A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo III · Eddie Dá um Telefonema
UM
Eddie retornou ao velho carro de John Cullum do mesmo jeito que às ve-zes saía dos pesadelos quando era adolescente: atônito e arfando de medo, totalmente desorientado, sem ter certeza de quem era, muito menos de onde estava.
Teve um segundo para perceber que, por incrível que pudesse pare-cer, ele e Roland estavam flutuando nos braços um do outro como gêmeos ainda não nascidos num útero. Uma caneta e um prendedor de papel pas-saram na frente de seus olhos. Assim como um estojo de plástico amarelo que ele identificou como uma fita de oito canais. Não perca tempo, John, ele pensou. Nenhuma utilidade aqui. Essa bugiganga de fita não tem futuro, pode crer.
Alguma coisa arranhava sua nuca. Seria a luzinha áspera no teto do Galaxie velho e sujo de John Cullum? Por Deus ele achou que p...
Então a gravidade retornou e os dois caíram no meio dos mais insig-nificantes objetos que choviam ao redor. O tapete que estivera flutuando na cabine do Ford aterrissou dobrado no eixo do volante. A barriga de Eddie bateu no alto do banco da frente e o ar saiu de seus pulmões numa rude golfada. Roland pousou ao lado dele, sobre o quadril dolorido. Deu uma espécie de latido e começou a recuar para o banco da frente.
Eddie abriu a boca para falar. Antes que conseguisse, a voz de Calla-han encheu sua cabeça: Salve, Roland! Salve, pistoleiro!
Quanto esforço psíquico custara ao Père falar daquele outro mundo?
E atrás dele, débil mas ali, o som de gritos bestiais, triunfantes. Uivos que não eram de todo palavras.
Os olhos arregalados e assustados de Eddie encontraram o olhar azul-claro de Roland. Eddie estendeu a mão para a mão esquerda do pistoleiro, pensando: Ele está indo. Poderoso Deus, acho que o Père está indo.
Que você consiga encontrar sua Torre, Roland, e nela penetrar...
— ...e que consiga chegar ao alto — Eddie soprou.
Estavam de volta ao carro de John Cullum, estacionado (sem dúvida torto, mas sem nenhum outro problema) na margem da estrada do Kansas, nas primeiras horas do crepúsculo de um dia de verão. O que Eddie via, no entanto, era o tremendo brilho alaranjado das luzes naquele restaurante que não era absolutamente um restaurante, mas um covil de canibais. Ter-rível pensar que podia haver coisas assim, e que as pessoas passavam dia e noite diante daquele esconderijo sem ter a menor noção do que havia lá dentro, sem ao menos perceber que talvez estivessem sendo marcadas e avaliadas por olhos ávidos...
Então, antes que pudesse pensar mais alguma coisa, Eddie gritou de dor quando dentes fantasmas agarraram seu pescoço, faces e diafragma; quando sua boca foi violentamente beijada por pêlos e os testículos foram espetados. Gritou de novo, agarrando o ar com a mão livre até que Roland o segurou, obrigando-o a se acalmar.
— Pare, Eddie. Pare. Eles se foram. — Uma pausa. A conexão foi quebrada e a dor se extinguiu. Roland tinha razão, é claro. Ao contrário do Père, eles tinham escapado. Eddie viu que os olhos de Roland estavam bri-lhantes de lágrimas. — Ele também foi embora. O Père.
— Os vampiros? Você sabe, os canibais? Será... Será que eles...? — Eddie não pôde concluir o pensamento. A idéia de Père Callahan como um deles era terrível demais para ser levantada em voz alta.
— Não, Eddie. Absolutamente não. Ele... — Roland puxou o revól-ver que ainda usava. Os relevos de ferro do cabo brilhavam na última luz do dia. Por um momento enfiou o cano do revólver bem sob o queixo sem parar de olhar para Eddie.
— O Père escapou deles assim — disse Eddie.
— Foi, e eles devem ter ficado realmente furiosos.
Eddie abanou a cabeça, subitamente exausto. E os ferimentos esta-vam doendo de novo. Ou melhor, soluçando.
— Deus — disse ele. — Agora ponha essa coisa no lugar antes que acabe se baleando. — E depois que Roland guardou a arma: — E isso que acabou de nos acontecer? Entramos em todash ou terá sido outro feixemo-to?
— Acho que foi um pouco de ambos — disse Roland. — Existe uma coisa chamada aven kal, que é como uma onda de maré que corre ao longo do Caminho do Feixe. Fomos erguidos nela.
— E nos foi permitido ver o que queríamos ver.
Depois de pensar um instante, Roland balançou a cabeça com grande firmeza:
— Vimos o que o Feixe quis que víssemos. O lugar para onde ele quer nos levar.
— Roland, você estudou esta coisa quando era garoto? Será que seu velho parceiro Vannay deu aulas de... não sei, Anatomia dos Feixes e Cur-vas do Arco-íris?
Roland estava sorrindo.
— Sim, acho que nos ensinaram essas coisas em História e Summa Logicales.
— Lógica-o quê?
Roland não respondeu. Olhava pela janela do carro de Cullum, ainda tentando recuperar o fôlego e se recompor — no sentido físico e figurado. Isso não era assim tão fácil ali; estar naquela parte de Bridgton era como estar nos arredores de um certo terreno baldio em Manhattan. Porque ha-via uma força criadora ali por perto. Não sai King, como Roland a princí-pio acreditara, mas o potencial de sai King... aquilo que sai King podia ser capaz de criar no tempo certo e no mundo certo. Não estava King sendo também levado em aven kal, talvez engendrando a própria onda que o er-guia?
Um homem não pode se fazer sozinho, Cort ensinara, quando Roland, Cu-thbert, Alain e Jamie eram pouco mais que crianças pequenas. Cort falando no severo tom de auto-segurança que aos poucos foi se transformando em aspereza, à medida que seu último grupo de rapazes se aproximava dos testes de maturidade. Mas talvez acerca de se fazer sozinho Cort não tives-se razão. Talvez, sob certas circunstâncias, um homem pudesse se fazer so-zinho. Ou dar nascimento ao universo a partir do umbigo, como diziam que Gan tinha feito. Como escritor, King não era um criador? E no fundo, não era criação tirar alguma coisa do nada... vendo o mundo num grão de areia ou se fazer sozinho?
E o que ele estava fazendo, sentado ali e pensando em complicados temas filosóficos enquanto dois membros de seu tet continuavam perdi-dos?
— Faça esta carruagem andar — disse Roland, procurando ignorar o leve rumor que ouvia, não sabia se a Voz do Feixe ou a Voz de Gan, o Cri-ador. — Temos de chegar à Via do Casco da Tartaruga nessa cidade de Lovell e ver se podemos encontrar o caminho para onde Susannah está.
E não apenas Susannah. Se Jake tivesse conseguido se esquivar dos monstros no Dixie Pig, também teria se encaminhado para onde ela estava. Roland não tinha dúvida disso.
Eddie estendeu a mão para o câmbio (apesar de todos os seus giros, o velho Galaxie de Cullum não havia parado de funcionar), mas a mão caiu. Ele se virou e olhou para Roland com uma expressão desolada.
— O que há com você, Eddie? Seja o que for, desembuche logo. O bebê está vindo... Talvez já tenha vindo. Logo Susannah não terá mais uti-lidade para Mia!
— Eu sei — disse Eddie. — Mas não podemos ir para Lovell. — Fez uma careta como se o que estava dizendo lhe causasse uma dor física. Ro-land desconfiou que provavelmente era isso mesmo. — Ainda não.