A Torre Negra, Vol. 7
Cinco
Dois can-toi estavam esperando para escoltar o Mestre e seu chefe de se-gurança até o andar de baixo. Pimli refletiu sobre como era estranho que todos (tanto os Sapadores quanto os funcionários de Algul Siento) tives-sem passado a chamar os can-toi de “homens baixos”. Porque fora Brauti-gan quem cunhara a expressão. “Fale dos anjos, ouça o bater de suas asas, dizia a querida mamãe de Prentiss, mas Pimli supunha que se existissem verdadeiros homens-animais naqueles últimos dias do verdadeiro mundo, sem dúvida os can-toi preencheriam o quesito muito melhor que os tahe-ens. Quem os visse sem aquelas máscaras esquisitas que eles usavam ia a-char que eram taheens com cabeças de ratos. Mas ao contrário dos verda-deiros taheens, que consideravam os humos (tirando algumas exceções no-táveis, como o próprio Pimli) como uma raça inferior, os can-toi cultua-vam a forma humo como divina. Usavam as máscaras no culto? Eles não se manifestavam sobre o assunto, mas Pimli achava que não. A seu ver eles acreditavam que estavam se tornando humanos — por isso, da primeira vez que punham as máscaras (de carne viva, cultivada antes que fabricada), a-dotavam um nome humo para combinar com seu aspecto humo. Pimli sa-bia que eles acreditavam que iam substituir os seres humanos após a Que-da... embora como conseguiam crer numa coisa dessas estava inteiramente além de sua imaginação. Haveria um céu após a Queda, isso era óbvio para qualquer um que já tivesse lido o Apocalipse... mas Terra?
Alguma nova Terra, talvez, mas Pimli não tinha muita certeza disso.
Dois guardas de segurança can-toi, Beeman e Trelawney, estavam postados no final do corredor, vigiando o início da escada que levava ao subsolo. Para Pimli, todos os homens can-toi, mesmo os de cabelo louro e porte magro, ficavam estranhamente parecidos com Clark Gable, aquele ator dos anos 40 e 50. Todos pareciam ter os mesmos lábios grossos, sen-suais, e orelhas tipo morcego. Então, quando a pessoa chegava bem perto, via as rugas artificiais no pescoço e atrás das orelhas, onde as máscaras de humos se espiralavam até entrarem na carne peluda e cheia de caroços que era a realidade deles (quer a aceitassem ou não). E havia os olhos. O pêlo os cercava e, se a pessoa olhasse de perto, ia ver que aquilo que a princípio pareciam órbitas eram, de fato, apenas buracos naquelas singulares máscaras feitas de carne viva. Às vezes se podia ouvir as próprias máscaras respiran-do, o que Pimli achava ao mesmo tempo estranho e um tanto revoltante.
— Salve — disse Beeman.
— Salve — disse Trelawney.
Pimli e Finli retribuíram o cumprimento, colocando os punhos nas testas e então Pimli tomou a frente e seguiu para baixo. No corredor infe-rior, ao passarem por uma placa dizendo DEVEMOS TRABALHAR JUNTOS PARA CRIAR UM AMBIENTE LIVRE DO FOGO e outra dizendo TODOS SAÚDAM OS CAN-TOI, Finli comentou muito baixo:
— Eles são tão estranhos.
Pimli sorriu e deu um tapinha nas costas do outro. Era por isso que gostava realmente de Finli de Tego: pensavam do mesmo modo, como fulano e beltrano.
SEIS
A maior parte do subsolo da Casa Damli era um grande espaço entulhado de equipamentos. Nem tudo aquilo funcionava e uma parte das coisas que funcionavam não tinha utilidade para eles (havia muitas que eles não sabi-am sequer para que poderiam servir). Estavam, no entanto, bastante famili-arizados com os aparelhos de vigilância e os de telemetria, que mediam os escuros: unidades de energia psíquica despendida. Os Sapadores eram ex-pressamente proibidos de empregar suas aptidões psíquicas fora do estú-dio, e nem todos conseguiam fazer isto, de qualquer jeito. Muitos eram como homens e mulheres tão severamente treinados em termos de banhei-ro que seriam incapazes de urinar sem os estímulos visuais assegurando que sim, estavam no banheiro, e sim, nenhum problema em soltar a urina. Outros eram como crianças que ainda não saíram da fralda e não consegui-am evitar o ocasional surto psíquico. O único resultado disto poderia ser provocar em alguém de que não gostavam uma breve dor de cabeça ou fazer cair um banco do Passeio, mas os homens de Pimli estavam sempre de olho e os surtos que ocorriam “de propósito” eram punidos, das pri-meiras vezes levemente. Desobediências repetidas eram punidas com seve-ridade rapidamente ascendente. E, como Pimli gostava de dizer em ser-mões para os recém-chegados (antigamente, nos tempos em que ainda ha-via recém-chegados): “Tenham certeza de que seus pecados o revelarão.” O texto da bíblia de Finli era ainda mais simples: A telemetria não mente.
Naquele dia nada encontraram além de efêmeros bips nos leitores de telemetria. Tão sem importância quanto teriam sido quatro horas de grava-ção dos peidos e arrotos de qualquer grupo. Também as câmeras de vídeo e os relatórios dos guardas de serviço não apresentavam nada de interesse.
-— Satisfeito, sai? — Finli perguntou, e algo na voz dele fez com que Pimli se virasse e o olhasse atentamente.
— Você está?
Finli de Tego suspirou. Em horas como aquela, Pimli gostaria que Finli fosse humo ou que ele próprio fosse um verdadeiro taheen. O pro-blema eram os inexpressivos olhos negros de Finli. Eram quase os olhos de botão de uma boneca da Raggedy Andy, e simplesmente não havia mo-do de lê-los. A menos, talvez, que o sujeito fosse de fato taheen.
— Há semanas não venho me sentindo muito bem — disse Finli por fim. — Tenho bebido graf demais para dormir, depois passo o dia inteiro me arrastando, implicando com as pessoas. Parte disso se deve à falha de comunicações desde que o último Feixe foi...
— Você sabe que era inevitável...
— Sim, é claro que sei. O que estou dizendo é que estou tentando encontrar motivos racionais para explicar sensações irracionais e isso não é um bom sinal.
Na parede oposta havia uma gravura das cataratas de Niágara. Algum guarda can-toi a virará de cabeça para baixo. Os homens baixos considera-vam que virar quadros de cabeça para baixo era o absoluto apogeu do hu-mor. Pimli não conseguia imaginar por quê. Mas, no fim das contas, quem se importava com esta porra? Também sei fazer trabalho inútil, ele pensou vi-rando as cataratas para cima. Sei fazer e, no fundo, nada importa, Deus e o Ho-mem Jesus sejam louvados.
— Sempre soubemos que as coisas iam ficar meio doidas quando o fim se aproximasse — disse Finli —, então me digo que é só isso. Esta... você sabe...
— Esta sensação que você tem — ajudou o ex-Paul Prentiss. Depois sorriu e estendeu o dedo indicador direito para um círculo feito pelo pole-gar e o indicador da mão esquerda. Era um gesto taheen que significava: estou lhe dizendo a verdade. — Esta sensação irracional.
— Pois é. Certamente eu sei que o Leão que Sangra não reapareceu no norte nem acredito que o sol esteja esfriando a partir de dentro. Ouvi historias sobre a loucura do Rei Vermelho e sobre o Dan-Tete que teria chegado para tomar seu lugar, mas tudo que posso dizer é “vou acreditar quando meus olhos virem.” O mesmo se dá com esta notícia maravilhosa de como um pistoleiro veio do Ocidente para salvar a Torre, como está previsto por velhos contos e canções. Tudo isso é besteira.
Pimli deu uma palmadinha no ombro dele.
— Faz bem ao meu coração ouvi-lo falar assim!
Sem dúvida fazia. Finli de Tego trabalhara bem para caramba durante seu período como chefe. Durante anos, a equipe de segurança tivera de matar meia dúzia de Sapadores — desatinados com saudades de casa que tentavam fugir —, e dois haviam sido lobotomizados. Ted Brautigan fora o único que conseguira passar “sob a cerca” (Pimli tomara a expressão de um filme chamado Stalag 17), e eles o tinham trazido de volta, por Deus! Os can-toi ficaram com o crédito e o chefe de segurança deixou que ficassem, mas Pimli conhecia a verdade: fora Finli quem coreografara cada movi-mento, do início ao fim.
— Mas esta minha sensação pode ser mais que apenas nervoso — Finli continuou. — Eu realmente acredito que as pessoas às vezes têm intui-ções confiáveis. — Ele riu. — Como seria possível não acreditar nisso, num lugar tão roído de precognições e poscognições?
— Mas não telecinese — disse Pimli. — Certo?
A telecinese era o único dos chamados dons selvagens de que todos os funcionários do Devar tinham medo, e não sem motivo. Não havia limi-te para o tipo de transtorno que uma telecinese podia desencadear. Sugar cerca de 1,6 hectare de espaço sideral, por exemplo, e criar um furacão in-duzido pelo vácuo. Felizmente havia um teste simples para isolar este ta-lento particular (fácil de administrar, embora o equipamento necessário fosse outro remanescente do Povo Antigo e ninguém soubesse por quanto tempo continuaria a funcionar) e um procedimento igualmente simples (também deixado para trás pelos antigos) para interromper circuitos orgâ-nicos tão perigosos. O dr. Gangli era capaz de tratar de telecinéticos po-tenciais em menos de dois minutos. “Tão simples que faz uma vasectomia ficar parecendo cirurgia de cérebro”, dissera ele um dia.
— Tolerância zero na telecinese — era o que Finli dizia, agora con-duzindo Prentiss para um console cheio de instrumentos. Algo estranha-mente parecido com a visualização que Susannah Dean fazia de seu Do-gan. Ele apontou para as marcas nos mostradores do Povo Antigo (marcas similares às da Porta Não-Encontrada). O ponteiro de cada mostrador co-meçava parado num O à esquerda. Quando Finli batia nos mostradores com seus polegares peludos, eles saltavam um pouco e depois retrocediam.
— Não sabemos exatamente o que esses mostradores estavam desti-nados a medir — disse ele —, mas uma coisa que realmente medem é o po-tencial telecinético. Lidamos com Sapadores que tentaram ocultar o dom e não conseguiram. Se houvesse um telecinético aqui perto, Pimli de Nova Jérsei, esses ponteiros estariam chegando à marca dos cinqüenta ou até mesmo oitenta.
— Pois é. — Meio sorridente, meio a sério, Pimli começou a contar nos dedos. — Nenhuma telecinese, nenhum Leão que Sangra chegando do norte, nenhum pistoleiro. Ah, e os Capas Verdes sucumbiram a um vírus de computador! Se esse é o caso, o que está incomodando você? O que é que dá esse Mandraque em você?
— O fim próximo é o que está por trás, eu acho. — Finli suspirou ru-idosamente. — Esta noite vou dobrar o número de guardas nas torres de vigia. Vão detectar qualquer Ro’ ou qualquer humo ao longo da cerca.
— Porque algo anda meio Mandraque. — Era Pimli, sorrindo ligei-ramente.
— É, Mandraque, pois é. — Finli não sorriu; os dentinhos marotos continuaram ocultos dentro do brilhante focinho marrom.
Pimli deu uma palmadinha no ombro dele.
— Ande, vamos subir até o estúdio. Talvez a visão de todos esses Sa-padores trabalhando consiga acalmá-lo.
— Talvez sim — disse Finli, mas continuou sem sorrir.
— Está tudo bem, Fin — disse Pimli num tom amável.
— Também acho — respondeu o taheen, olhando com ar de dúvida para o equipamento e depois para Beeman e Trelawney, os dois homens baixos que, parados na porta, esperavam respeitosamente que os dois grandes chefes acabassem de palestrar. — Também acho que sim. — Só que, no fundo, seu coração não acreditava naquilo. No fundo, a única coisa em que certamente seu coração acreditava era que não havia sobrado tele-cinéticos em Algul Siento.
A telemetria não mentia.
SETE
Beeman e Trelawney acompanharam os dois pelo corredor do subsolo, forrado com lambris de carvalho, até o elevador dos funcionários, também forrado de carvalho. Na parede do elevador havia um extintor de incêndio e outra placa lembrando ao folken do Devar que eles tinham de trabalhar em conjunto para criar um ambiente livre de fogo.
A placa também fora virada de cabeça para baixo.
Os olhos de Pimli encontraram os de Finli. O Mestre acreditou ter visto um ar de divertimento nos olhos de seu chefe de segurança, mas cla-ro que o que via podia não ser mais que seu próprio senso de humor refle-tido no outro, como um rosto refletido num espelho. Finli soltou a placa sem uma palavra e virou-a para cima. Nenhum dos dois comentou sobre o mecanismo do elevador, barulhento, como se estivesse direito. Nem sobre o modo como o carro estremecia no poço. Se o elevador parasse, escapar pelo alçapão de cima não seria problema, nem mesmo para um sujeito co-mo Prentiss. A Casa Damli não era exatamente um arranha-céu e sempre havia muita ajuda por perto.
Alcançaram o terceiro andar, onde a placa na porta fechada estava na posição certa. Dizia EXCLUSIVO PARA FUNCIONÁRIOS e POR FAVOR USE O CARTÃO e DESÇA IMEDIATAMENTE SE TI-VER CHEGADO A ESTE ANDAR POR ENGANO. VOCÊ NÃO SERÁ PUNIDO SE COMUNICAR IMEDIATAMENTE O FATO.
Ao puxar o cartão de código, Finli disse num tom casual, possivel-mente falso (a porra daqueles olhos negros indevassáveis).
— Alguma notícia de sai Sayre?
— Não — disse Pimli (um tanto mal-humorado) —, nem espero sa-ber. Estamos isolados aqui por um determinado motivo. Fomos propo-sitalmente esquecidos no deserto, exatamente como os cientistas do Proje-to Manhattan na década de 1940. Da última vez que o vi, ele me disse que talvez aquela fosse... bem, a última vez que ia vê-lo.
— Relaxe — disse Finli. — Foi só uma pergunta. — Enfiou o cartão de código na ranhura e a porta do elevador começou a se abrir, deslizando com um ggguincho metálico um tanto infernal.
OITO
O estúdio era um salão alto e comprido, no centro de Damli, também for-rado de carvalho e ocupando uma altura de três andares inteiros até um teto de vidro que deixava o sol de Algul, arduamente conquistado, nele penetrar. Na sacada interna diante da porta por onde Prentiss e Tego en-traram havia um curioso trio constituído por um taheen com cabeça de corvo, chamado Jakli, um técnico can-toi, chamado Conroy, e dois guardas humos cujos nomes Pimli não conseguiu lembrar de imediato. Os taheen, os can-toi e os humos se davam durante as horas de trabalho graças a uma cuidadosa — e às vezes frágil — cortesia, mas ninguém esperava vê-los convivendo uns com os outros nas horas de folga. E sem dúvida a sacada era zona estritamente proibida quando se tratava de “folga”. Os Sapadores lá embaixo não eram nem animais num zôo nem peixes exóticos num a-quário; Pimli (assim como Finli de Tego) levantara repetidas vezes este as-sunto com os funcionários. O Mestre de Algul Siento só tivera de loboto-mizar um único membro do quadro de funcionários durante todo o seu período de serviço ali, um guarda humo completamente idiota chamado David Burke, que por incrível que pareça atirava coisas — cascas de amen-doim? — nos Sapadores lá embaixo. Quando Burke percebeu que o Mes-tre não estava brincando quando falava em lobotomizá-lo, implorou por uma segunda chance, prometendo que nunca mais faria uma coisa tão tola e desmoralizante. Pimli fizera ouvidos moucos. Vira ali uma oportunidade de dar um exemplo que seria lembrado durante anos, talvez décadas, e le-vou a coisa à frente. Agora era possível ver o verdadeiro idiota do sr. Burke rondando por ali, caminhando no Passeio ou pela zona fronteiriça entre eles e os Rods, o queixo caído, os olhos vagamente confusos — eu quase sei quem sou, eu quase me lembro do que fiz para terminar desse jeito, aqueles olhos diziam. Era um exemplo vivo do que certamente não se devia fazer quan-do se estava na presença de Sapadores em ação. Mas não havia regra proi-bindo expressamente os funcionários de subirem ali e todos eles faziam isso de vez em quando.
Porque refrescava.
Em primeiro lugar, estar perto de Sapadores em ação tornava a con-versa desnecessária. A chamada “boa mente” batia pelos dois lados quando a pessoa descia o corredor do terceiro andar, vindo de qualquer elevador, e quando abria as portas que davam para o balcão. A boa mente florescia na cabeça, abrindo todo tipo de portas da percepção. Aldous Huxley, Pimli pensara em mais de uma oportunidade, teria ficado absolutamente pirado ali. Às vezes se via os calcanhares deixando o piso numa levitação maluca. O conteúdo dos bolsos tendia a subir e ficar pendurado no ar. Situações difíceis pareciam se resolver sozinhas no momento em que a pessoa dirigia os pensamentos para elas. Se você tivesse esquecido alguma coisa, o en-contro das cinco ou o primeiro sobrenome do cunhado, por exemplo, a-quele era o lugar onde tudo seria lembrado. E mesmo se você se desse conta de que o que tinha esquecido era algo importante, você nunca ficava angustiado. O folken deixava a sacada com sorrisos nos rostos, mesmo quem tivesse chegado ali no pior dos humores (um péssimo humor, aliás, era uma excelente razão para visitar a sacada). Era como se algum gás da felicidade, invisível ao olho e não detectável mesmo pela telemetria mais sofisticada, acabasse sempre brotando dos Sapadores lá embaixo.
Os dois saudaram o trio na frente deles, depois se aproximaram do amplo parapeito de carvalho raiado e olhavam para baixo. O salão lá em-baixo lembrava a vasta biblioteca de algum abastado clube masculino de Londres. Em mesinhas ou nas paredes (forradas de carvalho, é claro), lu-minárias brilhavam suavemente, muitas com genuínas cúpulas Tiffany. Os tapetes eram os mais requintados tapetes turcos. Numa das paredes, havia um Matisse, noutra um Rembrandt... numa terceira estava a Mona Lisa. A verdadeira, ao contrário da falsificação pendurada no Louvre da Terra-Base. Havia um homem diante do quadro com os braços entrelaçados nas costas. Visto de cima, parecia estar estudando a pintura — talvez tentando decifrar o famoso sorriso enigmático —, mas Pimli achava que não. Os homens e mulheres segurando revistas também pareciam estar lendo, mas quem ficasse perto ia reparar que olhavam para o vazio por cima de seus McCall’s e Harper’s, às vezes para o lado. Uma menina de 11 ou 12 anos (num esplêndido vestido listrado de verão que talvez tivesse custado mil e seiscentos dólares numa butique infantil da Rodeo Drive) estava parada diante de uma casinha em miniatura perto da lareira, mas Pimli sabia que não estava prestando a menor atenção àquela réplica primorosa da Casa Damli.
Trinta e três lá embaixo. Trinta e três ao todo. Às oito horas, uma ho-ra depois de o sol artificial se apagar, 33 novos Sapadores iriam chegar. Mas havia um sujeito — um e só um — que ia e vinha como quisesse. Um sujeito que tentara passar sob a cerca e não sofrerá absolutamente qualquer castigo... Apenas, claro, fora trazido de volta, o que para aquele homem era castigo suficiente.
Como se o pensamento o tivesse convocado em carne e osso, a porta no final do salão se abriu e Ted Brautigan entrou discretamente. Ainda es-tava usando o boné de tweed de andar de bicicleta. Daneeka Rostov desvi-ou os olhos da miniatura da casa e sorriu para ele. Brautigan retribuiu com um piscar de olhos. Pimli deu a Finli uma leve cotovelada.
Finli: (Estou vendo)
Mas era mais que ver. Eles o sentiam. No momento em que Brautigan entrou no salão, quem estava na sacada — e, muito mais importante, quem estava no térreo — sentia aumentar o nível da força. Ainda não estavam completamente certos do que havia com Brautigan e o equipamento de teste não estava ajudando (a velha raposa estourara diversos componentes sozinho, e de propósito, disso o mestre tinha certeza). Talvez existissem outros como Brautigan, mas os homens baixos ainda não haviam encon-trado ninguém com tal manancial de dons (agora desnecessários; eles já possuíam todos os talentos de que precisavam para o trabalho ser concluí-do). Uma coisa que parecia realmente clara era o dom de Brautigan como indutor, um agente psíquico que era não apenas poderoso por si mesmo, mas capaz de promover as aptidões de outros simplesmente por estar per-to deles. Os pensamentos de Finli, habitualmente não detectáveis sequer pelos Sapadores, agora ardiam na mente de Pimli como néon.
Finli: (Ele é extraordinário)
Pimli: (E, pelo que sabemos, único Você já viu a coisa quê)
Imagem: Olhos crescendo e se contraindo, crescendo e se contraindo.
Finli: (Sim E sabe o que provoca isso)
Pimli: (Absolutamente não Nem me importo caro Finli nem me importo Esse ve-lho)
Imagem: Um velho vira-lata com parasitas no pêlo malhado, mancan-do em três pernas.
(quase acabou seu trabalho quase na hora de)
Imagem: Um revólver, uma das Berettas dos guardas humos, encos-tada do lado da cabeça do velho vira-lata.
Três andares abaixo, o tema da conversa dos dois pegou um jornal (os jornais eram todos velhos agora, de muitos anos atrás, velhos como o próprio Brautigan) e sentou-se numa poltrona de encosto alto, forro de couro e grandes braços, tão volumosa que pareceu engoli-lo e deu uma impressão de estar lendo.
Pimli sentiu a força psíquica passando por eles, através deles, erguen-do-se para a clarabóia, passando também por ela e chegando ao Feixe que corria diretamente sobre Algul, trabalhando para sapá-lo, tirando lascas, provocando erosão, raspando sem cessar contra as veias dele. Abrindo fe-ridas em sua magia. Trabalhando pacientemente para apagar os olhos do Urso. Para rachar o casco da Tartaruga. Para quebrar o Feixe que corria de Shardik a Maturin. Para derrubar a Torre Negra que ficava entre um e ou-tro.
Pimli se virou para seu companheiro e não ficou espantado ao perce-ber os dentinhos marotos na boca de fuinha de Tego. Finalmente sorrindo! Nem ficou espantado ao perceber que podia ler os olhos negros. Em cir-cunstâncias normais, os taheens podiam enviar e receber algumas comuni-cações mentais muito simples, sem estabelecer um verdadeiro diálogo. A-gora, contudo, tudo isso mudara. Agora...
...agora Finli de Tego estava em paz. Suas preocupações
(Mandraque)
não existiam mais. Pelo menos naquele momento.
Pimli enviou a Finli uma série de imagens nítidas: uma garrafa de champanhe sendo quebrada na popa de um barco; centenas de chapéus negros, chapéus de festa de formatura, se erguendo no ar; uma bandeira sendo fincada no monte Everest; um casal sorridente saindo de uma igreja, cabeças baixas para se protegerem de uma tremenda tempestade de arroz; um planeta (a Terra) surgindo de repente com brilho febril.
Imagens que diziam todas a mesma coisa.
— Sim — disse Finli, e Pimli se perguntava como podia ter achado difícil decifrar o que diziam aqueles olhos. — Sim, de fato. O triunfo no fim do dia.
Nenhum dos dois olhou para baixo naquele momento. Se o tivessem feito, teriam visto Ted Brautigan — um velho cão, sim, e cansado, mas talvez não tão cansado quanto alguns imaginavam — olhando para eles.
Com uma sombra de seu próprio sorriso.
NOVE
Nunca chovia ali, pelo menos não chovera durante os anos de Pimli, mas às vezes, na dantesca escuridão das noites, havia grandes seqüências de trovões secos. A maioria dos funcionários do Devar-Toi tinham se condi-cionado a dormir no meio dessa fuzilaria, mas Pimli acordava freqüente-mente, o coração palpitando na garganta, o Pai-Nosso, como um círculo de rodopiante fita vermelha, correndo por sua mente quase toda inconsci-ente.
No início daquele dia, conversando com Finli, o Senhor de Algul Si-ento usara a expressão Mandraque com um sorriso acanhado, e por que não? Era uma expressão infantil, quase como gatô-tô-tô ou uni-duni-tê.
Agora, deitado em sua cama na Casa Shapleigh (conhecida como Casa da Merda pelos Sapadores), a um Passeio inteiro de distância da Casa Da-mli, Pimli lembrou a sensação — a certeza absoluta — de que tudo ia ficar bem; sucesso garantido, só uma questão de tempo. Finli compartilhara este sentimento na sacada, mas Pimli achava que seu chefe de segurança tam-bém poderia estar rolando na cama, ponderando como era fácil ser enga-nado quando se estava trabalhando com os Sapadores. Porque, era bom não esquecer, eles mandavam aquele gás da felicidade. Aquela vibração mental positiva.
E vamos supor... apenas supor... que alguém estivesse muito proposi-talmente canalizando aquela sensação. Enviando-a às pessoas como canção de ninar. Vá dormir, Pimli, vá dormir, Finli, vão dormir como crianças boazinhas...
Idéia ridícula, totalmente paranóica. Contudo, quando outro estrondo duplo de trovão veio rolando do que talvez fosse ainda o sudeste (pelo menos o trovão veio da direção de Fedic e da Discórdia), Pimli Prentiss sentou-se na cama e acendeu o abajur da mesinha-de-cabeceira.
Finli tinha falado em dobrar o número de guardas naquela noite, tan-to nas torres de vigia quanto ao longo das cercas. Talvez amanhã pudessem triplicá-lo. Só por via das dúvidas. E porque ser complacente assim tão perto do fim seria, sem dúvida, uma péssima idéia.
Pimli se levantou da cama, um homem alto com um peludo paredão de pança. Usava uma calça de pijama azul e nada mais. Depois de mijar, ajoelhou-se na frente do vaso sanitário com a tampa abaixada, cruzou as mãos e rezou até vir o sono. Rezou para ser capaz de cumprir seu dever. Rezou para conseguir enxergar problemas antes que eles o enxergassem. Rezou pela sua mamãe, assim como Jim Jones rezara pela dele enquanto contemplava a fila se deslocar para o caldeirão de Kool-Aid envenenado. Rezou até o trovão ter se reduzido a pouco mais que um murmúrio senil. Depois voltou para a cama, de novo calmo. Seu último pensamento antes de apagar foi de querer triplicar o número de guardas, seria a primeira coisa a fazer de manhã e foi de fato a primeira coisa em que pensou quando a-cordou num banho de sol artificial no quarto dele. Porque tem que se to-mar cuidado com os ovos quando se está chegando em casa.