A Torre Negra, Vol. 7
Quatro
BRIDGTON HIGH STREET 1
HIGHLAND LAKE 2
HARRISON 3
WATERFORD 6
SWEDEN 9
LOVELL 18
FRYEBURG 24
Tinham acabado de passar por esta placa quando Eddie disse:
— Dê uma mexida no porta-luvas, Roland. Veja se o ka, o Feixe ou seja lá quem for nos deixou alguma moeda para o telefone público.
— Porta...? Está se referindo a este painel aqui?
— Sim.
Primeiro Roland tentou girar o botão cromado na frente, depois sa-cou o jeitão e empurrou. O interior era um ninho de cobra que não fora melhorado pelo breve período de ausência de peso do Galaxie. Havia reci-bos de cartão de crédito, um tubo muito velho do que Eddie identificou como “creme dental” (Roland leu com toda a clareza as palavras HOLMES DENTAL escritas no tubo), uma fotografia mostrando uma menina sorriden-te — talvez sobrinha de Cullum — num pônei, um bastão do que Roland tomou inicialmente como explosivo (Eddie disse que era um sinalizador de estrada, para emergências), uma revista que parecia se chamar YANKME... e uma caixa de charutos. Roland não conseguiu entender de todo qual era a palavra escrita nele, embora achasse que podia ser treco. Mostrou a caixa a Eddie, cujos olhos se iluminaram.
— O que está escrito é TROCO — disse ele. — Talvez você tenha ra-zão sobre Cullum e ka. Abra, Roland, faça isso por favor.
A criança que tinha dado aquela caixa como presente havia lhe acres-centado um simpático trinco (um pouco tosco) para mantê-la fechada. Ro-land fez o trinco deslizar, abriu a caixa e mostrou a Eddie um grande nú-mero de moedas prateadas.
— Isso dá para ligar para a casa de sai Cullum?
— Dá — disse Eddie. — Parece que dá até para falar com Fairbanks, no Alasca. Mas não nos ajudará em nada se Cullum estiver na estrada, a caminho de Vermont.
CINCO
Bridgton, cidadezinha de uma rua, era limitada por uma drogaria e uma pizzaria numa extremidade; um cine-teatro (A Lanterna Mágica) e uma loja de departamentos (Reny’s) na outra. Entre o teatro e a loja de departamen-tos havia uma pequena praça equipada com bancos e três telefones públi-cos. Eddie vasculhou a caixa de moedas de Cullum e deu a Roland seis dó-lares em moedas de 25 cents.
— Quero que vá até lá — disse ele apontando para a drogaria — e me pegue uma caixa de aspirina. Será que vai reconhecer o remédio quan-do o vir?
— Asmina. Vou reconhecer.
— Quero o menor tamanho que eles tiverem, porque seis dólares re-almente não é muito dinheiro. Depois vá até a loja que fica do lado, aquele lugar que diz Bridgton Pizza e Sanduíches. Se ainda tiver pelo menos 16 moedas, diga a eles que quer um submarino.
Roland abanou a cabeça, o que não bastou para Eddie.
— Fale a palavra para eu ouvir.
— Sumarino.
— Submarino.
— SUU-marino.
— Sub... — Eddie desistiu. — Roland me deixe ouvir você falar “po-or boy”.
— Poor boy.
— Bom. Se tiver sobrado pelo menos 16 moedas de 25 cents, peça um poorboy. É capaz de dizer “um monte de maionese”?
— Um monte de maionese.
— Bom. Se tiver menos de 16 moedas, peça um sanduíche com sala-me e queijo. Sanduíche, não popquim.
— Sandiche salome.
— É quase. E não fale nada a não ser que seja absolutamente neces-sário.
Roland abanou a cabeça. Eddie tinha razão. Seria melhor não falar. As pessoas só precisavam olhá-lo uma vez para descobrir, mesmo que não em nível de todo consciente, que ele não era da região. As pessoas também tinham a tendência a se esquivar dele. Melhor não exacerbar a coisa.
Ao se virar para a rua, o pistoleiro deixou a mão cair para o quadril esquerdo, um velho hábito que, desta vez, não trouxe segurança; ambos os revólveres estavam na mala do Galaxie de Cullum, enrolados nos cinturões de munição.
Antes que ele continuasse avançando, Eddie o agarrou pelo ombro. O pistoleiro se virou de sobrancelhas erguidas, os olhos sem brilho pousa-dos no amigo.
— Temos um ditado em nosso mundo, Roland: dizemos que alguém joga todas as fichas.
— O que isso quer dizer?
— Isto. O que estamos fazendo — disse Eddie secamente. — Me de-seje boa sorte, parceiro.
Roland abanou a cabeça.
— Ié, é o que desejo. A nós dois.
Ele começou a se virar e Eddie chamou-o de volta. Desta vez Roland mostrou uma expressão de ligeira impaciência.
— Não vá morrer atravessando a rua — disse Eddie, fazendo uma breve imitação do modo de Cullum falar. — Tem mais veranistas aqui do que carrapatos num cachorro. E elas não estão guiando cavalos.
— Dê seu telefonema, Eddie — disse Roland, começando a atraves-sar a rua Alta de Bridgton com vagarosa confiança, andando com o mesmo balanço que o conduzira através de mil outras ruas principais de mil outras pequenas cidades.
Depois de ficar algum tempo a observá-lo, Eddie se virou para o tele-fone e consultou os números afixados no aparelho. Então pegou o fone e discou o número de Auxílio à Lista.
SEIS
Ele não estava ligando para John Cullum com muita convicção. Então por que ligava? Porque Cullum era o final da linha, não havia mais ninguém para quem pudessem telefonar. Em outras palavras, o maldito e velho ka de Roland de Gilead.
Após uma breve espera, a operadora do Auxílio à Lista entregou o número de Cullum. Eddie tentou decorá-lo (sempre fora bom para guardar números, Henry às vezes o chamava de Pequeno Einstein), mas daquela vez não estava confiando em sua habilidade. Algo podia ter acontecido a seus processos de pensamento em geral (mas não acreditava nisso) ou à sua capacidade de recordar certos artefatos daquele mundo (sem dúvida era mais ou menos o que acontecia). Ao pedir o número pela segunda vez — e anotá-lo na poeira acumulada na pequena prateleira do quiosque de telefo-ne —, Eddie começou a se indagar se ainda seria capaz de ler um livro ou descobrir a trama de um filme entre a sucessão de imagens numa tela. Ti-nha as suas dúvidas. Mas qual era a importância disso? O Lanterna Mágica ao lado estava exibindo Guerra nas Estrelas e Eddie achou que, se chegasse ao fim do caminho de sua vida e penetrasse na clareira sem olhar de novo para Luke Skywalker e ouvir de novo o barulho de Darth Vader respiran-do, não ia ser muito grave.
— Obrigado, senhora — disse à telefonista e estava prestes a discar o número quando ouviu uma série de explosões atrás dele. Eddie girou, o batimento do coração disparando, a mão direita mergulhando para a cintu-ra, esperando ver Lobos, capangas ou talvez aquele filho-da-puta do Flagg...
O que viu foi um conversível cheio de garotos de colégio rindo e fa-zendo galhofa com caras queimadas de sol. Um deles acabara de disparar alguns fogos de artifício que tinham sobrado do Quatro de Julho — o que os garotos da idade deles em Calla Bryn Sturgis chamariam de rojões.
Se eu tivesse um revólver na cintura, podia ter acertado alguns desses bodes, Ed-die pensou. Querem fazer os outros de bobo? Bem, vamos começar. Sim. Bem. E talvez não fizesse nada disso. Mas de um modo ou de outro, tinha de ad-mitir a possibilidade de não estar mais seguro numa área mais civilizada como aquela.
— Tem de conviver com isso — Eddie murmurou, logo acrescen-tando o conselho favorito do grande sábio e eminente viciado para os pe-quenos problemas da vida: — Leve na boa.
Discou o número de John Cullum no antiquado telefone de disco e quando uma voz de robô — talvez a tatara-tatara-tatara-tatara-tatara-avó de Blaine, o Mono — pediu-lhe para depositar noventa cents, Eddie colo-cou um dólar. Que diabo, estava salvando o mundo.
O telefone tocou uma... tocou duas vezes... e foi atendido!
— John! — Eddie quase gritou. — Legal! John, aqui é...
Mas a voz do outro lado já estava falando. Como criança irritada, Ed-die achou que aquilo não era um bom presságio.
— ...fala John Cullum, da Sala da Guarda e Controle de Camping — disse a voz de Cullum naquela familiar fala arrastada do norte. — Fui cha-mado meio de repente, você entende, e não posso dizer com qualquer grau de certeza quando vou estar de volta. Se isto lhe traz inconveniente, peço que me perdoe, mas pode entrar em contato com Gary Crowell era 926-5555 ou Júnior Barker em 929-4211.
O desânimo inicial de Eddie desapareceu — desapaa-aareceu, Cullum teria dito — mais ou menos quando a trêmula voz gravada do homem es-tava dizendo a Eddie que ele, Cullum, não podia dizer com qualquer grau de certeza quando ia voltar. Mas Cullum estava bem ali, em seu pequeno chalé hobbitiano na costa oeste do lago Keywadin, ou sentado em seu su-permacio sofá hobbitiano ou numa das duas similarmente supermacias ca-deiras hobbitianas. Sentado ali e monitorando mensagens em sua secretária eletrônica sem-dúvida-gigantesca de meados dos anos setenta. E Eddie soube disso porque... bem...
Porque simplesmente soube.
A gravação primitiva não conseguia esconder de todo o humor zom-beteiro que, mais ou menos no final da mensagem, aparecia na voz de Cul-lum.
— Bem, se ainda está determinado a não falar com mais ninguém a-lém de mim mesmo, pode me deixar uma mensagem depois do bipe. Uma mensagem breve. — A última palavra saiu como brouve.
Eddie esperou o bipe e disse:
— É Eddie Dean, John. Sei que está aí e acho que estava esperando a minha ligação. Não me pergunte por que acho isso, porque eu realmente não sei, mas...
Houve um alto estalido no ouvido de Eddie e então a voz de Cullum — a voz ao vivo — entrou:
— Alô, filho, está cuidando bem do meu carro?
Por um momento, Eddie ficou atônito demais para responder, pois o sotaque downeast de Cullum tinha transformado a pergunta numa coisa bas-tante diferente: está cuidando bem do meu ka?
— Garoto? — Cullum perguntou, de repente preocupado. — Conti-nua na linha?
— Sim — disse Eddie —, e então você está aí. Pensei que estivesse a caminho de Vermont, John.
— Bem, lhe digo uma coisa. Provavelmente este lugar não viveu um dia tão empolgante desde que a South Stoneham Shoe pegou fogo em 1923. Os tiras bloquearam todas as estradas nos arredores da cidade.
Eddie tinha certeza de que estavam deixando as pessoas passarem pe-las barreiras desde que mostrassem os documentos necessários, mas igno-rou a questão em favor de outra coisa.
— Está querendo me dizer que, se quisesse, você não conseguiria a-char um jeito de sair dessa cidade sem ver um policial?
Houve uma breve pausa. Nela, Eddie se tornou consciente de alguém perto de seu cotovelo. Ele não se virou para olhar; era Roland. Quem mais neste mundo teria aquele cheiro — discreto, mas indiscutível — de outro mundo?
— Oh, bem — disse Cullum por fim. — Talvez eu realmente conheça uma ou duas estradas pelos bosques que desembocam em Lovell. Não choveu muito no verão e acho que meu caminhão conseguiria passar.
— Uma ou duas?
— Bem, digamos três ou quatro. — Uma pausa, que Eddie não que-brou. Estava se divertindo bastante. — Cinco ou seis — Cullum emendou e Eddie preferiu também não responder a isto. — Oito — Cullum disse por fim e, quando Eddie riu, Cullum se juntou a ele. — O que você tem na cabeça, filho?
Eddie olhou de relance para Roland, que estava segurando um frasco de aspirina entre os dois dedos restantes da mão direita. Eddie pegou-o com ar agradecido.
— Quero que venha até Lovell — ele disse a Cullum. — Parece que temos realmente de palestrar mais um pouco.
— Iá, acho que eu também já sabia disto — disse Cullum —, embora a coisa nunca tenha chegado a ser uma prioridade na minha cabeça; meu primeiro pensamento continuou sendo pegar o mais breve possível a es-trada para Montpelier, mas eu ficava sempre achando mais uma coisa e mais outra para fazer aqui. Se você tivesse ligado cinco minutos antes, o telefone tava ocupado... Estava falando com Charlie Beemer. Foi a mulher e a sogra dele que morreram no mercado, não sabia? Depois pensei: diabo, acho que vou dar uma boa varrida na casa antes de pôr minha tralha na traseira do caminhão e seguir em frente. Nada de prioridade, é o que estou lhe dizendo, mas bem lá no fundo acho que estava esperando por seu tele-fonema desde que voltei para cá. Onde está? Na Via do Casco da Tartaru-ga?
Eddie abriu o frasco de aspirina e contemplou avidamente a fileira de pequenos comprimidos. Uma vez viciado em drogas, sempre viciado, ele admitiu. Nem que seja uma coisa daquelas.
— Iá — disse ele com a língua só parcialmente na bochecha; não pa-rava de reproduzir dialetos locais desde que encontrara Roland num jato da Delta que aterrissava no aeroporto Kennedy. — Você disse que essa via não passava de uma estrada distrital de 3 quilômetros, saindo da rota 7 e a ela voltando, verdade?
— Foi isso. Há umas casas muito bonitas na Casco da Tartaruga. — Pausa breve, pensativa. — E muitas estão à venda. Ultimamente, tem sur-gido um número muito grande de aparecidos naquela parte do mundo. Acho que eu já tinha mencionado isso. Essas coisas deixam as pessoas ner-vosas e pelo menos quem é rico pode se dar ao luxo de escapar do que não ajuda a dormir à noite.
Eddie não pôde mais esperar; pegou três aspirinas e atirou-as na boca, apreciando o gosto amargo quando elas se dissolveram na língua. Por pior que fosse a dor naquele momento, ele a suportaria tranqüilamente se con-seguisse alguma notícia de Susannah. Mas ela estava silenciosa. Imaginava que a linha de comunicação entre os dois, sem dúvida já bastante incerta, deixara completamente de existir com a chegada do maldito bebê de Mia.
— Acho melhor, garotos — disse Cullum —, que mantenham seus ferros à mão se forem mesmo para o Casco da Tartaruga em Lovell. Quan-to a mim, acho que também vou jogar a espingarda no caminhão antes de levantar as velas.
— Por que não? — Eddie concordou. — Procure seu carro ao longo da estradinha, combinado? Vai encontrá-lo.
— Ié, não posso perder esse velho Galaxie — Cullum concordou. — Me diga uma coisa, filho. Não estou indo para Vermont, mas tenho a im-pressão de que você pretende me mandar para um lugar remoto, se eu esti-ver de acordo. Se incomoda de me dizer para onde?
Eddie achou que Mark Twain bem podia decidir chamar o próximo capítulo da vida (sem dúvida colorida) de John Cullum, Um Ianque do Maine na Corte do Rei Rubro, ∗ mas era melhor não dizer isso.
— Já esteve em Nova York?
— Deus, claro! Passei 48 horas de licença lá, quando servi o exército. — A última palavra saiu num tom ridiculamente arrastado. — Visitei o Radio City Music Hall e o Empire State, pelo menos disso eu me lembro. E sem dúvida visitei outros pontos turísticos porque fiquei sem trinta dóla-res na carteira e dois meses depois me diagnosticaram um belíssimo caso de gonorréia.
— Desta vez vai estar ocupado demais para pegar gonorréia. E leve seus cartões de crédito. Sei que tem alguns porque dei uma olhada nos re-cibos do porta-luvas. — Experimentou uma necessidade quase insana de arrastar a última palavra, luu-uuuuvas.
— Meio desarrumado, né? — Cullum perguntou sem grande inflexão.
— Ié, parece o que sobrou quando o cachorro mastigou o sapato. Te vejo em Lovell, John! — Eddie desligou. Viu o saquinho que Roland esta-va segurando e ergueu as sobrancelhas.
— É um sanduíche poorboy — disse Roland. — Com montes de maionese, sei lá o quê. Por mim, não ia querer um molho tão parecido com porra, mas quem sabe é o que você goste.
Eddie virou os olhos.
— Cara, isso me dá uma fome...
— Acha mesmo?
Eddie teve de se lembrar mais uma vez que Roland não tinha quase nenhum senso de humor.
— Sim, acho. Vamos. Posso comer meu sanduíche de porra e queijo enquanto dirijo. E também precisamos conversar sobre o que vamos fazer agora.
* Referência ao livro de Twain A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court (Um ianque do Connecticut no reino do rei Artur). (N. da E.)