A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 9 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Dois

Havia uma porta fechada no canto da despensa do Dixie Pig. Atrás dela havia uma escada de azulejos descendo só Deus sabia para onde. Era ilu-minada por lâmpadas de baixa voltagem atrás de redomas de vidro turvas, com sujeira de insetos. Oi avançou sem hesitação, descendo com um mo-vimento de caça, regular e sincopado, pata-da-frente-pata-de-trás, que era bastante engraçado. Mantinha o nariz pressionado contra os degraus e Jake sabia que ele de fato localizara Susannah; podia captar isto da mente de seu amiguinho.

Jake tentou contar os degraus, e conseguiu chegar a 120, depois per-deu o controle sobre os números. Ele se perguntou se ainda estavam em Nova York (ou debaixo dela). A certa altura pensou ter ouvido um leve estrondo familiar e, se fosse mesmo um trem de metrô, estavam sob a ci-dade.

Finalmente alcançaram o fim da escada. Ali havia uma área ampla, abobadada, que lembrava um gigantesco saguão de hotel, só que sem o hotel. Oi foi atravessando, o focinho ainda baixo no chão, a caudazinha balançando de um lado para o outro. Jake tinha que correr para acompa-nhá-lo. Agora que já não enchiam a bolsa, os ’Rizas batiam de um lado pa-ra o outro. Havia um quiosque na ponta do saguão abobadado. No vidro empoeirado, uma placa dizia: ÚLTIMA CHANCE PARA LEMBRANÇAS DE NOVA YORK. E outra dizia: VISITE 11 DE SETEMBRO DE 2001! ÚLTIMAS ENTRADAS PARA ESTE MARAVILHOSO EVENTO! ACESSO DE ASMÁTI-COS SÓ COM ATESTADO MÉDICO! Jake se perguntou o que havia de tão fabuloso em torno de 11 de setembro de 2001, mas logo concluiu que tal-vez fosse melhor ele não saber.

De súbito, alto em sua cabeça como uma voz falando diretamente no ouvido: Ei! Ei dona Positrônica! Ainda está aí?

Jake não fazia idéia de quem podia ser a tal dona Positrônica, mas re-conheceu a voz que fazia a pergunta.

Susannah!, ele exclamou mentalmente, parando perto do quiosque tu-rístico. Um riso espantado, alegre, tornou a vincar seu rosto tenso, trans-formando-o de novo num garoto. Suze, você está aí?

E ouviu um grito de feliz surpresa.

Oi, percebendo que Jake não estava mais seguindo atrás dele, virou-se e deu um brado de impaciência: Ake-Ake! Ao menos por um instante, Jake o ignorou.

— Estou ouvindo, Susannah! — ele gritou. — Finalmente! Deus, com quem você estava falando? Continue para que eu possa localizar o pon...

Atrás dele (talvez no alto da escada comprida, talvez já ali) alguém gri-tou: “É ele!” Houve tiros, mas Jake mal os ouviu. Para seu intenso horror, algo tinha entrado dentro de sua cabeça. Uma espécie de mão mental. A-chou que fosse provavelmente o homem baixo que tinha lhe falado através da porta. A mão do homem baixo tinha encontrado painéis de controle numa espécie de Dogan de Jake Chambers e estava mexendo neles. Ten-tando

(me paralisar me paralisar aqui paralisar meus pés aqui neste chão)

detê-lo. E essa voz entrara porque enquanto transmitia e recebia, ti-nha ficado aberto...

Jake! Jake, onde está você?

Não havia como responder a Susannah. Certa vez, enquanto tentava abrir a porta não-encontrada na Gruta das Vozes, Jake convocara uma vi-são de um milhão de portas se escancarando. Agora imaginou uma visão delas se fechando de vez, criando um som como o próprio estrondo sôni-co de Deus.

Bem na hora. Por mais um momento seus pés continuaram paralisa-dos na poeira do chão, mas logo alguma coisa gritou agoniada e recuou dele. Soltou-o.

Jake começou a andar, a princípio aos solavancos, depois ganhando vigor. Deus, que aperto! Muito baixo, ouviu Susannah chamando de novo seu nome, mas não se atreveu a se abrir suficientemente para responder. Agora era torcer para que Oi conservasse o rastro dela e que ela continuas-se transmitindo.

 

TRÊS

Ele concluiu mais tarde que devia ter começado a cantar a canção do rádio da sra. Shaw logo após o último e fraco grito de Susannah, mas não havia como ter certeza. Era como tentar apontar com precisão a gênese de uma dor de cabeça ou o momento exato em que uma pessoa se dá conta de que está pegando um resfriado. Certeza Jake tinha de que houve mais tiroteios e, a certa altura, o zumbido de um tiro ricocheteando, só que tudo já ficara bem para trás e ele nem se preocupou mais em se esquivar (ou mesmo em se virar). Além disso, Oi começara a andar bem rápido, realmente sacudin-do seu traseiro peludo. O maquinário embaixo dava pancadas e chiava. Trilhos de ferro emergiam no piso da galeria, fazendo Jake presumir que antigamente um bonde ou algum outro tipo de transporte passava por ali.

A intervalos regulares, comunicados oficiais (PATRÍCIA À

FRENTE; FEDIC; TEM SEU PASSE AZUL?) apare-ciam impressos nas paredes. Em alguns pontos os azulejos tinham caído, em outros já não havia trilhos e, em diversos pontos, poças de água antiga, cheia de vermes, enchia o que tinha toda a cara de buraco de rua comum. Jake e Oi passaram por dois ou três veículos inertes, que lembravam uma mistura entre carros de golfe e vagões-plataformas. Também ultrapassaram um robô com cabeça de nabo que piscava as mortiças lâmpadas vermelhas dos olhos e que, de repente, produziu um grasnido curioso, que podia ter significado alto. Jake ergueu um dos Orizas, sem saber se seria de alguma utilidade contra aquela coisa, se ela viesse atrás, mas o robô não se moveu. O singular clarão mortiço das piscadas parecia ter drenado os últimos e poucos volts de suas baterias, células de energia, cartuchos atômicos ou fosse lá o que o sustentara. Aqui e ali surgiam inscrições em grafite. A pri-meira era SAUDAÇÕES AO REI RUBRO, com o olho vermelho sobre o I da mensagem. A outra dizia BANGO SKANK, ’84. Cara, Jake pensou distraído, esse tal de Bango circula! E então, pela primeira vez, se ouviu clara-mente a si próprio, cantando a meia-voz. Na realidade, sem palavras, ape-nas um velho, semi-esquecido refrão de uma das músicas no rádio da cozi-nha da sra. Shaw: “A-wimeweh, a-wimeweh, a-weee-ummm-immm-oweh...”

Ele parou, grilado pela murmurante, talismânica qualidade do cântico, e mandou que Oi parasse.

— Preciso mijar, garotão.

— Tão! — Orelhas em pé e olhos brilhantes forneceram o resto da mensagem: Não demore muito.

Jake espalhou urina numa das paredes de azulejos. Entre os quadra-dos se destilava uma sujeira esverdeada. Também tentou escutar o barulho de perseguição e não ficou desapontado. Muito lá atrás? Que tipo de pelo-tão? Roland provavelmente teria sabido, mas Jake não fazia idéia. Os ecos lembravam os de um regimento.

Quando estava dando uma balançadinha, ocorreu a Jake Chambers que o Père nunca mais ia dar uma balançadinha, nem sorrir para ele e a-pontar o dedo, nem se benzer antes da comida. Eles o haviam matado. Roubado sua vida. Interrompido sua respiração e sua pulsação. Salvo tal-vez para sonhos, o Père estava agora fora da história. Jake começou a cho-rar. Como acontecera com o sorriso, agora eram as lágrimas que o faziam parecer uma criança. Oi tinha se virado, ansioso para não perder o rastro, mas agora olhava pelo ombro com um ar inequivocamente preocupado.

— Está tudo bem — disse Jake, abotoando a braguilha e logo enxu-gando as faces com as costas de uma das mãos. Só que não estava tudo bem. Ele estava mais do que triste, mais do que irritado, mais do que assus-tado com os homens baixos correndo sem cessar atrás de suas pegadas. Agora que a adrenalina tinha diminuído em seu sistema, ele percebia que, além de triste, estava faminto. Cansado também. Cansado? À beira da e-xaustão. Nem conseguia lembrar quando tinha dormido pela última vez. Lembrava-se de ser sugado por uma porta em direção a Nova York, lem-brava-se de Oi quase sendo atropelado por um táxi e do pastor do Deus-bomba com um nome que lhe trouxe à memória Jimmy Cagney fazendo o papel de George M. Cohan ∗ naquele velho filme em preto e branco a que assistira na TV de seu quarto, quando era pequeno. Pois no filme, ele agora percebia, havia uma canção sobre um cara chamado Harrigan: H-A-duplo R-I; Harrigan, esse sou eu. Podia lembrar essas coisas, mas não quando come-ra pela última vez uma boa...

— Ake! — Oi latiu, implacável como um destino. Mas se trapalhões tivessem um limite de resistência, Jake pensou cansado, Oi ainda estava bem longe do seu. — Ake-Ake!

— Claro-claro — ele concordou, se afastando da parede. — Ake-Ake entra agora no corre-corre. Vá! Encontre Susannah.

Teve vontade de andar bem devagar, mas com toda a certeza essa não seria uma boa idéia. Nem andar normalmente. Ele açoitou as pernas para correr e começou de novo a cantar a meia-voz, desta vez as palavras da canção: “Na selva, na enorme selva, o leão dorme esta noite... Na selva, silenciosa selva, o leão dorme esta noite... ohhh...” E de repente entrava de novo no ar wi-meweh, wimeweh, wimeweh, palavras sem sentido do rádio da cozinha que es-tava sempre sintonizado em velharias na WCBS... Mas não haveria memó-rias de algum filme entrelaçadas na cabeça dele, com a memória daquela canção em particular? Não alguma coisa do ∗∗ Yankee Doodle Dandy, mas de algum outro filme? Um com monstros apavorantes? Algo que tinha visto quando era apenas um garotinho, talvez até sem ter largado

(as calças curtas)

as fraldas?

“Perto da aldeia, da quieta aldeia, o leão dorme esta noite... Perto da aldeia, da tranqüila aldeia, o leão dorme esta noite... HUH-oh, a-wimeweh, a-wimeweh...”

Ele parou, respirando fundo, esfregando a barriga pelo lado. Sentira uma pontada ali, mas não era braba, pelo menos ainda não, a coisa ainda não mergulhara o bastante para detê-lo. Mas aquela sujeira... aquela sujeira

* Ator e compositor da época do vaudeville. (N. da E.)

** O filme A canção da vitória. (N. da E.) esverdeada gotejando entre os azulejos... vazava do velho reboco e fazia inchar a cerâmica porque aquilo era

(a selva)

bem embaixo da cidade, fundo como catacumba

(wimeweh)

ou como...

— Oi — disse ele, falando através de seus lábios. Cristo, ele estava com tanta sede! — Oi, isto não é meleca, isto é mato. Ou erva... ou...

Oi latiu o nome de seu amigo, mas Jake mal reparou. O eco da baru-lheira de seus perseguidores continuava (tinha chegado um pouco mais perto, de fato), mas por ora ele também a ignorava.

Mato, crescendo pela parede de azulejos.

Tomando conta da parede.

Olhou para baixo e viu mais mato brotando do chão, um esverdeado brilhante, que ficava quase roxo sob as luzes fluorescentes. E pedaços de azulejo quebrado se esfacelavam em lascas e fragmentos como restos do Povo Antigo, os ancestrais que tinham vivido e construído antes que os Feixes começassem a ser rompidos e o mundo começasse a seguir adiante.

Ele se curvou. Estendeu a mão para o mato. Ergueu pedaços afiados de azulejo, sim, mas também terra, a terra de

(da selva)

alguma catacumba profunda, algum túmulo ou talvez...

Havia um besouro rastejando pela terra que pegou com a mão, um besouro com uma marca vermelha nas costas — como um sorriso san-grento —, e Jake jogou-o para longe com uma exclamação de repugnância. A marca do Rei! Diga-o! Voltou a si e se deu conta de que estava com um joelho no chão, praticando arqueologia como o herói de algum filme anti-go, enquanto os cães farejadores se aproximavam cada vez mais. E Oi es-tava olhando para ele, olhos brilhando de ansiedade.

— Ake! Ake-Ake!

— É — disse ele, se levantando. — Estou indo. Mas Oi... que lugar é este?

Oi não sabia por que ouvia ansiedade na voz de seu ka-dinh; o que ele via era o mesmo que antes e o que cheirava era o mesmo que antes: o chei-ro dela, o faro que o rapaz lhe pedira para encontrar e seguir. E que agora estava mais fresco. Ele se precipitou atrás de seu vigoroso sabor.

 

QUATRO

Jake parou de novo cinco minutos mais tarde, gritando:

— Oi! Espere um minuto!

A fisgada na barriga estava de volta e era mais profunda, mas ainda não era a fisgada que o detera. Tudo tinha mudado. Ou estava mudando. E, Deus o ajudasse, ele achava que sabia o que estava mudando.

No alto, as luzes fluorescentes ainda brilhavam, mas os azulejos das paredes estavam desgrenhados com folhagem. O ar se tornara abafado e úmido, ensopando sua camisa e grudando-a contra o corpo. Uma bela borboleta alaranjada, de tamanho impressionante, passou voando ante seus olhos arregalados. Jake tentou agarrá-la, mas a borboleta se esquivou com facilidade. Quase se divertindo, ele achou.

O corredor azulejado tinha se tornado uma trilha na selva. À frente deles, subia para uma abertura irregular na vegetação, provavelmente algum tipo de clareira na floresta. Mais além, Jake podia ver grandes e velhas ár-vores crescendo na neblina, os troncos engrossados pelo musgo, os galhos vergados por trepadeiras. Podia ver samambaias gigantescas, e através do verde entrelaçar das folhas, um ardente céu de selva. Sabia que estava sob Nova York, tinha de estar sob Nova York, mas...

O que parecia um macaco piou, tão perto que Jake deu uma guinada com o corpo e olhou para o alto, certo de que ia vê-lo logo acima, sorrindo atrás de uma fileira de luzes. E então, congelando seu sangue, veio o forte ronco de um leão. Um que, com toda a certeza, não estava dormindo.

Estava à beira de recuar, e a toda velocidade, quando percebeu que não podia; os homens baixos (provavelmente levados por aquele que falara que o padreco tinha virado jantar) também estavam atrás. E Oi olhava com olhos brilhando de impaciência, querendo sem a menor dúvida ir em fren-te. Oi não era um idiota, mas não parecia estar alarmado, pelo menos não parecia preocupado com o que estava à frente.

Por seu lado, Oi ainda não podia entender o problema do garoto. Sa-bia que ele estava cansado — sentia o cheiro disso —, mas também sabia que estava com medo. Por quê? Porque havia cheiros desagradáveis naque-le lugar, principalmente o cheiro de muitos homens, embora para Oi não sugerissem perigo imediato. Mas o cheiro dela estava lá. Agora muito fresco. Quase novo.

— Ake! — ele tornou a latir.

Jake conseguira recuperar o fôlego.

— Tudo bem — disse olhando em volta. — Está certo. Mas devagar.

— Vagá — Oi respondeu, mas mesmo Jake pôde detectar a impres-sionante falta de aprovação na resposta do trapalhão.

Jake só andou porque não tinha outras opções. Subiu a encosta da tri-lha mal conservada (na percepção de Oi, o caminho era perfeitamente reto, e fora assim desde que deixaram a escada) para a abertura emoldurada por samambaias-trepadeiras, na direção do piado lunático do macaco e do ron-co congelador de testículos do leão caçador. A canção girava sem parar em sua mente

(na aldeia... na selva... silêncio querida, não se mexa minha querida...)

e agora ele sabia o nome dela, inclusive o nome da banda

(são os Tokens com “O Leão Dorme Esta Noite”, saído das paradas mas não de nossos corações)

que cantava, mas que filme era? Qual era o nome da porra do fil...

Jake atingiu o alto da subida e a borda da clareira. Contemplou um entrelaçamento de grandes folhas verdes e brilhantes flores roxas (um pe-queno verme esverdeado transitava ao centro de uma flor) e, enquanto o-lhava, o nome do filme lhe ocorreu e sua pele começou a ficar arrepiada da nuca até os pés. Um momento depois o primeiro dinossauro saiu da selva (a possante selva) e entrou na clareira.