A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo II · Ves’-Ka Gan
UM
O que aconteceu foi letalmente simples: Roland foi traído pelo quadril ru-im. Caiu de joelhos com um grito onde se misturava raiva, dor e aflição. Então a luz do sol foi bloqueada em seus olhos quando Jake saltou por cima dele sem o menor gesto de hesitação. Da cabine da picape, Oi latia freneticamente:
— Ake-Ake! Ake-Ake!
— Jake, não! — Roland gritou, vendo tudo com terrível clareza. O ga-roto agarrou o escritor pela cintura quando o veículo azul (nem um cami-nhão nem carro, mas uma espécie de mistura dos dois) caiu sobre eles com um ronco de música dissonante. Jake afastou King para a esquerda, usando o corpo como escudo para protegê-lo. E foi Jake que o veículo atingiu. Atrás do pistoleiro, agora de joelhos com as mãos ensangüentadas enterra-das na terra, a mulher do mercado gritou.
— JAKE, NÃO! — Roland tornou a berrar, mas era tarde. O garoto que considerava como um filho desapareceu sob o veículo azul. O pistolei-ro viu uma pequena mão erguida (jamais se esqueceria dela), que logo tam-bém desapareceu. King, atingido primeiro por Jake e depois pelo peso da van atrás de Jake, foi atirado na beira do pequeno agrupamento de árvores, a 3 metros do ponto de impacto. Caiu do lado direito, batendo com a ca-beça numa pedra suficientemente dura para fazer o boné voar de sua cabe-ça. Então rolou para o outro lado, tentando talvez se levantar. Ou talvez não querendo tentar absolutamente nada; seus olhos eram zeros chocados.
O motorista puxou o volante do veículo, que passou rapidamente pe-la esquerda de Roland, passando a centímetros dele, mas se limitando a jogar poeira em seu rosto sem atropelá-lo. Já então andava mais devagar, o motorista pisando no freio, agora que era tarde demais. A lateral da van foi arrastando a carroceria da picape, sem causar danos maiores. Aquilo dimi-nuiu ainda mais a marcha da van, mas antes de parar completamente, a van atingiu de novo King, que já estava caído no chão. Roland ouviu o estalo de um osso quebrando. Que foi seguido pelo grito de dor do escritor. E agora Roland soube com certeza de onde vinha a dor em seu próprio qua-dril, não é claro? Nunca fora uma torção no quadril.
Ficou de pé com dificuldade, só perifericamente consciente de que sua dor passara inteiramente. Contemplou o corpo de Stephen King, con-torcido de uma forma não natural. Estava sob a roda esquerda dianteira do veículo azul e ele pensou: Bom!, com irrefletida selvageria. Bom! Se alguém tem de morrer aqui, que seja você! Para o inferno com o umbigo do Gan, para o inferno com histórias que saem dele, para o inferno com a Torre. Que seja você e não o meu ga-roto!
O trapalhão passou correndo por Roland em direção ao lugar onde Jake estava caído de costas. Estava atrás da van e a descarga azulada sopra-va nos olhos abertos do garoto. Oi não hesitou; abocanhou a sacola dos Orizas que continuava pendurada no ombro de Jake e usou-a para puxar o rapaz da van, centímetro por centímetro, as pernas curtas e fortes levan-tando nuvens de poeira. O sangue escorria dos ouvidos e dos cantos da boca de Jake. Os saltos das botas de cano curto deixavam uma dupla fileira de marcas no chão, onde se misturava terra e ressecadas agulhas de pinhei-ro.
Roland cambaleou para Jake e caiu de joelhos ao lado dele. Seu pri-meiro pensamento foi que, afinal, estava tudo bem com Jake. As pernas do garoto estavam direitas, graças a todos os deuses, e a marca que corria pela ponte do nariz, descendo por uma face sem barba era óleo salpicado de poeira, não sangue como Roland tinha achado de início. Havia sangue sa-indo das orelhas, sim, e da boca também, mas o corrimento da boca podia vir de um corte na parte interna das bochechas ou...
— Vá ver o escritor — disse Jake. Sua voz era calma, de forma algu-ma contraída por alguma dor. Falava como se, após um dia de viagem, es-tivessem sentados em volta de uma pequena fogueira à espera do que Ed-die chamava “o bufê”... ou, se estivesse particularmente bem-humorado (como freqüentemente estava), o “suflê”.
— O escritor pode esperar — disse Roland secamente, pensando: Ganhei um milagre. Feito pela combinação do corpo ainda não de todo desenvolvido de um garoto e da maciez da terra que cedeu sob ele quando o trucomóbile daquele filho-da-puta o atropelou.
— Não — disse Jake. — Não pode. — E quando ele se moveu, ten-tando se sentar, a camisa foi repuxada um pouquinho contra a metade su-perior do corpo e Roland viu a terrível concavidade no peito do garoto. Sangue se derramava da boca e, quando tentou falar de novo, Jake come-çou a tossir. O coração de Roland se contorceu como um trapo dentro do peito e, por um momento, foi de admirar como conseguia continuar ba-tendo diante daquilo.
Oi deixou escapar um gemido alto com o nome de Jake dito numa espécie de uivo, que fez um arrepio correr pelos braços de Roland.
— Não tente falar — disse Roland. — Alguma coisa pode ter se rompido dentro de você. Uma costela, talvez duas.
Jake virou a cabeça para o lado. Cuspiu um punhado de sangue (umas gotas escorreram pelo rosto como tabaco mascado) e agarrou o pulso de Roland. O aperto foi firme e cada uma das palavras que disse, assim como a voz, foi bastante clara.
— Tudo se rompeu. Morrer é assim... Eu sei porque já passei por isso antes. — O que veio em seguida foi o que Roland estivera pensando pou-co antes de saírem de Cara Ri: — Se o ka quiser assim, que assim seja. Cui-de do homem que viemos salvar!
Foi impossível negar o tom imperativo nos olhos e na voz do garoto. Agora estava feito, o Ka dos 19 levara o jogo até o fim. Exceto, talvez, no caso de King. O homem que tinham vindo salvar. Que parcela do destino deles havia brotado das pontas de seus dedos velozes, manchados de nico-tina? Tudo? Alguma coisa? Aquilo?
Qualquer que fosse a resposta, Roland podia tê-lo matado com as próprias mãos enquanto ele se achava preso sob o veículo que o atropelara e dane-se que King não estivesse guiando a van; se estivesse fazendo o que ka queria que fizesse, jamais estaria lá quando aquele louco passou e o pei-to de Jake não teria aquele horrível aspecto afundado. Era demais, vindo logo após Eddie ter sido repentinamente morto. E no entanto...
— Não se mexa — disse Roland, se levantando. — Oi, não deixe que ele se mexa.
— Não vou me mexer. — Cada palavra ainda clara, ainda segura. Mas agora Roland pôde ver o sangue também escurecendo a parte de baixo da camisa de Jake e a braguilha de sua calça jeans, brotando ali como rosas. Já uma vez ele morrera e voltara. Mas não naquele mundo. Naquele mundo, a morte era sempre para valer.
Roland se virou para onde o escritor estava caído.
DOIS
Quando Bryan Smith tentou sair de trás do volante de sua van, Irene Tas-senbaum empurrou-o rudemente de volta. Seus cães, talvez sentindo o cheiro de sangue, de Oi ou de ambos, latiam e pulavam freneticamente. Agora o rádio martelava alguma nova e extremamente diabólica canção heavy metal. Ela achou que sua cabeça ia rachar, não devido ao choque do que acabara de acontecer mas como simples reação à algazarra. Viu o re-vólver do homem jogado no chão e o apanhou. A pequena parte de sua mente ainda capaz de pensamento coerente ficou espantada com o peso da coisa. Mesmo assim, ela o apontou para o homem, passou o braço pela frente dele e apertou o botão que desligava o rádio. Com o cessar do furio-so estrépito das guitarras, ela pôde ouvir passarinhos assim como dois cães latindo e um terceiro... bem, um terceiro animal, fosse lá o que fosse, ui-vando.
— Dê uma ré para soltar o cara que atropelou — disse ela. — Deva-gar. Se atropelar de novo o garoto quando fizer isso, juro que vou fazer o lixo dessa sua cabeça explodir.
Bryan Smith encarou-a com olhos vermelhos, confusos.
— Que garoto? — ele perguntou.
TRÊS
Quando a roda da frente da van se afastou vagarosamente do escritor, Ro-land viu que a parte de baixo do corpo dele estava torcida de forma não-natural para a direita e uma protuberância saltava da perna de sua calça da-quele lado. O osso da coxa, certamente. Além disso, a testa fora quebrada pela pedra contra a qual havia batido e o lado direito do rosto estava enso-pado de sangue. Parecia pior que Jake, muito pior, mas uma simples olhada bastou para dizer ao pistoleiro que, se o coração de King fosse forte e o choque não o matasse, ele provavelmente sobreviveria. De novo via Jake agarrando o homem pela cintura, protegendo-o como um escudo, expondo seu próprio corpo, bem menor, ao impacto.
— Você de novo — disse King em voz baixa.
— Está lembrado de mim.
— Sim. Agora estou. — King lambeu os lábios. — Sede.
Roland não tinha nada para beber e não teria lhe dado mais do que o suficiente para molhar os lábios, mesmo que tivesse. O líquido pode indu-zir vômitos num homem ferido e o vômito podia levar ao sufocamento.
— Lamento — disse ele.
— Não, você não lamenta. — Tornou a lamber os lábios. — Jake?
— Ali no chão. Você o conhece?
— Eu o escrevi. — King tentava sorrir. — Onde está aquele outro que também andava com você? Onde está Eddie?
— Morreu — disse Roland. — No Devar-Toi.
King franziu a testa.
— Devar...? Não conheço isso.
— Não. É por causa disso que estamos aqui. Porque tivemos de vir aqui. Um de meus amigos está morto, outro pode estar morrendo agora e o tet está partido. Tudo porque um homem preguiçoso, medroso, parou de fazer o trabalho que o ka tinha lhe destinado.
Nenhum tráfego na estrada. Exceto pelos cachorros latindo, o trapa-lhão uivando e os pássaros piando, o mundo estava em silêncio. Era como se estivessem congelados no tempo. Talvez estejamos mesmo, Roland pensou. Já vira o suficiente para acreditar nessa possibilidade. Qualquer coisa podia ser possível.
— Perdi o Feixe — disse King caído sobre o tapete de sementes de pinheiro na beirada do bosque. A luz de verão fluía incipiente ao seu redor, aquela névoa verde e dourada.
Roland estendeu a mão sob King e ajudou-o a sentar-se. O escritor gritou de dor quando a bola inchada do quadril direito raspou nos restos dilacerados, imprensados de seu encaixe, mas não disse nada em protesto. Roland apontou para o céu. Nuvens gordas e brancas de tempo bom — los ángeles, os vaqueiros de Mejis costumavam chamá-las — pairavam imóveis no azul, exceto as que estavam diretamente sobre eles. Aquelas corriam pelo céu, como se sopradas por um vento estreito.
— Ali! — Roland murmurou furioso no ouvido arranhado e entupido de terra do escritor. — Bem em cima de ti! Por toda a tua volta! Será que não sentes? Será que não vês?
— Sim — disse King. — Vejo agora.
— É, e sempre esteve lá. Você não o perdeu; virou os olhos covardes para o lado. Meu amigo teve de salvá-lo para você tornar a ver isso.
A mão de Roland remexeu no cinturão e puxou um cartucho. A prin-cípio os dedos não conseguiam fazer o velho e habilidoso truque, tremiam demais. Ele só foi capaz de aquietá-los lembrando a si mesmo que, quanto mais tempo levasse para fazer aquilo, maior a chance de que fossem inter-rompidos ou que Jake morresse enquanto ele estava ocupado com aquele miserável projeto de homem.
Ao erguer os olhos, viu a mulher apontando o revólver dele para o motorista da van. Essa era boa. Ela era boa. Por que Gan não tinha entre-gue a história da Torre para alguém como ela? Pelo menos o instinto que o levara a trazê-la fora preciso. Até a infernal algazarra dos cachorros e do trapalhão havia serenado. Oi agora lambia a sujeira e o óleo do rosto de Jake, enquanto na van, Bala e Pistola devoravam a carne moída desta vez sem interferência do dono.
Roland se virou para King e a bala fez sua dança antiga e segura pelas costas de seus dedos. King mergulhou no sono quase de imediato, como a maioria das pessoas que já foram hipnotizadas antes. Seus olho continua-vam abertos, mas agora pareciam olhar através do pistoleiro, para além de-le.
O coração de Roland bradava para que terminasse aquilo o mais de-pressa possível, mas sua cabeça sabia que não era bem assim. Não pode errar. A não ser que pretenda tornar sem sentido o sacrifício de Jake.
A mulher olhava para ele assim como o motorista da van, através da porta aberta do veículo. Sai Tassenbaum estava resistindo, Roland perce-beu, mas Bryan Smith seguira King para a terra do sono. Isto não chegou exatamente a surpreender o pistoleiro. Se o homem tivesse a menor noção do que fizera ali, sem dúvida aproveitaria toda e qualquer oportunidade de fuga. Mesmo que fosse temporária.
O pistoleiro voltou a prestar atenção no homem que era, ele supunha, seu biógrafo. Começou exatamente como começara antes. Dias atrás em sua própria vida. Cerca de duas décadas atrás na vida do escritor.
— Stephen King, você me conhece?
— Pistoleiro? Eu o conheço muito bem.
— Quando me encontrou pela última vez?
— Quando morávamos em Bridgton. Quando meu tet era jovem. Quando eu estava apenas aprendendo a escrever. — Uma pausa e então King entrou com o que, na opinião de Roland, seria, para ele, o modo mais eficiente de definir o tempo, um modo que variava de uma pessoa para outra. — Foi quando eu ainda bebia.
— Você dorme profundamente agora?
— Profundamente.
— Está além da dor?
— Além, sim. Eu lhe agradeço.
O zé-trapalhão tornou a uivar. Roland olhou para o lado com um medo terrível do que aquilo pudesse significar. A mulher tinha se aproxi-mado de Jake e estava ajoelhada ao lado dele. Roland ficou aliviado quando viu Jake pôr um braço em volta do pescoço dela e puxar sua cabeça para lhe falar alguma coisa no ouvido. Se tinha forças suficientes para fazer a-quilo...
Pare! Você viu como o corpo está alterado por baixo da camisa. Não pode se dar ao luxo de perder tempo com esperanças.
Aqui havia um paradoxo cruel: porque gostava muito de Jake tinha de deixar sua morte próxima aos cuidados de Oi e de uma mulher que haviam conhecido menos de uma hora atrás.
Não importava. Seu assunto agora era com King. Mesmo que Jake pudesse passar à clareira enquanto estava de costas para ele... Se o ka quiser assim, que assim seja.
Roland procurou reunir toda a sua força de vontade e concentração. Levou o seu foco ao ponto de arder e novamente encarou o escritor.
— Você é o Gan? — perguntou de repente, sem saber por que aquela pergunta havia lhe ocorrido... mas sabendo que era a pergunta certa.
— Não — disse King de imediato. O sangue que saía do corte na ca-beça escorria para sua boca e ele o cuspiu, mas sem uma só piscada. — Antigamente eu achava que era, mas era só efeito do porre. E do orgulho, eu acho. Nenhum escritor é o Gan... nenhum pintor, nenhum escultor, nenhum compositor de música. Nós somos kas-ka Gan. Não ka-Gan mas kas-ka Gan. Está compreendendo? Você está... está percebendo?
— Sim — disse Roland. Os profetas do Gan ou os cantores do Gan: significava uma coisa ou outra, ou as duas ao mesmo tempo. E agora ele sabia por que havia feito a pergunta. — E a canção que você canta é Ves’-Ka Gan. Não é?
— Ah, sim! — King respondeu e sorriu. — A Canção da Tartaruga. É bonita demais para mim, que não consigo cantar afinado!
— Eu não me importo — disse Roland. Ele pensava tão intensa e claramente quanto sua cabeça atordoada pudesse permitir. — E agora você foi ferido.
— Estou paralisado?
— Não sei. — Nem me importo. — O que sei é que vai sobreviver e quando puder escrever de novo vai abrir os ouvidos à Canção da Tartaru-ga, Ves’-Ka Gan, como fez antes. Paralisado ou não. E desta vez você vai cantar até a canção acabar.
— Tudo bem.
— Você vai...
— E Urs-Ka Gan, a Canção do Urso — King o interrompeu. Depois balançou a cabeça, embora aquilo, a despeito do estado hipnótico em que estava, claramente lhe provocasse dor. — Urs-AKa Gan.
O Choro do Urso? O Grito do Urso? Roland não sabia qual das duas opções. Teria de torcer para que também não tivesse importância, para que fosse apenas uma elocubração de escritor.
Um carro puxando um trailer passou pela cena do acidente sem dimi-nuir a marcha, depois duas grandes motocicletas passaram em disparada no outro sentido. E um pensamento estranhamento persuasivo ocorreu a Ro-land: o tempo não havia parado, mas eles estavam, naquele momento, des-botados. Era desse modo que estavam sendo protegidos pelo Feixe, que não se encontrava mais sob ataque e, assim, se tornara capaz de ajudar, pelo menos um pouco.
QUATRO
Diga de novo a ele. Não pode haver incompreensão. Nem fraqueza, como ele fraquejou antes.
Ele se curvou até o rosto ficar diante do rosto de King, os narizes quase se tocando.
— Desta vez você vai cantar até a canção estar pronta, vai escrever até a história estar no fim. Está entendendo bem?
— “E viveram felizes para sempre” — disse King num tom de deva-neio. — Gostaria de poder escrever isso.
— Eu também gostaria que pudesse. — Era sua vontade, mais que tudo no mundo. A despeito de sua dor, ainda não havia lágrimas; Roland sentia os olhos como pedras quentes na cabeça. Talvez as lágrimas viessem mais tarde, quando a verdade do que acontecera ali tivesse a possibilidade de ser um pouco elaborada.
— Em algum momento vou escrever isto, pistoleiro. Não importa o jeito da história quando as páginas ficarem ralas. — A própria voz de King ia se tornando rala. Roland achou que logo ele ia perder os sentidos. — Sinto muito pelo que aconteceu a seus amigos, sinto mesmo.
— Obrigado — disse Roland, ainda reprimindo o impulso de pôr as mãos no pescoço do escritor e sufocá-lo até a morte. Ele começou a ficar de pé, mas King disse uma coisa que o fez parar.
— Prestou atenção à canção dela, como eu mandei que fizesse? A Canção de Susannah?
— Eu... sim.
Agora King fez força para se apoiar num cotovelo e, embora estivesse ostensivamente perdendo suas forças, a voz foi seca e forte.
— Ela precisa de você. E você precisa dela. Agora me deixe em paz. Guarde sua raiva para aqueles que a merecem mais que eu. Assim como não inventei o Gan, ou o mundo, também não inventei o seu ka e nós dois sabemos disso. Esqueça as suas bobagens... a sua dor... e faça o mesmo que me pede para fazer... — A voz de King se elevou a um áspero grito; a mão saltou e agarrou o pulso de Roland com surpreendente energia. — Termine o trabalho!
A princípio nada saiu quando Roland tentou responder. Ele teve de limpar a garganta e começar de novo.
— Durma, sai... durma e esqueça todo mundo aqui, menos o homem que o atropelou.
Os olhos de King se fecharam.
— Esquecer todo mundo aqui, exceto o homem que me atropelou — ele repetiu.
— Estava fazendo sua caminhada e este homem o atropelou.
— Caminhando... e este homem me atropelou.
— Ninguém mais esteve aqui. Nem eu, nem Jake, nem a mulher.
— Ninguém mais — King concordou. — Só eu e ele. Será que ele vai dizer o mesmo?
— Vai. Logo você estará dormindo profundamente. Poderá sentir dor mais tarde, mas agora não sente nenhuma.
— Nenhuma dor agora. Dormir profundamente. — A forma contor-cida do corpo de King relaxou sobre as sementes de pinheiro.
— Mas antes de dormir me escute mais uma vez — disse Roland.
— Estou ouvindo.
— Uma mulher pode o abord... espere. Você tem fantasias de amor com homens?
— Está perguntando se eu sou gay? Talvez um homossexual latente? — King parecia fatigado, mas se divertia.
— Não sei — Roland fez uma pausa. — Acho que sim.
— A resposta é não -— disse King. — Às vezes tenho sonhos de amor com mulheres. Um pouco menos agora que estou mais velho... e provavelmente menos ainda por um tempo, agora. A porra desse sujeito realmente acabou comigo.
Nem de perto da forma como ele acabou comigo, Roland pensou amargamen-te, mas não disse.
— Se só pensa em amor com mulheres, é uma mulher que pode pro-curá-lo.
— Acha que sim? — King parecia ligeiramente interessado.
— Sim. Se ela vier, será linda. Pode lhe falar da tranqüilidade e do prazer da clareira. Pode se chamar Morphia, Filha do Sono, ou Selena, Fi-lha da Lua. Pode lhe oferecer o braço e prometer levá-lo para lá. Tem de recusar.
— Tenho de recusar.
— Mesmo se ficar tentado por seus olhos e seios.
— Mesmo assim — King concordou.
— Por que vai recusar, sai?
— Porque a Canção não está completa.
Por fim Roland se deu por satisfeito. A sra. Tassenbaum estava se a-joelhando ao lado de Jake. O pistoleiro a ignorou e ao garoto e se aproxi-mou do homem curvado atrás do volante da carruagem a motor que fizera todo aquele estrago. Os olhos do homem estavam arregalados, vidrados, a boca frouxa. Um filete de cuspe pingava do queixo com pontinhas de bar-ba.
— Está me ouvindo, sai?
O homem abanou temerosamente a cabeça. Atrás dele, os dois cães tinham caído em silêncio. Quatro olhos brilhantes contemplavam o pisto-leiro por entre os assentos.
— Qual é seu nome?
— Bryan, às suas ordens... Bryan Smith.
Não, isso não o agradava de modo algum. Lá estava mais uma pessoa que gostaria de estrangular. Outro carro passou na estrada e, desta vez, quem estava ao volante tocou a buzina. Fosse qual fosse a proteção que tivessem, ela havia começado a ficar rarefeita.
— Sai Smith, você atropelou um homem com seu carro, trucamóbile ou seja lá como chame esta coisa.
Bryan Smith começou a tremer de cima a baixo.
— Nunca tive sequer uma multa por estacionamento proibido — ele gemeu — e tive de atropelar justamente o homem mais famoso deste esta-do! Meus cachorros começaram a brigar e...
— Suas mentiras não me irritam — disse Roland —, mas o medo que está por trás delas sim. Cale sua boca!
Bryan Smith fez o que lhe era mandado. A cor se escoava devagar de seu rosto, sem parar.
— Você estava sozinho quando o atropelou — disse Roland. — Não havia mais ninguém aqui além de você e o contador de histórias. Está compreendendo?
— Eu estava sozinho. O senhor é um aparecido?
— Não importa o que sou. Você foi até o homem e viu que ele ainda estava vivo.
— Ainda vivo, bom — disse Smith. — Eu não queria machucar nin-guém, tenha certeza!
— Ele falou com você. Foi assim que sabia que ele estava vivo.
— Sim! — Smith sorriu. Depois franziu a testa. — O que ele disse?
— Você não lembra. Estava nervoso, assustado.
— Assustado e nervoso. Nervoso e assustado. Sim eu estava.
— Pegue o volante. Quando começar a dirigir, vai acordar pouco a pouco. E quando chegar a uma casa ou a alguma loja, vai parar e dizer que há um homem ferido na estrada. Um homem que precisa de socorro. Repi-ta o que eu disse, e de forma correta.
— Dirigir — disse ele. As mãos acariciaram o volante como se o ho-mem estivesse ansioso para partir. Roland achou que estava. — Acordar, pouco a pouco. Quando vir uma casa ou uma loja, digo a eles que Stephen King está ferido na margem da estrada e precisa de socorro. Sei que ainda está vivo porque falou comigo. Foi um acidente. — Fez uma pausa. — Não foi culpa minha. Ele estava andando na estrada. — Uma pausa. — Acho que foi assim.
Me importa sobre quem cairá a culpa de toda aquela confusão?, Roland se per-guntou. Na realidade não. Fosse lá como fosse, King continuaria a escre-ver. E Roland quase esperava que ele pudesse levar a culpa, pois no fundo a verdade era essa; antes de mais nada porque não era para ele estar ali.
— Vá agora — disse a Bryan Smith. — Não quero mais ver sua cara.
Smith deu partida na van com um ar de alívio profundo. Roland nem se preocupou em observá-lo partir. Aproximou-se da sra. Tassenbaum e caiu de joelhos ao lado dela. Oi estava sentado junto à cabeça de Jake, ago-ra em silêncio, sabendo que seus uivos não podiam mais ser ouvidos por aquele por quem ele chorava. O que o pistoleiro mais temia tinha aconte-cido. Enquanto estava conversando com dois homens de que não gostava, o garoto que amava mais que todos os outros — mais do que amara qual-quer outra pessoa na vida, incluindo Susan Delgado — tinha passado além dele pela segunda vez. Jake havia morrido.
CINCO
— Ele falou com você — Roland disse pegando Jake nos braços e come-çando a balançá-lo carinhosamente de um lado para o outro. Os Orizas tilintavam na sacola. Ele já podia sentir o corpo de Jake ficando frio.
— Sim — ela respondeu.
— O que ele disse?
— Mandou que eu voltasse para buscar você “depois que o assunto aqui estiver resolvido”. Foram as palavras exatas dele. E ele disse: “Diga ao meu pai que eu o amo.”
Roland deixou escapar um ruído, abafado e angustiado, produzido no fundo da garganta. Estava se lembrando do que se passara em Fedic, de-pois de atravessarem a porta. Salve, pai, Jake tinha dito. Também daquela vez Roland o pegara nos braços. Só que, naquela ocasião, havia sentido o coração do garoto bater. Daria qualquer coisa para senti-lo bater de novo.
— Houve mais — ela disse —, mas será que agora temos tempo para isto? Afinal, posso lhe contar tudo mais tarde.
Roland entendeu de imediato aonde ela queria chegar. A história que tanto Bryan Smith quanto Stephen King conheciam era bastante simples. Nela não havia lugar para um homem magricela, curtido pelas viagens, car-regando um grande revólver, nem para uma mulher de cabelo grisalho; cer-tamente também não para um garoto morto com uma sacola de pratos de pontas afiadas presa no ombro e uma pistola automática na cintura da cal-ça.
A única dúvida era saber se a mulher voltaria. Irene não era a primeira pessoa que Roland induzia a fazer coisas que normalmente ela não faria. Sabia que, assim que se afastasse dele, Irene poderia começar a ver aquela situação sob outro ângulo. Pedir-lhe uma promessa (Jura que vai voltar para mim, sai? Jura pelo coração inerte deste menino?) não garantia nada. Ela podia jurar cada palavra aqui e mudar de idéia logo que passasse pela primeira subida.
Contudo, Roland tivera a oportunidade de pegar o dono do mercado, que era o dono da picape, e não o fez. Nem concordara em trocá-la pelo velho que estava aparando a grama na casa do escritor.
— Conte mais tarde — disse ele. — Por enquanto, saia depressa da-qui. Se por alguma razão você sentir que não pode voltar para cá, não vou culpá-la por isso.
— Para onde você iria sozinho? — ela perguntou. — Para onde conse-guiria ir sozinho? Seu mundo não é este. É?
Roland ignorou a pergunta.
— Se ainda houver pessoas aqui quando voltar pela primeira vez — disse ele —, oficiais de polícia, guardas da vigília, costas azuis, sei lá, passe direto sem parar. Volte depois de meia hora. Se eles ainda estiverem aqui, passe de novo sem parar. Continue fazendo isso até irem embora.
— Não vão achar estranho vendo alguém circular de um lado para o outro?
— Não sei — disse ele. — Acha que vão?
Ela pensou, depois quase sorriu.
— É, provavelmente não. Não os tiras desta parte do mundo.
Roland abanou a cabeça, aceitando a avaliação.
— Quando achar que é seguro, pare. Você não vai me ver, mas eu ve-rei você. Vou esperar até ficar escuro. Se até lá você não estiver aqui, vou embora.
— Volto para encontrá-lo, mas não estarei dirigindo esta miserável imitação de automóvel — disse. — Estarei dirigindo um Mercedes-Benz S600. — Disse isto com um certo orgulho.
Roland não fazia idéia do que era um mercedisbends, mas balançou a cabeça como se soubesse.
— Vá — disse ele. — Conversamos mais tarde, depois que você vol-tar.
Se você voltar, pensou.
— Acho que pode querer ficar com isto — disse ela, colocando o re-vólver dele no coldre.
— Obrigado-sai.
— De nada.
Roland viu-a caminhar até o velho caminhão (achando que, de certa forma, e apesar das palavras de desprezo, ela começara a gostar do veícu-lo). Quando ela se acomodou atrás do volante foi que Roland percebeu que precisava de uma coisa, algo que talvez estivesse no caminhão.
— Ei!
A sra. Tassenbaum colocara a mão na chave da ignição. Agora tirou a mão e encarou-o com ar indagador. Roland pousou suavemente o corpo de Jake na terra onde ele logo seria enterrado (fora esse pensamento que o fizera chamar) e ficou de pé. Estremeceu um pouco e pôs a mão no qua-dril, mas isso era apenas hábito. Não havia dor.
— Que foi? — ela perguntou quando ele chegou perto. — Se eu não partir agora...
Não importaria absolutamente se ela fosse ou não.
— Sim, eu sei.
Ele deu uma olhada na caçamba da picape. No meio de ferramentas espalhadas para todo lado havia uma forma quadrada sob uma lona azul. As pontas da lona tinham sido dobradas por baixo do objeto, para que não voasse. Quando Roland puxou a lona viu oito ou dez caixas feitas de um papel grosso que Eddie chamava de “papelão”. Tinham sido juntadas, fa-zendo a forma quadrada. As figuras impressas no papelão lhe disseram que eram caixas de cerveja. Também não teria a menor importância se fossem caixas de poderosos explosivos.
O que ele queria era a lona.
Afastou-se do caminhão com a lona nos braços.
— Agora pode ir — disse ele.
A sra. Tassenbaum tornou a pegar a chave da ignição, mas não a gi-rou de imediato.
— Senhor — disse ela —, sinto muito pela perda que sofreu. Tinha que lhe dizer isto. Imagino o que esse menino significava para você.
Roland Deschain inclinou a cabeça e não disse nada.
Irene Tassenbaum olhou-o por mais um instante, procurou se lem-brar que às vezes as palavras eram coisas inúteis, ligou o motor e bateu a porta. Ele a viu pegar a estrada (já aprendera a usar a embreagem de forma suave e segura), fazendo uma curva apertada para voltar para o norte, para East Stoneham.
Sinto muito pela perda que sofreu.
E então ele estava sozinho com aquela perda. Sozinho com Jake. Por um instante, imóvel junto ao pequeno aglomerado de árvores na margem da estrada, Roland ficou observando duas das três pessoas que tinham sido atraídas para aquele lugar: um homem, inconsciente, e um garoto morto. Os olhos de Roland estavam secos e quentes, palpitando nas órbitas e, por um momento, ele teve certeza de que tinha perdido de novo a capacidade de chorar. A idéia o deixou horrorizado. Se fosse incapaz de derramar lá-grimas depois de tudo aquilo — depois do que recuperara e de novo per-dera — de que valia tanto sacrifício? Por isso foi um imenso alívio quando as lágrimas finalmente vieram. Elas se derramaram de seus olhos, tranqüili-zando o quase insano clarão azul deles. Escorreram pelas faces sujas. Ro-land chorou quase silenciosamente, mas houve um único soluço, ouvido por Oi. O trapalhão ergueu o focinho para o corredor de nuvens em rápi-do deslocamento e uivou uma única vez para elas. Depois Oi também fi-cou em silêncio.