseguia se fazer ouvir no meio da cacofonia. Viu Joey Rastosovich afastando dois guardas com um empurrão e contemplou o garoto Earnshaw colidindo com outro. Alguns dos que fugiam, tossindo e chorando, viram o carro de bombeiros se aproximando e se espalharam, saindo da frente. Logo a Equipe Bravo de Combate ao Incêndio abria caminho por entre os guardas da ala oeste. Sem diminuir a marcha, roncava direto para a Casa Damli, borrifando água em cada ponto cardeal.
E...
— Santo Deus, não — Pimli Prentiss gemeu, tapando os olhos com as mãos. Finli, por outro lado, foi incapaz de desviar o olhar. Viu um ho-mem baixo (Ben Alexander, tinha certeza) mastigado sob as rodas enormes do caminhão de bombeiros. Viu outro sujeito atingido pela grade do pára-choque e esmagado contra a parede da Casa Damli, onde o veículo bateu. Espalhando tábuas e vidro para todo lado, o caminhão rompeu as portas da entrada externa ao porão da casa, escondida debaixo de um canteiro de flores de aspecto enfermiço. Uma roda se enfiou na escada do porão e uma voz de robô começou a retumbar:
— ACIDENTE! NOTIFIQUEM A ESTAÇÃO! ACIDENTE!
Pois é, Sherlock, Finli pensou, contemplando o sangue na grama com uma espécie de mórbido fascínio. Quantos de seus homens e seus valiosos internos, o mau funcionamento daquele maldito carro de incêndio não ti-nha ceifado? Seis? Oito? Uns fodidos 12?
De trás da Casa Damli veio de novo o aterrorizante som tcbau-tchau-tchau, o barulho do disparo de armas automáticas.
Um Sapador gordo chamado Waverly esbarrou em Finli, que conse-guiu agarrá-lo antes de ele ter tempo de se esquivar.
— O que houve? Quem mandou que fossem para o sul?
Finli, ao contrário de Trampas, não estava usando nenhum tipo de boné bloqueador de pensamento e a mensagem
(VÃO PARA O SUL COM AS MÃOS LEVANTADAS, VOCÊS NÃO SERÃO FERIDOS)
estava batendo em sua cabeça com tanta força e tão alto que era qua-se impossível pensar em alguma outra coisa.
Ao lado dele, Pimli — lutando para manter a cabeça no lugar — cap-tou o pensamento que martelava, mas conseguiu formular um seu: É quase certo que é obra do Brautigan. Ele agarrou uma idéia e começou a amplificá-la. Quem mais poderia ser?
E...
Gaskie agarrou primeiro Cag, depois Jakli e mandou que reunissem os guardas que estavam armados e os pusessem para trabalhar. Deviam cercar os Sapadores que se precipitavam para o sul pelo Passeio e pelas ruas que acessavam o Passeio. Eles o fitaram com olhos confusos, arregalados (o-lhos em pânico), e Gaskie quase gritou de fúria. E lá vinham os próximos dois carros de bombeiros com as sirenes ligadas. O carro maior atropelou dois Sapadores, derrubando-os no chão e passando por cima deles. Uma dessas novas vítimas foi Joey Rastosovich. Quando o veículo passou, chi-coteando a grama com seus orifícios de ar comprimido, Tanya caiu de joe-lhos ao lado do marido agonizante e ergueu as mãos para o céu. Estava gritando com toda a força dos pulmões, mas Gaskie mal conseguia ouvi-la. Lágrimas de frustração e medo formigaram nos cantos de seus olhos. Ca-chorros nojentos, ele pensou. Cachorros nojentos e emboscadores!
E...
Ao norte do complexo de Algul, Susannah saía do esconderijo e se movia em direção à tríplice fileira da cerca. Aquilo não estava no plano, mas a necessidade de continuar atirando, de continuar a abatê-los foi mais forte que nunca. Ela simplesmente não pôde se conter, o que Roland teria compreendido. De qualquer modo, os rolos de fumaça que vinham da Ca-sa Damli tinham momentaneamente obscurecido tudo que havia na extre-midade do complexo. Os raios vermelhos dos “lasers” apunhalavam o complexo — acendendo e apagando, acendendo e apagando, como um anúncio de néon. Susannah se lembrou de tomar cuidado para não ficar na frente deles, pois não queria ser cortada da frente até as costas por um bu-raco de cinco centímetros.
Usou balas da Coyote para cortar sua ponta de cerca — fileira exter-na, fileira do meio, fileira interna — e desapareceu na fumaça cada vez mais densa. Recarregava a arma enquanto avançava.
E...
O Sapador chamado Waverly tentava se livrar de Finli. Não, não, nada disso, faça favor, Finli transmitia. Puxou o homem para mais perto (ele fora contador ou coisa parecida em sua vida anterior ao Algul), depois lhe deu dois tapas na cara, fortes o bastante para fazer sua mão doer. Waverly gri-tava de dor e espanto.
— Quem é o fodido por trás disso? — Finli roncava. — QUEM DIABOS ESTÁ FAZENDO ISTO? — Os carros de incêndio que seguiam o carro principal tinham parado na frente da Casa Dimli e estavam mandando rios de água para dentro da fumaça. Finli não sabia se aquilo poderia ajudar, mas provavelmente não faria mal. E pelo menos as malditas coisas não tinham, como a primeira, batido no prédio que deviam salvar.
— Senhor, eu não sei! — Waverly soluçava. O sangue corria de uma das narinas e do canto da boca. — Não sei, mas têm de ser uns cinqüenta, talvez uma centena de demônios! Dinky nos tirou de lá! Deus abençoe Dinky Earnshaw!
Enquanto isso, Gaskie de Tego envolveu com uma boa mãozada o pescoço de James Cagney e o de Jakli com a outra mão. Gaskie teve a im-pressão que o filho-da-puta com cabeça de corvo Jakli estava prestes a sair correndo, mas agora não havia tempo de se preocupar com aquilo. Preci-sava dos dois.
E...
— Chefe! — Finli gritou. — Chefe, pegue Earnshaw, o garotão! Tem algo nisso que cheira mal!
E...
Com o rosto de Cag apertado contra uma de suas faces e o de Jakli contra a outra, o Fuinha (que pensava tão claramente quanto qualquer ou-tro naquela terrível manhã) foi finalmente capaz de se fazer ouvir. Gaskie, enquanto isso, repetia seu comando: dividir os guardas armados e colocá-los com os Sapadores em retirada.
— Que não tentem detê-los, mas que fiquem com eles! E pelo amor de Cristo, que não deixem que sejam eletrocutados! Devem ser mantidos longe da cerca se ultrapassa-rem a rua Centr...
Antes que pudesse concluir a admoestação, uma figura foi lançada da fumaça cada vez mais grossa. Era Gangli, o médico do complexo, o guar-da-pó branco em chamas, os patins ainda nos pés.
E...
Susannah Dean tomou posição no canto traseiro esquerdo da Casa Damli, tossindo. Viu três dos filhos-da-puta — Gaskie, Jakli e Cagney, o que ela não sabia. Antes, no entanto, que pudesse apontar, tudo foi borra-do por um redemoinho de fumaça. Quando a coisa clareou, Jakli e Cag tinham sumido, para reunir os guardas armados. Agindo como cães pasto-res, os guardas deviam ao menos tentar proteger o rebanho em pânico, mesmo se não conseguissem detê-lo de imediato. Gaskie ainda estava lá, e Susannah acertou-o com um único tiro na cabeça.
Pimli não viu aquilo. Ia ficando claro para ele que toda a confusão era superficial. E que muito provavelmente fora proposital. A decisão dos Sa-padores de se afastarem dos atacantes ao norte do Algul fora tomada um pouco rápido demais e era um tanto organizada demais.
Earnshaw não importa, ele pensou, quero falar com Brautigan.
Mas antes que Pimli pudesse se emparelhar com Ted, Tassa agarrou o Mestre num abraço frenético, aterrorizado, balbuciando que o prédio da administração estava em chamas e ele tinha medo, tinha muito medo que todas as roupas do Mestre, seus livros...
Pimli Prentiss colocou-o de lado com um forte golpe na cabeça. O pulsar do pensamento unificado dos Sapadores (agora mente-ruim em vez de boa mente) martelava
(COM AS MÃOS LEVANTADAS VOCÊS NÃO SERÃO)
loucamente em sua cabeça, ameaçando afogar qualquer outra idéia. Aquilo era obra do fodido do Brautigan, ele sabia, e o homem já estava muito à frente... a não ser que...
Pimli olhou para o Peacemaker em sua mão, pensou, mas tornou a colocá-lo no coldre sob o braço esquerdo. Queria o fodido do Brautigan vivo. O fodido do Brautigan tinha algumas explicações a dar. Para não mencionar um trabalho de sapa a ser concluído.
Tchau-tchau-tchau. Balas zumbiam por toda parte à sua volta. Corriam guardas humos, taheens e can-toi por toda parte à sua volta. E, Cristo, só alguns estavam armados, em geral humos escalados para o patrulhamento das cercas. Os que tomavam conta dos Sapadores na realidade não precisa-vam de armas, pois de um modo geral os Sapadores eram mansos como periquitos e a idéia de um ataque vindo de fora parecera ridícula até...
Até aquilo ter acontecido, ele pensou avistando Trampas.
— Trampas! — berrou. — Trampas! Ei, caubói! Pegue Earnshaw e traga-o aqui! Pegue Earnshaw!
Ali no meio do Passeio o barulho era um pouco menor e Trampas ouviu sai Prentiss com bastante clareza. Ele correu atrás de Dinky e agar-rou o rapaz pelo braço.
E...
Daneeka Rostov, de 11 anos, saiu dos rolos de fumaça que já obscu-reciam inteiramente a parte de baixo da Casa Damli puxando dois carri-nhos vermelhos. O rosto de Daneeka estava vermelho e inchado; lágrimas corriam de seus olhos; estava quase inteiramente vergada com o esforço de continuar puxando Baj, que ia sentado no carrinho de marca Radio Flyer, e Sej, que ia no outro. Ambos tinham cabeças enormes e os olhinhos esper-tos dos sábios hidrocéfalos, mas Sej era equipado com agitados tocos de braços enquanto Baj não. Ambos estavam agora espumando pela boca e fazendo ásperos sons de engasgo.
— Me ajudem! — Dani conseguiu dizer, tossindo mais do que nunca. — Alguém me ajude antes que eles sufoquem!
Dinky a viu e começou a andar em sua direção. Trampas o segurou, embora sem dúvida com certa hesitação.
— Não, Dink — disse ele. O tom era de desculpas, mas firme. — Deixe outra pessoa cuidar disso. O patrão quer falar com...
De repente Brautigan estava novamente lá, rosto pálido, a boca uma fina linha repuxada embaixo da cara.
— Solte-o, Trampas. Gosto de você, filho, mas hoje você não vai querer entrar em nosso negócio.
— Ted? O que...
Dink começou de novo a avançar para Dani. Trampas puxou-o de novo. Na frente deles, Baj desmaiou e caiu de cabeça do carrinho. Embora tivesse aterrissado no gramado macio, a cabeça fez um terrível e nauseante som de rachar e Dani Rostov gritou.
Dinky se atirou para ela. Trampas puxou-o de volta mais uma vez, agora com força. E pegou o Colt .38 Woodsman que usava no coldre em-baixo do ombro.
Não havia mais tempo de argumentar. Ted Brautigan não atirava a lança mental desde que a usara contra o batedor de carteiras em Akron, nos idos de 1935; não a usara sequer quando os homens baixos de novo o aprisionaram em Bridgeport, Connecticut, 1960, embora a tentação tivesse sido muito forte. Prometera a si mesmo que jamais tornaria a usá-la e cer-tamente não queria atirá-la contra
(sorria quando disser isso)
Trampas, que sempre o tratara de modo correto. Mas tinha de chegar à extremidade sul do complexo antes que a ordem fosse restaurada e pre-tendia ter Dinky consigo quando chegasse lá.
Além disso, estava furioso. Pobrezinho do Baj, que tinha sempre um sorriso para cada um!
Ele se concentrou e sentiu uma dor nauseante passar pelo interior de sua cabeça. A lança mental voou. Trampas largou Dinky e dispensou a Ted um olhar de atordoada reprovação, um olhar de que Ted ia se lembrar para o resto da vida. Então Trampas agarrou os lados da cabeça como um ho-mem com a pior enxaqueca do universo e caiu na grama com a garganta inchada, a língua saindo da boca.
— Vamos! — Ted gritou, agarrando o braço de Dinky. Naquele mo-mento Prentiss estava olhando para o lado, graças a Deus, distraído por outra explosão.
— Mas Dani... e Sej!
— Ela pode cuidar de Sej! — Mandando o resto mentalmente:
(agora que não precisa mais puxar também o Baj)
Ted e Dinky fugiram enquanto atrás deles Pimli Prentiss se virava, o-lhava incrédulo para Trampas e berrava para eles pararem — pararem em nome do Rei Rubro.
Finli de Tego sacou o revólver do coldre, mas antes que pudesse ati-rar Daneeka Rostov estava sobre ele, mordendo e arranhando. Daneeka não pesava quase nada, mas, por um momento, Finli ficou tão espantado de ser atacado por aquele flanco totalmente improvável que ela quase con-seguiu derrubá-lo. Finli enroscou um forte braço peludo em volta do pes-coço dela e atirou-a para o lado, mas então Ted e Dinky já estavam quase fora de seu alcance. Avançando pelo lado esquerdo do prédio da adminis-tração, começavam a desaparecer na fumaça.
Finli, então, firmou a pistola com ambas as mãos, inspirou, prendeu o ar e disparou um único tiro. O sangue jorrou do braço de Ted; Finli ouviu-o gritar e viu-o dar uma guinada. Então Dinky, o cachorrinho, agarrou o velho vira-lata e os dois dispararam pelo canto da casa.
— Vou pegar vocês! — Finli berrava atrás deles. — Isso é que vou, e quando pegar, vocês vão lamentar o dia em que nasceram! — Mas a amea-ça não deixou de parecer tremendamente vã.
Agora toda a população do Algul Siento (Sapadores, taheens, guardas humos, can-toi com pontos muito vermelhos brilhando nas testas, como um terceiro olho) estava em movimento de maré, fluindo para o sul. E Fin-li viu uma coisa de que realmente não gostou nada: os Sapadores e apenas os Sapadores estavam se deslocando com os braços erguidos. Se houvesse mais atiradores por ali, eles não teriam a menor dificuldade em saber quem deviam alvejar, não era?
E...
Em seu quarto do terceiro andar da Unidade Corbett, ainda de joe-lhos aos pés da cama coberta de cacos de vidro, tossindo por causa da fu-maça que entrava pela janela quebrada, Sheemie Ruiz teve a revelação... ou sua imaginação falou para ele (a escolha é sua). Seja como for, ele ficou bruscamente de pé. Seus olhos, normalmente amistosos, mas sempre con-fundidos por um mundo que ele não conseguia entender inteiramente, es-tavam límpidos e cheios de alegria.
— O FEIXE DIZ OBRIGADO! — ele gritou para o aposento vazio.
Olhou em volta, agitado como Ebenezer Scrooge descobrindo que os fantasmas fizeram tudo numa única noite, e correu para a porta com os chinelos pisando no vidro quebrado. Um pontudo caco de vidro espetou seu pé (carregando a morte naquela ponta, se ele ao menos soubesse disso, uma pena, digam Discórdia!), mas a alegria era tanta que ele nem mesmo sentiu. Arremessou-se para o corredor e depois escadas abaixo.
Chegando ao segundo andar, Sheemie se deparou com uma Sapadora idosa chamada Belle O’Rourke. Agarrou-a, sacudiu-a.
— O FEIXE DIZ OBRIGADO! — ele gritou ante seu rosto atordoa-do, perplexo. — O FEIXE DIZ QUE TUDO AINDA PODE FICAR BEM! NÃO É TARDE DEMAIS! BEM NA HORA!
Corria para espalhar a alegre notícia (alegre para ele, pelo menos) e...
Na rua Central, Roland olhou primeiro para Eddie Dean, depois para Jake Chambers.
— Estão chegando e é aqui que temos de pegá-los. Esperem pelo meu comando, depois fiquem firmes, sejam fiéis.
DEZOITO
Quem apareceu primeiro foram três Sapadores. Corriam muito, os braços levantados. Cruzaram assim a rua Central, sem ver Eddie, que estava na bilheteria do Jóia (ele havia quebrado o vidro em três lados com o cabo de sândalo do revólver que um dia fora de Roland), nem Jake (sentado dentro de um sedã Ford sem motor, estacionado na frente da confeitaria, a Apra-zível Bake Shoppe), nem o próprio Roland (atrás de um manequim na vi-trine da Gay Paree Modas).
Atingiram a outra calçada e olharam ao redor, desnorteados.
Vão, Roland pensou na direção deles. Vão, saiam daqui, peguem o beco, fujam enquanto podem.
— Vamos! — um dos Sapadores gritou e todos desceram correndo a aléia entre a drogaria e a livraria. Apareceu um guarda, depois mais dois, e daí o primeiro dos guardas, um humo com uma pistola erguida ao lado da cara assustada, olhos arregalados. Roland colocou-o na mira... mas conteve o tiro.
Mais do pessoal do Devar começou a aparecer entre os prédios, cor-rendo para a rua Central. Agora espalhavam-se muito. Como Roland tinha esperado e desejado que acontecesse, tentavam organizar o pessoal que fugia. Tentavam impedir que a retirada se transformasse numa debandada caótica.
— Formem duas fileiras! — um taheen com cabeça de corvo gritava. Uma voz esbaforida, cheia de zumbidos. — Formem duas fileiras e façam os Sapadores seguir pelo meio, pelo amor de seus pais!
Outro taheen, de cabeça ruiva e com a ponta da camisa social para fo-ra da calça, gritou:
— O que me diz da cerca, Jakli? E se eles encostarem na cerca?
— Não podemos fazer nada, Cag, apenas...
Berrando, um Sapador tentou ultrapassar o corvo antes que ele aca-basse de falar, e o corvo — Jakli — deu-lhe um empurrão tão forte que o infeliz acabou estatelado no meio da rua.
— Fiquem juntos, seus vermes! — ele gritou. — Corram se quiserem, mas procurem correr dentro de alguma porra de ordem! — Como se pu-desse haver alguma ordem numa debandada, Roland pensou (e não sem satisfação). Então o que se chamava Jakli gritou para o cabeça ruiva:
— Deixe um ou dois se fritarem... Os outros vão ver e parar!
Só complicaria as coisas se Eddie ou Jake começassem a atirar naque-le momento, e nenhum deles o fez. De seus esconderijos, os três pistolei-ros assistiram enquanto uma espécie de ordem brotava do caos. Novos guardas apareceram. Jakli e o cabeça ruiva conseguiram que os guardas formassem duas fileiras. No meio, um corredor levando de um lado a ou-tro da rua. Alguns Sapadores avançaram antes que o corredor estivesse de todo formado, mas poucos.
Um novo taheen apareceu, este com uma cabeça de fuinha, e substi-tuiu Jakli no comando. Golpeou nas costas alguns Sapadores que corriam, na realidade para apressá-los.
Do sul da rua Central veio um grito atordoado:
— A cerca está cortada!
E então outro:
— Acho que os guardas estão mortos!
Este último grito foi seguido por um uivo de horror e Roland soube, tão certamente quanto se tivesse visto, que um infortunado Sapador acaba-ra de se deparar com a cabeça decepada de algum vigia caída na grama.
O murmúrio aterrado que veio no rastro disto ainda não tinha cessa-do quando Dinky Earnshaw e Ted Brautigan apareceram entre a confeita-ria e a sapataria, tão perto do esconderijo de Jake que ele podia ter se incli-nado pela janela do seu carro e encostado a mão neles. Ted havia sido feri-do. A manga direita da camisa estava vermelha do cotovelo para baixo, mas Ted continuava andando — com uma pequena ajuda de Dinky, que mantinha um braço em volta dele. Ted se virou quando atravessaram o corredor polonês formado pelos guardas e, por um momento, olhou dire-tamente para o esconderijo de Roland. Depois ele e Earnshaw entraram no beco e desapareceram.
Isso os deixava a salvo, ao menos por ora, o que era ótimo. Mas onde estava o chefão? Onde estava Prentiss, o encarregado daquele lugar detes-tável? Roland queria ele e o sai taheen com cabeça de fuinha — cortem a cabeça da cobra e ela morre! Mas não podiam se dar ao luxo de esperar muito tempo. O rio de Sapadores em fuga estava secando. O pistoleiro achava que sai Fuinha não ia esperar pelo último Sapador extraviado; bem antes disso ia querer impedir que os preciosos internos fugissem pela cerca cortada. Sabia, sem dúvida, que não podiam ir longe, dado o terreno estéril e escuro que se estendia por todo lado, mas também sabia que, se houvesse atacantes na extremidade norte do complexo, talvez houvesse turmas de resgate a postos no...
E lá estava ele, graças aos deuses e a Gan — sai Pimli Prentiss, esba-forido, cambaleante e nitidamente em estado de choque. Um coldre com uma arma balançava de um lado para o outro sob o braço carnudo. O san-gue escorria de uma narina e do canto de um dos olhos, como se toda a-quela excitação tivesse feito alguma coisa se romper dentro de sua cabeça. Ondulando ligeiramente de um lado para o outro, ele se aproximou do Fu-inha (foi este andar de bêbado que Roland, mais tarde, acabaria amarga-mente responsabilizando pelo resultado final do trabalho daquela manhã), provavelmente pretendendo assumir o comando da operação. O curto mas fervoroso abraço que um deu no outro, ambos simultaneamente dando e recebendo consolo, disse a Roland tudo que ele precisava saber sobre o caráter íntimo de seu relacionamento.
Ele apontou o revólver para a nuca de Prentiss, puxou o gatilho e viu o sangue e o cabelo voarem. As mãos do Mestre Prentiss se ergueram, de-dos abertos para o céu escuro, e ele desabou quase aos pés do atônito Fui-nha.
Como se em resposta a isto, o sol atômico apareceu, inundando o mundo de luz.
— Salve, pistoleiros, matem todos eles! — Roland gritou, abanando o gati-lho do revólver, aquela velha máquina assassina, com a palma da mão direi-ta. Quatro tinham sucumbido a seu fogo antes que os guardas, alinhados como pombos de barro numa galeria de tiro, tivessem tempo de registrar o barulho dos disparos, muito menos de reagir. — Por Gilead, por Nova York, pelo Feixe, por seus pais! Ouçam-me, ouçam-me! Não deixem um único deles de pé! MATEM TODOS!
E assim eles fizeram: o pistoleiro de Gilead, o antigo viciado em dro-gas do Brooklyn, a criança solitária que antigamente a sra. Greta Shaw chamava de ‘Bama. Vindo de trás deles, do sul, avançando no SCT por entre rolos cada vez mais densos de fumaça (afastando-se uma única vez de um curso retilíneo para contornar o corpo estendido de outra governan-ta, esta chamada Tammv), havia uma quarta pessoa: ela que fora um dia instruída nas práticas do protesto não-violento por jovens zelosos do N-duplo-A-C-P e que tinha agora abraçado, de forma plena e sem remorso, o caminho da arma. Susannah apanhou três guardas humos retardatários e um taheen que fugia. O taheen levava um rifle num ombro mas nem ten-tou usá-lo. Apenas erguia os braços lisos, cobertos de pêlos (a cabeça lem-brava vagamente um urso), e gritava por clemência e perdão. Considerando tudo que acontecera ali, inclusive como o purê dos cérebros de crianças tinha sido usado para alimentar os quebradores dos feixes e permitir que continuassem operando a plena eficiência, Susannah não concedeu ne-nhum dos dois, embora nada do que ela de fato concedeu tenha lhe causa-do sofrimento ou lhe dado tempo para temer seu destino.
Quando ela atingiu o trecho do beco que ficava entre o cinema e o sa-lão de cabeleireiro, o tiroteio havia parado. Finli e Jakli agonizavam; James Cagney estava morto com sua máscara de humo meio repuxada na repulsi-va cabeça de rato; ao lado desses havia mais umas três dúzias de mortos. Nas sarjetas de Vila Aprazível, antes imaculadas, corria o sangue deles.
Sem a menor dúvida havia outros guardas no complexo, mas a essa altura já estariam escondidos, acreditando firmemente que tinham sido ata-cados por no mínimo uns cem lutadores veteranos piratas terrestres, vin-dos só Deus sabia de onde. A maior parte dos Sapadores de Algul Siento estavam na área gramada entre os fundos da rua Central e as torres de vigia sul, acotovelando-se como os cordeirinhos que eram. Ted, desatento ao braço que sangrava, já tinha começado a fazer a chamada.
Então todo o contingente norte do exército atacante surgiu no início do beco, ao lado do cinema: uma senhora negra com as pernas cortadas montada num triciclo a motor. Guiava o veículo com uma das mãos e, com a outra, segurava a pistola automática Coyote apoiada no guidom. Viu os corpos empilhados na rua e abanou a cabeça com uma satisfação sem alegria.
Eddie saiu da bilheteria para abraçá-la.
— Ei, docinho, ei — ela murmurou, enchendo de beijos seu pescoço de um modo que o fez estremecer. De repente Jake também estava lá, pá-lido por causa da matança, mas controlado. Ela pôs o braço em volta dos ombros do garoto e puxou-o para si. Os olhos de Susannah encontraram Roland, parado na calçada atrás do três que ele havia trazido ao Mundo Médio. Com o revólver pendendo ao lado da coxa esquerda, será que sen-tia a expressão saudosa no rosto? Será que percebia a existência dela? Ela achava que não, e sentia pena dele.
— Venha aqui, Gilead — disse ela. — Isto é um abraço grupal e você faz parte do grupo.
Por um momento achou que Roland não estava entendendo o convi-te ou fingia não entender. Então ele se aproximou, fazendo uma pausa pa-ra colocar o revólver no coldre e pegar Oi no colo. Passou entre Jake e Eddie. Oi pulou para o colo de Susannah como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Então o pistoleiro pôs um braço em volta da cintura de Eddie e o outro em volta da cintura de Jake. Susannah se esticou (o trapa-lhão lutando comicamente para se manter naquele colo que de repente se inclinava), pôs os braços em volta do pescoço de Roland e depositou um beijo sincero na testa queimada de sol. Jake e Eddie riram. Roland juntou-se a eles, sorrindo como sorrimos quando somos surpreendidos pela felici-dade.
Gostaria que os visse assim agora; gostaria que os visse muito bem. Está vendo? Estão agrupados em volta do Cruzador Trike de Suzie, abra-çando-se logo depois da vitória. Queria que os visse agora não porque te-nham vencido uma grande batalha — sabem que não foi bem assim, cada um deles sabe —, mas porque são ka-tet pela última vez. A história de sua irmandade termina aqui, naquela rua de faz-de-conta, debaixo daquele sol artificial; o resto da história será curta e brutal comparada com o que se passou antes. Porque quando o ka-tet quebra, o fim sempre vem depressa.
É pena.
DEZENOVE
Pimli Prentiss viu através de olhos agonizantes, encrostados de sangue, quando o mais jovem dos dois homens se apartou do abraço do grupo e se aproximou de Finli de Tego. O rapaz percebeu que Finli ainda estava se mexendo e se ajoelhou ao lado dele. A mulher, agora desmontada do trici-clo motorizado, e o garoto começaram a verificar as demais vítimas, despa-chando de vez as poucas que ainda viviam. Mesmo deitado ali, com uma bala na cabeça, Pimli encarou aquilo antes como misericórdia que cruelda-de. E quando o trabalho estivesse concluído, Pimli achou que iriam procu-rar o resto de seus amigos covardes, sorrateiros. Dariam uma busca nos prédios do Algul que ainda não estivessem pegando fogo à procura dos guardas que tivessem sobrado, sem dúvida alvejando os que descobrissem. Não encontrarão muitos, meus heróis de folhetim, ele pensou. Vocês já liquidaram dois terços de meus homens. E de quantos atacantes Mestre Pimli, o chefe da segurança Finli e seus homens tiraram a vida? Pelo que Pimli sabia, de ab-solutamente nenhum.
Mas talvez pudesse fazer algo a esse respeito. Sua mão direita come-çou uma lenta, dolorosa jornada em direção ao coldre debaixo do ombro e à Peacemaker ali guardada.
Eddie, enquanto isso, encostara o cano do revólver de Gilead, com o cabo de sândalo, no lado da cabeça do garotão Fuinha. O dedo estava pressionando o gatilho quando Eddie viu que o garotão Fuinha, embora baleado no peito e sangrando muito, obviamente morrendo depressa, o olhava com absoluta consciência. E com alguma outra coisa, algo de que Eddie não gostou muito. Achou que fosse desprezo. Erguendo a cabeça, viu Susannah e Jake verificando os corpos na ponta leste da área da matan-ça, viu Roland na calçada oposta falando com Dinky e Ted fazendo um curativo improvisado no braço. Os dois ex-Sapadores ouviam com atenção e, embora com ar de dúvida, ambos abanavam as cabeças.
Eddie voltou a prestar atenção no taheen que agonizava.
— Está no final do caminho, meu amigo — disse ele. — Preso à bomba que explodiu, é como a coisa me parece. Quer dizer alguma coisa antes de entrar na clareira?
Finli abanou afirmativamente a cabeça.
— Diga, então, meu velho. Mas tente resumir, pra conseguir dizer tu-do.
— Você e os teus são um bando de cachorros covardes — Finli con-seguiu dizer. Provavelmente fora mesmo atingido no coração (pelo menos parecia que sim), mas queria dizer aquilo; era algo que precisava ser dito e Finli atiçava o coração lesado a bater até que a coisa saísse. Depois morre-ria e daria boas-vindas à escuridão. — Cachorros covardes cheirando a mi-jo, matando homens por meio de emboscadas. É o que eu diria.
Eddie sorriu sem humor.
— E o que me diz dos cachorros covardes que usavam crianças para liquidar o mundo inteiro por emboscada, meu amigo? O universo inteiro?
O Fuinha piscou, como se não esperasse uma resposta daquelas. Tal-vez não estivesse esperando resposta alguma.
— Eu tinha... minhas ordens.
— Não duvido — disse Eddie. — E cumpriu-as fielmente. Divirta-se no inferno, em Na’ar ou seja lá como chamem aquilo. — Pôs o cano do revólver contra a têmpora de Finli e puxou o gatilho. O Fuinha se sacudiu uma única vez e ficou imóvel. Fazendo uma careta, Eddie ficou de pé.
Ao fazê-lo, captou um movimento pelo canto do olho e viu que outra figura — o diretor geral do show — conseguira se apoiar num cotovelo. Seu revólver, o Peacemaker .40 que um dia executara um estuprador, esta-va apontado. Os reflexos de Eddie eram rápidos, mas não houve tempo de usá-los. O Peacemaker roncou uma única vez, soltando uma língua de fogo pela ponta do cano, e o sangue voou da testa de Eddie Dean. Um cacho de cabelo foi atirado para o ar quando a bala saiu pela nuca. Eddie espalmou a mão contra o buraco que aparecera sobre seu olho direito, como um ho-mem que tivesse se lembrado, um pouco tarde, de algo de importância vi-tal.
Roland girou nos calços lascados das botas, puxando seu próprio re-vólver num gesto rápido demais para ser visto. Jake e Susannah também se viraram. Susannah viu o marido de pé na rua, a palma da mão apertada contra a testa.
— Eddie? Docinho?
Pimli lutava para engatilhar de novo o Peacemaker, o esforço fazendo o lábio superior recuar dos dentes como num rosnado de cachorro. Roland acertou-o na garganta e o Mestre de Algul Siento guinou e rolou para a es-querda, a pistola ainda não-engatilhada voando de sua mão e chegando ru-idosamente no chão ao lado do corpo de seu amigo Fuinha. Acabou quase aos pés de Eddie.
— Eddie! — Susannah gritou e, jogando todo o seu peso nas mãos, começou a rastejar velozmente para ele. Não está muito machucado, disse a si mesma, não machucado demais, bom Deus não deixe meu homem estar muito machu-cado...
Então viu o sangue correndo debaixo da mão que apertava a testa, o sangue escorrendo para a rua, e soube que era muito.
— Suze? — ele perguntou. A voz era perfeitamente clara. — Suzie, onde está você? Não consigo enxergar.
Ele deu um passo, um segundo, um terceiro... e caiu de bruços na rua, exatamente como o Gran-père Jaffords soubera que ia acontecer, ié, desde o primeiro momento em que pôs os olhos nele. Pois, digamos a verdade, o rapaz era um pistoleiro e aquele era o único fim que alguém como ele po-deria esperar.