A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo IV · PELES
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
UM
Tiveram de ficar três noites sem fogo, em vez de uma ou duas. Na última houve as 12 horas mais longas, mais miseráveis da vida de Susannah. É pior que a noite em que Eddie morreu?, ela se perguntou a certa altura. Está realmente dizendo que isto é pior que ficar deitada sozinha num daqueles dormitórios, sabendo que era assim que você se deitaria daí por diante? Pior que lavar o rosto, as mãos e os pés dele? Lavá-los para serem sepultados?
Sim. Aquilo era pior. Odiava descobrir isso e jamais o admitiria diante de outra pessoa, mas o frio fundo, interminável daquela última noite foi muito pior! Experimentou o pavor ante cada sopro leve de brisa vindo das terras nevadas a leste e ao sul. Foi ao mesmo tempo terrível e estranha-mente humilhante perceber com que facilidade o desconforto físico podia assumir o controle, expandir-se como gás venenoso, avançar pelo solo até dominar completamente a área. Dor? Perda? O que eram essas coisas quando você podia sentir frio mesmo andando, um frio que partia dos de-dos dos pés e das mãos, que rastejava até a porra de seu nariz e depois con-tinuava avançando. Para onde? Para o cérebro, faça-me o favor! E para o coração. Sob o tacão de um frio desses, dor e perda eram só palavras. Não, nem mesmo isso. Eram apenas sons. Tão sem significado quanto a atitude de continuar ali sentada, tremendo sob as estrelas, esperando uma manhã que nunca ia chegar.
O que piorava as coisas era saber que por todo lado havia fogueiras em potencial, pois tinham atingido a região fértil que Roland chamava “a quase neve”. Uma série de encostas compridas e verdes (embora a maioria da relva estivesse esbranquiçada, morta) e pequenos vales com esparsas fileiras de árvores e riachos já obstruídos pelo gelo. Mais cedo, à luz do dia, Roland apontara vários buracos no gelo, dizendo que tinham sido feitos por cervos. Ele também mostrou vários montes de excrementos de ani-mais. A luz do dia ver aquilo fora interessante, trouxera inclusive esperan-ça. Mas no interminável fosso da noite, ouvindo o bater contínuo e baixo de seus próprios dentes, tudo perdia o significado. Eddie também já nada significava. Nem Jake. A Torre Negra também não significava nada, nem a fogueira que haviam feito nos arredores do Castelo-cidadela. Podia lembrar do aspecto do fogo, mas a sensação de calor aquecendo a pele e fazendo brotar um início de suor estava inteiramente perdida. Como uma pessoa que já morreu por alguns segundos e visitou rapidamente alguma luminosa vida após a morte, ela só podia dizer que tinha sido maravilhoso.
Roland se sentou com os braços à sua volta, às vezes deixando esca-par uma tosse áspera, seca. Susannah achou que ele podia estar ficando doente, mas este pensamento também não tinha força alguma. Só o frio tinha.
Certa vez — pouco antes de a alvorada começar finalmente a man-char o céu no leste — viu luzes alaranjadas dançando e rodopiando bem ao longe, além do ponto onde a neve começava. Perguntou se Roland fazia alguma idéia do que era aquilo. Susannah não tinha real interesse na coisa, mas ouvir sua própria voz lhe renovou a certeza de que não estava morta. Pelo menos ainda não.
— Acho que são duendes.
— S-são o q-quê? — Ela agora gaguejava, balbuciava.
— Não sei como explicar — disse Roland. — E realmente não há necessidade. Você vai vê-los quando chegar a hora. Por ora, se prestar a-tenção, vai ouvir algo mais próximo e mais interessante.
De início ela ouviu apenas os suspiros do vento. Então o vento dimi-nuiu um pouco e seus ouvidos captaram o silvo seco da grama, enquanto algo a atravessava. A isto se seguiu um som baixo de quebrar. Susannah soube exatamente o que era: um casco batendo no gelo fino, abrindo um furo para a água corrente a partir do mundo frio lá em cima. Também sou-be que, no período de três ou quatro dias, podia estar usando um casaco feito de algum animal que, naquele momento, estivesse bebendo nas pro-ximidades, mas isto também não tinha significado. O tempo era um con-ceito inútil quando a pessoa estava sentada no escuro, acordada, e sob um constante mal-estar.
Ela acreditara que já tinha sentido frio antes? Era muito engraçado, não era?
— O que me diz de Mordred? — perguntou. — Acha que ele está por aí?
— Acho.
— E será que sente frio como nós?
— Não sei.
— Não vou suportar isto por muito mais tempo, Roland... realmente não vou.
— Não será preciso. Logo vai clarear e espero que possamos ter uma fogueira amanhã à noite. — Tossiu para dentro da mão e tornou a pôr o braço em volta dela. — Vai se sentir melhor quando estivermos de pé e com coisas a fazer. Enquanto isso, pelo menos estamos juntos.
DOIS
Mordred estava sentindo o mesmo frio que eles, exatamente o mesmo, e estava sozinho.
Estava perto o bastante para ouvi-los: não as palavras, mas as vozes. Tremia incontrolavelmente e forrou a boca de mato seco quando ficou com medo de que os afiados ouvidos de Roland pudessem captar o som de seus dentes estalando. O casacão de ferroviário não ajudava; há muito o jogara fora, pois ficara reduzido a tantos pedaços que não era mais possível mantê-lo em volta do corpo. Ainda usava as mangas do casaco ao sair do Castelo-cidadela, mas logo, começando pelos cotovelos, também elas fo-ram ficando em frangalhos. Ele as atirara no mato baixo, ao lado da velha estrada, com uma praga arrogante. Só era capaz de manter as botas nos pés porque conseguira transformar hastes compridas de mato em grosseiros cordões. Com eles conseguira deixar o que restava das botas amarrado nos pés.
Pensou em retomar sua forma de aranha, sabendo que assim o corpo sentiria menos o frio, mas toda a sua curta vida fora afligida pelo espectro da fome e Mordred achava que essa parte dele era a que mais vivia ator-mentada, por mais comida que tivesse. E os deuses sabiam que a comida não era muita: três braços cortados, quatro pernas (duas parcialmente co-midas) e um pedaço de tórax, do cesto de vime e só. Se trocasse de forma, a aranha devoraria a porção antes do amanhecer. E embora houvesse caça por ali (ouvira o cervo se deslocando tão claramente quanto o Papai Bran-co), Mordred ainda não estava de todo confiante em sua capacidade de pe-gá-la numa emboscada ou num ataque direto.
Então continuou sentado, tremendo e atento ao som das vozes dos dois até as vozes cessarem. Talvez tivessem dormido. Ele próprio devia ter cochilado um pouco. E a única coisa que o impedia de desistir e voltar era o ódio que tinha deles. De terem um ao outro enquanto ele não tinha nin-guém. Absolutamente ninguém.
Mordred está morrendo de fome, pensou angustiado. Mordred está morrendo de frio. E Mordred não tem ninguém. Mordred está sozinho.
Pôs o pulso na boca, mordeu profundamente e sugou o calor que flu-iu. Saboreou no próprio sangue o resto da vida de Rando Pensativo... mas foi tão pouco! Tão depressa acabou! E logo nada mais havia além do gosto inútil, retemperado de si próprio.
No escuro, Mordred começou a chorar.
TRÊS
Quatro horas após o amanhecer, sob um céu esbranquiçado que prometia chuva ou neve (talvez as duas ao mesmo tempo), Susannah Dean se deitou tremendo atrás de um tronco caído, contemplando um dos pequenos vales. Vai ouvir Oi, o pistoleiro dissera. E vai me ouvir também. Vou fazer o que puder, mas vou estar fazendo-os correr na minha frente e você estará numa ótima posição para atirar. Faça cada tiro valer a pena.
O que tornava as coisas piores era sua intuição, cada vez mais insinu-ante, de que Mordred estava muito perto e poderia tentar emboscá-la en-quanto ela estivesse de costas. Susannah não parava de olhar para os lados, mas tinham escolhido um ponto relativamente limpo. Sempre que se vira-va, não havia nada na relva, com exceção de uma vez, quando viu um grande coelho marrom correndo desajeitadamente, as orelhas se arrastando no chão.
Por fim ouviu o latido alto de Oi vindo da copa das árvores à sua es-querda. Daí a pouco, Roland começou a gritar.
— Uau! Uau! Vamos lá! Vamos lá, estou dizendo! Venha já! Não fi-que aí pa... — Então o barulho de Roland tossindo. Não gostava daquela tosse. Não, absolutamente não.
Agora podia ver movimento nas árvores e, por uma das poucas vezes desde que Roland forçou-a a admitir que havia outra pessoa escondida dentro dela, Susannah chamou Detta Walker.
Preciso de você. Se você quer sentir calor novamente, ponha firmeza nas minhas mãos para que eu possa atirar bem.
E o incessante tremor de seu corpo parou. Quando o rebanho de cervos disparou das árvores — não um pequeno rebanho; deveria haver pelo menos 18 animais, conduzidos por um macho com magníficos chifres —, suas mãos também pararam de tremer. Com a direita, ela segurava o revólver de Roland com o cabo de sândalo.
Ali estava Oi, disparando da mata atrás do último participante do re-banho. Era uma corça mutante, correndo (e com estranha graça) com qua-tro patas de variados tamanhos e uma quinta pata balançando sem osso no meio da barriga, como uma teta. Em último lugar veio Roland, não real-mente correndo, não; antes cambaleando para a frente num triste trote. Ela o ignorou, apontando para o cervo que corria pela sua área de tiro.
— Por aqui — ela sussurrou. — Quebre à direita, fofinho, vamos ver se consegue. Commala-venha-venha.
E embora não tivesse razão para agir assim, o cervo que liderava o pequeno rebanho em fuga acabou de fato guinando ligeiramente na direção de Susannah. Ela estava sendo tomada por uma frieza bem-vinda. Sua vi-são pareceu se aguçar até deixá-la ver os músculos ondulando sob o lombo do cervo, a meia-lua branca quando os olhos viravam e o velho ferimento na ponta da pata da corça, onde o pêlo jamais voltara a crescer. Durante um momento, ela lamentou não ter Eddie e Jake junto de si, um de cada lado, sentindo o que ela estava sentindo, vendo o que estava vendo, e en-tão isso também passou.
Eu não mato com minha arma; quem mata com sua arma esqueceu a face de seu pai.
— Eu mato com o coração — ela murmurou, começando a atirar. A primeira bala acertou o cervo-líder na cabeça e ele caiu sobre seu lado es-querdo. Os outros passaram correndo por ele. Uma corça pulou sobre o corpo e a segunda bala de Susannah atingiu-a no meio do salto. A corça desabou sem vida do outro lado, uma perna esparramada, quebrada, toda a graça perdida.
Ouviu Roland atirar três vezes, mas não olhou para ver como ele se saíra; tinha suas coisas para cuidar e cuidou bem delas. Cada uma das últi-mas quatro balas no cilindro derrubou um cervo e só um deles ainda se movia quando ele caiu. Não lhe ocorreu que aquilo era um impressionante feito de tiro, principalmente com uma pistola; afinal, Susannah era um pis-toleiro e atirar era com ela mesmo.
Além disso, não estava ventando naquela manhã.
Agora metade do rebanho jazia morto no vale verde lá embaixo. To-dos os outros cervos, com exceção de um, dobraram à esquerda e se lança-ram encosta abaixo em direção ao riacho. Pouco depois estavam perdidos num agrupamento de salgueiros. O último animal, um cervo macho muito novo, correra direto para ela. Susannah nem se preocupou em usar a pe-quena pilha de balas a seu lado, arrumada sobre uma pele de cervo, para recarregar a arma. Simplesmente pegou um dos pratos ’Riza, a mão encon-trando automaticamente o lugar embotado onde agarrar.
— Riza! — ela gritou e jogou o prato. Ele voou pela relva seca, ele-vando-se um pouco durante o trajeto e deixando escapar aquele estranho som de gemido. Atingiu o cervo que corria no meio do pescoço. Borrifos de sangue formaram uma grinalda em volta da cabeça do animal, pretos contra o céu branco. O cutelo de um açougueiro não teria feito trabalho melhor. Por um momento o cervo ainda corria, sem atenção e sem cabeça, o sangue jorrando do coto no pescoço até que o coração, acelerado, com-pletasse sua última meia dúzia de batidas. Então o cervo desabou, as patas contorcidas, a menos de 10 metros da munição de Susannah e manchou o gramado seco, amarelado, de um vermelho forte.
A longa miséria da noite anterior estava esquecida. A dormência a-bandonara as mãos e os pés de Susannah. Nela agora não havia dor, nem senso de perda, nem medo. Por ora, Susannah era exatamente a mulher que o ka tinha feito dela. Os cheiros misturados de sangue e pólvora que vinham do cervo abatido eram amargos; mas eram também os perfumes mais doces do mundo.
Ficando de pé nos cotos de suas pernas, Susannah estendeu os bra-ços, a pistola de Roland segura na mão direita e fez um Y contra o céu. Depois gritou. Não havia palavras naquilo, nem podia haver. Nossos maio-res momentos de triunfo são sempre inarticulados.
QUATRO
Roland insistira para que fizessem um enorme desjejum e os protestos de Susannah de que carne seca picada fria tinha o sabor de mingau encaroça-do não deram resultado. Pelas duas daquela tarde, conforme o tal relógio de incrível charme de Roland (mais ou menos na hora em que a persistente chuva fria se transformava num chuvisco realmente gelado), Susannah es-tava feliz. Nunca tivera um dia tão duro de trabalho físico e o dia ainda não acabara. Roland estava todo o tempo perto dela, fazendo-lhe companhia apesar daquela tosse cada vez pior. Ela teve tempo (durante a breve, mas tremendamente gostosa refeição do meio-dia, com bifes de cervo na gre-lha) de ponderar como Roland era de fato estranho, como era extraordiná-rio. Após todo aquele tempo que passaram juntos e tantas aventuras, Su-sannah ainda não conseguira enxergar o íntimo dele. Nem mesmo de lon-ge. Já o vira rindo e chorando, matando e dançando, dormindo e agachado atrás de um monte de arbustos com a calça abaixada e a bunda suspensa sobre o que ele chamava de o Tronco de Confronto. Nunca dormira com ele como uma mulher faz com um homem, mas achou que já o vira em todas as situações possíveis e... não. Não penetrara em seu íntimo.
— Acho que essa tosse está ficando cada vez mais parecida com pneumonia — Susannah comentou, não muito depois de a chuva ter co-meçado. Estavam então na parte das atividades do dia que Roland chama-va de aven-car: carregando a caça e se preparando para transformá-la em alguma outra coisa.
— Não deixe que isso a preocupe — disse Roland. — Tenho o que preciso para curá-la.
— É mesmo? — ela perguntou num tom de descrença.
— É. Estão aqui, eu nunca perdi. — Ele pôs a mão no bolso e puxou um punhado de aspirinas. Susannah achou que a expressão em seu rosto era de autêntica reverência, e por que não? Talvez Roland devesse sua vida ao que ele chamava de asmina. Asmina e “rodela”.
Carregaram a caça para a traseira do Táxi Ho Fat de Luxo e arrasta-ram-no para o riacho. Foi preciso fazer um total de três viagens. Depois de empilharem as carcaças, Roland pôs cuidadosamente a cabeça do cervo novo em cima da pilha, onde ele ficou a encará-los com olhos arregalados.
— Pra que você quer isso? — Susannah perguntou com um traço de Detta na voz.
— Vamos precisar de todos os miolos que pudermos pegar — disse Roland, de novo tossindo seco contra um punho curvado. — É um modo sujo de fazer o trabalho, mas é rápido e funciona.
CINCO
Depois de empilharem a caça ao lado do riacho congelado (“pelo menos não vamos ter de nos preocupar com as moscas”, disse Roland), o pistolei-ro começou a juntar galhos secos. Susannah estava na expectativa da fo-gueira, mas sem a terrível necessidade da noite anterior. Tinha trabalhado duro e, ao menos por ora, sentia um calor suficiente. Tentou recordar a profundidade de seu desespero, como o frio tinha se infiltrado em seus ossos, transformando-os em vidro, e não conseguiu. Pois o corpo tinha seu modo de esquecer as coisas piores, ela supunha, e sem a cooperação do corpo, tudo que restava ao cérebro eram lembranças tipo foto desbotada.
Antes de começar seu trabalho de juntar madeira, Roland inspecionou a margem do riacho gelado e tirou de lá um pedaço de rocha. Quando en-tregou a pedra a Susannah, ela passou o polegar na superfície leitosa, alisa-da pela água.
— Quartzo? — Susannah perguntou, mas não achava que fosse. Não exatamente.
— Não conheço essa palavra, Susannah. Chamamos a pedra de sílex. Serve para fazermos ferramentas primitivas, mas bastante úteis: lâminas de machado, facas, espetos, raspadeiras. É de uma raspadeira que precisamos. E pelo menos de um martelo.
— Sei o que vamos raspar, mas o que temos para martelar?
— Vou lhe mostrar, mas primeiro não quer ficar assim um instante comigo? — Roland se ajoelhou e pôs a mão fria de Susannah dentro da sua. Olharam juntos para a cabeça do cervo.
— Agradecemos pelo que estamos prestes a receber — disse Roland diante da cabeça, e Susannah estremeceu. Era exatamente como seu pai começava a rezar quando dava graças antes de uma grande refeição em que toda a família estivesse reunida.
Nossa família está quebrada, ela pensou, mas não disse; o que estava fei-to estava feito. A resposta que deu foi a que tinha aprendido quando me-nina:
— Pai, nós te agradecemos.
— Guia nossas mãos e guia nossos corações enquanto tirarmos vida da morte — disse Roland. Depois olhou para ela, sobrancelhas erguidas, perguntando (sem falar uma palavra) se tinha mais alguma coisa a dizer.
Susannah achou que tinha.
— Pai-Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso nome. Ve-nha a nós o Vosso reino e seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje e perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, porque Vosso é o reino, o poder e a glória, para todo o sempre.
— É uma bela prece — disse Roland.
— Sim — ela concordou. — Há muito tempo não a rezava, mas ain-da é a melhor. Agora vamos cuidar de nossos assuntos enquanto ainda posso sentir minhas mãos.
Roland lhe deu amém.
SEIS
Roland pegou a cabeça decepada do cervo novo (os chifres tornavam fácil levantá-la), colocou-a na frente dele, depois jogou contra o crânio o pedaço de rocha do tamanho de um punho. Houve um abafado som de quebra que fez o estômago de Susannah se encolher. Roland agarrou os chifres e puxou. Primeiro o da esquerda, depois o da direita. Quando Susannah viu o modo como o crânio quebrado ondulava sob a pele, o estômago fez mais do que se encolher; deu lentamente um nó.
Roland bateu mais duas vezes, manejando o pedaço de sílex com pre-cisão quase cirúrgica. Então usou a faca para cortar um círculo no couro cabeludo, que ele puxou como se puxa um chapéu. Isto revelou o crânio rachado. Ele enfiou a lâmina da faca na fenda mais larga e usou-a como alavanca. Quando o cérebro do cervo ficou exposto, ele o puxou, colocou-o cuidadosamente de lado e olhou para Susannah.
— Vamos precisar do cérebro de cada cervo que matarmos e é por isso que precisamos de um martelo.
— Oh — ela disse numa voz engasgada. — Cérebros.
— Para fazer uma pasta de curtume. Mas um sílex tem mais utilidade que isso. Olhe. — Ele mostrou como bater dois pedaços de rocha até um ou ambos se estilhaçarem, deixando pedaços grandes, quase idênticos, em vez de caroços pontudos. Ela sabia que rochas metamórficas se quebravam daquele jeito, mas geralmente as rochas de xisto eram fracas demais para dar boas ferramentas. Aquela coisa era forte.
— Quando encontrar pedaços que quebrem, mas que são grossos e resistentes de um lado e extremamente finos do outro — disse Roland —, separe-os. Serão nossas raspadeiras. Se tivéssemos tempo, poderíamos fa-zer punhos para elas, mas não temos. Nossas mãos vão estar bastante ma-chucadas na hora de dormir.
— Quanto tempo acha que vamos demorar para conseguir um núme-ro suficiente de raspadeiras?
— Não muito — disse Roland. — O sílex se parte com facilidade ou, pelo menos, era o que eu costumava ouvir.
Enquanto Roland arrastava galhos secos para uma fogueira, para den-tro de um pequeno bosque de amieiro e salgueiro, à beira do riacho conge-lado, Susannah ia examinando o solo ao longo das ribanceiras, procurando sílex. Quando conseguiu encontrar uma dúzia de bons pedaços, avistou uma pedra de granito brotando do solo num contorno suave, polido pelo tempo. Achou que aquilo daria uma ótima bigorna.
O sílex de fato se quebrou da maneira certa e ela já possuía trinta ras-padeiras quando Roland chegou com sua terceira carga de lenha. Ele fez uma pequena pilha de gravetos que Susannah protegeu com as mãos. Já então caía uma neve molhada e, embora estivessem trabalhando sob um agrupamento de árvores razoavelmente denso, ela achou que os dois não demorariam a ficar ensopados.
Depois de acender o fogo, Roland se afastou alguns passos, de novo caiu de joelhos e entrelaçou as mãos.
— Rezando de novo? — ela perguntou, divertida.
— O que aprendemos em nossa infância acaba ficando — ele disse. Depois de manter os olhos fechados por alguns segundos, levou as mãos postas à boca e as beijou. A única palavra que ela o ouviu dizer foi Gan. Então ele abriu os olhos e levantou as mãos, afastando-as do corpo e fa-zendo um bonito gesto que lembrou a Susannah pássaros voando. Quando ele tornou a falar, o tom foi seco, prosaico: tipo cuidando-dos-meus-negócios. — Está muito bem — disse. — Vamos trabalhar.
SETE
Fizeram um cordão com a relva, exatamente como Mordred havia feito, e penduraram o primeiro cervo (o que já não tinha cabeça) pelas patas trasei-ras no galho baixo de um salgueiro. Roland usou a faca para cortar a barri-ga do animal, pôs a mão nas vísceras, remexeu nelas e removeu lá de den-tro dois órgãos vermelhos, pingando sangue. Susannah achou que eram os rins.
— Bons para febre e tosse — disse ele, mordendo o primeiro rim como se fosse uma maçã. Susannah fez um ruído de engasgo e se virou algum tempo para olhar o rio. De repente tornou a olhar para Roland e o viu dar talhos circulares em volta das pernas penduradas, perto de onde elas se articulavam ao corpo.
— Está se sentindo melhor? — ela perguntou meio constrangida.
— Vou estar — disse ele. — Agora me ajude a tirar a pele desta cria-tura. Vamos querer o primeiro cervo ainda com o pêlo... Precisamos de uma tigela para nossa pasta. Agora veja!
Ele pôs os dedos no lugar onde a pele do cervo continuava grudada ao corpo pela fina camada de gordura e músculo, e puxou. A pele partiu facilmente até a metade da barriga do cervo.
— Agora do seu lado, Susannah.
Pôr os dedos sob a pele foi a única parte difícil. Desta vez os dois pu-xaram juntos e, quando conseguiram tirar a pele até o início das patas pen-duradas, ela ficou vagamente parecida com uma camisa. Roland usou a faca para cortá-la, depois começou a cavar no chão, a pouca distância do fogo que roncava, mas ainda sob a proteção das árvores. Susannah o ajudou, gostando de sentir o suor rolando pela face e pelo corpo. Quando fizeram uma pequena depressão em forma de tigela, 70 centímetros de um lado a outro e meio metro de profundidade, Roland forrou-a com a pele.
Durante toda a tarde eles se revezaram esfolando os oito outros cer-vos que haviam matado. Era importante fazer aquilo o mais depressa pos-sível, pois quando a camada subjacente de gordura e músculo secasse, o trabalho se tornaria mais difícil e mais vagaroso. O pistoleiro manteve o fogo queimando alto e quente, de vez em quando deixando-a para espalhar no solo. Quando estas cinzas esfriaram o bastante para não abrir buracos em sua forma de tigela, foram jogadas na depressão forrada com a pele. As costas e os braços de Susannah estavam doendo muito por volta das cinco horas, mas ela continuou com a coisa. O rosto, o pescoço e as mãos de Roland estavam comicamente manchados de cinzas.
— Você parece um ator pintado de negro num teatro de revista — disse ela a certa altura. — Como o Rastus Coon.
— Quem é ele?
— O bobo dos brancos — respondeu Susannah. — Acha que Mor-dred está lá fora, nos vendo trabalhar? — Durante todo o dia Susannah havia mantido um olho atento.
— Não — disse Roland, fazendo uma pausa para descansar. Tirou o cabelo da testa, deixando à mostra uma nova mancha de sujeira e agora fazendo Susannah pensar em penitentes de Quarta-Feira de Cinzas. — Acho que ele saiu para pegar sua própria caça.
— Mordred está faminto — disse ela. E depois: — Pode tocá-lo um pouco, não pode? Pelo menos para saber se ele está aqui ou se já foi.
Roland pensou e se limitou a responder:
— Sou pai dele.
OITO
Ao escurecer, tinham um monte de peles de cervos e uma pilha de carcaças sem pele e sem cabeça que, sem dúvida, já estariam cobertas de moscas se o tempo estivesse mais quente. Fizeram outra enorme refeição com peda-ços assados de carne de cervo, extremamente gostosos, e Susannah não deixou de pensar outra vez em Mordred, em algum lugar no escuro, pro-vavelmente fazendo uma refeição de carne crua. Mordred podia ter fósfo-ros, mas não era estúpido; se eles vissem outra fogueira em toda aquela escuridão, correriam na direção dela. E dele. Então, bangue-bangue-bangue! Tchau, Garoto-Aranha. Susannah experimentou um surpreenden-te sentimento de pena por Mordred e disse a si mesma para ter cuidado com aquilo. Certamente com Mordred não havia contrapartida. Ele não estaria sentindo nada disso nem por ela nem por Roland.
Quando acabaram de comer, Roland limpou os dedos engordurados na camisa.
— Tinha um gosto ótimo — disse.
— Falou e disse.
— Agora vamos pegar os miolos. Depois dormimos.
— Um de cada vez? — Susannah perguntou.
— Sim... pelo que sei é um cérebro para cada freguês.
Por um momento ela ficou espantada demais por estar ouvindo uma expressão de Eddie
(um para cada freguês)
vindo da boca de Roland e custou a perceber que ele também havia brincado com as palavras. Não muito bem, é claro, mas fora uma tentativa legítima. E ela conseguiu esboçar uma risada.
— Muito engraçado, Roland. Mas você sabe ao que eu estava me re-ferindo.
Roland assentiu.
— Vamos dormir um de cada vez — disse —, enquanto o outro fica de guarda, claro. Acho que é melhor.
O tempo e a repetição deram resultado; ela já vira um número exces-sivo de tripas sendo revolvidas para se sentir enjoada por causa de alguns cérebros. Assim fizeram estalar cabeças, usando a faca de Roland (o gume agora rombudo) para abrir os crânios e remover os miolos dos animais ca-çados. Foram reservando cuidadosamente os miolos, como um punhado de grandes ovos cinzentos. Quando o último cervo teve o cérebro retirado, os dedos de Susannah estavam tão feridos e inchados que ela mal conse-guia dobrá-los.
— Deite — disse Roland. — Durma. Faço a primeira vigília.
Ela não discutiu. Dada sua barriga cheia e o calor do fogo, sabia que o sono viria depressa. Também sabia que, quando acordasse no dia seguinte, ia estar tão dura nas costas que até sentar seria difícil e doloroso. Agora, no entanto, ela não se importava. Uma sensação de grande contentamento a dominava. Parte dessa alegria era por ter ingerido comida quente, mas de modo algum a totalidade. A maior parte de seu bem-estar vinha de um dia de trabalho duro, nem mais nem menos. A sensação de que estavam não apenas indo adiante, mas fazendo tudo com suas próprias forças.
Deus, ela pensou, acho que depois de velha estou virando membro do partido re-publicano!
Outra coisa lhe ocorreu: estava muito silencioso. Nenhum som além do sussurro do vento, o borrifar da neve molhada (começando agora a di-minuir) e o crepitar da abençoada fogueira.
— Roland?
Ele a olhou de seu lugar junto ao fogo, sobrancelhas erguidas.
— Você parou de tossir.
Ele sorriu e abanou positivamente a cabeça. Ela caiu no sono vendo o sorriso dele, mas foi com Eddie que sonhou.
NOVE
Ficaram três dias no acampamento junto ao riacho e, durante esse tempo, Susannah aprendeu mais sobre como fazer roupas de pele do que lhe pare-cia possível (e muito mais do que realmente queria saber).
Ao procurar rio abaixo e acima, a cerca de um quilômetro e meio do ponto onde estavam, encontraram duas toras bem lisas, uma para cada um. Enquanto procuravam, deixaram as peles de molho na tigela improvisada, num caldo negro de cinzas e água. Depois encostaram as toras nos troncos de dois salgueiros (salgueiros vizinhos, para que pudessem trabalhar lado a lado) e usaram raspadeiras de sílex para tirar os pêlos das peles. Levaram um dia fazendo isto. Quando o trabalho estava concluído, esvaziaram a “tigela”, viraram a pele que forrava a depressão no solo pelo avesso e en-cheram de novo o recipiente, desta vez com uma mistura de água e miolos moídos. Este “curtume de tempo frio” era uma novidade para Susannah. Deixaram as peles mergulhadas a noite inteira naquela pasta e, enquanto Susannah começou a extrair de tendões e cartilagens linhas para costura, Roland afiou a faca e usou-a para criar meia dúzia de agulhas entalhando alguns ossos. Quando Roland acabou de fazer isso, todos os seus dedos estavam sangrando por dezenas de pequenos cortes. Ele passou o caldo de cinzas neles e dormiu assim, as mãos parecendo cobertas por grandes e toscas luvas cinza-escuro. No dia seguinte, quando Roland lavou as mãos num riacho, Susannah ficou surpresa ao ver que os talhos já estavam cica-trizando. Tentou aplicar um pouco daquela cinza na espinha sempre infla-mada que tinha ao lado da boca, mas a coisa ardeu terrivelmente e ela teve de ir correndo lavar a boca.
— Quero que me corte esta maldita coisa! — disse.
Roland balançou negativamente a cabeça.
— Vou dar um pouco mais de tempo para ela cicatrizar sozinha.
— Por quê?
— Porque cortar uma ferida não é uma boa idéia, a não ser que seja mesmo preciso fazer isso. Especialmente aqui, no que Jake chamaria “terra de cãochorro”.
Susannah concordou (sem se preocupar em corrigir a pronúncia dele), mas imagens desagradáveis se infiltraram em sua cabeça quando ela deitou: visões da espinha começando a se espalhar, destruindo centímetro por cen-tímetro do seu rosto, transformando toda a sua cabeça num tumor negro, cheio de crostas, sangrento. No escuro, as visões pareciam extremamente convincentes, mas felizmente Susannah estava cansada demais para que aquilo a mantivesse acordada por muito tempo.
No segundo dia do que Susannah estava começando a imaginar como Acampamento das Peles, Roland construiu uma grande grelha sobre uma nova fogueira, que tinha um fogo baixo e lento. Defumaram as peles duas a duas e depois as estenderam. O cheiro do produto acabado era surpreen-dentemente agradável. Tem cheiro de couro, ela pensou, levando uma pele ao rosto, mas logo começou a rir. As peles, afinal, não eram outra coisa senão couro.
Passaram o terceiro dia dando “acabamento” e aqui Susannah final-mente superou o pistoleiro. Roland costurava com pontos grandes demais e pouco confiáveis. Ela achou que os coletes e perneiras que ele fez agüen-tariam um mês, no máximo dois; depois começariam a abrir. Susannah se mostrou muito mais competente. Aprendera a costurar com a mãe e com as duas avós. A princípio achou as agulhas de osso de Roland terrivelmente desajeitadas e interrompeu o trabalho para amarrar no polegar e no indica-dor da mão direita pequenas capas de pele de cervo. Depois disso a coisa foi mais rápida e, por volta do meio da tarde, ela já estava tirando peças da pilha de Roland e reforçando a costura dele com a sua, mais fina e segura. Achou que Roland poderia fazer objeções a isto — os homens eram orgu-lhos —, mas ele não fez, o que provavelmente foi bastante sensato. Muito provavelmente teria sido Detta quem enfrentaria seus ganidos e chiados.
Quando a terceira noite no Acampamento das Peles chegou, cada um tinha um colete, um par de perneiras e um casaco. Cada um tinha também um par de luvas. Eram luvas muito grandes e ridículas, mas manteriam as mãos aquecidas. E por falar de mãos, Susannah ficara de novo quase inca-paz de curvar as suas. Olhando com ar de dúvida para as peles restantes, perguntou a Roland se teriam de passar outro dia trabalhando no acaba-mento das roupas.
Ele pensou e sacudiu a cabeça numa negativa.
— Vamos levar as que ainda não estiverem prontas para o Táxi Ho Fat, juntamente com um pouco de carne e pedras de gelo do riacho para manter a carne fria e em bom estado.
— O Táxi não servirá de nada quando atingirmos a neve, não é?
— Não — ele admitiu —, mas já então o resto das peles estarão prontas e a carne será comida.
— Você simplesmente não pode ficar mais tempo aqui, essa é a base da coisa, não é? Você a ouve chamando. A Torre.
Roland olhou para o fogo estalando e não disse nada. Nem teve de dizer.
— Como vamos carregar nossos trastes depois que chegarmos às ter-ras brancas?
— Improvisando uma padiola. E lá teremos bastante caça.
Ela abanou a cabeça e começou a se deitar. Roland pegou seus om-bros e virou-a para o fogo. O rosto dele se aproximou e, por um momen-to, Susannah achou que Roland pretendia lhe dar um beijo de boa-noite. Em vez disso, ele se limitou a observar, demorada e atentamente, a espinha com crosta de ferida ao lado da boca.
— E então? — ela finalmente perguntou. Podia ter dito mais alguma coisa, mas Roland teria percebido o tremor na voz.
— Acho que está um tanto menor. Assim que deixarmos as Terras Áridas, talvez ela sare sozinha.
— Acha realmente possível?
O pistoleiro balançou de imediato a cabeça.
— Eu disse talvez. Agora se deite Susannah. Procure descansar.
— Está bem, mas desta vez não me deixe acordar tarde. Quero cum-prir minha parte da vigília.
— Sim. Agora se recoste.
Ela fez o que ele mandava e estava dormindo antes mesmo que os olhos se fechassem.
DEZ
Ela está no Central Park e está frio o bastante para que se possa ver sua respiração. O céu acima está branco de um lado a outro, um céu de nevasca, mas ela não sente frio. Não, não com seu novo casaco de pele de cervo, perneiras, colete e engraçadas luvas tam-bém de pele de cervo. Também há alguma coisa em sua cabeça, puxada sobre as orelhas, mantendo-as aquecidas como o resto do corpo. Ela tira o chapéu, curiosa, e vê que não é de pele de cervo como o resto de seus novos trajes, mas um gorro, vermelho e verde. Escri-to na frente está FELIZ NATAL.
Ela observa a inscrição, assustada. Será possível um déjà vu num sonho. Ao que parece, sim. Olha em volta e lá estão Eddie e Jake, sorrindo. As cabeça estão nuas e ela percebe que tem nas mãos uma junção dos chapéus que eles usavam em algum outro so-nho. Sente uma grande, uma incrível explosão alegria, como se tivesse acabado de resol-ver algum problema supostamente insolúvel: transformar o círculo num quadrado, diga-mos, ou encontrar o Último Número Primo (pegue esse, Blaine!, que ele exploda teu cérebro, seu maluco trem chuu-chuu).
Eddie está usando um moletom com os dizeres: EU BEBO NOZZ-A-LA!
Jake está usando um que diz: EU GUIO O TAKURO SPIRIT!
Ambos têm xícaras de chocolate quente, o sabor perfeito do chantilly por cima e pequenos borrifos de noz-moscada salpicando o creme.
— Que mundo é este? — ela pergunta a eles e percebe que, em algum lugar por perto, um coral está cantando “Que Criança É Esta”.
— Deve deixar que ele siga seu caminho sozinho — diz Eddie.
— É, e precisa tomar cuidado com Dandelo — diz Jake.
— Não entendo — diz Susannah estendendo para eles o gorro. — Isto não era de vocês? Não era este boné que vocês compartilhavam?
— O chapéu pode ser seu, se quiser — diz Eddie e estende a xícara. — Olhe, eu lhe trouxe chocolate quente!
— Nada mais de gêmeos — diz Jake. — Há um único chapéu, você não enten-de?
Antes que ela possa responder, uma voz sai do nada e o sonho começa a se desfa-zer.
— DEZENOVE — diz a voz. — Aqui é DEZENOVE, aqui é CHAS-SIT .
A cada palavra o mundo se torna mais irreal. Ela pode ver através de Eddie e Jake. O cheiro gostoso do chocolate quente vai ficando mais faço, sendo substituído pelo cheiro de cinzas
(quarta-feira)
e couro. Ela vê os lábios de Eddie se mexendo e pensa que ele está dizendo um nome e então
ONZE
— Hora de se levantar, Susannah — disse Roland. — A vigília agora é sua.
Ela se sentou olhando para os lados. A fogueira já estava muito baixa.
— Eu o escutei andando lá fora — disse Roland —, mas já foi há al-gum tempo. Susannah, você está bem? Estava sonhando?
— Estava — disse ela. — Havia um único chapéu no sonho e era eu quem o estava usando.
— Não estou entendendo.
Nem ela estava. O sonho já ia se embaçando, como fazem os sonhos. Tudo que ela sabia com certeza era que o nome nos lábios de Eddie, pou-co antes de ele se dissolver para sempre, fora o de Patrick Danville.
CAPÍTULO V
JOE COLLINS DA ODD’S LANE
UM
Três semanas após o sonho de um único chapéu, três figuras (duas gran-des, uma pequena) emergiram de um trecho elevado de mata e começaram a andar lentamente por um vasto campo aberto em direção a uma nova extensão de floresta um pouco abaixo. Uma das figuras grandes estava pu-xando a outra numa engenhoca que era mais trenó que padiola.
Oi corria de um lado para o outro entre Roland e Susannah, como se quisesse sugerir uma constante vigilância. Seu pêlo estava espesso e macio por causa do frio e de uma constante dieta de carne de cervo. A terra que os três atravessavam talvez fosse um pasto nas estações mais quentes; ago-ra, no entanto, o solo estava enterrado sob um metro e meio de neve. Pu-xar o trenó era mais fácil, porque o caminho estava finalmente levando para baixo. Na verdade Roland tinha esperanças de que o pior já tivesse passado. E afinal, cruzar as Terras Brancas não era assim tão mau — pelo menos até aquele momento. Havia bastante caça, havia bastante madeira para as fogueiras noturnas e, nas quatro ocasiões em que o tempo ficou ruim e caíram tempestades de neve, os dois se limitaram a esperar sentados que o temporal diminuísse nas florestas, nas vertentes dos morros que marchavam para sudeste. E o temporal acabava mesmo enfraquecendo, embora o mais furioso deles tenha durado dois dias inteiros. O fato é que, quando tornaram a pegar o Caminho do Feixe, encontraram um novo me-tro de neve no solo. Nos descampados onde o uivante vento nordeste pu-dera soprar com fúria plena, formavam-se montes de neve que lembravam ondas do mar. Algumas inclusive conseguiram sepultar, quase até o topo, pinheiros bem altos.
Após o primeiro dia nas Terras Brancas, com Roland lutando para puxá-la (e quando a neve ainda estava com uns 30 centímetros de profun-didade), Susannah achou que eram capazes de passar meses atravessando aquelas encostas altas, forradas de florestas, a não ser que Roland tivesse um par de sapatos para neve. Por isso ela passou aquela primeira noite tra-balhando para lhe improvisar os sapatos. Foi um processo de tentativa-e-erro (“adivinhando e rezando”, como Susannah gostava de pôr a coisa), mas o pistoleiro aprovou como um sucesso seu terceiro esforço. As plata-formas foram feitas de ramos macios de bétula, os centros de correias en-trelaçadas de pele de cervo. Para Roland, a coisa ficou parecida com lágri-mas.
— Onde aprendeu a fazer isto? — ele perguntou depois de ter passa-do um dia usando os sapatos de neve. O aumento na distância percorrida não deixou de ser espantoso, principalmente depois que ele aprendeu a avançar com uma espécie de passada oscilante de marinheiro, que não dei-xava a neve se acumular nas superfícies entrelaçadas.
— Na televisão — disse Susannah. — Costumavam fazer sapatos de neve num programa que eu via quando era criança, Sargento Preston do Yu-kon. O sargento Preston não tinha um zé-trapalhão para lhe fazer compa-nhia, mas tinha um cachorro fiel, King. Seja como for, fechei os olhos e procurei me lembrar de como eram os sapatos do cara. — Apontou para os que Roland estava usando. — Foi o melhor que pude fazer.
— E fez muito bem — disse ele e a sinceridade que Susannah ouviu naquele elogio tão simples lhe deixou arrepiada. Não era necessariamente assim que ela queria que Roland (ou, aliás, qualquer outro homem) a fizes-se se sentir, mas não tinha saída. E se perguntou se isso era genético ou da criação, mas não tinha certeza se queria mesmo saber.
— Vão servir muito bem, pelo menos enquanto não se desmancha-rem — ela admitiu. A primeira tentativa não vingara.
— Não sinto as correias se afrouxarem — disse Roland. — Alargam-se um pouco, talvez, mas só isso.
Agora, enquanto cruzavam o grande descampado, esse terceiro par de esquis ia se mantendo firme, e Susannah, sentindo que dera uma boa con-tribuição à jornada, já era capaz de deixar Roland puxá-la sem demasiado sentimento de culpa. De vez em quando ficava realmente preocupada com Mordred e uma noite, cerca de dez dias após terem cruzado a fronteira da neve, pediu que Roland contasse o que de fato sabia. O que a incentivou foi aquela declaração de que não precisavam ficar sempre de vigia, pelo menos durante algum tempo; podiam tirar umas boas dez horas de sono, se era isso que os corpos estivessem exigindo. Oi os acordaria se precisas-sem acordar.
Roland tinha suspirado e contemplado o fogo por quase um minuto inteiro, os braços ao redor dos joelhos e as mãos se apertando frouxamen-te entre eles. Susannah tinha quase acabado de concluir que Roland não ia absolutamente responder quando ele disse:
— Ainda nos segue, mas fica cada vez mais para trás. Luta para co-mer, luta para emparelhar conosco, luta mais que tudo para se manter a-quecido.
— Para se manter aquecido? — Susannah achou difícil acreditar naqui-lo. Afinal, havia árvores por toda a volta.
— Mas ele não tem fósforos, nem essa coisa do Sterno. Acho que numa dessas noites... acho até que pode ter acontecido logo no início... ele alcançou uma de nossas fogueiras ainda com brasas sob as cinzas e conse-guiu levar algumas brasas com ele, garantindo assim o fogo durante a noite. Os antigos habitantes das cavernas também costumavam transportar o fo-go em suas jornadas, pelo menos foi o que se dizia.
Susannah abanou a cabeça. Também tinha aprendido mais ou menos a mesma coisa em aulas de ciência na escola secundária, embora o profes-sor tivesse admitido que, muito do que se dizia sobre a vida das pessoas na Idade da Pedra não era absolutamente conhecimento verdadeiro, mas só conjectura. Ela se perguntou quanto do que Roland tinha acabado de lhe dizer também não era pura conjectura e foi o que perguntou a ele.
— Não são suposições, mas não sei explicar por quê. Se for o toque, Susannah, não é exatamente como o de Jake. Não vejo, nem ouço, nem sequer sonho com a coisa. Se bem que... você sabe que às vezes temos so-nhos de que não conseguimos nos lembrar depois que acordamos?
— Sei. — Ela pensou em falar sobre as pesquisas sobre o movimento rápido dos olhos e as experiências do sono, das quais tinha lido na revista Look. Depois achou que a coisa seria complexa demais. Contentou-se em dizer que tinha certeza que, toda noite, as pessoas tinham sonhos de que não conseguiam se lembrar.
— Então talvez eu o tenha visto e ouvido num desses — disse Ro-land. — Tudo que sei é que ele está lutando para acompanhar o ritmo. Co-nhece tão pouco do mundo que é realmente assombroso que ainda esteja vivo.
— Sente pena dele?
— Não. Não posso me dar ao luxo de sentimentos de piedade, nem eu nem você.
Mas os olhos de Roland tinham deixado os seus quando ele disse isso, e Susannah achou que ele estava mentindo. Talvez não quisesse sentir pena de Mordred, mas Susannah tinha certeza que ele sentia, pelo menos um pouco. Talvez quisesse esperar que Mordred morresse no rastro deles (cer-tamente havia um bom número de possibilidades de que isso acontecesse, ficando a hipotermia como causa mais provável), mas Susannah não acha-va que Roland fosse capaz de fazê-lo. Podiam ter deixado para trás o ka, mas ela reconhecia o laço de sangue.
E havia mais alguma coisa. Mais poderosa que o sangue do parentes-co. Ela sabia que sim, porque podia senti-la vibrando em sua cabeça quan-do dormia e quando estava acordada. Era a Torre Negra. Acreditava que agora estivessem bem próximos dela. Não tinha idéia do que iam fazer com seu guardião louco quando e se chegassem lá, mas não se importava mais com isso. Por ora, tudo que queria era vê-la. A idéia de entrar ainda excedia aquilo com que sua imaginação conseguia trabalhar, mas ver? Sim, podia imaginar isso. E achava que vê-la seria suficiente.
DOIS
Foram abrindo vagarosamente caminho pela encosta vasta e branca com Oi correndo primeiro no calcanhar de Roland, depois recuando para a-companhar Susannah, depois voltando para perto de Roland. Luminosos buracos azuis se abriam às vezes sobre eles. Roland sabia que era o Feixe em ação, puxando constantemente a capa de nuvens para sudeste. Fora disso, o céu estava branco de um horizonte a outro, e tinha um aspecto pesado que agora sabiam reconhecer. Haveria mais neve a caminho e o pistoleiro desconfiou que, talvez, tivessem de enfrentar uma tempestade pior que todas as outras. O vento estava aumentando e a umidade que ha-via nele bastava para entorpecer todas as partes expostas da pele dele (após três semanas de diligente trabalho de costura, aquilo equivalia no máximo à testa e à ponta do nariz). As rajadas erguiam compridas e diáfanas tiras de branco que passavam em disparada por eles e seguiam encosta abaixo co-mo incríveis dançarinos de bale mudando sempre de forma.
— São bonitas, não são? — Susannah perguntou atrás dele, quase num tom de melancolia.
Roland de Gilead, que nunca chegara exatamente a ser um conhece-dor de beleza (com exceção de uma vez, na longínqua Mejis), apenas res-mungou. Sabia o que seria bonito para ele: um lugar seguro para quando a tempestade os alcançasse, algo melhor do que um pequeno bosque denso. Por isso ele quase duvidou do que viu quando a última rajada de vento so-prou e a neve assentou. Deixou cair o repuxador do trenó, desceu dele, se aproximou de Susannah (a bagagem dos dois, agora aumentando de novo, estava amarrada atrás) e caiu com um joelho no chão do lado dela. Vestin-do peles de cima a baixo, lembrava mais um bigfoot sarnento que um ho-mem.
— O que acha disso? — perguntou.
O vento tornou a escoicear, mais forte que nunca, a princípio obscu-recendo o que tinha visto. Quando o vento diminuiu, abriu-se um buraco sobre os dois e o sol brilhou brevemente através dele, iluminando o campo de neve com bilhões de centelhas parecidas com diamantes. Susannah pro-tegeu os olhos com uma das mãos e contemplou toda a descida da encosta. O que ela viu foi um T invertido gravado na neve. A trave da cruz, mais próxima deles (mas ainda a pelo menos uns 3 quilômetros de distância), era relativamente curta, talvez com uns 50 ou 60 metros de cada lado. O corpo da cruz, no entanto, era muito comprido, avançando sempre para o hori-zonte, desaparecendo nele.
— São estradas! — ela disse. — Alguém limpou a neve de duas estra-das lá embaixo, Roland!
Ele abanou a cabeça.
— Também achei que eram, mas quis ouvir sua opinião. Também re-parei em outra coisa.
— O quê? Seus olhos são mais aguçados que os meus e a diferença é grande.
— Quando chegarmos um pouco mais perto, você verá por si mes-ma.
Roland tentou se levantar e ela puxou impaciente seu braço.
— Não faça esse jogo comigo. O que é?
— Telhados — disse Roland cedendo à vontade dela. — Acho que são casinhas lá embaixo. Talvez uma cidade.
— Gente? Você está dizendo gente?
— Bem, parece que há fumaça saindo de uma das casas. Mas é difícil dizer com certeza com o céu tão nublado.
Ela não sabia se queria ver gente ou não. Certamente isso ia compli-car as coisas.
— Roland, precisamos ter cuidado.
— Sim — disse ele, voltando para o repuxador. Antes de pegá-lo, fez uma pausa para ajustar o cinturão, baixando um pouco o coldre para ele ficar mais confortavelmente perto de sua mão esquerda.
Uma hora depois chegaram ao cruzamento da pista com a estrada. No centro havia um monte de neve que passava facilmente dos 3 metros de altura e que devia ter sido feito por alguma espécie de veículo. Susannah podia ver as marcas de pneu, que pareciam de buldôzer, impressas na neve compacta. Saindo da neve, havia um poste. A placa que havia no alto não era diferente das que vira nas mais diferentes cidades; por exemplo, nos cruzamentos de Nova York. A que apontava para a pista dizia:
ODD’S LANE
Foi a outra, no entanto, que fez o coração de Susannah vibrar.
ESTRADA DA TORRE,
dizia ela.
TRÊS
Com exceção de uma, todas as casinhas agrupadas em volta do cruzamento pareciam abandonadas e muitas estavam meio enterradas no solo, destro-çadas sob o peso da neve acumulada. O que era exceção, no entanto (e que ficava próximo ao final do braço esquerdo de Odd’s Lane), era claramente diferente dos outros. O telhado fora quase todo limpo do peso potencial-mente esmagador da neve e fora aberto um caminho até a porta da frente. Era da chaminé desta casinha curiosa, cercada por árvores, que saía uma fumaça em plumas brancas. Uma janela estava iluminada por um amarelo meio leitoso, mas foi a fumaça que captou a atenção de Susannah. Pelo que lhe dizia respeito, era o toque final. A única dúvida em sua mente era saber quem atenderia à porta. João ou sua irmã Maria? (Será que eram gêmeos? Será que alguém já pesquisara o assunto?) Talvez fossem recebidos pela Chapeuzinho Vermelho ou Cachinhos de Ouro, mostrando um suspeito cavanhaque feito de mingau.
— Talvez não devêssemos mexer com esta casa — disse ela conscien-te de que sua voz se transformara quase num sussurro, embora ainda esti-vessem no alto do monte de neve criado pela limpeza das estradas. — Es-quecíamos dela e íamos em frente. — Apontou para a placa dizendo ES-TRADA DA TORRE. — Temos caminho livre, Roland. Talvez devêsse-mos aproveitar.
— E se fizermos isto, acha que Mordred também o fará? — Roland perguntou. — Acha que ele simplesmente passará por aqui deixando em paz quem morar nesta casa?
Era uma pergunta que não tinha sequer ocorrido a Susannah e, natu-ralmente, a resposta seria não. Se Mordred achasse que poderia matar quem estivesse no chalé, ele o faria. Por comida se os moradores fossem digeríveis, mas comida seria apenas uma consideração secundária. Os bos-ques lá atrás estavam repletos de caça e, mesmo que Mordred não fosse capaz de pegar seu próprio jantar (e Susannah tinha certeza que em sua forma de aranha seria perfeitamente capaz de fazê-lo), eles tinham deixado os restos de suas refeições num bom número de locais de acampamento. Não. Mordred sairia das terras altas e nevadas alimentado... mas não feliz. Realmente nada feliz. E se irritaria com qualquer um que por acaso cruzas-se seu caminho.
Por outro lado, ela pensou... simplesmente não havia outro lado e de re-pente ficara tarde demais: a porta da frente do chalé se abriu e um homem velho pôs o pé no alpendre. Usava botas, calça jeans e um casacão forrado de pele. Susannah achou que, pelo menos o capuz, poderia ter sido com-prado na loja de acessórios militares em Greenwich Village.
O velho tinha as faces rosadas, uma estampa de boa saúde, mas man-cava bastante, apoiado na sólida bengala que trazia na mão esquerda. De trás do curioso chalezinho, com suas plumas de fumaça de conto de fadas, vinha o relinchar agudo de um cavalo.
— Claro, Lippy, eu os vejo! — o velho gritou virando-se naquela di-reção. — Tenho pelo menos um bom olho esquerdo, não é? — disse ele voltando a olhar para Roland parado com Susannah e Oi no alto do monte de neve e levantando a bengala num cumprimento que pareceu ao mesmo tempo jovial e destemido. Roland ergueu a mão em resposta.
— Parece que vamos ter de palestrar, gostemos disso ou não — disse Roland.
— Eu sei — disse Susannah. E depois, para o trapalhão: — Oi, veja lá como se comporta, está ouvindo?
Oi olhou para ela e depois para o homem sem fazer ruído. Quanto à questão de se comportar, parecia que ia ficar na dele.
A perna ruim do velho estava sem a menor dúvida muito ruim (“vizi-nha do fim”, teria dito o papai Mose Carver), mas ele conseguia avançar bastante bem com a bengala, movendo-se num passo que saltitava para os lados, algo que Susannah achou ao mesmo tempo divertido e admirável. “Ágil como um grilo” era outro dos muitos ditos de papai Mose e talvez este se adaptasse melhor ao homem. Certamente ela não via ameaça ou perigo num sujeito de cabelos brancos (o cabelo, comprido e fino como cabelo de bebê, caía nos ombros do casacão) que pulava de um lado para o outro agarrado a uma bengala. E, quando ele chegou mais perto, Susannah reparou, num de seus olhos, a película branca de uma catarata. A pupila, pouco visível, parecia sempre virada para a esquerda, sem vida. A outra, porém, observava os recém-chegados com nítido interesse enquanto o ha-bitante da casinha pulava por Odd’s Lane em direção a eles.
A égua tornou a relinchar e o velho brandiu freneticamente a bengala contra o céu baixo e branco.
— Cala a boca caixa de feno, fábrica de bosta, velhinha pirada porra louca! Será que tu nunca viu visita? Num nasceu num estábulo, anh? Pru-quê se não nasceu, sou um babuíno de olho azul, que é uma coisa que não existe!
Roland riu com vontade e o resto da atenta apreensão de Susannah se dissipou. A égua relinchou de novo do anexo atrás da casinha — nem de perto algo de tamanho suficiente para ser chamado de celeiro —, e o velho tornou a sacudir a bengala em sua direção, quase caindo no chão de neve. Seu desajeitado, mas rápido modo de andar, já o fizera cumprir metade do trajeto até o ponto onde eles estavam. Depois de escapar do que podia ter sido um tombo sério, o homem deu um grande salto para o lado usando a bengala como apoio e começou a agitá-la animadamente na direção do grupo.