A Torre Negra, Vol. 7
Quatro
Três horas mais tarde, chegaram ao sopé de um morrote muito mais ín-greme. Era, dizia o coração de Roland, a última subida. O Can’-Ka No Rey estava do outro lado. No topo, à direita, havia um monte de pedras que outrora formavam uma pequena pirâmide. O que sobrava chegaria talvez a 10 metros de altura. Rosas cresciam ao redor da base num rude anel escar-late. Mirando naquilo, Roland subiu devagar a colina, puxando o carrinho pelas alças. A partir de certo ponto, o topo da Torre Negra de novo apare-ceu. Cada passo trazia uma extensão maior da Torre para seu campo de visão. Agora já podia ver as sacadas com parapeitos na altura da cintura. Não era preciso usar o binóculo; o ar estava extraordinariamente claro. Calculou em no máximo 8 quilômetros a distância que faltava vencer. Tal-vez não passasse de 5. Nível após nível da Torre surgia ante seu olhar, um olhar não de todo descrente.
Bem próximo do topo da colina, com a arruinada pirâmide de pedras sempre à direita, agora a vinte passos deles, Roland parou, se curvou e pousou pela última vez as alças do carrinho na estrada. Cada nervo de seu corpo falava de perigo.
— Patrick? Pule.
Patrick obedeceu, olhando ansioso para o rosto de Roland e piando. O pistoleiro balançou a cabeça.
— Ainda não posso dizer por quê. Mas sei que aqui não é seguro. — As vozes cantavam num grande coro, mas o ar ao redor estava parado. Nem um só pássaro voava nos ares ou cantava na distância. Todas as ma-nadas errantes de bisões tinham sido deixadas para trás. Uma brisa sussur-rava em volta deles e a relva se movia um pouco. As rosas inclinavam os caules silvestres.
Os dois seguiram juntos e, a certa altura, Roland sentiu um toque tí-mido nos dois dedos da mão direita. Olhou para Patrick. O garoto mudo olhava ansioso de volta, tentando sorrir. Roland pegou a mão dele e foi assim que chegaram à crista da colina.
Embaixo deles havia um grande manto vermelho que se estendia, em todas as direções, até o horizonte. A estrada passava através dele, uma faixa branca e empoeirada perfeitamente reta, com uns 4 metros de largura. No meio do campo de rosas, ficava a Torre com seu escuro tom cinzento de fuligem, exatamente como tinha aparecido nos sonhos de Roland; as jane-las brilhavam no sol. Lá a estrada se bifurcava e executava um perfeito cír-culo branco ao redor da base da Torre para continuar seguindo pelo outro lado, na direção do que agora Roland acreditava ser precisamente o leste, em vez de sudeste. Outra estrada cruzava em ângulos retos a estrada da Torre: vinda do norte e do sul, se de fato, como ele acreditava, os pontos cardeais tivessem sido restabelecidos. Vista do ar, a Torre Negra pareceria o centro de uma mira de revólver cheio de sangue.
— É... — Roland começou e então um grito enlouquecido flutuou na brisa, estranhamente não abafado pelos quilômetros da distância. Avança pelo Feixe, Roland pensou. E é carregado pelas rosas.
— PISTOLEIRO! — gritou o Rei Rubro. — AGORA VOCÊ MOR-RE!
Houve um som assobiante, a princípio fraco, mas que logo aumentou. Foi cortando a canção combinada da Torre e das rosas como a lâmina mais afiada de todas já afiadas numa roda de pó de diamante. Patrick ficou atô-nito, espreitando mudamente para a Torre; teria sido explodido e ejetado das botas se não fosse salvo por Roland, cujos reflexos continuavam rápi-dos como sempre, puxando-o pelas mãos para trás do monte de pedras da pirâmide. Havia outras pedras ocultas na vegetação alta, de urtigas e erva-do-diabo; tropeçaram nelas e se estatelaram no chão. Roland sentiu a quina de um pedregulho se espetar dolorosamente em suas costelas.
Continuando a aumentar, o assobio ia se transformando num silvo de arrebentar os tímpanos. Roland viu o lampejo de alguma coisa dourada cortando o ar — um dos pomos de ouro. O projétil atingiu o carrinho e o fez explodir, espalhando para todo lado a tralha deles. A maioria das coisas acabou caindo na estrada; foram latas rolando e batendo umas nas outras, algumas estourando.
Então veio um riso alto, trepidante, que fez ranger os dentes de Ro-land; a seu lado Patrick tapava os ouvidos. A loucura naquele riso era quase insuportável.
— APAREÇA! — instigou a voz distante, enlouquecida, gargalhante. — APAREÇA E VAMOS BRINCAR, ROLAND! VENHA PARA MIM! VENHA AFINAL PARA SUA TORRE DEPOIS DE TÃO LONGOS A-NOS, O QUE ME DIZ ?
Patrick o encarava, olhos desesperados e assustados. Apertava o blo-co de desenho contra o peito, como um escudo.
Espreitando cautelosamente por trás do canto da pirâmide, Roland viu, numa sacada dois andares acima da base da Torre, exatamente o que vira na pintura de sai Sayre: uma mancha vermelha e três manchas brancas; uma face e duas mãos erguidas. Mas aquilo não era pintura e uma das mãos fez um gesto rápido de quem atira alguma coisa. Outro zumbido infernal se elevou no ar. Roland rolou para trás contra os destroços da pirâmide. Depois de um intervalo que pareceu sem fim, o pomo de ouro atingiu o outro lado da pirâmide e explodiu. A onda de choque jogou-os de cara no chão. Patrick gritou aterrorizado. Rajadas de pedras caíram dos dois lados. Algumas bateram com força na estrada, mas Roland não viu ia única lasca atingindo uma só rosa.
O garoto se colocou de joelhos e parecia que ia sair correndo (prova-mente de volta à estrada), mas Roland o agarrou pela gola do casaco de pele, tornando a puxá-lo para baixo.
— Estamos bem seguros aqui — murmurou para Patrick. — Olhe!
Estendeu a mão para dentro de um buraco revelado pelas pedras que tinham se soltado e bateu no interior com os nós dos dedos. Houve um tilintar abafado e Roland mostrou os dentes num sorriso tenso. — Aço! Ié! Mesmo que ele acerte esta coisa com uma dúzia de suas bolas de fogo ado-ras, não vai conseguir derrubá-la. O máximo que vai conseguir é explodir a argamassa e as pedras, deixando exposto o que há por baixo, sabia disso? E não acho que ele vai desperdiçar munição. Não pode ter muito mais que um carregamento de burro.
Antes de Patrick ter tempo de responder, Roland tornou a espreitar ia beiradas irregulares da pirâmide. Fez concha com as mãos ao redor da bo-ca e gritou:
— TENTE DE NOVO, SAI! CONTINUAMOS AQUI, MAS QUEM SABE VOCÊ NÃO TEM SORTE NO PRÓXIMO ARREMESSO!
Houve um momento de silêncio, depois um grito insano:
— AAAAAAAAAAH! NÃO SE ATREVA A DEBOCHAR DE MIM! NÃO SE ATREVA! AAAAAAAAAAH!
Então veio outro daqueles assobios crescentes. Roland agarrou Pa-trick e caiu em cima dele atrás da pirâmide, mas sem encostar nela. Teve medo que pudesse vibrar com força suficiente, quando chegasse o pomo de ouro, para fazer uma concussão ou transformar em geléia suas entra-nhas.
Só que desta vez o pomo de ouro não atingiu a pirâmide. Ele a ultra-passou, voando por cima da estrada. Roland se afastou de Patrick e rolou de costas. Seus olhos captaram a mancha dourada e marcaram o lugar onde ela completou um círculo e deu a volta para atingir seus alvos. Acertou-a no ar como um prato de argila. Houve um clarão de cegar e a coisa sumiu.
— OH MEU CARO, AINDA AQUI! — Roland gritou, lutando para r na voz a nota certa de diversão e zombaria. Não era fácil quando você es-tava gritando a plenos pulmões.
Outro grito enlouquecido em resposta: AAAAAAAAAH! Roland ficou espantado que o Rei Vermelho não rachasse a própria cabeça de uma pon-ta à outra com esses gritos. Tornou a carregar o tambor que esvaziara — pretendia manter o revólver carregado pelo tempo que desse — e desta vez enfrentou um duplo silvo. Patrick gemeu, rolou de barriga, mergulhou a cabeça na relva salpicada de pedras e cobriu-a com as mãos. Roland sen-tou-se com as costas contra a pirâmide de pedras e de aço, o cano compri-do da pistola de largo calibre pousado na coxa, relaxado, à espera. Ao mesmo tempo voltou toda a sua força de vontade para um fim. Seus olhos queriam lacrimejar em resposta àquele silvo alto, cada vez mais próximo, mas não o podia permitir. Se alguma vez precisou da extraordinária agudez visual pela qual ficou conhecido em sua época, o momento era aquele.
E os olhos azuis ainda estavam claros quando os pomos de ouro pas-saram como raios sobre a estrada. Desta vez um fez a volta pela esquerda, o outro pela direita. Assumiram um procedimento evasivo, virando louca-mente primeiro para um lado e depois para outro. Isso não fez diferença. Roland esperou, sentado com as pernas esticadas e as velhas botas racha-das empinadas tranqüilamente num V, o coração batendo com firmeza, mas devagar, o olho cheio de toda a claridade e colorido do mundo (se en-xergasse um pouco melhor naquele último dia, talvez tivesse sido capaz de ver o vento). De repente sacou o revólver e fez explodir no ar ambos os pomos de ouro. Logo estava de novo recarregando os tambores vazios enquanto na frente de seus olhos, ao ritmo das batidas de seu coração, i-magens retardadas ainda pulsavam.
Inclinou-se para o canto da pirâmide, puxou o binóculo, que apoiou num conveniente patamar de rocha, e espreitou em busca do inimigo. O Rei Rubro quase saltou para ele e, pela primeira vez na vida, Roland viu exatamente o que tinha imaginado: um velho com um enorme nariz em forma de gancho e tom de cera, lábios vermelhos brotando na neve de uma barba luxuriante, cabelo muito branco se derramando pelas costas quase até as nádegas esquálidas. A face rosada do Rei Rubro espreitava os dois peregrinos. Ele usava um manto de vermelho brilhante, salpicado aqui e ali com raios e símbolos cabalísticos. Para Susannah, Eddie e Jake, o Rei teria lembrado Papai Noel. Para Roland parecia o que era: o Inferno en-carnado.
— COMO VOCÊ É LENTO! — gritou o pistoleiro num zombeteiro tom de assombro. — EXPERIMENTE TRÊS, TALVEZ COM TRÊS DE UMA VEZ VOCÊ ACERTE!
Olhar através do binóculo era como olhar numa ampulheta mágica inclinada para o lado. Roland viu o Grande Rei Vermelho dando saltos, sacudindo as mãos diante do rosto de um modo quase cômico. Roland a-chou que podia ver um caixote aos pés daquela figura coberta por um manto, mas não tinha certeza absoluta; as grades de ferro cheias de volutas entre o piso da sacada e o parapeito obscureciam a visão.
Só pode ser seu suprimento de munição, ele pensou. Só pode ser. Quantos pro-jéteis teria ele num caixote daquele tamanho? Vinte? Cinqüenta? Não importava. A não ser que o Rei Vermelho conseguisse atirar mais de 12 pomos de uma só vez, Roland confiava que poderia explodir no ar qualquer coisa que o velho demônio colocasse no seu caminho. Era para isso, afinal, que ele fo-ra feito.
Infelizmente o Rei Rubro sabia disso tão bem quanto Roland.
A coisa na sacada deu outro grito horrível, de rachar os tímpanos (Pa-trick tampou as orelhas sujas com os dedos sujos), e fez o gesto de quem se abaixava para pegar mais munição. De repente, no entanto, parou. Ro-land viu-o avançar para o parapeito da sacada... e espreitar diretamente pa-ra seus olhos. Era um olhar rubro, abrasador. O pistoleiro baixou o binó-culo de imediato para não ficar hipnotizado.
A voz do Rei flutuou até ele.
— ESPERE ENTÃO, ESPERE UM POUCO... E REFLITA SOBRE O QUE VOCÊ PODE GANHAR, ROLAND! PENSE COMO ESTÁ PERTO DELE E... PRESTE ATENÇÃO! OUÇA A CANÇÃO QUE CANTA SUA AMADA !
Então o Rei caiu em silêncio. Nada mais de assobios, nada mais de zumbidos, nada mais de pomos de ouro chegando. O que Roland ouvia era o sopro do vento... e o que o Rei queria que ele ouvisse:
O chamado da Torre.
Venha, Roland, cantavam as vozes. Vinham das rosas do Can’-Ka No Rey, vinham dos Feixes se fortalecendo lá em cima, vinham principalmente da própria Torre, aquilo que Roland buscara a vida inteira, que estava ago-ra, agora, por fim, a seu alcance... e que alguém queria manter longe dele. Se avançasse para a Torre, seria morto na área aberta. O chamado, no en-tanto, era como um anzol em sua mente, um anzol que puxava. O Rei Ru-bro sabia que se esperasse, a Torre faria seu trabalho. E, à medida que o tempo passava, Roland também percebeu isso. Porque as vozes que cha-mavam não eram constantes. No nível em que estavam naquele momento podia suportá-las. Na realidade as estava suportando. Mas ao passo que a tarde avançava, o timbre do chamado ficava mais forte. Ele começava a compreender — e com um horror crescente — por que nos seus sonhos e visões sempre se via chegando à Torre Negra ao pôr do sol, quando a luz no céu ocidental parecia refletir o campo de rosas, transformando tudo num balde de sangue suspenso por uma única escora, um sangue escuro como a meia-noite contra o horizonte ardente.
Ele se vira chegando ao pôr-do-sol porque era quando a chamada ca-da vez mais forte da Torre ia finalmente superar sua força de vontade. Ele iria. Nenhum poder sobre a Terra seria capaz de detê-lo.
O venha... venha... se transformava em VENHA... VENHA..., depois em VENHA! VENHA! Sua cabeça doía com aquilo. E por aquilo. Repetida-mente se via ficando de joelhos, obrigando-se, mais uma vez, a sentar e permanecer encostado na pirâmide.
Patrick o encarava com medo crescente. O garoto era parcial ou completamente imune àquele chamado (Roland entendeu isto), mas sabia o que estava acontecendo.
CINCO
Tinham ficado imóveis pelo que Roland julgava ter sido uma hora quando o Rei lançou outro par de pomos de ouro. Desta vez os projéteis passaram voando de ambos os lados da pirâmide e guinaram quase de imediato, diri-gindo-se para Roland em formação perfeita, apenas 6 metros um do outro. Ele acertou o da direita, girou o pulso para a esquerda e fez também o ou-tro explodir. A explosão do segundo foi próxima o bastante para fustigar seu rosto com ar quente, mas pelo menos não houve estilhaços; quando os pomos estouravam, parece que estouravam completamente.
— TENTE DE NOVO! — ele gritou. Sua garganta agora estava áspe-ra e seca, mas ele sabia que as palavras estavam sendo bem transportadas; o ar daquele local era feito para esse tipo de comunicação. E sabia que cada palavra era uma adaga cravada na carne do velho lunático. Mas Roland ti-nha seus próprios problemas. A chamada da Torre estava ficando cada vez mais forte.
— VENHA, PISTOLEIRO! — aliciou a voz do maluco. — TALVEZ, AFINAL, EU TE DEIXE VIR! PODEMOS, PELO MENOS, PALES-TRAR SOBRE O ASSUNTO, NÃO PODEMOS?
Para seu horror, Roland achou que estava sentindo uma certa sinceri-dade naquela voz.
Sim, ele pensou sombriamente. E podemos tomar um café. Ou beliscar, quem sabe, uma rosquinba.
Sua mão tateou, conseguiu tirar o relógio do bolso e abrir a tampa. Os ponteiros corriam vigorosamente para trás. Ele se inclinou contra a pirâ-mide e fechou os olhos, mas foi pior. O chamado da Torre
(venha, Roland venha, pistoleiro, commala-venha-venha, a jornada agora acabou)
estava mais alto, mais insistente que nunca. Tornando a abrir os o-lhos, Roland ergueu a cabeça para o implacável céu azul, vendo as colunas de nuvens que corriam por ele em direção à Torre e ao final do campo de rosas.
E a tortura continuou.
SEIS
Ele esperou mais uma hora enquanto as sombras dos arbustos e das rosas que cresciam perto da pirâmide se alongavam, nutrindo a esperança quase inútil de que algo lhe ocorreria, alguma idéia brilhante que evitaria ter que pôr sua vida e seu destino nas mãos do rapaz a seu lado, talentoso mas um tanto fraco da cabeça. Mas quando o sol começou a baixar pelo arco oci-dental do céu e o azul lá no alto começou a escurecer, Roland sabia que não havia mais nada. Os ponteiros do relógio de bolso giravam para trás ainda mais depressa. Logo estariam em uma rotação fora de controle. E quando começassem a fazer isso, ele iria. Com pomos ou sem pomos de ouro (e será que o maluco não tinha mais nada de reserva?), ia avançar. Correria, avançaria em ziguezague, cairia no chão e rastejaria se tivesse de rastejar. Mas não importa o que fizesse, sabia que seria muita sorte se con-seguisse cumprir pelo menos metade da distância até a Torre Negra antes de ser atirado no ar por uma explosão. Morreria entre as rosas.
— Patrick — ele chamou. A voz era rouca.
Patrick ergueu os olhos com intensidade desesperada. Roland con-templou as mãos do garoto — sujas, cheias de crostas, mas a seu modo tão incrivelmente talentosas quanto as de Roland — e se deu por vencido. O-correu-lhe que havia resistido até agora só por orgulho; quisera matar o Rei Rubro, não meramente enviá-lo para alguma zona de vácuo. E, é claro, não havia garantias de que Patrick pudesse fazer ao Rei o que fizera à ferida no rosto de Susannah. Mas o chamado da Torre logo ficaria tão forte que a resistência seria impossível e não existia qualquer outra opção.
— Troque de lugar comigo, Patrick.
Patrick obedeceu, passando cuidadosamente por cima de Roland. Fi-cou agora pelo lado da pirâmide mais próximo da estrada.
— Olhe pelo instrumento que vê longe. Apóie neste corte da pedra... sim, assim mesmo... Olhe.
Patrick olhou, e olhou pelo que pareceu a Roland um tempo muito longo. A voz da Torre, enquanto isso, cantava, repicava, adulava. Final-mente, Patrick voltou a olhar para o pistoleiro.
— Agora pega teu bloco, Patrick. Desenha aquele homem. — Não que fosse um homem, mas tinha a aparência.
A princípio Patrick continuou apenas a encarar Roland, mordendo o lábio. Então, por fim, pôs a cabeça do pistoleiro entre as mãos e puxou-o para a frente até as duas testas se tocarem.
Muito difícil, sussurrou uma voz no fundo da mente de Roland. Não era absolutamente a voz de um garoto, mas a voz de um homem adulto. Um homem poderoso. Ele não está inteiramente ali. Ele obscurece. Ele muda de cor.
Onde Roland já ouvira aquelas palavras?
Não havia tempo para pensar nisso agora.
— Está dizendo que não pode? — Roland perguntou, injetando (com um certo esforço) uma nota de frustrada incredulidade na voz. — Que você não pode? Que Patrick não pode? Que o Artista não pode?
Os olhos de Patrick se alteraram. Por um momento Roland viu neles a expressão que estaria permanentemente ali se Patrick se transformasse num homem feito... e as telas na sala de Sayre diziam que isso ia acontecer, pelo menos em algum trilho de tempo, em algum mundo. Patrick ficaria velho o bastante para pintar a recordação de tudo que estava vendo naque-le dia. A expressão seria de altivez se ele se tornasse um homem maduro com um pouco de sabedoria articulada ao talento; agora era só arrogância. O olhar de um garoto que sabe que é mais rápido que labaredas azuis, sabe que é o melhor e não precisa aprender mais nada. Roland conhecia aquele olhar. Afinal já não o vira a encará-lo de uma centena de espelhos e poças paradas de água quando ele era jovem assim como Patrick Danville?
Eu posso, veio a voz na cabeça de Roland. Só estou dizendo que não vai ser fácil. Vou precisar da borracha.
Roland balançou negativamente a cabeça. Em seu bolso, a mão se fe-chou em volta do que restava do pedaço rosado de borracha e apertou.
— Não — disse ele. — Deve desenhar a frio, Patrick. Cada traço de-ve sair certo logo da primeira vez. Apagar só mais tarde.
Por um momento o olhar de arrogância fraquejou, mas só por um momento. Quando voltou, o que veio com ele agradou tremendamente ao pistoleiro e também o tranqüilizou um pouco. Era um olhar de extrema vibração. O olhar que o homem talentoso usa quando, depois de anos a se mover sonolentamente de um lado para o outro, alguém finalmente o desa-fia a fazer algo que colocará à prova suas aptidões, algo que as fará chegar a seus limites. Talvez a ultrapassá-los.
Patrick rolou de novo para o binóculo, que deixara escorado um pou-co de lado, logo abaixo do corte na pedra. Observou um longo tempo en-quanto as vozes cantavam cada vez mais intensamente seu imperativo na cabeça de Roland.
E por fim Patrick voltou à antiga posição, pegou o bloco e começou a fazer o desenho mais importante de sua vida.
SETE
Foi um trabalho lento em comparação com o método habitual de Patrick — traços rápidos que produziam em questão de minutos um desenho completo e fascinante. Várias vezes, Roland teve de se conter para não gri-tar com o garoto: Depressa! Pelo amor de todos os deuses, depressa! Não vê como estou sofrendo?
Mas Patrick não notou e, de qualquer modo, não teria se importado. Estava totalmente tomado pelo trabalho, dominado pela ânsia de compor a figura desconhecida. Parava de vez em quando para pegar o binóculo e dar outra longa olhada naquele seu tema de manto vermelho. Às vezes inclina-va o lápis para matizar alguma coisa, depois passava o polegar para produ-zir uma sombra. Às vezes suas pupilas rolavam para cima e os olhos não mostravam mais nada que o brilho de cera da parte branca. Era como se o próprio Patrick estivesse se transformando em alguma versão daquele Rei Rubro que parecia brotar de forma mui intensa em seu cérebro. E de fato, como Roland poderia garantir que essa metamorfose não seria possível?
Não me interessa saber o que é. Só quero que ele acabe antes que eu enlouqueça e saia correndo para aquilo que o Velho Rei Vermelho tão cor-retamente chamou de “minha amada”.
Pelo menos meia hora, com a duração de três dias, se passou desta maneira. A certa altura o Rei Rubro chamou Roland mais persuasivamente do que nunca, perguntando se, afinal, ele não queria mesmo ir até a Torre para palestrar. Talvez se Roland conseguisse livrá-lo de sua prisão na saca-da, pudessem enterrar juntos o passado e subir até a sala no topo da Torre com o mesmo espírito de amizade. Sem dúvida não era impossível. Uma chuva forte criava estranhos companheiros de cama na pousada; será que Roland não tinha ouvido esse ditado?
O pistoleiro conhecia muito bem esse ditado. Também percebia que a oferta do Rei Vermelho era essencialmente o mesmo falso pedido de antes, só que agora vestido de paletó e gravata. E desta vez Roland ouviu a ansie-dade que se escondia na voz do velho monstro. Ele nem desperdiçou e-nergia numa resposta.
Percebendo que sua tentativa de persuasão havia fracassado, o Rei Rubro atirou outro pomo de ouro. Este voou tão alto sobre a pirâmide que pareceu apenas uma faísca, mas logo mergulhou sobre eles com o grito de bomba caindo. Roland deu conta dele com um único tiro, e recarregou de uma plenitude de cápsulas. Chegou inclusive a desejar que o Rei mandasse mais algumas daquelas granadas voadoras, pois pelo menos elas desviavam temporariamente sua cabeça do terrível chamado da Torre.
Ela tem estado à minha espera, Roland pensou aflito. É o que torna tão difí-cil resistir, eu acho... Está chamando a mim em particular. Não exatamente a Roland, aliás, mas a toda a linhagem do Eld... e dessa linhagem, só sobrei eu.
OITO
Por fim, quando o sol poente começou a ganhar os primeiros traços de alaranjado e Roland sentia que não poderia mais suportar aquilo, Patrick pôs o lápis de lado, franziu a testa e estendeu o bloco para Roland. O olhar deixou o pistoleiro assustado. Não sabia que havia aquela expressão no repertório do garoto mudo. A arrogância anterior de Patrick se dissipara.
Roland pegou o bloco e, por um momento, o espanto o fez desviar a cabeça. Era como se aqueles olhos que apareciam no desenho de Patrick tivessem o poder de fasciná-lo; como se pudessem, quem sabe, induzi-lo a colocar o revólver na testa e estourar os doloridos miolos. Era tão bom assim. A face ávida e indagadora era comprida, as bochechas e testa mar-cadas por rugas tão profundas que pareciam sem fundo. Dentro da barba exuberante, os lábios eram cheios e cruéis. Era a boca de um homem que transformaria um beijo numa mordida se entrasse no clima, e com fre-qüência entrava.
— O QUE VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FAZENDO? — veio aquela voz estridente, lunática. — NÃO VAI ADIANTAR, NÃO IMPORTA O QUE SEJA! TENHO O DOMÍNIO DA TORRE... AAAAAAAH!... SOU COMO A RAPOSA COM AS UVAS, ROLAND! É MINHA, MESMO QUE EU NÃO POSSA ESCALÁ-LA! E VOCÊ VIRA! AAAAH! DIGA A VERDADE! ANTES QUE A SOMBRA DA TORRE ALCANCE SEU VIL ESCONDERIJO, VOCÊ VIRÁ! AAAAAAAH! AAAAAAAH! AAAAAA-AH!
Patrick cobriu as orelhas, recuando. Agora que acabara de desenhar, captava de novo aqueles gritos terríveis.
Que o retrato era o maior trabalho da vida de Patrick, Roland não ti-nha a menor dúvida. Desafiado, o rapaz fizera mais do que ir além de si mesmo; voara para além de si mesmo e se entregara a seu gênio. A imagem do Rei Rubro era assombrosa em sua claridade. O instrumento de ver longe não pode explicar isto, ou não tudo isto, Roland pensou. É como se ele tivesse um terceiro olho, um olho que brota de sua imaginação e vê tudo. É com esse olho que enxerga quando faz as pupilas dos outros dois rolarem para cima. Possuir um talento desses... e expressá-lo com algo tão humilde quanto um lápis! Ó deuses!
Ele quase esperou ver a pulsação começar a bater no cavado das têm-poras do velho, onde veias que lembravam molas de relógio tinham sido esboçadas com alguns matizes suaves, sombreados. No canto dos lábios cheios e sensuais, o pistoleiro viu o cintilar de um único e agudo
(presa)
dente e teve a impressão de que os lábios do desenho podiam ganhar vida e se abrir enquanto ele as olhava, revelando um punhado de presas: um mero lampejo de branco (que afinal era apenas um pouquinho de papel sem traços) fazia a imaginação ver todo o resto e sentir inclusive o fedor de carne que devia acompanhar cada jorro de respiração. Patrick tinha captu-rado perfeitamente um tufo de pêlos saindo enroscados de uma das narinas do Rei e o pequeno fio de uma cicatriz que ondulava como uma ponta de barbante pela sobrancelha direita do Rei. Era um trabalho maravilhoso, mil vezes melhor que o retrato que o garoto mudo fizera de Susannah. Certa-mente se Patrick tinha sido capaz de apagar a ferida daquele desenho, po-deria apagar agora o Rei Rubro, deixando o parapeito da sacada sem nada atrás, salvo a porta fechada para o corpo da Torre. Roland quase esperava que o Rei Rubro respirasse e se mexesse, tamanha a precisão do retrato! Seguramente...
Mas não era. Não era, e querer que fosse não o mudaria. Por mais que fosse preciso mudá-la.
São os olhos dele, Roland pensou. Eram grandes e terríveis, olhos de dragão numa forma humana. Eram tremendamente bem-feitos, mas não estavam exatos. Roland sentiu uma espécie de certeza angustiada e deses-perada e estremeceu da cabeça aos pés com força suficiente para fazer os dentes bateram. Não eram de todo exa...
Patrick agarrou o cotovelo de Roland. O pistoleiro estivera tão fe-brilmente concentrado no desenho que quase gritou. Ergueu os olhos.
Patrick balançou a cabeça para ele, depois encostou os dedos nos can-tos dos próprios olhos.
Sim. Os olhos dele. Eu sei disso! Mas o que há de errado com os olhos?
Patrick ainda estava tocando os cantos de seus olhos. Lá no alto um bando de gralhas, soltando os gritos agudos que tinham originado seu no-me, voavam por um céu que logo seria mais roxo que azul. Era para a Tor-re Negra que voavam; Roland se levantou para acompanhar aquelas aves para que não tivessem aquilo que ele não podia ter.
Patrick agarrou-o pelo casaco de pele e puxou-o para trás. O rapaz balançou violentamente a cabeça e desta vez apontou para a estrada.
— EU VI ISSO, ROLAND! — veio o grito. — VOCÊ ACHA QUE O QUE É BOM PARA OS PÁSSAROS É BOM PARA VOCÊ, NÃO É? AAAAAAAAH! E É VERDADE, CLARO! CLARO COMO AÇÚCAR, CLARO COMO SAL, CLARO COMO RUBIS NOS COFRES DO REI DANDO... AAAAAAAH, AH! PODIA TER PEGADO VOCÊ AGORA HÁ POUCO, MAS POR QUE ME PREOCUPAR? ACHO QUE PREFIRO VÊ-IO VIR MIJANDO E TREMENDO, INCAPAZ DE SE SEGURAR!
E é o que vai acontecer, Roland pensou. Não vou conseguir me conter. Posso ser capaz de me manter aqui por mais dez minutos, talvez até por mais vinte, mas no fim...
Patrick interrompeu seus pensamentos, apontando mais uma vez para a estrada. Apontando para o caminho por onde tinham vindo.
Fatigado, Roland balançou a cabeça.
— Mesmo que eu pudesse resistir à força da coisa... e não posso, tudo que posso fazer é ficar parado aqui... tentar recuar seria inútil. Assim que não estivéssemos mais sob cobertura, ele usaria todas as outras armas de que dispõe. Ele tem mais alguma coisa, tenho certeza. E seja lá o que for, não é provável que as balas de meu revólver consigam detê-la.
Patrick balançou a cabeça com força suficiente para fazer o cabelo comprido voar de um lado para o outro. O aperto no braço de Roland foi ficando mais forte até as unhas se cravarem na carne do pistoleiro, pene-trando três camadas da vestimenta de peles. Os olhos de Patrick, sempre amáveis e geralmente confusos, espreitavam agora Roland com uma ex-pressão próxima da fúria. Ele apontou de novo com a mão livre, três rápi-dos gestos cutucando o ar com o indicador encardido. Não, contudo, na direção da estrada.
Patrick estava apontando para as rosas.
— O que há com elas? — Roland perguntou. — Patrick, o que há com elas?
Desta vez Patrick apontou primeiro para as rosas, depois para os o-lhos em seu desenho.
E então Roland compreendeu.
NOVE
Patrick não queria pegá-las. Quando Roland fez sinal para que ele fosse, o rapaz balançou de imediato a cabeça, fazendo de novo o cabelo chicotear de um lado para o outro, olhos arregalados. Fez um som de assobio entre os dentes, imitação notavelmente boa de um pomo chegando.
— Vou atirar em qualquer coisa que ele mande — disse Roland. — Já me viu fazer isto. Se houvesse alguma rosa que eu pudesse pegar só esti-cando a mão, eu pegaria. Mas não há. Então você é que tem de pegar a ro-sa porque só eu posso dar cobertura.
Mas Patrick apenas se encolheu contra o lado irregular da pirâmide. Patrick não iria. Talvez seu medo não fosse exatamente tão grande quanto seu talento, mas chegava perto. Roland calculou a distância para a rosa mais próxima. Teria de abrir mão da escassa cobertura da pirâmide, mas talvez não muito. Olhando para a abreviada mão direita, que teria que dar o puxão na rosa, ele se perguntou que força teria de aplicar. O fato, é claro, era que não sabia. Não eram rosas comuns. Sem dúvida os espinhos que cresciam no caule verde podiam ter um veneno capaz de imobilizá-lo no meio da relva, transformando-o em alvo fácil.
E Patrick não iria. Patrick sabia que antigamente Roland tivera amigos e que agora todos os amigos dele estavam mortos. Patrick não iria. Se Ro-land tivesse duas horas para trabalhar o rapaz — possivelmente uma já bastava —, talvez conseguisse abrir caminho pelo seu terror. Mas não tinha esse tempo. O pôr-do-sol estava chegando.
Além disso, a rosa está perto. Posso fazer isso se for preciso... e tenho de fazer.
Como o tempo aquecera bastante, não era preciso andar com as tos-cas luvas de pele de cervo que Susannah fizera, mas Roland as usara de manhã e elas continuavam enfiadas em seu cinto. Pegou uma delas e cor-tou a ponta para que os dois dedos que ainda tinha pudessem passar pelo buraco. A luva protegeria pelo menos sua palma dos espinhos. Calçou a luva e, segurando com a outra mão o revólver que lhe restava, ficou um instante com um joelho no chão, olhando para a rosa mais próxima. Uma rosa bastaria? Teria de bastar, ele decidiu. A próxima estava pelo menos 2 metros mais distante.
Patrick agarrou o ombro dele, balançando freneticamente a cabeça.
— Tenho de ir — disse Roland e é claro que ia. Era trabalho dele, não de Patrick. Sem dúvida cometera um erro ao mandar o garoto fazer a coisa. Se ele, Roland, fosse bem-sucedido, ótimo, maravilhoso. Se fracas-sasse e fosse feito em pedacinhos ali, na orla do Can’-Ka No Rey, pelo menos não teria mais de enfrentar aquele terrível puxão.
O pistoleiro respirou fundo e saltou de trás da pirâmide em direção à rosa. Nesse instante, Patrick se agarrou de novo a ele, tentando impedi-lo. Pegou uma dobra do casaco de Roland e torceu-a o mais que pôde. Roland caiu desajeitadamente para o lado. O revólver pulou de sua mão e caiu no meio da relva alta. O Rei Rubro gritou (o pistoleiro ouviu ao mesmo tem-po triunfo e fúria naquela voz) e então o zumbido de outro pomo come-çou a se aproximar. Roland fechou a enluvada mão direita no caule da rosa. Os espinhos passaram pelo duro couro de cervo como se aquilo não fosse mais que uma camada de teias de aranha. Logo atingiram sua mão. A dor foi enorme, mas a canção da rosa era doce. Ele pôde ver no fundo de sua copa um brilho amarelo, que era como o brilho de um sol. Ou de um mi-lhão de sóis. Pôde sentir o calor do sangue enchendo a cavidade da palma da mão e correndo entre os dedos restantes. O sangue ensopou a pele de cervo, fazendo florescer outra rosa, agora de sangue, em sua raspada super-fície marrom. E lá vinha o pomo de ouro que o mataria, liquidando a can-ção da rosa, o assobio enchendo sua cabeça e ameaçando partir seu crânio.
O caule não chegou a quebrar. A certa altura, a rosa se soltou do chão, com raízes e tudo. Roland rolou para a esquerda, pegou o revólver e atirou sem olhar. O coração lhe dissera que não dava mais tempo de olhar. Houve uma tremenda explosão e, desta vez, o bafo de ar quente que bateu em seu rosto foi como um furacão.
Perto. Agora muito perto.
O Rei Rubro externou sua frustração com um grito — AAAAAAAA-AH! —, e o grito foi seguido por vários assobios se aproximando. Patrick se apertou contra a pirâmide, escondendo a cara. Roland, a rosa segura na mão direita que sangrava, rolou de costas, ergueu o revólver e esperou que os pomos de ouro dessem a volta. Quando a completaram, Roland cuidou deles: um, dois, três.
— CONTINUO AQUI! — ele gritou para o Rei Rubro. — ESTOU AQUI E VOCÊ PODE TOMAR NO OLHO DO SEU CU!
O Rei Rubro deu mais um de seus terríveis uivos, mas não mandou outros pomos.
— ENTÃO AGORA VOCÊ TEM UMA ROSA! — ele gritou. — ES-CUTE-A, ROLAND! ESCUTE-A BEM, POIS ELA CANTA A MESMA CANÇÃO! ESCUTE COMMALA-VENHA-VENHA!
Agora aquela canção era quase imperativa na cabeça de Roland. Queimava furiosamente pelos seus nervos. Ele agarrou Patrick e obrigou-o a se virar.
— Agora! — disse ele. — Por minha vida, Patrick. Pelas vidas de ca-da homem e mulher que morreram em meu lugar para que eu pudesse con-tinuar!
E cada criança, ele pensou, vendo Jake pelo olho de sua memória. Jake primeiro pendendo sobre a escuridão, depois caindo nela. Encarou os o-lhos apavorados do garoto mudo.
— Acabe a coisa! Mostre que é capaz.
DEZ
Então Roland testemunhou algo impressionante: quando Patrick pegou a rosa, não levou nenhum corte. Não foi sequer arranhado. Roland, porém, ao puxar com os dentes a luva dilacerada, viu que além da palma da mão estar bastante cortada, um dos dedos que lhe sobravam estava agora pen-durado por um simples tendão ensangüentado. Oscilava como alguma coi-sa que quisesse dormir. Mas Patrick não se cortara. Os espinhos não o per-furavam. E o terror desaparecera de seus olhos. Estava olhando da rosa para o desenho, de um lado para o outro com um amável ar de cálculo.
— ROLAND! O QUE ESTÁ FAZENDO? VENHA, PISTOLEIRO, POIS O PÔR DO SOL ESTÁ QUASE AÍ!
E sim, ele iria. De um modo ou de outro. Saber disso não deixava de tranqüilizá-lo um pouco, não deixava de fazê-lo ficar onde estava sem tre-mer demais. A mão direita de Roland parecia dormente até o pulso e ele suspeitou que jamais voltaria a senti-la como antes. Tudo bem; ela já não servia para grande coisa desde que as lagostrosidades a pegaram.
E a rosa cantava: Sim, Roland, sim... Você a terá de novo. Ficará de novo in-teiro. Haverá renovação. Apenas venha.
Patrick puxou uma pétala da rosa, avaliou-a, depois puxou outra. Co-locou-as na boca. Por um momento, seu rosto ficou sem movimento por um tipo peculiar de êxtase e Roland se perguntou que gosto as pétalas po-deriam ter. O céu estava cada vez mais escuro. A sombra da pirâmide, an-tes escondida pelas pedras, agora se estendia quase até a estrada. Quando a ponta daquela sombra tocasse o caminho que o trouxera até ali, Roland desconfiava que ia avançar, não importa que o Rei Rubro ainda controlasse o acesso à Torre.
— O QUE ESTÁS FAZENDO? AAAAAAAAH! QUE DIABOLIS-MO TENS NO CORAÇÃO E NA MENTE?
E é você quem fala de diabolismo!, Roland pensou pegando o relógio e pu-xando a tampa. Embaixo do vidro os ponteiros corriam para trás, das cin-co para as quatro horas, das quatro para as três, das três para as duas, das duas para a uma, da uma para a meia-noite.
— Patrick, rápido! — disse ele. — O mais depressa que puder, eu lhe imploro, pois meu tempo está quase acabando.
Patrick pôs a palma da mão na frente da boca e cuspiu uma pasta vermelha, um tom de sangue fresco. A cor do manto do Rei Rubro. E a cor exata de seus olhos lunáticos.
A beira de usar a cor pela primeira vez em sua vida de artista, Patrick pareceu que ia mergulhar a ponta do indicador da mão direita naquela pas-ta e de repente hesitou. Uma estranha certeza ocorreu então a Roland: os espinhos daquelas rosas só espetavam quando as raízes ainda amarravam a planta a Mim, ou à Mãe Terra. Se fosse Patrick a puxar a rosa, Mim teria reduzido a farrapos aquelas mãos talentosas, tornando-as inúteis.
É ainda o ka, o pistoleiro pensou. Mesmo aqui no Fim do Mun...
Antes que pudesse concluir o pensamento, Patrick pegou a mão direi-ta do pistoleiro e examinou-a com a intensidade de um vidente. Recolheu um pouco do sangue que corria e misturou-o com sua rosa-pasta. Depois, cuidadosamente, pôs uma pequena porção daquela mistura sobre o segun-do dedo da mão direita. Baixou o dedo para a pintura... hesitou... olhou para Roland. Roland abanou positivamente a cabeça. Patrick reagiu com a gravidade de um cirurgião à beira de dar o corte inicial numa cirurgia de risco e aplicou o dedo ao papel. A ponta do dedo tocou o papel com a de-licadeza de um bico de beija-flor mergulhando numa flor. Coloriu o olho esquerdo do Rei Rubro e se levantou. Patrick empinou a cabeça, olhando para o que tinha feito com uma fascinação que Roland jamais vira num rosto humano em todo o seu longo e errante tempo de vida. Era como se o garoto fosse um profeta manni no deserto, que finalmente, após vinte anos de espera, tivesse conseguido ver de relance a face do Gan.
Então Patrick irrompeu num sorriso enorme, luminoso.
A resposta da Torre Negra chegou de imediato e — ao menos para Roland — foi imensamente gratificante. A velha criatura encurralada na sacada uivou de dor.
— O QUE ESTÁS FAZENDO? AAAAAAH! AAAAAAAH! PÁRA! ISSO QUEIMA! QUEIMAAA! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
— Agora acabe o outro — disse Roland. — Rápido! Pela sua vida e pela minha!
Patrick coloriu o outro olho com a mesma delicada ponta do dedo. Agora dois brilhantes olhos rubros espreitavam do desenho em preto-e-branco de Patrick, olhos que haviam sido coloridos com a seiva da rosa e o sangue do Eld; olhos que ardiam como o próprio fogo do Inferno.
Estava feito.
Finalmente Roland pegou a borracha e estendeu-a para Patrick.
— Faça-o desaparecer — disse. — Faça aquele duende infame desa-parecer deste mundo e de todos os outros mundos! Faça com que suma de vez.