A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 4 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Dois

Ficaram um momento em silêncio, ouvindo o zumbido da suave melodia do Feixe, um rumor que às vezes se transformava em vozes de contenta-mento. Ficaram observando as sombras se adensando nas árvores, onde um milhão de faces e um milhão de histórias se emboscavam, oh, quem vai me dizer porta não-encontrada, quem vai me dizer perdida!

Eddie ficou numa certa expectativa de que Roland gritasse com ele — não seria a primeira vez — ou talvez lhe desse um cascudo na cabeça, co-mo Cort, o velho mestre do pistoleiro, costumava fazer quando os alunos eram lentos para raciocinar ou rebeldes. Eddie quase queria que ele o fizes-se. Um bom golpe na mandíbula será um jeito de clarear as idéias, segundo Shardik.

Só que um pensamento barrento não é o problema e você sabe disso, ele pensou. Sua cabeça está mais clara que a dele. Se não estivesse, você seria o primeiro a querer sair deste mundo e continuar a procurar sua esposa perdida.

Por fim Roland falou:

— Qual é o problema, então? Isto?

Ele se curvou e pegou a folha dobrada de papel com a apurada letra de mão de Aaron Deepneau. Roland deu uma rápida olhada, depois a jo-gou no colo de Eddie com uma careta de aversão.

— Você sabe como gosto dela — disse Eddie num tom baixo, tenso. — Você sabe disso!

Roland abanou a cabeça, mas sem olhar para Eddie. Parecia estar contemplando as botas rachadas, empoeiradas, e a sujeira do piso no lado do carona. Aqueles olhos baixos, aquele olhar que não se virava para ele, ele que chegara quase a idolatrar Roland de Gilead, não deixaram de que-brar o coração de Eddie Dean. Mas continuou firme. Agora não havia mais lugar para erros. Era final de jogo.

— Eu iria até ela neste minuto se achasse que era a coisa certa a fazer. Neste segundo, Roland! Mas temos de concluir nossa tarefa neste mundo. Porque este mundo é de mão única. Se partirmos hoje, 9 de julho de 1977, talvez jamais possamos voltar para cá. Nós...

— Eddie, já conversamos tudo isso. — Ainda sem olhar para ele.

— Sim, mas você não entende? Só temos uma bala para atirar, um Ori-za para jogar. Inclusive foi por isso que viemos a Bridgton! Deus sabe co-mo eu quis ir para a Via do Casco da Tartaruga depois que conversamos com John Cullum, mas achei que tínhamos de ver o escritor e conversar com ele. E eu estava certo, não estava? — Agora quase num tom de súpli-ca: — Não estava?

Roland finalmente o olhou e Eddie se deu por satisfeito. Tudo aquilo já era bem duro, bem miserável, sem ser preciso suportar o olhar esquivo, abatido de seu dinh.

— E talvez não faça mal se ficarmos um pouco mais. Se nos concen-trarmos naquelas duas mulheres deitadas uma ao lado da outra naquelas duas camas, Roland... se nos concentrarmos em Suze e Mia como as vimos pela última vez... é possível que consigamos cortar para dentro nesse ponto da história delas. Não é?

Após um longo momento de consideração durante o qual Eddie não teve consciência de respirar uma única vez, o pistoleiro abanou afirmati-vamente a cabeça. A coisa podia não acontecer se eles encontrassem na Via do Casco da Tartaruga o que o pistoleiro passara a chamar de “porta dos antigos”, pois tais portas eram dedicadas e saíam sempre no mesmo ponto. Mas se encontrassem uma porta mágica em algum lugar ao longo da Via do Casco da Tartaruga em Lovell, uma que tivesse ficado para trás quando o primal retrocedeu, então sim, talvez conseguissem penetrar onde quisessem. Mas tais portas também podiam ser traiçoeiras; já tinham descoberto isso por experiência própria na Gruta das Vozes, quando a porta que havia lá mandara Jake e Callahan para Nova York em vez de Roland e Eddie, des-montando assim todos os planos que tinham feito para a Terra do Deze-nove.

— O que mais temos a fazer? — disse Roland. Não havia raiva na voz dele, mas Eddie achou que soava cansada e insegura.

— Seja o que for, vai ser difícil. Isso eu garanto.

Eddie pegou o recibo de venda e atirou-lhe o olhar sombrio que qualquer Hamlet da história do drama dispensaria ao crânio do pobre Yo-rick. Depois voltou a olhar para Roland.

— Isto nos dá direito ao terreno baldio com a rosa. Precisamos levá-lo para Moses Carver, da Holmes Dental Industries. E onde ele está? Não sabemos.

— E inclusive, Eddie, não sabemos sequer se ainda está vivo.

Eddie deixou escapar um riso selvagem.

— Você diz a verdade, eu digo obrigado! Por que não faço a volta aqui, Roland? Dirijo de volta para a casa de Stephen King. Podemos filar uns vinte ou trinta paus dele... porque, irmão, não sei se você reparou, mas não temos uma mísera moedinha no bolso somado dos dois... e, mais im-portante, podemos conseguir que King escreva nos mandando um detetive particular realmente tarimbado, alguém que se pareça com Bogart e mande ver como Clint Eastwood. Que ele siga o rastro deste tal de Carver para nós!

Balançou a cabeça como se quisesse clarear as idéias. O rumor das vozes soava doce em seus ouvidos, antídoto perfeito para os feios sinos todash.

— Bem, minha esposa está em maus lençóis em algum lugar lá adian-te, pois pode estar sendo comida viva por vampiros ou insetos-vampiros e eu estou aqui, numa estradinha de terra, com um sujeito que tem como aptidão fundamental atirar nas pessoas enquanto eu tento descobrir como vou começar a porra de uma corporação!

— Calma — disse Roland, já conformado a se demorar um pouco mais naquele mundo, aparentemente bastante calmo. — Me diga o que acha que precisamos fazer antes de sacudirmos a poeira deste onde e quando para sempre de nossos calcanhares.

Então Eddie falou.

TRÊS

Roland já tinha ouvido muita coisa sobre o assunto, mas ainda não enten-dera plenamente a posição difícil em que estavam. Possuíam o terreno bal-dio na Segunda Avenida, sem dúvida, mas a base de sua propriedade era um documento holográfico que pareceria extremamente frágil num tribu-nal, principalmente se a Sombra Corporation, com todo o seu poderio, começasse a jogar advogados contra eles.

Se possível, Eddie queria entregar a Moses Carver o documento. Também queria lhe passar a informação de que sua afilhada, Odetta Hol-mes (que, no verão de 1977, já estava perdida havia 13 anos), continuava viva, bem e muitíssimo interessada em que Carver assumisse a tutela, não apenas do terreno baldio, mas de uma certa rosa que crescia selvagem den-tro de seus limites.

Moses Carver — se ainda vivo — tinha de ser convencido a integrar a autodenominada Tet Corporation à Holmes Industries (ou vice-versa). Mais! Tinha de dedicar o que restasse de sua vida (e Eddie desconfiava que Carver tivesse àquela altura a idade de Aaron Deepneau) a construir uma empresa gigante cujo verdadeiro e único propósito era ir criando, a cada passo, obstáculos ao crescimento de duas outras corporações gigantescas, Sombra e North Central Positronics. Se possível, estrangulá-las, impedir que se transformassem num monstro que estendesse sua trilha de destrui-ção por toda a moribunda extensão do Mundo Médio, ferindo mortalmen-te a própria Torre Negra.

— Talvez devêssemos ter deixado o documento de venda com sai Deepneau — disse Roland pensativamente depois de ouvir Eddie até o fim. — Pelo menos ele podia ter localizado esse Carver, procurado o ho-mem e contado nossa história.

— Não. Fizemos bem em ficar com isso. — Era uma das poucas coi-sas de que Eddie tinha certeza absoluta. — Se tivéssemos deixado essa fo-lha de papel com Aaron Deepneau, a essa altura ele já teria virado cinzas no vento.

— Acha que Tower teria se arrependido do negócio, e mandado o amigo destruir o papel?

— Tenho certeza — disse Eddie. — E mesmo que Deepneau resis-tisse à matraca do velho amigo batendo horas e horas no ouvido, “queime o papel, Aaron, eles me coagiram e agora pretendem continuar me ferran-do, você sabe disso tão bem quanto eu, queime o papel e mandaremos a polícia pegar os salafrários”, mesmo assim você acha que Moses Carver ia acreditar numa história tão louca?

Roland deu um sorriso abatido.

— Acho, Eddie, que não importa no que ele ia ou não acreditar. E pense um momento, quanto de nossa história louca Aaron Deepneau re-almente ouviu?

— Não tanta coisa assim — Eddie concordou fechando os olhos, a-pertando as costas das mãos contra eles, com força. — Só me vem à cabe-ça uma pessoa que pode realmente convencer Moses Carver a fazer as coi-sas que teríamos a lhe pedir e ela está muito ocupada. Está no ano de 1999. E nessa época, Carver já está tão morto quanto Deepneau. O próprio To-wer pode já ter morrido.

— Bem, o que podemos fazer sem ela? Que saída você acha que te-mos?

Eddie estava pensando que talvez Susannah pudesse voltar a 1977 sem eles, desde que pelo menos ela ainda não tivesse visitado essa época. Bem... Susannah fora até lá em todash, mas Eddie achava que isso não chegava exatamente a valer. Talvez só pudesse ser barrada de 1977 sob o pretexto de que formava um ka-tet com ele e Roland. Ou talvez houvesse outros pretextos. Eddie não sabia. Ler as letrinhas miúdas nunca fora o seu forte. Ele se virou para perguntar o que Roland pensava, mas Roland falou antes que tivesse essa chance.

— E quanto a nosso dan-tete? — ele perguntou.

Embora Eddie compreendesse o termo — significava deus-criança ou pequeno salvador —, ele a princípio não entendeu o que Roland pretendia dizer. Então descobriu. O próprio carro onde estavam sentados não fora emprestado pelo dan-tete de Waterford dos dois, diga obrigado?

— Cullum? É desta pessoa que está falando, Roland? O sujeito que tem uma vitrine de bolas de beisebol autografadas?

— Você diz a verdade — Roland respondeu. Falava naquele tom se-co que não indicava satisfação, mas uma leve exasperação. — Não me so-brecarregue com seu entusiasmo pela idéia.

— Mas... você o mandou embora! E ele concordou em ir!

— Mas você achou que estava muito entusiasmado para visitar algum amigo em Vermong?

— Mont — disse Eddie, incapaz de suprimir um sorriso. Contudo, sorrindo ou não, o que ele sentia mais fortemente era desânimo. Achava que o feio som de raspar que ouvia em sua imaginação eram os dois únicos dedos da mão direita de Roland, mexendo pela ponta do próprio cano do revólver.

Roland deu de ombros como se quisesse dizer que pouco se importa-va se Cullum tinha falado que ia para Vermont ou para o Baronato de Gar-lan.

— Responda à minha pergunta.

— Bem...

Cullum na realidade não expressara absolutamente grande entusiasmo pela idéia. Desde o início reagira mais como um deles que como um dos comedores de erva entre os quais vivia (Eddie reconhecia comedores de erva muito facilmente, ele próprio tinha sido um deles até Roland seqües-trá-lo e passar a lhe ministrar suas lições homicidas). Cullum estava sem dúvida intrigado com os pistoleiros, curioso para saber o que de fato esta-vam fazendo em sua cidadezinha. Mas Roland fora muito enfático acerca do que queria e as pessoas tinham a mania de acabar seguindo suas ordens.

Agora ele fazia um movimento circular com a mão direita, seu velho gesto de impaciência. Ande, pelo amor de Deus. Cague ou desocupe a moita.

— Acho que ele realmente não queria ir — disse Eddie. — Mas isso não significa que ainda esteja em sua casa em East Stoneham.

— Mas está. Ele não foi.

Só com algum esforço, Eddie conseguiu impedir que seu queixo caís-se.

— Como sabe? Consegue tocá-lo, é isso?

Roland balançou negativamente a cabeça.

— Então como...

— Ka.

— Ka? Ka? Exatamente o quê está querendo dizer com essa porra?

Roland tinha um ar abatido, cansado, a pele pálida apesar do bronze-ado.

— Quem mais conhecemos nesta parte do mundo?

— Ninguém, mas...

— Então é ele. — Roland falou sem inflexão, como se mencionasse a alguma criança um fato óbvio da vida: em cima fica depois da sua cabeça, embaixo fica onde seus pés encostam no chão.

Eddie estava pronto a dizer que certas coisas não passavam de estu-pidez, superstição grosseira, mas não o fez. Além de Deepneau, Tower, Stephen King e o hediondo Jack Andolini, John Cullum era a única pessoa que conheciam naquela parte do mundo (ou naquele nível da Torre, se pre-ferirmos pensar assim). E depois do que tinha visto nos últimos meses — diabo, na última semana —, quem era Eddie para fazer pouco caso de su-perstições?

— Tudo bem — disse Eddie. — Acho que é melhor tentarmos.

— Como entramos em contato?

— Podemos telefonar para ele de Bridgton. Mas numa história, Ro-land, um personagem como John Cullum nunca iria sair do banco para sal-var a pátria. Não seria considerado realista.

— Na vida real — disse Roland —, tenho certeza que isso não pára de acontecer.

E Eddie riu. O que mais poderia fazer? Combinava tão perfeitamente com Roland.