A Torre Negra, Vol. 7
Dois
Havia três nomes de fábrica no que Eddie imediatamente apelidou de “Trike, Cruzador de Suzie”. Um era Honda, outro Takuro (como no Taku-ro Spirit, aquele extremamente popular importado pré-supergripe), o ter-ceiro era North Central Positronics. E havia um quarto também: EXÉRCI-TO DOS ESTADOS UNIDOS, como em PROPRIEDADE DO...
Susannah relutava em abandonar o veículo, mas finalmente ela o fez. Deus sabia que havia muito mais para ver; a gruta era um verdadeiro baú de tesouros. Sua garganta estreita estava repleta de suprimentos de comida (em geral coisas liofilizadas, provavelmente não tão boas quanto os rangos de Nigel mas que pelo menos os deixaria alimentados), água mineral, bebi-das em lata (muita Coca e Nozz-A-La, mas nada alcoólico) e o prometido fogão a gás propano. Havia também caixotes de armamento. Alguns caixo-tes tinham a inscrição EXÉRCITO AMERICANO, mas não todas.
Agora as aptidões básicas surgiriam: o fio verdadeiro, diria Cort. Ta-lentos e intuições que poderiam ter passado a maior parte de suas vidas adormecidos, só vindo à tona pelo tempo suficiente para envolvê-los num problema ou noutro, se Roland não os tivesse propositalmente desperta-do... mimado... e daí afiado seus dentes em armas mortais.
Praticamente nada foi falado quando Roland tirou um pé-de-cabra da bolsa e levantou as tampas dos caixotes. Susannah esqueceu o Cruzador Trike que tinha esperado a vida inteira; Eddie se esqueceu de dizer coisas engraçadas; Roland esqueceu os maus presságios. Deixaram-se absorver pelo armamento que tinha sido deixado para eles e não houve peça que não conseguissem compreender, fosse de imediato ou após um pequeno exame.
Havia um caixote de rifles AR-15, os canos cobertos de graxa, os me-canismos de disparo cheirando a óleo de mamona. Eddie observou os co-mandos adicionais e passou ao caixote ao lado. Lá dentro, cobertos de plástico e também cobertos de graxa, havia tambores de metal. Pareciam os que se via nas grandes metralhadoras de filmes épicos de gângster, como Fúria Sanguinária, só que eram ainda maiores. Eddie levantou um dos AR-15s, virou-o e encontrou exatamente o que esperava: um clip de conversão permitindo que aqueles tambores fossem presos às armas, transformando os rifles em armas de tiro rápido, minimetralhadoras. Quantos disparos por tambor? Cem? Cento e vinte e cinco? O bastante para dizimar toda uma companhia de homens, isso era certo.
Havia uma caixa do que pareciam cápsulas de mísseis com as letras STS gravadas em cada uma. Num suporte ao lado, escorado na parede da gruta, havia meia dúzia de lançadores manuais. Roland apontou para o símbolo atômico neles e balançou a cabeça numa negativa. Não queria que disparassem armas capazes de liberar radiação potencialmente letal, por mais poderosas que pudessem ser. Estava disposto a liquidar os Sapadores se fosse o único meio de fazer com que parassem de mexer com os Feixes, mas só como último recurso.
Ao lado de uma bandeja de metal carregada de máscaras de gás (Jake achou-as horripilantes, lembrando cabeças decepadas de estranhos inse-tos), havia dois caixotes de revólveres: pistolas automáticas de cano curto com a palavra COYOTE estampada nas coronhas, e revólveres pesados, chamados Cobra Stars. Jake foi atraído para ambas as armas (na verdade seu coração foi atraído para todas as armas), mas ele pegou um dos Stars porque lembrava um pouco o revólver que havia perdido. O pente de balas entrava pelo cabo, carregando 15 ou 16 balas. Não era uma questão de conferir contando, mas simplesmente de olhar e saber.
— Ei — disse Susannah, que voltara para a frente da gruta. — Dêem uma olhada nisso. Pomos de ouro.
— Olha só a tampa do caixote — disse Jake, quando todos se junta-ram a ela. Susannah pusera a tampa para o lado; Jake pegou-a na mão e agora a examinava com ar de admiração. Mostrava a cara de um garoto sorridente com uma cicatriz em forma de relâmpago na testa. Usava óculos redondos e brandia o que parecia ser uma varinha mágica sobre um pomo de ouro flutuante. As palavras gravadas sob o desenho diziam:
PROPRIEDADE DO ESQUADRÃO 449
24 “POMOS DE OURO”
MODELO HARRY POTTER
SERIAL #465-17-CC NDJKR
“Não Brinque com o 449!”
Ou Vamos acabar com o “Slytherin” em você!
Havia duas dúzias de pomos de ouro no caixote, acondicionados co-mo ovos em pequenos invólucros de plástico poroso. Ninguém do grupo de Roland tivera a oportunidade de estudar um pomo de perto durante a batalha com os Lobos, mas agora tinham um bom período de tempo du-rante o qual podiam satisfazer seus interesses e curiosidades naturais. Cada um pegou um pomo. Eram aproximadamente do tamanho de bolas de tê-nis, mas muito mais pesados. As superfícies tinham sulcos, fazendo os pomos lembrarem globos com linhas de latitude e longitude. Embora os pomos parecessem feitos de aço, as superfícies eram de um material que cedia um pouco, como uma borracha muito dura.
Em cada pomo de ouro havia uma plaqueta de identificação com um botão do lado.
— Isto acorda — Eddie murmurou, e Jake abanou a cabeça. Havia também uma pequena depressão na superfície curva, do tamanho exato para um dedo. Jake apertou-a sem a menor preocupação de que a coisa pudesse explodir ou fazer surgir uma serrinha circular que cortasse seus dedos. O botão no fundo da depressão era para acessar o programa. Ele não sabia como sabia disso, mas não tinha dúvidas.
Uma seção curva da superfície do pomo deslizou com um débil auoo-ommm! Apareceram quatro diminutas luzes, três escuras e uma cintilando devagar com pulsos cor de âmbar. Havia sete janelas, agora mostrando 0 00 00 00 . Sob cada uma havia um botão tão pequeno que seria preciso algo como a ponta de um clipe de papel aberto para apertá-lo.
— Do tamanho do cu de um inseto — como Eddie resmungou mais tarde, enquanto tentava programar um deles. A direita das janelas havia outros dois botões, esses marcados com A e P.
Jake mostrou a Roland.
— A de Ajustar e P de Pausa — disse ele. — O que acha? Eu acho que é isso.
Roland assentiu. Nunca vira tal arma antes (pelo menos não de per-to), mas achava que o uso dos botões, vistos em conjunto com as janelas, era óbvio. E ele achou que os pomos de ouro podiam ser úteis de um mo-do que as armas de longo alcance, com seus projéteis atômicos, não pode-riam. AJUSTAR e PAUSA.
AJUSTAR... e PAUSA.
— Será que foi Ted e seus dois parceiros quem deixou tudo isso para nós? — Susannah perguntou.
Roland achava que não importava muito quem tinha deixado (estava lá e isso bastava), mas abanou afirmativamente a cabeça.
— Como? E onde conseguiram?
Roland não sabia. O que sabia era que a gruta era um ma’sum — um arsenal. Lá embaixo, havia homens atacando a Torre que os descendentes do Eld tinham jurado defender. Roland e seu tet iriam atacá-los de surpre-sa, e com aquelas ferramentas poderiam aplicar um golpe atrás do outro até os inimigos caírem com as botas apontadas para o céu.
Ou até as botas deles apontarem para o céu.
— Talvez Ted explique numa das fitas que nos deixou — disse Jake. Ele encaixara o pino de segurança de sua nova Cobra automática, que guardara na bolsa que trazia no ombro, onde estavam os Orizas restantes. Susannah tinha também se servido de uma das Cobras, após girá-la no de-do uma vez ou duas, como Annie Oakley. ∗
— Talvez explique — disse ela, dando um sorriso para Jake. Havia muito tempo que Susannah não se sentia tão bem fisicamente. Tão não-grávida. Sua mente, no entanto, estava inquieta. Ou talvez fosse seu espírito.
Eddie levantava um pano que tivera rolado em forma de tubo, amar-rado com três voltas de corda.
— Esse tal de Ted disse que estava nos deixando um mapa da área do presídio. Aposto que é isto. Alguém além de mim quer dar uma olhada?
Todos quiseram. Jake ajudou Eddie a desenrolar o mapa. Brautigan os advertira que era tosco, e certamente era: realmente não mais que uma série de círculos e quadros. Susannah viu o nome da pequena cidade — Vila Aprazível — e tornou a pensar em Ray Bradbury. Jake ficou fascinado pelo rude desenho dos pontos cardeais, onde o autor do mapa pusera um ponto de interrogação ao lado da letra N.
Enquanto estavam estudando aquele exemplo apressadamente traça-do de cartografia, um grito demorado e trêmulo se ouviu vindo da escuri-dão lá fora. Eddie, Susannah e Jake olharam nervosos ao redor. Oi tirou a cabeça do meio das patas, deu um rosnado breve e baixo, depois tornou a pousar a cabeça, aparentemente caindo de sono: Pro inferno pra você, cara mau, estou com os meus e não preciso ter medo.
— O que foi? — Eddie perguntou. — Um coiote? Um chacal?
— Alguma espécie de cachorro do deserto — Roland explicou num tom ausente. Estava de cócoras (o que sugeria que os quadris estavam me-lhores, pelo menos naquele momento) com as mãos apoiadas nas canelas. Não tirava os olhos dos círculos e quadrados grosseiros desenhados no pano.
— Can-toi-tete.
— É como Dan-Tete? — Jake perguntou.
* Estrela do famoso show do Buffalo Bill, grande atiradora do oeste norte-americano no século XIX. (N. da E.)
Roland o ignorou. Pegou o mapa com ambas as mãos e deixou a gru-ta sem olhar para trás. Os outros compartilharam um olhar e o seguiram, de novo enrolando os cobertores nos corpos como xales.
TRÊS
Roland voltou para onde Sheemie (com uma pequena ajuda de seus ami-gos) os levara. Desta vez foi o pistoleiro quem usou o binóculo, olhando demoradamente para o Céu Azul. Em algum lugar atrás deles, o cão do deserto tornou a uivar, um ruído solitário na escuridão.
E agora a escuridão estava mais sombria, pensou Jake. Os olhos co-meçavam a se adaptar ao passo que o dia acabara, mas, por contraste, o facho de sol cintilante parecia ainda mais brilhante. Tinha bastante certeza de que o negócio com a máquina-sol era ela ficar totalmente acesa ou to-talmente apagada, com nada no meio. Talvez o deixassem brilhar a noite inteira, mas Jake achava improvável. Os sistemas nervosos das pessoas são construídos para uma progressão ordeira de noite e dia, fora o que apren-dera na aula de ciências. Era possível viver com longos períodos de pouca luz (todo ano havia gente vivendo assim na região ártica), mas isso podia realmente mexer com a cabeça. Jake achava que os encarregados do siste-ma fariam tudo para impedir que os Sapadores ficassem ainda mais pira-dos. Além de tudo, iam querer economizar o seu “sol” pelo maior tempo possível; tudo ali estava velho, sujeito a colapsos.
Por fim Roland deu o binóculo a Susannah.
— Dê uma olhada especial nas construções dos dois lados do retan-gulo gramado. — Tornou a desenrolar o mapa como uma personagem pronta a ler uma proclamação num palco e examinou-o rapidamente.
— No mapa elas têm os números 2 e 3 — disse.
Susannah estudou-as com cuidado. A que estava marcada com o nú-mero 2, a casa do Administrador, era um casebre pintado de azul berrante com arremate branco. Era o que sua mãe talvez tivesse chamado de casa de conto de fadas, por causa das cores brilhantes e de uns apliques que ador-navam os beirais.
A Casa Damli era muito maior e ela viu pessoas entrando e saindo. Algumas tinham o ar despreocupado de civis. Outras pareciam muito mais... oh, digamos, vigilantes. E ela viu uma ou duas curvadas, carregando fardos grandes. Passando o binóculo a Eddie, Susannah perguntou se eram Filhos de Roderick.
— Acho que sim — disse ele —, mas não posso estar completamen-te...
— Esqueçam os Rods — disse Roland —, ao menos por enquanto. O que acha daquelas duas construções, Susannah?
— Bem — disse ela, respondendo cautelosamente (não tinha a menor idéia do que Roland esperava dela) —, pelo menos são muito bem conser-vadas, principalmente se as compararmos com as ruínas que temos encon-trado em nossas viagens. A casa que chamam de Casa Damli é especial-mente bonita. É um estilo que chamamos de Queen Anne e...
— Acha que são mesmo de madeira ou apenas feitas para aparentar isto? Estou particularmente interessado na casa chamada Damli...
Susannah tornou a dirigir o binóculo para lá e depois passou-o a Ed-die. Ele olhou e passou o binóculo a Jake. Enquanto Jake estava observan-do, ouviram nitidamente um CLIQUE!, que veio rolando através de qui-lômetros... e o raio de sol de Cecil B. DeMille, que brilhara sobre o Devar-Toi como um holofote, se apagou, deixando-os no meio de uma espessa sombra arroxeada, que logo se transformaria na mais extrema escuridão.
Nisso, o cachorro do deserto começou de novo a uivar, fazendo a pe-le se arrepiar nos braços de Jake. O uivo aumentou... aumentou... e de re-pente foi cortado por um último som abafado. Parecia um derradeiro grito de surpresa e Jake não teve dúvida de que o cão do deserto estava morto. Algo avançava furtivo atrás dele e quando a grande luz no alto se apagou...
Lá embaixo ainda havia luzes: uma dupla fileira que poderiam ser pos-tes de luz em Vila Aprazível e círculos amarelos que provavelmente eram lâmpadas de mercúrio ao longo das várias trilhas do que Susannah chama-va agora Sapador U... Havia também holofotes, desenhando padrões casu-ais no escuro.
Não, Jake pensou, São holofotes de busca. Como num filme sobre um presídio.
— Vamos voltar — disse ele. — Não há mais nada para ver e não gosto de ficar aqui fora no escuro.
Roland concordou. Seguiram-no em fila indiana, com Eddie carre-gando Susannah e Jake andando atrás deles com Oi nos calcanhares. Ele continuava esperando um segundo cão do deserto para comparar com o grito do primeiro, mas não ouviu mais nenhum.
QUATRO
— São de madeira — disse Jake. Estava sentado de pernas cruzadas sob um dos lampiões a gás, deixando seu bem-vindo clarão esbranquiçado bri-lhar no rosto.
— Madeira — Eddie concordou.
Susannah hesitou um momento, sentindo que era uma questão de real importância lembrar-se com exatidão do que tinha visto. Também acabou abanando a cabeça.
— Madeira, tenho quase certeza. Principalmente na que chamam de Ca-sa Damli. Uma construção estilo Queen Anne de pedra ou tijolo, camufla-da para ficar parecendo madeira? Não faz sentido.
— Se servir para enganar desgarrados com vontade de queimá-la — disse Roland —, faz sentido. Faz realmente sentido.
Susannah pensou no assunto. Ele tinha razão, é claro, mas...
— Ainda digo que é de madeira.
Roland assentiu.
— Eu também. — Ele havia encontrado uma grande garrafa verde com a inscrição PERRIER. Ao abri-la, verificou que Perrier era água. Pe-gou cinco copos e derramou um pouco em cada um. Pôs os copos na fren-te de Jake, Susannah, Eddie, Oi e ele próprio.
— Você me chama de dinh? — perguntou a Eddie.
— Sim, Roland, você sabe que sim.
— Vai compartilhar o khef comigo e beber desta água?
— Sim, se você quiser. — Eddie já não estava sorrindo. A sensação voltara e era forte. Ka-shume, uma palavra pesarosa que ainda não conhe-cia.
— Beba, vassalo.
Eddie não chegou exatamente a gostar de ser chamado de vassalo, mas bebeu a água. Roland se ajoelhou diante dele e depositou um beijo breve e seco nos lábios de Eddie.
— Eu te amo, Eddie — disse ele e lá fora, na ruína que era Trovoada, soprou um vento do deserto carregando uma poeira envenenada e áspera.
— Ora... eu também te amo — disse Eddie. Foi uma surpresa ele di-zer isso. — O que há de errado? E não me diga que não é nada, porque estou sentindo.
— Não há nada de errado — disse Roland sorrindo, mas Jake nunca tinha ouvido tanta tristeza na voz do pistoleiro. Isso o apavorou. — É só ka-shume e aconteceu a todos os ka-tets que já existiram... mas agora, en-quanto ainda somos um todo, compartilhamos nossa água. Compartilha-mos nosso khef. É uma coisa alegre a fazer.
Olhou para Susannah.
— Você me chama de dinh?
— Sim, Roland, eu o chamo de dinh. — Ela parecia muito pálida, mas talvez fosse apenas a luz esbranquiçada dos lampiões a gás.
— Vai compartilhar o khef comigo e beber desta água?
— Com prazer — disse ela, pegando o copo de plástico.
— Beba, vassala.
Susannah bebeu, olhos negros e graves não se afastando dos olhos dele. Pensou nas vozes que ouvira no sonho da cela de xadrez em Oxford: este morto, aquele outro morto, aquele terceiro morto; oh, Discórdia, e as sombras ficaram mais carregadas.
Roland beijou sua boca.
— Eu te amo, Susannah.
— Eu também te amo.
O pistoleiro se virou para Jake.
— Você me chama de dinh?
— Sim — disse Jake. Não havia dúvida nenhuma sobre sua palidez; até os lábios estavam cinzentos. — Ka-shume significa morte, não é? Qual de nós vai ser atingido?
— Não sei — disse Roland. — A sombra ainda pode se afastar de nós, pois a roda continua em movimento. Não sentiu o ka-shume quando entrou com Callahan no antro dos vampiros?
— Sim.
— Ka-shume para os dois?
— Sim.
— Contudo aqui está você. Nosso ka-tet é forte e tem sobrevivido a muitos perigos. Pode também sobreviver a este.
— Mas estou sentindo...
— Sim — disse Roland. A voz era amável, mas aquele olhar terrível não saía de seus olhos. Um olhar além da mera tristeza dizendo que, apesar do que pudesse acontecer, a Torre era maior, a Torre Negra era maior e era lá que ele habitava, de coração e alma, de ka e khef. — Sim, eu também sinto. Todos nós sentimos. Por isso é que tomamos a água, o que significa companheirismo, estar um com o outro. Vai compartilhar o khef comigo e compartilhar a água?
— Sim.
— Beba, vassalo.
Jake bebeu. Depois, antes que Roland pudesse beijá-lo, largou o copo, pôs os braços em volta do pescoço do pistoleiro e murmurou febrilmente no ouvido dele:
— Roland, eu te amo.
— Eu também te amo — disse Roland, soltando-o. Lá fora, o vento tornava a soprar. Jake esperou que alguma coisa uivasse (talvez em triun-fo), mas nada o fez.
Sorrindo, Roland se virou para o zé-trapalhão.
— Oi do Mundo Médio, você me chama de dinh?
— Dinh! — disse Oi.
— Vai compartilhar o khef e esta água comigo?
— Khef! Auá!
— Beba, vassalo.
Oi pôs o focinho no copo de plástico (um ato que exigiu alguma des-treza) e lambeu até a água desaparecer. Depois ergueu os olhos na expecta-tiva. Havia gotas de Perrier em seus bigodes.
— Oi, eu te amo — disse Roland, pondo a face ao alcance dos dentes agudos do trapalhão. Oi lambeu o rosto dele uma única vez, depois voltou a enfiar o focinho no copo, querendo aproveitar alguma gota perdida.
Roland estendeu as mãos. Jake pegou uma e Susannah a outra. Logo estavam todos ligados. Como bêbados no fim de um encontro dos A.A., Eddie pensou.
— Somos ka-tet — disse Roland. — Somos um de muitos. Compar-tilhamos nossa água como compartilhamos nossas vidas e nossa missão. Se um tiver de cair, não ficará perdido, pois somos um e não esqueceremos isso, mesmo na morte.
Ficaram mais um momento de mãos dadas. Roland foi o primeiro a se soltar.
— Qual é o seu plano? — Susannah perguntou. Ela não o chamava de docinho; pelo que Jake sabia, nunca mais usou este ou qualquer outro termo de agrado com Roland. — Vai nos dizer?
Roland inclinou a cabeça para o gravador Wollensak, ainda pousado na tampa do barril.
— Talvez devêssemos ouvir isso primeiro — disse. — Realmente te-nho uma espécie de plano, mas o que Brautigan tem a dizer pode ajudar em alguns detalhes.
CINCO
A noite em Trovoada é a própria definição de escuridão: nem lua, nem es-trelas. Se ficássemos, porém, na frente da gruta onde Roland e seu tet aca-baram de compartilhar o khef e vão agora ouvir as fitas que Ted Brautigan deixou para eles, veríamos duas brasas vermelhas flutuando naquela escu-ridão impelida pelo vento. Se seguíssemos a trilha que sobe pelo lado da Steek-Tete em direção a essas brasas flutuantes (uma aventura perigosa no escuro), acabaríamos nos deparando com uma aranha de sete patas curvada sobre o corpo estranhamente murcho de um coiote mutante. Aquele can-toi-tete era uma coisa literalmente mal concebida, com o coto de uma quinta perna se projetando do peito e uma geléia de carne balançando, co-mo teta deformada, entre as pernas traseiras, mas sua carne alimenta Mor-dred e o sangue — tomado numa série de tragos demorados, fumegantes — é doce como um vinho de sobremesa. Há, na verdade, todo tipo de coi-sa para comer ali. Mordred não tem amigos para carregá-lo de um lugar para o outro pelas botas de sete léguas da telecinese, mas não chegou a a-char a jornada da estação Trovoada para a Steek-Tete exatamente árdua.
Já ouviu o bastante para ter certeza do que seu pai planeja: um ataque de surpresa contra o complexo ali embaixo. Enfrentarão efetivos muito maiores, mas o grupo de atiradores de Roland é ferozmente dedicado a ele e a surpresa é sempre uma arma poderosa.
E pistoleiros são o que Jake chamaria de fou, loucos quando ficam de sangue quente, sem medo de nada. Esta insanidade é uma arma ainda mais poderosa.
Mordred, ao que parece, nasceu com boa soma de conhecimento ina-to. Sabe, por exemplo, que Seu Pai Vermelho, possuindo a informação que ele agora tem, teria comunicado de imediato a presença do pistoleiro ao Mestre ou ao chefe de segurança do Devar-Toi. E então, um pouco mais no meio da noite, o ka-tet que veio do Mundo Médio teria sido embosca-do, eles mesmos. Mortos durante o sono, talvez, permitindo assim que os Sa-padores continuem a obra do Rei. Mordred não nascera conhecendo de antemão esta obra, mas é capaz de pensamento lógico e seus ouvidos são afiados. Ele agora compreende o que os pistoleiros querem: chegaram até lá para sapar os Sapadores.
Ele pode impedir, é claro, mas Mordred não tem interesse pelos pla-nos ou ambições de seu Pai Vermelho. Do que gosta mesmo, como agora esta descobrindo, é da amarga solidão de ver de fora. De observar com o frio interesse de uma criança. Observar a vida, a morte, a guerra e a paz através da parede de vidro num dos lados da colônia de formigas em cima de seu gaveteiro.
Deixaria mesmo aquele ki’-dam matar seu Pai Branco? Oh, prova-velmente não. Mordred está guardando esse prazer para si mesmo e tem suas razões; ele já tem suas razões. Mas quanto aos outros — o rapaz, a mulher de pernas curtas, o garoto — sim, se o ki’-dam Prentiss levar van-tagem, que mate como quiser um dos três ou todos os três. Mordre Des-chain deixará o jogo ser levado até o fim. Estará de olho. Estará ouvindo. Vai ouvir os gritos, sentir o cheiro de queimado e observar o sangue enso-pando o chão. E então, se julgar que Roland não vai ganhar a jogada, ele, Mordred, vai sair do banco. Em nome do Rei Rubro, se isso parecer uma boa idéia, mas na verdade em seu próprio nome, e por sua própria razão, que de fato é bastante simples: Mordred está hiperfaminto.
E se Roland e seu ka-tet ganharem a jogada? Ganharem e continua-rem o avanço para a Torre? No fundo Mordred não acha que isso vai a-contecer, pois de alguma forma meio estranha ele é um membro do ka-tet deles, compartilha o khef com eles e sente o que eles sentem. Sente a imi-nente fratura da irmandade.
Ka-shume!, pensa Mordred, sorrindo. Sobra apenas um olho na face do coiote-cachorro do deserto. Uma de suas patas de aranha, escura e peluda, acaricia e arranca o olho. Depois de comer o olho como se fosse uma uva, Mordred volta para onde a luz esbranquiçada dos lampiões a gás escapa pelos cantos do cobertor que Roland pendurou na boca da gruta.
Poderia descer e chegar mais perto? Perto o suficiente para ouvir?
Mordred acha que sim, especialmente com aquele vento ficando mais forte, que abafa o som de seus movimentos. Uma idéia empolgante.
Dispara pela encosta rochosa em direção aos errantes traços de luz, em direção ao murmúrio da voz que vem do gravador e aos pensamentos daqueles que a ouvem: seus irmãos, sua mãe-irmã, o trapalhão domestica-do e, é claro, velando por todos, o Grande Ka-Papai Branco.
Mordred avança, furtivo, chegando o mais perto que pode e se enco-lhe na escuridão fria e cheia de vento, desgraçado e gostando de sua des-graça, sonhando seus sonhos de quem está de fora. Lá dentro, do outro lado do cobertor, está a luz. Que eles a tenham, se gostam dela; por ora que haja luz. No final ele, Mordred, vai apagá-la. E no escuro, terá seu pra-zer.