A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo II · O Vigia
UM
Quando Nigel retornou, trazia uma bandeja do tamanho de uma roda de carruagem. Nela havia pilhas de sanduíches, duas vasilhas térmicas cheias de sopa (de carne e frango) e bebidas em lata. Havia Coca, Sprite, Nozz-A-La e uma coisa chamada Juízo Verde. Eddie tentou esta última, pronunci-ando o nome da forma mais louca possível.
Todos reparavam que Nigel não era mais o sujeito batuta, bom com-panheiro que fora só Deus sabia por quantas décadas e séculos. A cabeça em forma de losango não parava de se sacudir para um lado ou para o ou-tro. Quando ia para a esquerda, ele murmurava: “Un, deux, trois!” Para a direita era: “Ein, zwei, drei!” Um estalar baixo e contínuo havia começado em seu diafragma.
— Docinho, o que há de errado com você? — Susannah perguntou quando o robô doméstico pousou a bandeja no chão entre eles.
— A série de exames de autodiagnóstico sugere total colapso sistêmi-co durante as próximas duas a seis horas — disse Nigel, parecendo som-brio, apesar de calmo. — Problemas lógicos preexistentes, em quarentena até agora, vazaram para o SGM. — Ele então torceu desagradavelmente a cabeça para a direita. — Ein, zwei, drei! Vivo livre ou morro, cá está Greg no seu olho!
— O que é SGM? — Jake perguntou.
— E quem é Greg? — Eddie perguntou.
— SGM significa “sistema geral de mentação” — disse Nigel. — Há dois sistemas desse tipo, o racional e o irracional. Consciente e subconsci-ente, como vocês poderiam dizer. Quanto a Greg, tratar-se-ia de Greg Stil-lson, um personagem de um romance que estou lendo. Muito divertido. Chama-se A Zona Morta, de Stephen King. Quanto a saber por que o trou-xe para este contexto, não tenho idéia.
DOIS
Nigel explicou que problemas lógicos eram comuns no que chamou de robôs Asimov. Quanto mais esperto o robô, maiores as falhas lógicas... e mais cedo começavam a aparecer. O Povo Antigo (Nigel os chamava de Construtores) compensava isto recorrendo a um rigoroso sistema de qua-rentena, tratando distúrbios mentais como se fossem varíola ou cólera (Ja-ke achou que aquilo parecia de fato um ótimo meio de lidar com insanida-de, embora acreditasse que os psiquiatras não se interessariam muito pela idéia; ela os tornaria obsoletos). Nigel achava que o trauma de ter os olhos baleados acabara enfraquecendo seus sistemas de sobrevivência mental e agora todo tipo de coisa ruim estava solto nos circuitos, corroendo as apti-dões para o raciocínio dedutivo e indutivo, devorando sistemas lógicos à esquerda e à direita. Ele disse a Susannah que, em hipótese alguma, a cul-pava, e Susannah levou um punho à testa para lhe agradecer em grande estilo. Na verdade, não chegava de todo a acreditar no velho e bom DNK 45932, embora não soubesse de jeito nenhum explicar por quê. Talvez fos-se apenas algum resquício da época de Calla Bryn Sturgis, onde um robô não muito diferente de Nigel acabara se convertendo num patife horroro-so, cheio de ressentimento. E havia outra coisa.
Espreito com meu pequeno olho, Susannah pensou.
— Estenda as mãos, Nigel.
Quando o robô obedeceu, todos viram os fios rijos de cabelo presos nas juntas dos dedos de aço. Havia também uma gota de sangue num... seria o nó dos dedos?
— O que é isto? — ela perguntou, levantando alguns cabelos.
— Sinto muito, madame, não posso...
Não podia ver. Não, é claro que não. Nigel tinha infravermelhos, mas sua verdadeira visão se fora, cortesia de Susannah Dean, filha de Dan, pis-toleira do Ka-Tet dos Dezenove.
— São cabelos. Também observo um pouco de sangue.
— Ah, sim — disse Nigel. — Ratos na cozinha, madame. Estou pro-gramado para terminar com roedores quando os detectar. Têm aparecido muitos ultimamente, sinto dizer; o mundo está seguindo adiante. — E en-tão, sacudindo a cabeça violentamente para a esquerda: — Un-deux-trois! Minnie Mouse est la mouse pour moi!
— Hum... você matou a Minnie e o Mickey antes ou depois de ter fei-to os sanduíches, Nige, meu velho? — Eddie perguntou.
— Depois, sai, eu lhe garanto.
— Bem, acho que não estou com fome — disse Eddie. — Comi um poorboy no Maine e ele continua grudado como um filho-da-puta na mi-nha barriga.
— Você devia dizer un, deux, trois — disse Susannah. As palavras es-tavam fora antes mesmo que ela tivesse consciência de que ia dizê-las.
— Pois não? — Eddie estava sentado com o braço em volta dela. Desde que os quatro tinham se reunido de novo, ele tocava em Susannah a toda hora, como se precisando confirmar o fato de que ela era mais que apenas um sonho.
— Não é nada. — Mais tarde, quando Nigel estivesse fora dali ou completamente quebrado, ela falaria de sua intuição. Achava que robôs do tipo de Nigel e Andy, como os das histórias de Isaac Asimov que lera quando adolescente, não deviam mentir. Talvez Andy tivesse sido modifi-cado ou tivesse se modificado a si mesmo para que isso não fosse um pro-blema. Com Nigel, sem dúvida, ela achava que ainda era um problema: problema mesmo, grande-grande. Desconfiava que, ao contrário de Andy, Nigel era essencialmente um robô de bom coração, mas sim... ele já tinha mentido ou pelo menos camuflado a mensagem acerca dos ratos na des-pensa. Talvez também sobre outras coisas. Ein, zwei, drei e un, deux, trois era sua válvula de escape. Ao menos temporariamente.
É Mordred, pensou olhando para o lado. Pegou um sanduíche porque tinha de comer alguma coisa (como Jake, estava faminta), mas o apetite se fora e ela percebeu que realmente não ia desfrutar o que empurrou seve-ramente garganta abaixo. Abordou Nigel e agora está nos vigiando de algum lugar. Eu o sei... Eu o sinto.
E, ao dar a primeira mordida numa carne meio misteriosa, há longo tempo preservada e embalada a vácuo:
Uma mãe sempre sabe.
TRÊS
Nenhum deles quis dormir na Sala de Extração (embora pudessem ter es-colhido entre trezentas ou mais camas recentemente forradas) nem na ci-dade deserta do lado de fora, por isso Nigel levou-os para seu alojamento, parando de vez em quando para uma desagradável sacudida de cabeça, pa-ra clarear as idéias, e para contar em alemão ou francês. A isto começou a acrescentar números em alguma outra língua que nenhum deles conhecia.
O caminho passava por uma cozinha — cheia de máquinas de aço inox que roncavam baixo, coisa bem diferente da antiga e enorme cozinha que ficava sob o castelo da Discórdia e que Susannah visitara em todash — e, embora vissem a moderada desordem da refeição que Nigel preparara para eles, não havia sinal de ratos, vivos ou mortos. Nenhum deles fez co-mentários sobre o assunto.
A sensação que Susannah tinha de estar sendo observada ia e vinha.
Além da despensa havia um bom apartamentozinho de três cômodos onde Nigel presumivelmente morava. Não havia quarto, mas depois da sala de estar e de uma copa de serviço cheia de equipamento de monitoramen-to havia um belo gabinete cheio de livros com uma escrivaninha de carva-lho e uma confortável poltrona sob um abajur de leitura de halogêneo. O computador que havia sobre a escrivaninha fora fabricado pela North Cen-tral Positronics, ali nenhuma surpresa. Nigel trouxe cobertores e travessei-ros que assegurou serem novos e estarem limpos.
— Talvez você durma de pé, mas aposto que, para ler, gosta de sentar como qualquer um — disse Eddie.
— Ah, sim de fato, um-dois-trêêês — disse Nigel. — Gosto muito de um bom livro. Faz parte de minha programação.
— Vamos dormir seis horas, depois seguimos caminho — disse Ro-land.
Jake, enquanto isso, examinava os livros mais de perto. Oi movia-se com ele, sempre junto, e Jake ia verificando as lombadas, puxando uma ou outra para dar uma olhada melhor.
— Parece que ele tem tudo de Dickens — disse. — Também de Ste-inbeck... Thomas Wolfe... muita coisa de Zane Grey... alguém chamado Max Brand... outro cara chamado Elmore Leonard... e o sempre popular Steve King.
Todos dedicaram algum tempo para contemplar as duas prateleiras com livros de King, no todo mais de trinta, pelo menos quatro deles muito grandes e dois de tamanho suficiente para segurar uma porta ao vento. Ao que parecia, King fora um escritor extremamente ativo desde seus dias de Bridgton. O volume mais recente chamava-se Hearts in Atlantis (Corações na Atlântida) e fora publicado num ano com o qual estavam bastante fami-liarizados: 1999. Pelo que podiam ver, a única coisa que faltava eram os livros sobre eles. Presumindo, é claro, que King tivesse seguido adiante para escrevê-los. Jake verificou as páginas de copyright, mas havia poucas dis-crepâncias. O que podia significar nada, sem dúvida, porque ele escrevia muito.
Susannah perguntou a Nigel, que disse que nunca vira livros de Ste-phen King falando de Roland de Gilead ou da Torre Negra. Então, tendo dito isso, torceu ferozmente a cabeça para a esquerda e contou em francês, desta vez até dez.
— Mesmo assim — disse Eddie após Nigel ter se retirado clicando, estalando e rangendo na saída do aposento —, aposto que aqui há muita informação que podemos usar. Roland, você acha que podemos embrulhar os livros de Stephen King e levá-los conosco?
— Talvez — disse Roland —, mas não vamos levar. Eles podem nos confundir.
— Por que está dizendo isso?
Roland se limitou a balançar a cabeça. Não sabia por que tinha dito aquilo, mas sabia que era verdade.
QUATRO
O centro nervoso da Estação Experimental Arco 16 ficava quatro andares abaixo da Sala de Extração, da cozinha e do estúdio de Nigel. A pessoa entrava na Suíte de Controle através de um vestíbulo em forma de cápsula. O vestíbulo só podia ser aberto do lado de fora usando três cartões de i-dentificação magnéticos, um após o outro. A música ambiente naquele ní-vel mais baixo do Dogan de Fedic soava como canções dos Beatles tocadas pelo Quarteto Comatoso de Cordas.
No interior da Suíte de Controle havia cerca de uma dúzia de aposen-tos, mas o único com o qual precisamos nos preocupar era o que estava cheio de monitores de TV e dispositivos de segurança. Um desses últimos dispositivos de segurança comandava um pequeno, mas feroz exército de robôs caçadores-matadores equipados com bastões e pistolas a laser; outro devia liberar gás venenoso (do mesmo tipo que Blaine usara para chacinar os habitantes de Lud) na eventualidade de um avanço hostil. Operação que, na visão de Mordred Deschain, já havia acontecido. Ele tentara ativar ambos os caçadores-matadores e o gás; nada respondera. Agora Mordred tinha um nariz sangrando, uma contusão azulada na testa e um lábio infe-rior inchado, pois havia caído da cadeira em que estava sentado e rolado pelo chão, proferindo esganiçados gritos de criança que de modo algum refletiam a verdadeira profundidade de sua fúria.
Ser capaz de vê-los em pelo menos cinco diferentes monitores e não ser capaz de matá-los, sequer de feri-los! Não era de admirar que estivesse furioso! Tinha sentido a escuridão se fechar sobre ele como coisa viva, a escuridão que assinalava sua alteração. Ele se obrigara a ficar calmo para que a mudança não pudesse acontecer. Já tinha descoberto que a transfor-mação de humano a aranha (e vice-versa) consumia somas chocantes de energia. Mais tarde aquilo podia nem importar, mas por enquanto tinha de ser cuidadoso, para não morrer de fome como uma abelha num trecho queimado de floresta.
O que gostaria de lhe mostrar é muito mais bizarro que qualquer coi-sa que tenhamos visto até aqui e advirto antecipadamente que seu impulso será rir. Nenhum problema. Ria se tiver de rir. Só não tire o olho do que vai ver, pois, mesmo que só em sua imaginação, temos aqui uma criatura que pode lhe fazer mal. Lembre que ela veio de dois pais, ambos matado-res.
CINCO
Agora, só algumas horas após seu nascimento, o chapinha de Mia já pesava dez quilos e tinha a aparência de um saudável bebê de seis meses. Mordred usava uma única peça de roupa, uma fralda improvisada com a toalha que Nigel lhe pusera ao levar para o bebê a primeira refeição da vida selvagem do Dogan. A criança precisava de uma fralda, pois ainda não conseguia se-gurar os dejetos. Mordred compreendia que o controle sobre essas funções chegaria logo (talvez antes mesmo de aquele dia terminar, pelo menos se tudo continuasse a se desenvolver em seu ritmo atual), mas não suficien-temente rápido para deixá-lo tranqüilo. Por enquanto estava aprisionado naquele idiota corpo infantil.
Ser preso daquele jeito era hediondo. Como era hediondo cair da ca-deira e não conseguir fazer nada além de ficar ali deitado, agitando os bra-ços e pernas machucados, sangrando e berrando! O DNK 45932 teria vin-do pegá-lo, poderia tanto resistir aos comandos do filho do Rei quanto um peso de chumbo caído de uma janela alta poderia resistir à força da gravi-dade, mas Mordred não se atreveu a chamá-lo. A puta marrom já suspeita-va de que havia algo errado com Nigel. A puta marrom era perversamente perceptiva e Mordred estava terrivelmente vulnerável. Era capaz de contro-lar cada peça de maquinaria na estação Arco 16, acasalar com maquinaria era um de seus muitos talentos, mas caído ali, no chão daquela sala com a placa CENTRO DE CONTROLE na porta (fora chamada “cabeça” mui-to tempo atrás, antes de o mundo seguir adiante), Mordred começava a descobrir o quanto era pequeno o número de máquinas a controlar. Por isso que seu pai queria derrubar a Torre e começar tudo de novo! Aquele mundo estava quebrado.
Precisara de uma nova metamorfose em aranha para recuperar o as-sento na cadeira, onde mais uma vez recuperara sua forma humana... Mas O estômago já estava roncando, a boca azeda de fome. Não fora apenas a metamorfose que sugara sua energia, ele agora suspeitava; a aranha ficava mais próxima de seu verdadeiro aspecto e quando estava nessa forma seu metabolismo era vibrante e rápido. Os pensamentos também se alteravam, o que tinha um atrativo próprio, porque seus pensamentos humanos eram coloridos por emoções (sobre as quais ele parecia não ter controle, embora achasse que, no momento certo, iria adquiri-lo) que eram basicamente de-sagradáveis. Como aranha, os pensamentos não chegavam absolutamente a ser pensamentos reais, pelo menos não no sentido humano; eram coisas escuras, ululantes, parecendo brotar de algum úmido solo interior. Eram sobre
(COMER)
e
(VAGAR)
e
(ESTUPRAR)
e
(MATAR)
Os tantos modos deliciosos de fazer essas coisas passavam roncando pela consciência rudimentar do dan-tete como enormes máquinas de faróis ligados, máquinas que iam distraidamente se acelerando pelo clima mais escuro do mundo. Pensar dessa maneira — livre de sua metade humana — era extremamente atraente, mas ele achou que fazer isso naquele momento, quando estava quase sem defesas, o levaria à morte.
E quase já o levara. Ergueu o braço direito — rosado, liso e perfeita-mente despido — para poder olhar para o quadril direito. Fora lá que leva-ra o tiro da puta marrom e embora tivesse se desenvolvido consideravel-mente desde então, tendo duplicado em comprimento e peso, a ferida permanecia aberta, vertendo sangue e uma coisa pastosa, amarelo-escura e fedorenta. Mordred achava que aquele ferimento em seu corpo humano jamais ia cicatrizar. Assim como seu outro corpo jamais seria capaz de re-cuperar a perna que o tiro da puta arrancara. E se ela não tivesse perdido o equilíbrio — ka, não tinha dúvida disso —, o tiro teria lhe arrancado a ca-beça em vez da perna e o jogo estaria acabado, pois...
Ouviu um zumbido estridente, áspero. Ele observou o monitor que mostrava o outro lado da entrada principal e viu o robô doméstico parado ali com um saco numa das mãos. O saco estava se mexendo e o bebê de cabelos negros, com uma fralda improvisada amarrada no corpo, sentado diante de painéis com monitores, começou de imediato a salivar. Estendeu a simpática mão rechonchuda e apertou uma série de botões. A porta ex-terna de segurança da sala, meio curva, abriu deslizando, e Nigel pisou o vestíbulo, que era construído como uma câmara de compressão. Mordred passou de imediato aos botões que abririam a porta interna em resposta à seqüência 2-5-4-1-3-1-2-1, mas seu controle motor era ainda quase inexis-tente e ele foi recompensado por outro zumbido estridente e uma voz fe-minina que o enfureceu (enfureceu porque lembrava a voz da puta mar-rom) e que dizia: VOCÊ ERROU AO DIGITAR A SENHA DE SEGU-RANÇA PARA ESTA PORTA. PODERÁ REDIGITAR UMA VEZ DENTRO DOS PRÓXIMOS DEZ SEGUNDOS. DEZ... NOVE...
Mordred teria dito foda-se se fosse capaz de falar, mas não era. O me-lhor que pôde fazer foi balbuciar como um bebê, o que sem a menor dúvi-da teria feito Mia exultar com um orgulho de mãe. Agora já não mexia com os botões; queria demais o que o robô trazia na sacola. Os ratos (presumia que fossem ratos) desta vez estavam vivos. Vivos, por Deus, o sangue ainda correndo nas veias!
Mordred fechou os olhos e se concentrou. A luz vermelha que Su-sannah tinha visto antes de sua primeira transformação apareceu de novo na pele clara, correndo do alto da cabeça para o manchado calcanhar direi-to. Quando essa luz ultrapassou a ferida aberta no quadril do bebê, o lento fluxo de sangue e matéria pastosa por algum tempo ficou mais forte e Mordred proferiu um grito abafado de angústia. Sua mão foi para o feri-mento e espalhou sangue sobre a pequena concavidade de sua barriga num impensado gesto de conforto. Por um momento houve um senso de escu-ridão brotando para substituir o jorro vermelho, acompanhado por uma oscilação da forma da criança. Desta vez, no entanto, não houve transfor-mação. O bebê desmoronou na cadeira, respirando forte, um pequeno file-te de urina clara pingando de seu pênis para molhar a frente da toalha que ele usava. Veio um estalo abafado do painel de controle que ficava na fren-te da cadeira onde o bebê, arfando como um cachorro, afundara de lado.
Do outro lado da sala, uma porta com a inscrição ACESSO PRIN-CIPAL se abriu deslizando. Nigel entrou com ar imperturbável e passos pesados, agora torcendo quase sem parar a cabeça em formato de cápsula e contando não em duas ou três línguas diferentes, mas talvez numa dúzia delas.
— Senhor, eu realmente não posso continuar a...
Mordred fez um alegre som ga-ga-gu-gu de bebê e estendeu as mãos para a sacola. O pensamento que enviou foi ao mesmo tempo claro e frio: Cale a boca. Me dê o que eu preciso.
Nigel pôs a saca no colo. Do seu interior vinha um gorjeio que era quase como fala humana e, pela primeira vez, Mordred percebeu que os safanões na sacola estavam vindo de uma única criatura. Não um rato, sem dúvida! Algo maior! Maior e mais sangrento!
Abriu a sacola e espreitou. Um par de olhos cercados de dourado o olharam com ar de súplica. Por um momento pensou que fosse o pássaro que voava à noite, o pássaro uh-uh, ele não sabia seu nome, e então viu que a coisa tinha pêlo, não penas. Era um throcken, conhecido em muitas partes do Mundo Médio como zé-trapalhão, este mal saído da teta da mãe.
Tudo bem, agora, ele pensou diante da criatura, a boca se en-chendo de baba. Estamos no mesmo barco, meu pequeno parceiro — somos crianças sem mãe num mundo duro, cruel. Fique quieto e eu o consolarei.
Lidar com uma criatura tão jovem e de cabeça tão rudimentar como aquela não era muito diferente de lidar com as máquinas. Mordred exami-nou os pensamentos do trapalhão e localizou o nódulo que controlava a elementar força daquela vontade. Aproximou-se do nódulo com uma das mãos de seu próprio pensamento (de sua própria vontade) e segurou-o. Por um momento pôde ouvir o pensamento tímido, suplicante da criatura
(não me machuque por favor não me machuque; por favor me deixe viver; quero viver me divertir brincar um pouco; não me machuque por favor não me machuque por favor me deixe viver)
e respondeu:
Está tudo bem, não tenha medo, parceiro, está tudo bem.
O trapalhão na saca (Nigel o encontrara no pátio de veículos, separa-do da mãe, irmãos e irmãs pelo fechamento de uma porta automática) rela-xou — não acreditando, exatamente, mas ansiando por acreditar.
SEIS
No alojamento de Nigel, as luzes tinham se reduzido a um quarto de seu brilho. Quando Oi começou a ganir, Jake acordou de imediato. Os outros continuariam dormindo, pelo menos por mais algum tempo.
Qual é o problema, Oi?
O trapalhão não respondeu, só continuou com o ganido no fundo da garganta. Os olhos rodeados de dourado espreitavam para a sombria ex-tremidade do alojamento, como se estivessem vendo alguma coisa terrível. Jake se lembrava de espreitar daquele jeito o canto de seu quarto após a-cordar de algum pesadelo nas primeiras horas da manhã, um sonho com Frankenstein, Drácula ou
(Tiranorrex sauro)
algum outro bicho-papão, só Deus sabia qual. Agora, pensando que talvez os trapalhões também tivessem pesadelos, se empenhou ainda mais em tocar a mente de Oi. A princípio não houve nada, depois uma imagem profunda, borrada
(olhos... olhos olhando da escuridão)
de algo que podia ser um zé-trapalhão num saco.
— Shhhh — Jake sussurrou no ouvido de Oi, pondo os braços em volta dele. — Não os acorde, eles precisam dormir.
— Mir — disse Oi, muito baixo.
— Você teve apenas um pesadelo — Jake murmurou. — Às vezes eu também tenho. Eles não são reais. Ninguém o colocou num saco. Volte a dormir.
— Mir. — Oi pousou o focinho na pata direita. — Oi fi-quié.
Está certo, Jake pensou para ele, Oi fica quieto.
Os olhos cercados de dourado, ainda meio intranqüilos, ficaram um pouco mais tempo abertos. Então Oi piscou para Jake com um dos olhos e fechou ambos. Um momento depois, o trapalhão estava dormindo de no-vo. Em algum lugar por perto, um animal como ele havia morrido... mas morrer era a regra do mundo; era um mundo duro, sempre tinha sido.
Oi sonhou que estava com Jake sob a grande esfera laranja da Lua do Mascate. Jake, também dormindo, percebeu aquilo pelo toque e os dois sonharam juntos com o Velho Mascate Errante, o homem da Lua.
Oi, quem morreu?, Jake perguntou sob o esperto piscar de um olho do Mascate.
Oi, disse seu amigo. Delah. Muitos.
Sob o vazio olhar alaranjado do Velho Mascate, Oi nada mais disse; tinha, de fato, encontrado um sonho dentro de seu sonho, e Jake também foi junto com ele para lá. Aquele sonho era melhor. Nele, os dois brinca-vam juntos sob um sol brilhante. Então outro trapalhão se aproximou: um tipo triste, a julgar pela cara. Tentou falar com eles, mas nem Jake nem Oi puderam entender o que ele dizia, pois estava falando em inglês.
SETE
Mordred não era forte o bastante para tirar o trapalhão da sacola, e Nigel não quis ou não pôde ajudá-lo. O robô se limitou a ficar parado do lado de dentro da porta do Centro de Controle, torcendo a cabeça para um lado e para o outro, contando e tilintando mais alto que nunca. Um cheiro quente de coisa cozida começara a sair de suas entranhas.
Mordred conseguiu virar a saca, e o trapalhão, provavelmente com uns seis meses de idade caiu em seu colo. Os olhos estavam semicerrados, com pupilas amarelas e pretas, foscas, inertes.
Mordred atirou a cabeça para trás, fazendo uma careta concentrada. Aquele clarão vermelho correu pelo seu corpo e o cabelo começou a se arrepiar. Contudo, antes que o processo avançasse mais, ele e o corpo da criança ao qual estava ligado sumiram. A aranha surgiu. Ela dobrou quatro de suas sete patas ao redor do corpo do trapalhão e puxou-o sem dificul-dade para a boca faminta. Em vinte segundos havia sugado todo o líquido do trapalhão. Depois mergulhou a boca na parte de baixo da barriga macia da criatura, rasgou-a, ergueu um pouco mais o corpo e comeu as vísceras que começaram a se derramar: deliciosos bocados de carne gotejante, chei-os de energia. A coisa foi comendo até o fundo, produzindo sons abafa-dos, miados de satisfação, quebrando a espinha do zé-trapalhão e sugando o breve gotejar do tutano. A maior parte da energia estava no sangue — é, sempre no sangue, como os Avós sabiam muito bem —, mas também ha-via energia na carne. Como bebê humano (Roland já tinha usado o trata-mento carinhoso da velha Gilead, bah-bo), não poderia se nutrir do sangue ou da carne. Provavelmente teria morrido sufocado com eles. Mas como aranha...
Acabou e atirou o cadáver no chão, exatamente como fizera com os cadáveres consumidos, dissecados dos ratos. Nigel, mordomo dedicado, zeloso, tinha se livrado deles. Mas não ia se livrar daquele. Nigel ficou em silêncio por mais que Mordred berrasse: Nigel, eu preciso de você! Em volta do robô, o cheiro de plástico queimado tinha ficado suficientemente forte para ativar os ventiladores do teto. O DNK 45932 permaneceu com a face sem olhos virada para a esquerda. Isso lhe concedia um ar estranha-mente indagador, como se ele tivesse morrido à beira de formular alguma pergunta importante: Qual é o sentido da vida, talvez, ou O morena bonita, como é que se namora? Num caso ou noutro, sua breve carreira como caçador de rato e trapalhão estava acabada.
Naquele momento Mordred estava cheio de energia — a refeição fora fresca e maravilhosa —, mas isso não ia durar muito tempo. Se permane-cesse em sua forma de aranha, esgotaria ainda mais depressa aquele novo reservatório de energia. Se voltasse, no entanto, a ser um bebê, não seria sequer capaz de descer da cadeira onde estava sentado ou vestir de novo a fralda — que tinha, é claro, escorregado de seu corpo quando ele mudou de forma. Mas tinha de mudar de novo, pois na forma de aranha não con-seguia absolutamente pensar com clareza. Mesmo deixando de lado o ra-ciocínio dedutivo. Aliás, esta simples idéia era uma piada amarga.
O nódulo branco nas costas da aranha fechou seus olhos humanos e o corpo negro embaixo dele estimulou o surgimento de um vermelho con-gestionado. As pernas se retraíram para o corpo e desapareceram. O nódu-lo que era a cabeça do bebê se desenvolveu e ganhou seus detalhes quando o corpo clareou e adquiriu forma humana; os olhos azuis da criança — olhos de artilheiro, olhos de pistoleiro — cintilaram. Mordred ainda estava cheio da energia do sangue e da carne do trapalhão, podia senti-los en-quanto a metamorfose corria para sua conclusão, mas uma certa quantida-de do alimento (algo como a espuma no alto de um copo de cerveja) já ti-nha se dissipado. E não só por causa da mudança de um estado para outro. O fato era que ele estava crescendo num ritmo impetuoso. Esse tipo de crescimento requeria uma nutrição incessante e o alimento que podia ser tirado da Estação Experimental Arco 16 era tremendamente escasso. Da estação e também de Fedic atrás dela, sem dúvida. Havia comida enlatada, refeições em papel-laminado e bebidas feitas com pó de refresco, sim, es-sas coisas não faltavam, mas nada que havia ali o alimentava como ele pre-cisava ser alimentado. Tinha necessidade de carne fresca e, mais do que carne, precisava de sangue. E o sangue de animais só sustentaria por algum tempo a avalanche de seu desenvolvimento. Logo ia precisar de sangue humano, ou o ritmo de seu crescimento iria primeiro desacelerar, depois parar. A dor da fome chegaria, mas essa dor, mesmo que revirasse de mo-do incessante seus órgãos vitais como uma broca, nada seria em compara-ção à dor mental e espiritual de observar o grupo nas telas dos vários moni-tores: ainda vivos, agrupados em sua irmandade, consolados por uma cau-sa.
A dor de ver a ele. Roland de Gilead.
Mordred se perguntava como sabia das coisas que sabia. Ouvira da mãe? Algumas sim, pois absorvera um milhão de pensamentos e memórias de Mia (um bom número deles, inclusive, surripiados de Susannah), senti-ra-os fluindo para dentro de si enquanto se alimentava de Mia. Mas saber também da vida dos Avós, como sabia disso? Como sabia, por exemplo, que um vampiro alemão que bebia o sangue de um francês poderia ficar uma semana ou dez dias falando francês, falando como um nativo, e de-pois essa aptidão, assim como as recordações de sua vítima, começariam a desbotar...
Como podia saber de uma coisa dessas?
Isso tinha importância?
Agora os via dormindo. O garoto chamado Jake tinha despertado, mas só brevemente. Um pouco antes Mordred os vira comendo, quatro bobalhões e um trapalhão (cheios de sangue, cheios de energia), jantando juntos num círculo. Sentavam-se sempre em círculo, formavam aquele cír-culo mesmo quando paravam para descansar cinco minutos em alguma trilha do caminho, faziam isso sem sequer terem consciência da coisa, da-quele círculo que mantinha o resto do mundo de fora. Mordred não tinha círculo. Embora fosse novo, já compreendia que seu ka era lá fora, justa-mente como era o ka do vento do inverno passar através de somente me-tade dos pontos cardeais: do norte para leste e depois novamente de volta ao frio norte. Aceitava isto, mas ainda olhava para eles com o ressentimen-to de quem ficava de fora, de quem ia machucá-los e teria uma satisfação amarga. Ele era de dois mundos, a profetizada junção de Primal e Am, de gadosh e godosh, de Gan e Gilead. Era, de certo modo, como Jesus Cristo, mas de uma forma ainda mais pura que o homem-deus-cordeiro, pois o homem-deus-cordeiro só tinha um pai verdadeiro, que estava no altamente hipotético céu, e um padrasto que estava na Terra. Pobre e velho José, que usava chifres postos pelo Próprio Deus.
Mordred Deschain, por outro lado, tinha dois pais reais. Um dos quais agora dormia no monitor diante dele.
Você está velho, pai, ele pensou. Dava-lhe um prazer perverso pensar assim; também o fazia se sentir pequeno, ordinário, não mais que... bem, não mais que uma aranha, olhando de sua teia. Mordred era um duplo e ia permanecer como duplo até Roland do Eld estar morto e o último ka-tet destruído. E a voz saudosa que o mandava ir para Roland e chamá-lo de pai? Chamar Eddie e Jake de irmãos, Susannah de irmã? Aquela era a voz ingênua de sua mãe. Eles o matariam antes que uma só palavra conseguisse sair de sua boca (presumindo que já então tivesse alcançado um estágio onde pudesse fazer mais do que balbuciar). Eles iriam cortar suas bolas e as dar de comida para o trapalhão do pirralho. Iriam enterrar seu cadáver cas-trado, cagar no chão onde ele se encontrasse e depois seguir adiante.
Você finalmente envelheceu, pai, e agora você anda meio coxo e, no fim do dia, vejo você esfregar o quadril com a mão que já manifesta um pequeno tremor.
Olhem, se quiserem. Aí está um bebê com sangue sujando a pele cla-ra. Aí está um bebê vertendo lágrimas silenciosas, medrosas. Aí está um bebê que ao mesmo tempo sabe demais e de menos, e embora devamos manter nossos dedos longe de sua boca (ele morde, este bebê; morde co-mo filhote de crocodilo), estamos autorizados a ter uma certa pena dele. Se o ka é um trem — e é, um monotrem grande e brutal, talvez são, talvez não —, então esta pequena e repugnante licantrope é seu mais vulnerável reftém, não amarrado aos trilhos como a pequena Nell, mas preso no pró-prio farol da coisa.
Ele pode dizer a si mesmo que tem dois pais e pode haver alguma verdade nisso, mas não vemos mais pai e muito menos mãe. Comeu a mãe viva, essa é a verdade, comeu-a legal, foi sua primeira refeição e, afinal, que opção ele teve? Ele é o último milagre gerado pela Torre Negra ainda de pé, a cicatriz que une o racional e o irracional, o natural e o sobrenatural, e, no entanto está sozinho e está hiper com fome. O destino pode ter pre-tendido que governasse uma cadeia de universos (ou destruísse todos), mas ele ainda não conseguiu estabelecer domínio sobre coisa alguma, a não ser um velho robô doméstico que foi agora para a clareira no fim do caminho.
Ele contempla o pistoleiro adormecido com amor e ódio, abomina-ção e ânsia. Mas vamos supor que se aproximasse deles e não fosse morto? Vamos supor que o aceitassem no grupo. Idéia ridícula, sim, mas vale pelo amor à reflexão. Mesmo assim iam querer que ele colocasse Roland acima dele, iam querer que aceitasse Roland como dinh e isso ele nunca vai fazer, nunca, não, nunca.