A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 46 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Capítulo IV · Fedic (Duas Vistas)

 

 

UM

Olhe como aqui é brilhante!

Quando estivemos antes ali, Fedic era sem sombra e sem brilho. Ha-via uma razão para isso; não era a verdadeira Fedic, mas uma espécie de substituto todash, um lugar que Mia conhecia bem, de que se lembrava bem (assim como se lembrava do torreão do castelo, onde ia com freqüên-cia antes que certas circunstâncias — na pessoa de Walter das Sombras — lhe dessem um corpo físico) e que assim podia recriar. Hoje, no entanto, a aldeia deserta é quase brilhante demais para se olhar (sem dúvida podere-mos vê-la melhor quando nossos olhos tiverem se adaptado, deixando para trás a escuridão de Trovoada e a passagem sob o Dixie Pig). Cada sombra é nítida; como se tivesse sido cortada de feltro preto e estendida sobre o lajedo. O céu é de um azul muito vivo, sem nuvens. O ar é frio. O vento que geme em volta dos beirais dos prédios vazios e através das ameias do Castelo Discórdia é outonal e um tanto contido. Na estação de Fedic há uma locomotiva atômica — que era chamada maria-a-jato pelo Povo Anti-go — com as palavras ESPÍRITO DE TOPEKA escritas dos dois lados da proa em forma de bala. As pequenas janelas da cabine de comando fica-ram quase completamente opacas por obra de séculos de areia do deserto sendo atirada no vidro, mas isso pouco importa; o Espírito de Topeka já fez sua última viagem e, mesmo quando de fato corria com regularidade, ne-nhum simples humo guiara seu curso. Atrás da locomotiva há apenas três vagões. Havia uma dúzia quando ela saiu da Estação Trovoada em sua úl-tima viagem e havia uma dúzia quando atingiu os limites desta cidade fan-tasma, mas...

Ah, bem, essa é a história que Susannah tem para contar e a ouvire-mos contar ao homem que ela chamava de dinh quando havia um ka-tet para ele guiar. E aqui está a própria Susannah, sentada onde já a encontra-mos antes, na frente do Gin-Puppie Saloon. Amarrado no parapeito está seu corcel cromado, que Eddie apelidou de Cruzador Trike de Suzie. Ela sente frio e não tem sequer um suéter para enfiar no corpo, mas o coração lhe diz que a espera está quase terminada. E como ela deseja que seu cora-ção esteja certo, pois aquele lugar é assombrado. Para Susannah, o gemido do vento é muito parecido com os gritos desnorteados das crianças que eram levadas para lá, onde teriam as mentes assassinadas e ganhariam um corpo roont.

Ao lado de um enferrujado galpão Quonset no alto da rua (a Estação Experimental Arco 16, se já esqueceram) estão os cinzentos cavalos cy-borgs. Mais alguns desmoronaram desde a última vez que visitamos o lu-gar; outros sacodem sem parar as cabeças de um lado para o outro, como tentando avistar os cavaleiros que chegariam para desamarrá-los. Mas isso nunca vai acontecer, pois os Sapadores foram libertados para perambular como quisessem e não há mais a necessidade de crianças para alimentar suas talentosas cabeças.

E agora, olhe você mesmo! Lá vem o que a senhora está esperando desde o início deste longo dia, e do dia anterior, e do dia antes do dia ante-rior, quando Ted Brautigan, Dinky Earnshaw e alguns outros (não Sheemi-e, que foi para a clareira no fim do caminho, lamentemos) lhe deram adeus. A porta do Dogan se abre e um homem sai. A primeira coisa que ela vê é que o homem não está mais mancando. Depois repara em sua nova calça jeans e na camisa nova. Trajes legais, embora o deixem tão mal equipado quanto ela para aquele tempo frio. O recém-chegado segura um animal peludo com as orelhas empinadas. Até aí tudo bem, mas o garoto que de-via estar segurando o animal está ausente. Nenhum garoto e o coração dela se enche de dor. Não, porém, de surpresa porque ela tinha sabido, exata-mente como aquele homem (aquele homem cauteloso) teria sabido se fos-se ela quem tivesse passado do caminho.

Susannah desliza do lugar onde está sentada usando as mãos e os co-tos das pernas; faz-se descer da calçada de tábuas para o meio da rua. En-tão ergue a mão e a agita sobre a cabeça.

— Roland! — gritou. — Ei, pistoleiro! Estou aqui!

Ele a vê e também acena. Depois se abaixa e põe o animal no chão. Oi corre para ela a todo vapor, cabeça baixa, orelhas achatadas contra o crânio. Corre com a velocidade e a graça atarracada, mas saltadora, de uma fuinha numa crosta de neve. Quando ainda está a 2 metros dela (pelo me-nos 2), ele pula, sombra voando por um momento sobre a terra batida da rua. Ela o agarra como um ∗ deep receiver recebendo um passe desesperado. A força do movimento de Oi tira o fôlego de Susannah e a derruba numa nuvem de pó, mas o primeiro ar que ela consegue absorver volta como riso. Susannah ainda está rindo quando Oi pára com as patinhas curtas da frente em seu peito e as patinhas curtas de trás em sua barriga, orelhas em pé, cauda enroscada se abanando. Lambe as bochechas dela, o nariz, os olhos.

— Pare com isso! — ela grita. — Pare com isso, meu bem, antes que você me mate!

Susannah ouve o que diz, tão levianamente dito, e pára de rir. Oi sai de cima dela, senta, estica o focinho para a vazia cobertura azul do céu e solta um uivo muito longo que diz a Susannah tudo que ela ia precisar sa-ber se já não soubesse. Pois Oi tem meios mais eloqüentes de falar do que suas poucas palavras.

Ela se senta, sacode nuvens de poeira da blusa e uma sombra a atinge. Ergue a cabeça, mas a princípio não consegue ver a face de Roland. A ca-beça dele está bem na frente do sol, o que forma um halo à sua volta. Seus traços estão perdidos na escuridão.

 

* Posição ofensiva do futebol americano. (N. da E.)

Mas ele está estendendo as mãos.

Parte dela não quer pegá-las e você não sabe por quê? Parte dela gos-taria de terminar tudo ali e mandá-lo sozinho para as Terras Áridas. Pouco importa o que Eddie quisesse. Pouco importa o que Jake sem a menor dú-vida também queria. Aquela forma escura com o sol cintilando em volta da cabeça a tem arrancado de uma vida extremamente confortável (oh, sim, ela tinha seus fantasmas — e pelo menos um demônio de coração mau —, mas quem não tem?). Ele a tem apresentado primeiro ao amor, depois à dor, depois ao horror e à perda. O negócio, em outras palavras, foi corren-do morro abaixo. E a mão dele, funestamente talentosa, que provocou sua dor, a mão daquele poeirento cavaleiro andante que saiu do mundo antigo com suas botas antigas e um antigo instrumento de morte de cada lado da cintura. Estes são pensamentos melodramáticos, imagens clichê, e a velha Odetta, freguesa do Faminto e uma gata legal de qualquer ponto de vista, sem a menor dúvida os teria achado muito engraçados. Mas ela tem muda-do, ele a mudou e ela reconhece que se alguém tem direito a pensamentos melodramáticos e imagens clichê, esse alguém é Susannah, filha de Dan.

Parte dela queria repeli-lo, não para arruinar sua missão ou arrasar com seu ânimo (só a morte faria essas coisas), mas para retirar o brilho que ainda resta nos seus olhos e puni-lo pela sua implacável crueldade não-intencional. Mas ka é a roda à qual todos nós estamos amarrados e quando a roda gira temos de forçosamente girar com ela, primeiro com as cabeças erguidas para o céu, depois girando de novo para o inferno, onde os mio-los dentro das cabeças parecem ferver. E então, em vez de repeli-lo...

 

DOIS

Em vez de repeli-lo, como parte dela queria fazer, Susannah pegou as mãos de Roland. Ele a ergueu, não colocando-a sobre os pés (que ela não tinha, embora tivesse andado algum tempo com um par que lhe fora em-prestado), mas para seus braços. E quando Roland tentou beijar sua face, ela virou-a para que os lábios dele encontrassem os seus. Que ele compreenda que isto não é coisa para se fazer pela metade, ela pensou, soltando o ar dos pul-mões para dentro e tomando-o de volta dele, alterado. Que compreenda que se estou nisso, estou nisso até o fim. Que Deus me ajude, estou nisso com ele até o fim.

 

TRÊS

Havia roupas na Chapelaria e Costumes de Senhoras de Fedic, mas elas se desmancharam ao toque de suas mãos — as traças e os anos nada tinham deixado de aproveitável. No Fedic Hotel (QUARTOS SILENCIOSOS, BOAS CAMAS ), Roland encontrou um armário com alguns cobertores que pode-riam servir pelo menos contra o frio da tarde. Embrulharam-se neles — a brisa mal conseguia tornar suportável o cheiro de mofo — e Susannah perguntou sobre Jake, para sentir de novo aquela dor imediata e tentar tirá-la do caminho.

— De novo o escritor — disse num tom amargo, enxugando as lá-grimas, quando Roland terminou de contar. — Maldito homem.

— Minha perna falhou e o... e Jake não hesitou. — Roland quase dis-sera o garoto, como se acostumara a ver o filho de Elmer enquanto se acer-cavam ao Walter. Dada uma segunda chance, Roland prometera a si mes-mo que jamais faria isso de novo.

— Não, é claro que não — ela disse, sorrindo. — Ele nunca faria is-so. Tinha um poço de coragem, nosso Jake. Você cuidou dele? Fez tudo certo? Gostaria de ouvir essa parte.

Então Roland contou, não deixando de incluir a promessa que Irene Tassenbaum fizera de plantar a rosa. Ela abanou a cabeça.

— Gostaria que pudéssemos ter feito o mesmo por seu amigo Shee-mie — disse ela. — Sheemie morreu no trem. Sinto muito, Roland.

Roland abanou a cabeça. Queria um pouco de tabaco, mas é claro que não tinha mais nenhum. Estava de novo com seus dois revólveres e ainda havia sete pratos Orizas de sobra. Fora isso, os estoques se resumiam a pouco mais que nada.

— Ele teve de novo de usar seus poderes psíquicos enquanto estavam vindo para cá, não é? Desconfio que sim. Eu sabia que mais uma dessas poderia acabar com ele. Sai Brautigan também sabia. E Dinky.

— Mas não foi isso, Roland. Foi o pé.

O pistoleiro fitou-a sem compreender.

— Ele cortou o pé num caco de vidro durante a luta pela tomada do Céu Azul e o ar e a sujeira daquele lugar eram veneno! — Foi Detta quem vomitou as últimas palavras, o sotaque tão forte que o pistoleiro mal con-seguiu entender: — Vêno! O maldito pé inchou... dedos cuma salsicha... depois bochecha e pescoço só roxo, como contusão... teve febre... — Ela respirou fundo, apertando mais à sua volta os dois cobertores que havia apanhado. — Entrou em delírio, mas no fim a cabeça ficou clara. Falou de você e de Susan Delgado. Falou com tamanho amor e tamanho remorso... — Ela fez uma pausa, depois explodiu: — Vamos chegar lá, Roland, vamos, e se ela não valer nada, essa sua Torre, faremos com que passe a valer!

— Vamos — disse ele. — Encontraremos a Torre Negra, nada vai conseguir resistir a nós e antes de entrar diremos seus nomes. De todos que perdemos.

— Sua lista vai ser mais comprida que a minha — disse ela —, mas a minha também não será curta.

Roland não respondeu, mas o robô camelô, talvez despertado de um longo sono pelo barulho das vozes, sim.

— Moças, moças, moças! — gritou do outro lado das portas de vaivém do Festa Bar e Grill. — Algumas humas, algumas cyber, mas quem se im-porta, tudo igual, quem se importa, elas dão, você conta, as meninas con-tam, você conta... — Houve uma pausa e então o robô gritou uma palavra final: — ...SATISFAÇÃO!... — e caiu em silêncio.

— Pelos deuses, mas este lugar é triste — disse Roland. — Vamos passar a noite e depois não o veremos mais.

— Pelo menos tem sol, o que é um alívio depois de Trovoada, mas está frio demais! meiro atrás da locomotiva... se inclinando para cima. Havia o som de metal rasgando. Aí o velho e bom Espírito de Topeka deu uma arrancada explosiva, extremamente veloz. Diga o que quiser do Povo Antigo, sei que fizeram um monte de coisas erradas, mas eles sem dúvida construíram máquinas que tinham algum tutano.

Ele balançou a cabeça, depois perguntou pelos outros.

— Seguiram adiante — disse ela —, mas por um instante achei que nenhum de nós conseguiria chegar a parte alguma, que acabaríamos todos no fundo daquela fenda ali.

Ela apontou para a ponta da rua principal de Fedic, a que ficava mais distante do muro do castelo.

— Há monitores de TV que ainda funcionam em alguns dos vagões de trem e quando chegamos à cidade tivemos uma bela vista da ponte rompida. Podíamos ver as cabeceiras se projetando sobre o fosso mas o vazio no meio devia ter uns 100 metros. Talvez mais. Também podíamos ver os cavaletes do trem. Que pareciam intactos. O trem já estava diminu-indo a marcha, mas não o bastante para que algum de nós pudesse saltar. E já não daria tempo. Além disso, o pulo teria provavelmente matado quem tentasse. Estávamos seguindo, oh, digamos, a uns 80 quilômetros por hora. E assim que chegamos aos cavaletes, a porra da coisa começou a estalar e a gemer. Ou a crocitar e grasnar, se você já leu James Thurber,∗ o que acho que ainda não fez. O trem estava tocando música. Como Blaine, está lem-brado?

— Sim.

— Mas sobre ela podíamos ouvir os cavaletes da ponte se preparando para ceder. Então tudo começou a balançar de um lado para o outro. Uma voz, muito calma e tranqüilizadora, dizia: “Estamos experimentando pe-quenos problemas de ordem técnica, por favor permaneçam sentados.” Dinky segurava aquela mocinha russa, Dani. Ted pegou minhas mãos e falou: “Quero lhe dizer, senhora, que foi um prazer conhecê-la.” Houve um solavanco tão forte que por pouco não me atirou do banco... teria con-seguido, se Ted não tivesse me agarrado... e eu pensei: “É, acabamos aqui e por favor, Deus, me deixe morrer antes que o que possa haver lá embaixo ponha os dentes em mim.” Então, por um segundo ou dois estávamos in-do para trás. Para trás, Roland! Pude ver todo o vagão... estávamos no pri-

* Humorista e cartunista norte-americano, conhecido pelas contribuições à revista New Yor-ker. (N. da E.)

“A próxima coisa que soube foi que estávamos entrando calmamente na estação. E então ouvimos aquela mesma voz tranqüilizadora, desta vez nos mandando olhar em volta das poltronas para termos certeza de que não estávamos esquecendo nossa tralha... nossas bagagens, você sabe. Co-mo se estivéssemos na porra de um vôo da TWA aterrissando em Idle-wild!∗ Só quando saltamos e pisamos na plataforma vimos que os últimos nove vagões do trem tinham sumido. Graças a Deus estavam todos vazios. — Ela atirou um olhar duro (mas assustado) para a extremidade da rua. — Espero que o que houver lá embaixo, seja o que for, sufoque com eles.”

Então Susannah se animou.

— Há uma coisa boa... A uma velocidade próxima dos 500 quilôme-tros por hora, que é o que aquela voz veja-como-somos-felizes disse que o Espírito de Topeka estava fazendo, devemos ter deixado o Mestre Garoto-Aranha no chinelo.

— Eu não contaria com isso — disse Roland.

Ela virou os olhos com ar cansado.

— Não me diga!

— Pois é o que digo. Mas vamos todos tratar de Mordred quando for a hora e acho que a hora não é hoje.

— Bom.

— Esteve de novo sob o Dogan? Imagino que sim.

Os olhos de Susannah se arregalaram.

— Não é incrível? Faz a Grand Central Station parecer uma estação de trem de cidade caipira. Quanto tempo levou para encontrar o caminho pa-ra cima?

 

* Antigo nome do aeroporto John F. Kennedy, no bairro de Queens, Nova York. (N. da E.)

— Se tivesse sido apenas eu, acho que ainda estaria vagando por aí — Roland admitiu. — Oi encontrou o caminho. Presumo que estivesse se-guindo seu cheiro.

Susannah refletiu um pouco.

— Talvez estivesse. O de Jake, mais provavelmente. Não passou por uma galeria larga com uma placa na parede dizendo SÓ PASSE LARAN-JA, PASSE AZUL NÃO ACEITO?

Roland abanou afirmativamente a cabeça, mas os dizeres desbotados na parede tinham pouco significado para ele. Ele identificara a passagem que os Lobos usavam no começo de suas incursões ao ver dois cavalos cinzentos (já bem lá dentro, imóveis) e uma daquelas máscaras de dentes arreganhados caída no chão. Também tinha visto um mocassim de que se lembrava bastante bem, pois era feito de um pedaço de borracha. Um mo-cassim de Ted ou Dinky, ele concluiu; Sheemie Ruiz fora sem dúvida en-terrado com o dele.

— Então — disse Roland —, vocês saltaram do trem... Quantos e-ram?

— Cinco, já então sem o Sheemie — disse ela. — Eu, Ted, Dinky, Dani Rostov e Fred Worthington... Está lembrado de Fred?

Roland assentiu. O homem no terno de banqueiro.

— Fiz com eles uma excursão turística pelo Dogan — disse ela. — Na medida do possível. Mostrei as camas onde roubavam os cérebros das crianças e o leito onde Mia acabou dando à luz o seu monstro. Mostrei a porta de sentido único entre Fedic e o Dixie Pig que ainda funciona em Nova York e o apartamento de Nigel.

“Ted e seus amigos ficaram realmente impressionados pela rotunda onde estão todas as portas, especialmente aquela que vai para a Dallas de 1963, onde o presidente Kennedy foi morto. Encontramos outra porta dois andares abaixo, já no nível onde fica a maioria das galerias. Ela vai dar no Ford’s Theater, onde o presidente Lincoln foi assassinado em 1865. Há inclusive um cartaz da peça a que ele estava assistindo quando Booth o baleou. Nosso Primo Americano, ela se chamava. Que tipo de pessoa ia querer ver coisas como essa?”

Roland achou que muitas pessoas, sem dúvida, mas talvez fosse me-lhor não responder.

— E tudo muito velho — disse ela. — E muito quente. E porra, mui-to assustador, se quer saber a verdade. A maioria das máquinas está parada e por toda parte há poças de água, de óleo e só Deus sabe do que mais. Algumas das poças irradiam um certo brilho e Dinky achou que pudesse ser radiação. Não gosto de imaginar o que já pode estar crescendo nos meus ossos nem quando meu cabelo vai começar a cair. Havia portas onde podíamos ouvir aqueles terríveis sinos... aqueles que põem seus dentes a tremer.

— Sinos de todash.

— É. E coisas atrás de alguns deles. Coisas esquivas. Foi você ou Mia que me disse que existem monstros na escuridão todash?

— Pode ter sido eu — disse ele. Os deuses sabiam que havia.

— Também há coisas naquela fenda além da cidade. Isso foi Mia quem me disse. “Monstros que iludem, trapaceiam, multiplicam e tramam fugas”, disse ela. A certa altura, Ted, Dinky, Dani e Fred se deram as mãos. Formaram o que Ted denominou “a pequena mente boa”. Pude sentir a coisa, embora eu não estivesse no círculo, e fiquei feliz em senti-la, porque aquele é um lugar velho e fantasmagórico. — Ela se agarrou ainda mais nos cobertores. — Não tenho a menor vontade de voltar para lá.

— Mas acredita que vamos ter de voltar.

— Há uma galeria que corre profundamente sob o castelo e sai do outro lado, na Discórdia. Ted a encontrou com seus amigos ao receber pensamentos antigos, o que Ted chamou de pensamentos fantasmas. Fred tinha um pedaço de giz no bolso e deixou o lugar marcado para mim. Mesmo assim não vai ser fácil achá-lo, porque lá embaixo é como naquele labirinto de uma velha história grega por onde circula um minotauro, mas acho que no fim vamos encontrá-lo...

Roland se curvou para alisar o pêlo áspero de Oi.

— Vamos descobri-lo. Este rapaz vai pôr o seu faro para trabalhar.

Não vai, Oi?

Oi se virou para ele com seus olhos cercados de dourado mas não disse nada.

— Seja como for — ela continuou —, Ted e os outros tocaram as mentes das coisas que vivem naquela fenda fora da cidade. Não pretendi-am fazer isso, mas fizeram. Aquelas coisas não estão a favor do Rei Rubro nem contra ele, são apenas a favor de si mesmas, mas pensam. E fazem te-lepatia. Sabiam que estávamos lá e assim que o contato foi feito ficaram satisfeitas em palestrar. Ted e seus amigos disseram que elas estavam há muito, muito tempo escavando um caminho para as catacumbas sob a Es-tação Experimental e agora estavam quase rompendo as últimas defesas. Assim que o conseguirem, vão ficar livres para vagar por onde bem quise-rem.

Por alguns segundos Roland refletiu em silêncio. Balançava-se da frente para trás sobre os calços comidos das botas. Esperava estar bem longe com Susannah quando aquele final de tarefa acontecesse... mas talvez acontecesse antes de Mordred chegar lá e o metade aranha teria de enfren-tar as criaturas, se quisesse seguir adiante. O Bebê Mordred contra os anti-gos monstros vindos de sob a terra... Era uma bela imagem!

Ele fez sinal para Susannah continuar.

— Também ouvimos sinos todash saindo de algumas galerias. Não apenas vindo de trás de certas portas, mas vindo também de entradas que não tinham portas para bloqueá-los! Entende o que isto significa?

Roland entendia. Se pegassem a galeria errada (se por exemplo Ted e seus amigos tivessem marcado a giz a galeria errada), ele, Susannah e Oi provavelmente iam desaparecer para sempre em vez de sair do outro lado do Castelo Discórdia.

— Eles não queriam me deixar lá embaixo... Me levaram de volta até a enfermaria antes de seguirem seu caminho, o que me deixou bastante contente. Eu não tinha a menor vontade de achar o caminho sozinha, mas acho que teria conseguido.

Roland pôs um braço em volta dela e lhe deu um abraço.

— A idéia deles era usar a porta que os Lobos usavam?

— Hã-hã, a que fica no final do corredor do PASSE LARANJA. Eles vão sair onde os Lobos saíam, encontrarão o caminho para o rio Whye e vão atravessá-lo para Calla Bryn Sturgis. O folken de Calla irá recebê-los, não é?

— Sim.

— E depois de ouvirem a história toda, será que não vão... não vão linchá-los ou algo do gênero?

— Tenho certeza que não. Henchick vai perceber que estão dizendo a verdade e os defenderá, mesmo se ninguém mais o fizer.

— Estão esperando utilizar a Gruta do Portal para voltar ao lado-América. — Ela suspirou. — Espero que a coisa dê certo para eles, mas tenho minhas dúvidas.

Roland também tinha. Mas os quatro eram poderosos e ele ficara im-pressionado com o homem de extraordinária determinação e habilidade que era Ted. A seu jeito, o povo manni também era poderoso, e eram grandes viajantes entre os mundos. Ele achou que, mais cedo ou mais tar-de, Ted e seus amigos provavelmente conseguiriam voltar para a América. Pensou em dizer a Susannah que aquilo ia acontecer se fosse o desejo de ka, depois pensou melhor. Ka não era exatamente a palavra preferida de Susannah naquele momento e ele não podia censurá-la por isso.

— Agora me escute muito bem e se concentre, Susannah. A palavra Dandelo significa alguma coisa para você?

Oi ergueu a cabeça, olhos brilhantes. Susannah pensou.

— Parece vagamente familiar — disse ela —, mas é o máximo que poderia dizer. Por que a pergunta?

Roland lhe disse no que acreditava: que enquanto Eddie jazia no leito, fora agraciado por alguma espécie de visão de alguma coisa... ou de um lugar... ou de uma pessoa. Algo chamado Dandelo. Eddie passara isto a Jake, Jake passara a Oi e Oi passara a coisa a Roland.

Susannah franzia a testa com ar de dúvida.

— Talvez a mensagem já tenha circulado demais. Quando éramos crianças tínhamos uma brincadeira chamada telefone sem fio. A primeira criança pensava em alguma coisa, uma palavra ou uma frase, e a sussurrava para a criança vizinha. Você só podia ouvir a coisa uma vez, não se permi-tiam repetições. A próxima criança passava adiante o que achava que tinha ouvido e assim outra e outra. Quando a coisa chegava ao último da fila, era algo inteiramente diferente e todos davam uma boa gargalhada. Mas se isto aqui for a palavra errada, não teremos razão nenhuma para rir.

— Bem — disse Roland —, vamos nos manter vigilantes e esperar que eu tenha ouvido direito. E talvez não tenha significado algum. — Mas ele não acreditava realmente nisso.

— O que vamos usar como roupa, se ficar mais frio do que está? — ela perguntou.

— Nós mesmos faremos o que precisarmos. Sei como. Aliás, esta é outra coisa com a qual não precisamos nos preocupar hoje. O que nós te-mos que fazer é achar algo para comer. Se for necessário, quem sabe pode-mos encontrar a despensa de Nigel...

— Só quero voltar para aquele lugar embaixo do Dogan quando for realmente preciso — disse Susannah. — Tem de haver uma cozinha perto da enfermaria; eles têm de ter dado alguma coisa para aqueles pobres garo-tos comerem.

Roland pensou um pouco e abanou a cabeça. Era uma boa idéia.

— Vamos fazer isso agora — disse ela. — Também não quero estar no último andar daquele lugar depois que escurecer.

 

QUATRO

Na Via do Casco da Tartaruga, no ano de 2002, mês de agosto, Stephen King volta de um sonho acordado com Fedic. Ele digita: “Também não quero estar no último andar daquele lugar depois que escurecer.” As palavras aparecem na tela. É o fim do que ele chama de subcapítulo, o que nem sempre significa que a tarefa do dia tenha sido cumprida. Cumprir a tarefa do dia depende do que ele ouve. Ou, mais exatamente, do que não ouve. O que escuta é Ves’-Ka Gan, a Canção da Tartaruga. Agora a música, que é fraca em cer-tos dias e em outros tão alta que quase o ensurdece, parece ter cessado. Voltará amanhã. Pelo menos sempre volta.

Ele aperta Ctrl junto com S e o computador faz um pequeno rumor, indicando que o material escrito naquele dia foi salvo. Então ele se levanta, estremecendo com a dor no quadril, e caminha para a janela do escritório. Dá uma olhada no acesso da garagem, subindo num ângulo bastante ín-greme para a estrada onde agora ele raramente caminha (e na estrada prin-cipal, na rota 7, nunca). O quadril dói muito naquela manhã e os grandes músculos da coxa estão em fogo. Ele esfrega o quadril com ar ausente e continua olhando para fora.

Roland, seu puto, você me devolveu a dor, ele pensa. A dor desce por sua perna direita como corda incandescente, não vamos dizer Deus, não va-mos dizer Deus-bomba? No final a dor ficou mesmo com ele. Já se passa-ram três anos desde o acidente que quase roubou sua vida e a dor ainda está lá. É menor agora, o corpo humano tem um incrível mecanismo de cura por dentro (um formidável lance de ajuste, ele pensa e sorri), mas às ve-zes a coisa ainda dói. Não pensa muito nisso quando está escrevendo, es-crever é um tipo benigno de todash, mas as juntas ficam sempre duras de-pois de algumas horas em sua mesa.

Pensa em Jake. Lamenta como o diabo que Jake tenha morrido e acha que, quando aquele último volume for publicado, os leitores vão ficar sim-plesmente furiosos. E por que não? Alguns conhecem Jake Chambers há vinte anos, quase duas vezes mais tempo do que o garoto realmente viveu. Ora, vão ficar furiosos, tudo bem, e quando ele lhes escrever de volta, di-zendo que lamenta tanto quanto eles, que ficou tão surpreso quanto eles, será que vão lhe dar crédito? Nem vendo em fotografia, como seu avô cos-tumava dizer. Pensa em Angústia — Annie Wilkes chamando Paul Sheldon de pirralho cabeça de porra por tentar se livrar da tola e pirada Misery Chastain. Annie gritando que Paul era o escritor e o escritor é Deus para seus personagens, não precisa matar nenhum deles se não quiser.

Mas ele não é Deus. Pelo menos não neste caso. Sabe muito bem que Jake Chambers não estava ali no dia de seu acidente, nem Roland Deschain tampouco — a idéia é risível, eles são de faz-de-conta, pelo amor de Cristo —, mas ele também sabe que, a certa altura, a canção que ouve ao se sentar naquela fabulosa máquina de escrever Macintosh tornou-se a canção fúne-bre de Jake e ignorar isso teria sido perder completamente o contato com Ves’-Ka Gan, coisa que não deve fazer. Não se estiver disposto a acabar a história. Aquela canção é o único fio que ele tem, o rastro de miolinhos de pão que precisa seguir se quiser algum dia sair da atordoante floresta de trama que ele tem plantado...

Tem certeza que foi você quem plantou?

Bem... não. De fato não tem. Então chame os homens de jaleco bran-co.

E tem certeza absoluta de que Jake não esteve lá naquele dia? Afinal, o que exatamente você consegue se lembrar do maldito acidente?

Não muita coisa. Lembra-se de ver a capota da van de Bryan Smith aparecer no horizonte e perceber que ela não estava na estrada, onde devia estar, mas no acostamento. Depois disso se lembra de Smith sentado numa mureta de pedra, olhando lá de cima para ele e dizendo que suas pernas estavam quebradas em pelo menos seis, talvez sete pontos diferentes. Mas entre essas duas recordações — a da aproximação da van e a do resultado imediato — o filme de sua memória teve o negativo queimado.

Ou quase queimado.

Às vezes, no entanto, durante a noite, quando acorda de sonhos de que não consegue se lembrar muito bem...

Às vezes há... bem...

— Às vezes há vozes — diz ele. — Por que simplesmente não con-fessa?

E então, rindo.

— Acho que foi o que acabei de fazer.

Ouve o estalar de unhas de pés se aproximando pelo hall e Marlowe enfia o nariz comprido no escritório. É um welsh corgi, um cãozinho galés com pernas curtas e orelhas grandes, agora um velhote com suas dores e achaques, para não falar no olho perdido para o câncer no ano anterior. O veterinário disse que provavelmente ele não ia sobreviver ao tumor, mas sobreviveu. Bom garoto. Garoto durão. E quando tira o focinho do ângulo agora necessariamente baixo de sua visão e olha para o escritor, o welsh corgi está usando o velho sorriso amigo. Como vão as coisas, rapaz?, aquela expressão parece dizer. Conseguindo palavras legais no dia de hoje? Muitas?

— Estou indo bem — ele diz a Marlowe. — Passe pra dentro. E você como vai?

Marlowe (conhecido às vezes como Focinhão) abana a cauda artrítica em resposta.

“Você de novo.” Foi o que eu disse a ele. E ele perguntou: “Você se lembra de mim?” Ou talvez não tenha sido uma pergunta: “Você se lembra de mim.” Disse a ele que tinha sede. Ele disse que não tinha nada para be-ber, disse que lamentava e o chamei de mentiroso. E tinha razão de chamá-lo de mentiroso porque ele não lamentava coisa nenhuma. Se importava tanto quanto uma ponta de prego se eu estava com sede. Jake estava morto e ele tentava jogar essa coisa em mim, o filho de uma puta tentava jogar essa culpa em mim...

— Mas nada disso realmente aconteceu — diz King, vendo Marlowe gingar de volta à cozinha, onde visitará de novo sua comida antes de entrar num daqueles cochilos cada vez mais longos. Fora os dois, a casa está de-serta e, em tais circunstâncias, não é raro King falar sozinho. — Quero dizer, você sabe disso, não é? Que nada daquilo realmente aconteceu?

Ele supõe que sabe, mas foi tão estranho Jake ter morrido daquela ma-neira. Jake estava em todas as suas anotações, e aqui nenhuma surpresa, pois Jake devia permanecer na ativa até o verdadeiro fim. Na realidade, todos eles deviam. É claro que nenhuma história, exceto as ruins, as que já nascem sem fôlego, nunca está inteiramente sob o controle do escritor, mas é absurdo ver como aquela ficou tão fora de controle. Realmente ele se sente antes vendo algo acontecer — ou ouvindo alguma canção — do que escre-vendo uma maldita história inventada.

Decide preparar um sanduíche com manteiga de amendoim e geléia para o almoço e esquecer toda a porra daquela coisa até amanhã. De noite vai ver o novo filme de Clint Eastwood, Dívida de Sangue, e está satisfeito pelo fato de poder ir aonde quiser, fazer o que quiser. Amanhã voltará à sua mesa de trabalho e algo do filme poderá escapulir para dentro do li-vro... Certamente o próprio Roland tinha muito de Clint Eastwood, o Homem sem Nome de Sérgio Leone.

E... por falar de livros...

Na mesinha de centro da sala há um livro que chegou via FedEx, na-quela manhã mesmo, de seu escritório em Bangor: Robert Browning, Obra Poética Completa. Contém, é claro, “Childe Roland à Torre Negra Chegou”, o poema narrativo que se encontra na raiz da longa (e penosa) história de King. Uma idéia de repente lhe ocorre e traz a seu rosto uma expressão que quase explode numa franca gargalhada. Como se lesse seus sentimen-tos (e possivelmente os lia; King sempre suspeitara que cachorros são emi-grados relativamente recentes daquele grande país, sei-exatamente-como-se-sente, da Empática), o sorriso amigo de Marlowe parece se ampliar.

— Um lugar para o poema, meu velho — diz King, atirando o livro de volta à mesinha de centro. É um livro grande, que aterrissa com um for-te baque. — Um lugar e um lugar apenas. — Então ele afunda mais na ca-deira e fecha os olhos. Vou somente sentar aqui por um minuto ou dois, ele pensa, sabendo que está se iludindo, sabendo que é quase certo que vai cochilar. E ele o faz.