A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo VI · O Senhor do Céu Azul
UM
Pimli Prentiss, senhor de Algul Siento, estava no banheiro quando Finli (conhecido em alguns locais como O Fuinha) bateu na porta. Prentiss es-tava examinando seu físico sob a luz implacável da lâmpada fluorescente da pia. No reflexo ampliado do espelho, a pele parecia uma planície acin-zentada, marcada por crateras, não muito diferente da superfície das terras devastadas que se estendiam em todas as direções ao redor de Algul. A fe-rida em que ele se concentrava naquele momento lembrava um vulcão em erupção.
— Quem me chama? — Prentiss berrou, embora tivesse uma ótima noção de quem era.
— Finli de Tego!
— Pode entrar, Finli! — Sem tirar os olhos do espelho. Os dedos, fe-chando-se dos lados da espinha infectada, pareciam enormes. Fizeram pressão.
Finli atravessou o escritório de Prentiss e parou na porta do banheiro. Teve de se curvar um pouco ao olhar para dentro. Tinha mais de dois me-tros e dez, alto demais, mesmo para um taheen.
— De volta da estação em tempo recorde — disse Finli. Como a maioria dos taheens, a voz oscilava de modo selvagem entre um ganido e um rosnado. Para Pimli, todos soavam como os híbridos de H. G. Wells em A Ilha do Dr. Moreau. Tinha sempre a impressão de que, a qualquer momento, iam iniciar aquele coro do “nós não somos homens?”. Certa vez Finli tirara a coisa da mente do chefe e fizera perguntas. Prentiss responde-ra com absoluta franqueza, sabendo que, numa sociedade onde telepatia de baixo nível era a norma, a franqueza era sempre a melhor política. A única política, quando se lidava com os taheens. Além disso, gostava de Finli de Tego.
— De volta da estação, bom — disse Pimli. — E o que encontrou?
— Um operário de manutenção. Parece que fugiu do controle ao lado do Arco 16 e...
— Espere — disse Prentiss. — Só um momento, só um momento, obrigado.
Finli esperou. Prentiss se inclinou ainda mais para o espelho, o rosto franzido de concentração. O Mestre do Céu Azul também era alto, cerca de um metro e noventa, e possuía uma enorme barriga em declive apoiada por pernas compridas com sólidas coxas. Estava ficando calvo e tinha o nariz esbranquiçado de um experiente beberrão. Aparentava talvez uns 50 anos. Sentia-se com uns 50 anos (até mais jovem, quando não passava a noi-te bebericando com Finli e uma turma de can-toi). Quando chegou lá tinha de fato 50, um bom número de anos atrás, 25 pelo menos, o que talvez fosse um cálculo realmente muito por baixo. O tempo era meio maluco daquele lado, exatamente como a orientação espacial, e a pessoa logo per-dia a noção de ambos. Alguns folken perdiam também o juízo. E se algum dia perdessem para sempre a máquina do sol...
A ponta da espinha se avolumou... tremeu... estourou. Ah!
Um borrifo de pus sangrento pulou do local da infecção, atingiu o es-pelho e começou a escorrer pela superfície ligeiramente côncava. Pimli Prentiss passou a ponta do dedo no pus e virou-se para jogá-lo no vaso, mas acabou oferecendo-o a Finli.
O taheen sacudiu a cabeça, fez o tipo de ruído exaltado que qualquer veterano de regime teria reconhecido e levou o dedo do Mestre para a bo-ca. Sugou o sangue com pus e liberou o dedo com um nítido estalo.
— Não devia fazer isto, mas não pude resistir — disse Finli. — Você não me disse que o folken lá do outro lado concluiu que comer bife malpas-sado não era bom?
— É — disse Pimli, enxugando a espinha (que continuava vazando) com um Kleenex. Já estava há um bom tempo ali e, por diversos motivos, não havia mais qualquer possibilidade de volta, mas até muito recentemen-te se mantivera informado sobre o noticiário. Até o ano... podia se dizer ano, não é?... até o ano anterior recebera The New York Times com uma ra-zoável regularidade. Tinha grande simpatia pelo Times, adorava fazer o jogo diário de palavras cruzadas. Havia uma certa sensação de estar em casa.
— Mas mesmo assim continuam comendo os bifes.
— É, acho que muitos continuam. — Prentiss abriu o armário do ba-nheiro e pegou um frasco de mertiolato da farmácia Rexall.
— A culpa é sua, de botar isso na minha frente — disse Finli. — Não que a coisa nos faça mal, normalmente; é um petisco natural, como mel ou frutinhas doces. O problema é Trovoada. — E, como se o chefe não tives-se entendido aonde ele queria chegar, Finli acrescentou: — Grande parte do que vem dela não corre pela linha verdadeira, por mais doce que possa ser o sabor. É puro veneno, você sabe.
Prentiss molhou um pedaço de algodão com o mertiolato e limpou a lesão no rosto. Sabia exatamente do que Finli estava falando, como poderia não saber? Antes de chegar lá e vestir o manto do Mestre, estava há bem mais de trinta anos sem ver uma única mancha na pele. Agora tinha espi-nhas nas bochechas e na testa, acne nas concavidades das têmporas, desa-gradáveis ninhos de cravos em volta do nariz e um cisto no pescoço que dali a pouco teria de ser removido por Gangli, o médico do complexo (Prentiss achava que Gangli era um nome terrível para um médico; lem-brava gânglios e gangrena). Os taheens e os can-toi eram menos suscetíveis a problemas dermatológicos, mas com freqüência sua carne se abria espon-taneamente, tinham sangramentos no nariz e mesmo pequenos ferimentos — um arranhão numa pedra ou um espinho — podiam levar a infecções e morte se não fossem imediatamente tratados. No início, os antibióticos tinham cuidado bem dessas infecções; agora já não eram tão eficazes. Nem mesmo quando continham maravilhas farmacêuticas, como o Roacutan. Era o ambiente, é claro; a morte brotando das próprias rochas e do solo que os cercava. Se alguém queria ver as coisas pelo pior lado bastava olhar para os Rods, que já não eram em nada superiores aos vagos mutantes. A perambulação deles chegava até o... aquilo ainda era o sudeste? Perambula-vam muito naquela direção, onde um fraco clarão vermelho podia ser visto à noite e onde todos diziam que as coisas eram muito piores. Pimli não sabia se isto era mesmo verdade, mas desconfiava que fosse. Certamente as terras além de Fedic não eram chamadas de Discórdia por serem locais de férias.
— Quer mais? — Prentiss perguntou a Finli. — Tenho mais duas maduras na testa.
— Não, quero fazer meu relatório, completar a checagem dupla das fitas de vídeo e da telemetria, passar no estúdio para dar uma olhada rápida e encerrar o turno. Depois vou tomar um banho quente e passar três horas com um bom livro. Estou lendo O Colecionador.
— E está gostando — disse Prentiss, fascinado.
— Gostando muito, pode apostar. Lembra a nossa situação aqui. Só que eu gosto de pensar que nossos objetivos são um pouco mais nobres e nossas motivações um pouco mais elevadas que a mera atração sexual.
— Nobres? É assim que chama?
Finli abanou os ombros e não deu resposta. Qualquer discussão mais séria do que estava acontecendo ali, no Céu Azul, costumava ser evitada por um consenso tácito.
Prentiss conduziu Finli para seu próprio estúdio-biblioteca, com vista para a parte do Céu Azul que chamavam de Passeio. Finli abaixou para passar debaixo do lustre com a inconsciente graça proporcionada por uma longa prática. Prentiss havia um dia lhe dito (após alguns goles de graf) que ele teria dado um tremendo marcador num time de basquete.
— Imagine o primeiro time todo composto de taheens. Seriam cha-mados de freaks, mas e daí?
— Esses jogadores de basquete conseguem ter tudo do bom e do me-lhor, não é? — Finli perguntara. Tinha uma cabeça comprida de fuinha e grandes olhos negros. Não mais expressivos que os olhos de um boneco, na opinião de Pimli. Usava um monte de correntes de ouro... Tinham en-trado em moda entre os funcionários do Céu Azul e, nos últimos anos, se desenvolvera um animado mercado em torno delas. Também Finli tivera mandado cortar a cauda. Provavelmente um equívoco, Finli dissera certa noite a Prentiss, quando estavam os dois embriagados. Coisa dolorosa além da conta e capaz de mandá-lo para o Inferno da Escuridão quando sua vi-da acabasse, a não ser...
A não ser que não existisse nada disso. Uma idéia que Pimli negava com toda a força de seu coração e mente, embora fosse um mentiroso se não admitisse (nem que apenas para si mesmo) que a idéia às vezes o as-sombrava no meio da noite. Para evitar esses pensamentos existiam com-primidos contra insônia. E havia Deus, é claro. Sua fé era que todas as coi-sas serviam à vontade de Deus, inclusive a própria Torre.
Seja como for, Pimli tinha confirmado que sim, os jogadores de bas-quete — pelo menos os jogadores americanos de basquete — tinham tudo do bom e do melhor, incluindo mais xoxotas que a porra de um vaso sani-tário. O comentário fizera Finli rir até correrem lágrimas avermelhadas pe-los cantos daqueles olhos estranhamente inexpressivos.
— E o melhor — Pimli tinha continuado — é o seguinte: você seria capaz de jogar quase para sempre, pelos padrões da NBA. Por exemplo, está me ouvindo, o jogador mais admirado no meu antigo país (embora eu jamais o tenha visto jogar; ele apareceu depois do meu tempo) era um su-jeito chamado Michael Jordan e...
— Se fosse taheen, o que ele seria? — Finli tinha interrompido. Era um jogo que faziam com freqüência, especialmente depois de alguns drin-ques além da conta.
— Uma fuinha, na realidade, e uma fuinha extremamente vistosa — Pimli dissera num tom de surpresa que Finli achara engraçado. Mais uma vez ele ia rir até saírem lágrimas dos olhos.
— Mas — Pimli tinha continuado — a carreira dele acabou em pou-co mais de 15 anos, o que incluiu uma aposentadoria com uma ou duas voltas às quadras. Por quantos anos, Fin, você suportaria um jogo onde a única coisa que precisa fazer é correr cerca de uma hora de uma ponta a outra, na extensão de uma quadra de campo?
Finli de Tego, que tinha então uns 300 anos de idade, abanara os om-bros e fez um gesto em direção ao horizonte. Delah. Anos além da conta.
E por quanto tempo afinal, existirá o presídio Céu Azul (Devar-Toi para os novos internos, Algul Siento para os taheens e os Rods)? Também delah. Mas se Finli estivesse correto (e o coração de Pimli dizia que Finli quase certamente estava), o delah era um tempo quase acabado. E o que ele, outrora Paul Prentiss de Rahway, Nova Jérsei, hoje Pimli Prentiss do Algul Siento, poderia fazer a esse respeito?
Fazer seu trabalho, era só isso.
A porra de seu trabalho.
DOIS
— Então — disse Pimli sentando-se numa das duas poltronas de encosto alto junto à janela — encontrou um operário de manutenção. Onde?
— Perto de onde a linha 97 deixa o pátio de manobras — disse Finli. — Aquele trilho continua quente... têm o que chamamos de “terceiro tri-lho”... o que explica a coisa. Então, depois que saímos de lá, você telefo-nou dizendo que havia um segundo alarme.
— Sim. E você encontrou...?
— Nada — disse Finli. — Desta vez, nada. Provavelmente só uma avaria, talvez causada pelo primeiro alarme. — Ele abanou os ombros, um gesto que transmitia o que os dois sabiam: tudo estava correndo para o inferno. E quanto mais se aproximavam do fim, mais depressa corria.
— Mas você e seu pessoal deram uma boa olhada?
—É claro. Nenhum intruso.
Mas os dois estavam pensando em termos de intrusos que fossem humanos, taheens, can-toi ou mecânicos. Ninguém no grupo de busca de Finli tinha pensado em olhar para cima, e provavelmente não teriam en-xergado Mordred mesmo se tivessem dado uma olhada. Mesmo que já do tamanho de um cachorro de porte médio, uma aranha poderia se agachar na sombra espessa sob o beiral da estação principal e ali ficar, sustentada por uma pequena teia.
— Vai checar de novo a telemetria por causa do segundo alarme?
— Em parte sim — disse Finli. — Principalmente porque as coisas estão me parecendo Mandraque. — Era uma palavra que tirara de um dos muitos romances policiais que estava lendo (eles o fascinavam) e usava sempre que tinha oportunidade.
— Mandraque como?
Finli se limitou a balançar a cabeça. Não sabia dizer.
— Se bem que a telemetria não mente — acabou respondendo. — Ou pelo menos foi o que me ensinaram.
— Você duvida dela?
Consciente de que estava de novo pisando em ovos (que ambos esta-vam), Finli hesitou e daí decidiu, diabos, vou falar:
— Estamos vivendo os dias finais, chefe. Questiono praticamente tu-do.
— Isso inclui suas obrigações, Finli de Tego?
Sem vacilar, Finli sacudiu a cabeça numa negativa. Não, não incluía suas obrigações. Era igual para os demais, incluindo o antigo Paul Prentiss de Rahway. Pimli se lembrava de um velho soldado — talvez “Dugout”, Doug MacArthur — dizendo: “Quando meus olhos se fecharem na morte, cavalheiros, meu último pensamento será com a tropa. E a tropa. E a tro-pa.” O último pensamento do próprio Pimli seria provavelmente com Al-gul Siento. Por que o que mais havia agora? Nas palavras de outro grande habitante da América — Martha Reeves, de Martha and the Vandellas∗ — não tinham para onde correr, meu bem, nem onde se esconder. As coisas
* Conjunto musical estilo Motown, dos anos 60. (N. da E.)
estavam fora de controle, correndo ladeira abaixo sem freio e nada restava a fazer a não ser aproveitar o passeio.
— Se importaria de levar mais um nos seus giros? — Pimli pergun-tou.
— Por que não? — respondeu o Fuinha. Ele sorriu, revelando uma boca de dentes afiados como agulhas. E cantou com sua voz estranha e trêmula: — Sonhe comigo... Estou a caminho da lua de meus pa-aaais...
— Me dê um minuto — disse Pimli se levantando.
— Preces? — Finli perguntou. Pimli parou no umbral da porta.
— Sim — disse —, já que perguntou. Algum comentário, Finli de Tego?
— Só um, talvez. — A coisa de corpo humano e cabeça lisa de fuinha marrom continuou a sorrir. — Se a prece é tão solene, por que se ajoelha no mesmo recinto onde se senta para cagar?
— Porque a bíblia sugere que, quando não se está sozinho, deve fazer isso no armário. Mais algum comentário?
— Naum, naum. — Finli sacudiu a mão num gesto de quem não se aportava. — Faça teu melhor e teu pior, como dizem os manni.
TRÊS
No banheiro, Paul de Rahway baixou a tampa do vaso, se ajoelhou nos ladrilhos e entrelaçou as mãos.
Se aprece é tão solene, por que se ajoelha no mesmo recinto onde se senta para ca-gar?
Talvez eu devesse ter dito que é porque isso me conserva humilde, ele pensou. Porque isso me conserva do tamanho justo. É do pó que nos levantamos, é para o pó que vamos voltar e, se há um lugar onde é difícil esquecer isso, é este aqui.
— Deus — disse ele —, me conceda força quando estou fraco, res-postas quando estou confuso, coragem quando tenho medo. Me ajude a não ferir ninguém que não mereça e, mesmo quando mereça, que eu só o faça se não me restar outra saída. Senhor...
E enquanto este homem está de joelhos diante da tampa fechada do vaso sanitário, este homem que logo estará pedindo a Deus que o perdoe por estar trabalhando pelo fim da criação (um pedido que será feito sem absolutamente qualquer senso de ironia), podemos olhá-lo um pouco mais de perto. Não vamos demorar muito, pois Pimli Prentiss não é peça central em nossa história de Roland e seu ka-tet. É, contudo, um homem fascinan-te, cheio de arestas, contradições e impasses. Um alcoólatra que acredita piamente num Deus pessoal, um homem de compaixão que está à beira de derrubar a Torre e fazer com que os trilhões de mundos que giram em seu eixo voem para a escuridão e num trilhão de direções diferentes. Ele que, num piscar de olhos, matava Dinky Earnshaw e Stanley Ruiz se soubesse o que os dois estavam aprontando, e passa a maior parte de cada Dia das Mães em lágrimas, pois amava muito sua querida mamãe e sente uma tre-menda falta dela. Quando chegar a hora do Apocalipse, aí está o cara per-feito para trabalho, alguém que sabe se jogar de joelhos e falar ao Senhor Deus dos exércitos como um velho amigo.
E aqui está uma ironia: Paul Prentiss podia ter saído do anúncio que proclama: “Consegui meu emprego através do The New York Times!” Em 1970, despachado da prisão então conhecida como Attica (ele e Nelson Rockefeller pelo menos escaparam do megamotim), deu uma espiada num classificado do Times com o seguinte cabeçalho:
PRECISA-SE: AGENTE PENITENCIÁRIO COM EXPERIÊNCIA
PARA POSIÇÃO DE ALTA RESPONSABILIDADE
EM INSTITUIÇÃO PARTICULAR
Salário Elevado! Todos os Benefícios!
Deve Estar Disponível para Viajar!
O salário elevado provara ser o que sua amada mamãe teria denomi-nado “uma pura e simples mentira deslavada”, pois não havia absoluta-mente salário, não no sentido que os agentes penitenciários da América costumam dar à palavra, mas os benefícios... sim, as vantagens eram excep-cionais. No início se fartava do sexo como agora se fartava de comida e bebida, mas isso não era o mais importante. O mais importante, segundo o ponto de vista de sai Prentiss, era isto: o que você queria da vida? Se fosse apenas ver os zeros aumentarem na conta bancária, sem dúvida Algul Sien-to não era lugar para você... o que seria uma coisa terrível, porque uma vez contratado, não havia retorno; a tropa era tudo. Só a tropa. E de vez em quando, quando era preciso dar um exemplo, havia um ou dois cadáveres.
O que estava cem por cento OK para Mestre Prentiss, que passara pela solene cerimônia taheen de mudança de nome cerca de 12 anos atrás e nunca se arrependera. Paul Prentiss se tornara Pimli Prentiss. Foi nesse ponto que ele afastara o coração e a mente do que agora chamava apenas de “lado americano”. E não porque tivesse ali o melhor petit gateau e o me-lhor champanhe de toda a sua vida. Também não porque tivesse sexo si-mulado com centenas de belas mulheres. Era porque aquele era seu traba-lho e pretendia concluí-lo. Porque passara a acreditar que o trabalho deles no Devar-Toi pertencia tanto a Deus quanto ao Rei Rubro. E atrás da idéia de Deus havia alguma coisa ainda mais poderosa: a imagem de um bilhão de universos enfiados num ovo que ele, o ex-Paul Prentiss de Rahway, an-tigamente um homem de 40 mil dólares por ano, com uma úlcera no es-tômago, um plano de saúde ruim aprovado por um sindicato corrupto, conservava agora na palma da mão. Compreendia que estava também na-quele ovo e que deixaria de existir como carne quando o quebrasse, mais certamente, se havia um céu e um Deus dentro dele, então ambos seriam certamente superiores ao poder da Torre. Era para esse céu que ele iria e, diante do trono que havia lá, ele se ajoelharia pedindo perdão pelos seus pecados. E seria bem acolhido com um cordial bom trabalho, tu que és bom e fiel servo. Sua mamãe estaria lá para abraçá-lo e os dois entrariam juntos no círculo de Jesus. Esse dia viria, Pimli tinha certeza absoluta, e provavel-mente antes que a Lua da Colheita tornasse a aparecer.
Não que se considerasse um fanático religioso. Em absoluto. Manti-nha essas idéias sobre Deus e o céu estritamente para si mesmo. Pelo que dizia respeito ao resto do mundo, via-se apenas como um joão-ninguém fazendo seu trabalho, um trabalho que pretendia fazer bem até o final. Cer-tamente não se via como vilão, mas nenhum homem verdadeiramente pe-rigoso jamais se vê dessa forma. Pense em Ulysses S. Grant, aquele general da Guerra Civil, dizendo que pretendia lutar até o fim nesta linha mesmo que durasse um verão inteiro.
No Algul Siento, o verão estava quase terminado.
QUATRO
A casa do Mestre era um simpático chalé numa ponta do Passeio. Era chamada Shapleigh House (Pimli não sabia por quê), embora os Sapadores, é claro, preferissem chamá-la Casa da Merda. Na outra ponta do Passeio havia uma habitação muito maior — uma construção estilo Queen Anne, graciosamente irregular, chamada (por razões igualmente obscuras) Casa Damli. Um lugar bem adequado para abrigar alguma fraternidade universi-tária masculina na Universidade de Clemson ou na Universidade do Missis-sippi. Os Sapadores chamavam-na Casa Inconsolável ou Hotel Inconsolá-vel. Ótimo. Era onde os taheens e um considerável contingente de can-toi viviam e trabalhavam. Quanto aos Sapadores, que eles fizessem suas piadi-nhas, e nenhum problema se acreditassem que os funcionários não sabiam.
Pimli Prentiss e Finli de Tego caminharam pelo Passeio num silêncio amistoso... só quebrado, é claro, quando passavam por Sapadores de folga, isolados ou em grupos. Pimli cumprimentava cada um com impecável cor-tesia. Os cumprimentos eram retribuídos numa variedade de formas que iam da completa alegria ao resmungo mal-humorado. Cada um, no entan-to, dava alguma resposta e Pimli contava isto como vitória. Preocupava-se com eles. Gostassem disto ou não — muitos não gostavam —, preocupa-va-se com eles. Certamente era mais fácil lidar com eles que com os homi-cidas, estupradores e assaltantes de Attica.
Alguns estavam lendo jornais ou revistas velhas. Um grupo de quatro atirava argolas. Outro grupo de quatro estava junto no putting green. Tanya Leeds e Joey Rastosovich jogavam xadrez sob um velho e gracioso elmo, o sol salpicando seus rostos. Eles o cumprimentaram com verdadeiro prazer e por que não? Na realidade Tanya Leeds era agora Tanya Rastosovich, pois Pimli casara os dois há um mês, exatamente como faria o comandante de um navio. E ele achava que, em certo sentido, era isso que aquilo era: o bom navio Algul Siento, um navio cruzeiro que navegava pelos mares escu-ros de Trovoada, dentro de seu próprio facho de luz do sol. O sol de vez em quando desaparecia, era verdade, mas a interrupção daquele dia fora mínima, só 43 segundos.
— Como vão as coisas, Tanya? Joseph? — Chamando-o sempre Jo-seph, nunca Joey, pelo menos não na sua frente; ele não gostava do nome.
Disseram que tudo ia bem e lhe concederam aqueles sorrisos deslum-brados, impressionados, de que só recém-casados são capazes. Finli não disse nada para os Rastosovich, mas perto da ponta do Passeio, onde fica-va a Casa Damli, parou diante de um rapaz sentado sob uma árvore, num banco de mármore falso, lendo um livro.
— Sai Earnshaw? — o taheen perguntou.
Dinky levantou a cabeça, sobrancelhas erguidas num educado ar de indagação. Sua face, exibindo um feio caso de acne, mostrava a mesma ex-pressão polida.
— Vejo que está lendo O Mago — disse Finli, quase timidamente. — Eu mesmo estou lendo O Colecionador. Que coincidência!
— Se você diz — Dinky respondeu. Sua expressão não se alterou.
— Queria saber o que acha de Fowles. Estou bastante ocupado ago-ra, mas talvez mais tarde a gente possa falar sobre ele.
Sem perder a expressão educadamente inexpressiva, Dinky Earnshaw respondeu:
— Talvez mais tarde você possa pegar seu exemplar do Colecionador — espero que de capa dura... e enfiá-lo no seu cu peludo. De lado.
O sorriso esperançoso de Finli desapareceu. Mesmo assim ele execu-tou uma pequena mas perfeitamente correta curvatura de cabeça.
— Lamento que esteja se sentindo assim, sai — disse.
— Saia daqui, porra! — disse Dinky, tornando a abrir o livro e er-guendo-o severamente diante do rosto.
Pimli e Finli de Tego continuaram a andar. Houve um período de si-lêncio durante o qual o Mestre de Algul Siento tentou abordar Finli de di-ferentes maneiras, querendo saber até que ponto ele ficara magoado pelo comentário do jovem. O taheen tinha orgulho de sua aptidão para a leitura e apreciava a literatura dos humos, isso Pimli sabia. Então Finli o poupou, colocando suas duas mãos de dedos compridos entre as pernas — seu tra-seiro não era peludo na verdade, mas os dedos eram.
— Só checando para ter certeza de que minhas bolas ainda estão aqui — disse ele e Pimli achou que o bom humor que ouvia na voz do chefe de segurança era real, não forçado.
— Lamento o que você ouviu — disse Pimli. — Se existe alguém em Céu Azul com uma autêntica síndrome de ansiedade pós-adolescente, esse alguém é sai Earnshaw.
— Está me aniquilando! — Finli gemeu, mas quando o Mestre lhe a-tirou um olhar sobressaltado, Finli deu um sorriso largo, mostrando aque-las fileiras de dentes pequenos e afiados. — É um dito famoso de um filme chamado Juventude Transviada — disse ele. — Dinky Earnshaw me faz pen-sar em James Dean. — Fez uma pausa para refletir. — Sem a assombrosa beleza do outro, é claro.
— Um caso interessante — disse Prentiss. — Ele foi recrutado para um programa de assassinato promovido por uma subsidiária da Positro-nics. Matou seu controlador e fugiu. Nós o pegamos, é claro. Nunca nos causou qualquer problema real... não a nós... mas mantém essa atitude de pé no saco.
— Mas você acha que ele não é um problema.
Pimli atirou-lhe um olhar de soslaio.
— Há alguma coisa que você esteja achando que eu devia saber sobre ele?
— Não, não. Não sei por que tem andado tão nervoso nestas últimas semanas! Diabo, vou falar na lata... tão paranóico!
— Meu avô tinha um provérbio — disse Pimli. — “Você só começa a ficar com medo de deixar cair os ovos quando já está quase em casa.” Estamos quase em casa agora.
E era verdade. Dezessete dias atrás, não muito antes de o último gru-po de Lobos ter atravessado a galope a porta da Área de Concentração do Arco 16, o equipamento no porão da Casa Damli captara a primeira curva-tura apreciável no Feixe Urso-Tartaruga. De lá para cá, o Feixe da Águia e do Leão tinha se rompido. Logo os Sapadores não seriam mais necessários; logo a desintegração do penúltimo Feixe ocorreria com ou sem a ajuda de-les. Era como se um objeto precariamente equilibrado tivesse agora mos-trado uma nova oscilação. Logo ela ultrapassaria consideravelmente o pon-to do equilíbrio perfeito e o objeto cairia. Ou, no caso do Feixe, quebraria. Deixando num piscar de olhos de existir. Era a Torre que ia cair. O último Feixe, o do Lobo e do Elefante, poderia agüentar mais uma semana ou mais um mês, dificilmente mais que isso.
Esses pensamentos deviam ter agradado a Pimli, mas não agradaram. Principalmente porque ele acabara se concentrando nos Capas Verdes. Da última vez, cerca de sessenta tinham passado em direção a Calla, o que era o efetivo habitual, e deviam ter voltado nas habituais 72 horas com a safra habitual de crianças de Calla.
Em vez disso... nada.
Ele perguntou a Finli o que ele achava.
Finli se virou. Tinha o ar sério.
— Acho que pode ter sido um vírus — disse.
— Como disse?
— Um vírus de computador. Vimos acontecer com boa parte de nos-so equipamento de informática em Damli, porque, não esqueça, por mais assustadores que os Capas Verdes possam parecer a um punhado de plan-tadores de arroz, não passam de computadores sobre pernas. — Fez uma pausa. — Ou quem sabe o folken de Calla tenha descoberto um meio de acabar com eles. Seria surpresa se tivessem aprontado alguma para se de-fenderem? Até certo ponto sim, mas não de todo. Especialmente se al-guém de pulso tomasse a frente para liderá-los.
— Alguém como um pistoleiro, talvez?
Finli tornou a se virar para ele e foi quase como se olhasse para uma criança.
Ted Brautigan e Stanley Ruiz passaram na calçada em bicicletas de dez marchas e, quando o Mestre e o chefe da segurança levantaram as mãos para eles, os dois retribuíram a saudação. Brautigan não sorriu, mas Ruiz sim, o frouxo sorriso de felicidade de um verdadeiro deficiente men-tal. Era todo remela, barba por fazer e boca brilhante de cuspe, mas não deixava de ser um poderoso do mesmo jeito, perante Deus ele era, e um homem deste ficava bem sendo amigo de Brautigan, que mudara comple-tamente desde que fora trazido de volta de suas pequenas “férias” em Connecticut. Pimli achou divertido que estivessem usando idênticos bonés de tweed (as bicicletas também eram idênticas), mas a expressão de Finli lhe desagradou.
— Pare com isso — disse Pimli.
— Parar com o quê, sai? — Finli perguntou.
— Pára de me olhar como se eu fosse um garotinho que tivesse aca-bado de perder o sorvete de cima da casquinha e ainda não tivesse a capa-cidade de perceber isso.
Mas Finli não desviou o olhar. Raramente baixava a cabeça e isso era uma das coisas que Pimli gostava nele.
— Se não quer que as pessoas o olhem como se estivessem olhando para uma criança, procure não agir como uma. Há mais de mil anos se ou-vem histórias de pistoleiros do Mundo Médio chegando aqui para salvar a pátria e nunca tivemos um só relato convincente de que tenham sido vistos por alguém. Pessoalmente, estou mais disposto a acreditar na visita de seu Homem Jesus.
— Dizem os Rods...
Finli estremeceu como se isto realmente o ferisse na cabeça.
— Não comece com o que os Rods dizem. Certamente respeite um pouco mais minha inteligência e também a sua. Os cérebros dos Rods têm apodrecido ainda mais depressa que suas peles. E quanto aos Lobos, deixe-me expor um conceito radical: não importa onde estão nem o que aconte-ceu a eles. Temos dínamos suficientes para terminar o trabalho, e é só isto que interessa.
O chefe da segurança parou um momento nos degraus que levavam ao pórtico da Casa Damli. Estava prestando atenção nos dois homens com bicicletas iguais e franzia a testa com ar pensativo.
— Brautigan já deu muito problema.
— Pois é! — Pimli riu num tom amargo. — De qualquer modo os dias de Brautigan como criador de casos estão encerrados. Já foi informado que seus amigos especiais de Connecticut... um rapaz chamado Robert Garfield e uma moça chamada Carol Gerber... morrerão se fizer mais al-guma confusão. E ele já começou a perceber que embora vários Sapadores colegas seus o vejam como guia e alguns, como o rapaz semi-idiota com quem ele anda, o reverenciem, ninguém está seriamente interessado em conhecer suas... idéias filosóficas, se podemos dizer assim. Se algum dia estiveram, não estão mais. E tive uma conversa com ele após sua volta. Uma conversa totalmente franca.
Isso era novidade para Finli.
— Sobre o quê?
— Sobre certos fatos da vida. Sai Brautigan começou a compreender que seus poderes singulares não têm a importância que tinham antigamen-te. A coisa já chegou a um ponto muito grave. Os dois Feixes restantes vão se romper com ele ou sem ele. E Brautigan sabe que, no final, é capaz de haver... confusão. Medo e confusão. — Pimli abanava devagar a cabeça. — Brautigan quer estar aqui no fim, quando o céu começar a se rasgar, nem que apenas para consolar gente como Stanley Ruiz.
— Venha, vamos dar outra olhada nas fitas e na telemetria. Só para ficarmos mais seguros.
Subiram, lado a lado, a ampla escada de madeira da Casa Damli.