A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 62 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Susannah em Nova York

 

EPÍLOGO

Susannah em Nova York

 

EPÍLOGO

Ninguém se assusta quando o pequeno carro elétrico vai saindo de lugar nenhum, centímetro por centímetro, até aparecer totalmente aqui, no Cen-tral Park; ninguém vê isso acontecer, só nós vemos. A maioria dos que es-tão aqui olham para cima, pois os primeiros flocos de neve do que acabara sendo uma grande tempestade de neve pré-Natal caem rodopiando de um céu nublado. A Nevasca de 1987, como os jornais vão chamá-la. Visitantes do parque que não estão vendo a neve cair observam os cantores natalinos. Eles vêm de escolas públicas de uptown e usam blazers vermelho-escuros (os garotos) ou vestidos vermelho-escuros (as garotas). Este aqui é o Coro Escolar do Harlem, às vezes chamado de Rosas do Harlem no Post e no tablóide rival, o Sun de Nova York. Cantam um antigo hino numa maravi-lhosa harmonia doo-wop ∗ e estalam os dedos enquanto vão passando pelas estrofes. Transformam o hino em algo que chega quase a lembrar os sons iniciais dos Spurs, dos Coasters, ou dos Dark Diamonds. Estão não muito longe das instalações onde os ursos polares vivem suas vidas urbanas. A canção que estão cantando é “O Menino Nasceu”.

Um dos que estão olhando a neve em cima é um homem que Susan-nah conhece bem e seu coração salta direto para o céu quando ela o vê. Na mão esquerda do homem há um grande copo de papel e Susannah tem certeza de que no copo há chocolate quente, do gostoso, com chantilly.

Por um momento ela é incapaz de tocar nos controles do carrinho,

 

* Harmonia em quatro partes, de vozes negras, típica dos anos 50 em Nova York. (N. da E.) que vieram de outro mundo. Lembranças de Roland e Patrick deixaram sua mente. Agora só consegue pensar em Eddie... Eddie na sua frente, ali e naquele momento, Eddie vivo de novo. E se aquilo não é o Mundo-chave, não de todo, o que será então? Se a Coop City ficar no Brooklyn (ou mes-mo no Queens!) e se Eddie guiar um Takuro Spirit em vez de um Buick Electra, o que serão todas aquelas coisas? Não importa. Só uma coisa im-porta, e é o que impede que a mão de Susannah vá para o acelerador fa-zendo o carro rodar na direção dele.

E se Eddie não a reconhecer?

Se, ao se virar, ele vir apenas uma senhora negra sem-teto num carri-nho elétrico cuja bateria logo estará gasta como um velho chapéu amassa-do?

Uma senhora negra sem dinheiro, sem roupas, sem endereço (não na-quele onde e quando, dêem graças, sai) e sem pernas? Uma sem-teto negra sem nenhuma ligação com ele? E se Eddie de fato a reconhecer, em algum lugar bem no fundo da mente, mas continuar negando completamente esse conhecimento como Pedro negou Jesus, pois lembrar seria simplesmente doloroso demais?

Pior ainda: e se Eddie se vira para ela e ela o vê fodido, desconectado, com aquele olhar vazio do velho viciado em drogas? E se, e se... E lá vem a neve que logo deixara o mundo inteiro branco.

Pára de te atormentar e vai falar com ele, Roland diz a ela. Você não enfrentou Blaine, o taheen do Céu Azul e a coisa sob o Castelo Discórdia só para por o rabo en-tre as pernas e correr agora, certo? Certamente você tem muito mais fibra que isso.

Mas ela só tem certeza do que realmente faz quando vê sua mão subir para o acelerador. Antes que tenha tempo de torcê-lo, no entanto, a voz do pistoleiro torna a lhe falar, desta vez num tom ligeiramente divertido.

Será que primeiro você não quer se livrar de alguma coisa, Susannah?

Ela abaixa os olhos e vê a arma de Roland enfiada no cinto, como pis-tola de bandido mexicano ou sabre de pirata. Susannah puxa a arma, espan-tada ao sentir como é bom segura-la... como parece brutalmente à vontade em sua mão. Separar-se daquilo, ela pensa, será como se separar de um amante. E não tem de se separar, ou tem? Do que ela gosta mais?, essa e a questão. Do homem ou da arma? Todas as escolhas brotarão desta pergun-ta.

Obedecendo a um impulso, ela rola o tambor e vê que as balas pare-cem velhas, as cápsulas não tem brilho.

Essas jamais vão disparar, ela pensa... e, sem saber por que, ou sem sa-ber com exatidão o que aquilo significa, conclui: Essas estão úmidas.

Da uma olhada no cano e fica incomodamente triste — mas não sur-presa — ao descobrir que nenhuma luz passa pelo cano. Esta entupido. A julgar pela aparência, parece que esta assim há décadas. Aquela arma jamais voltará a disparar e, portanto, não há opção a ser feita. Aquela arma está acabada.

Ainda segurando com uma das mãos o revólver com cabo de sândalo, Susannah usa a outra mão para girar o acelerador. O carrinho elétrico — aquele que ela chamou de Ho Fat III, embora esse nome também já esteja desbotando em sua mente — rola sem ruído para a frente e passa por um latão de lixo pintado de verde com JOGUE O LIXO NO LUGAR CERTO! escrito do lado. Ela atira o revólver de Roland naquela lata de lixo. Fazer isso lhe da um aperto no coração, mas ela não hesita. O revólver é pesado e mergulha entre embalagens amassadas de fast-food, panfletos com anún-cios e jornais. Mergulha como pedra na água. O muito que Susannah ainda tem de pistoleiro a faz lamentar amargamente ter de jogar no lixo uma ar-ma tão cheia de história (mesmo que a última viagem entre os mundos a tenha estragado). Já tomou, no entanto, consciência da mulher que está à sua espera para não vacilar nem olhar para trás. A coisa está feita.

Antes que possa alcançar o homem com o copo de papel, ele se vira. Na verdade esta usando um moletom que diz EU BEBO NOZZ-A-LA!, mas ela mal registra o detalhe. Ele: ele é o que ela registra. É Edward Can-tor Dean. E então mesmo isso se torna secundário, porque o que Susannah vê nos olhos dele é tudo que temia. Uma total confusão. Ele não a conhe-ce.

Então, de modo hesitante, ele sorri e aquele é o sorriso que Susannah lembra, o sorriso que sempre amou. E Eddie não tem drogas na cabeça, ela percebe de imediato. Esta claro em seu rosto. Principalmente nos olhos. Os cantores do Harlem cantam e Eddie estende o copo de chocolate quen-te.

— Graças a Deus — diz ele. — Já estava quase achando que eu mesmo e que teria de beber isto. Que as vozes estavam erradas e eu estava mesmo ficando louco. Que... bem... — Deixa a frase morrer, parecendo mais do que meramente confuso. Parece estar com medo. — Escute, você está aqui por minha causa, não é? Por favor me diga que não estou virando um completo imbecil. Porque, minha senhora, estou me sentindo nervoso como um gato de rabo comprido numa sala cheia de cadeiras de balanço.

— Não está — diz ela. — Quero dizer, não está virando um comple-to imbecil. — Susannah lembra a história de Jake sobre vozes discutindo em sua mente, uma gritando que ele estava morto, a outra que estava vivo. Ambas totalmente convincentes. Susannah faz pelo menos idéia de como aquilo devia ser terrível, porque ela conhece um pouco sobre outras vozes. Vozes estranhas.

— Graças a Deus — ele diz. — Seu nome é Susannah?

— É — diz ela. — Meu nome é Susannah.

Sua garganta esta terrivelmente seca, mas as palavras pelo menos sa-em. Ela pega o copo da mão dele e sorve o chocolate quente pelo chantilly. É doce e bom, um gosto daquele mundo. O barulho dos táxis buzinando, os motoristas correndo para ganhar o dia antes que a neve os faça parar, tudo isso é igualmente bom. Com um sorriso largo, Eddie estende a mão e limpa uma pequena pincelada de chantilly na ponta do nariz de Susannah. O toque é elétrico e Susannah percebe que ele sente a mesma coisa. Passa pela cabeça dela que Eddie vai de novo beijá-la pela primeira vez e de novo dormir com ela pela primeira vez e ficar apaixonado de novo por ela pela primeira vez. Talvez Eddie já saiba dessas coisas porque vozes lhe conta-ram, mas ela já as conhece por um motivo muito melhor: essas coisas sim-plesmente já aconteceram. O ka é uma roda, Roland dizia, e agora ela sabe que é verdade. Suas lembranças do

(Mundo Médio)

onde e quando do pistoleiro estão ficando nebulosas, mas ela acha que vai se lembrar o suficiente para perceber que tudo aquilo já aconteceu antes e existe algo incrivelmente triste nisso.

Mas ao mesmo tempo é bom.

É um tremendo milagre, isso é que é.

— Está com frio? — ele pergunta.

— Não, estou bem. Por quê?

— Você estremeceu.

— Foi a doçura do chantilly. — Então, olhando para Eddie, põe a língua de fora e lambe um pouco da espuma salpicada de noz-moscada.

— Se nao esta sentindo frio agora, vai sentir — diz ele. — A WRKO diz que a temperatura vai cair quase sete graus esta noite. Por isso eu lhe trouxe uma coisa. — Tira do bolso de trás um chapéu de tricô, do tipo que pode ser puxado para tampar as orelhas. Na frente do chapéu ela vê as pa-lavras impressas em letras vermelhas: FELIZ NATAL.

— Comprei no Brendio’s, na Quinta Avenida — diz ele.

Susannah nunca ouviu falar do Brendio’s. Brentano’s, talvez (a livraria), mas não Brendio’s. É claro, no entanto, que na America onde Susannah cresceu, ninguém jamais ouviu falar de Nozz-A-La nem de automóveis Takuro Spirit.

— Suas vozes mandaram que comprasse? — Agora ela caçoava um pouco.

— Bem — ele fica vermelho —, na realidade foi mais ou menos isso. Experimente.

Serve perfeitamente.

— Me diga uma coisa — diz ela. — Quem é o presidente? Não vai me dizer que é o Ronald Reagan, certo?

Por um momento ele a contempla com ar incrédulo, depois sorri.

— Quê? Aquele velho ator que apresentava no Death Valley Days na TV? Está brincando, certo?

— Negativo. Eu sempre achei que você é quem estava brincando sobre Ronnie Reagan, Eddie.

— Não entendo o que está querendo dizer.

— Tudo bem, só me diga quem é o presidente.

— Gary Hart — diz ele, como se falasse a uma criança. — Do Colo-rado. Ele quase deixou de concorrer em 1980∗... como tenho certeza que você sabe... por causa daquela história do ∗∗ Monkey Business. Mas acabou dizendo: “Fodam-se se não podem entender uma piada”, e continuou no páreo. Acabou tendo uma vitória esmagadora. O sorriso se abranda um pouco quando ele a examina.

— Não está brincando comigo, está? — perguntou.

— Ou é você que está brincando comigo a respeito das vozes? As que ouve na cabeça. As que o acordam às duas da manhã.

Eddie pareceu quase chocado.

— Como pode saber disso?

— É uma longa história. Talvez um dia eu lhe conte. — Se eu ainda conseguir me lembrar, ela pensa.

— Não são apenas as vozes.

— Não?

— Não. Tenho sonhado com você. Há meses. Tenho esperado por você. Escute, não nos conhecemos... isto é loucura... mas você tem onde ficar? Não tem, não é?

Ela balança a cabeça numa negativa. E numa imitação passável de John Wayne (ou talvez a imitação seja de Blaine, o trem), ela diz:

— Sou uma estranha aqui em Dodge, peregrino.

O coração de Susannah está batendo devagar, mas pesadamente no peito; ela sente uma alegria crescente. Tudo vai ficar bem. Não sabe como, mas sabe que sim, tudo vai ficar muito bem. Desta vez o ka esta trabalhan-do seu favor e a força do ka é enorme. Sabe disto por experiência própria.

— Se eu perguntasse como eu conheço você... ou de onde vem... —

* De fato, o caso foi em 1987. (N. da E.)

** Nome do iate onde Hart teria passado a noite com uma mulher que não era sua esposa. (N. da E.)

Eddie faz uma pausa, olha francamente para ela e diz o resto. — Ou como é possível que eu já a esteja amando...?

Ela sorri. Parece bom sorrir e não faz mais doer o lado do rosto por-que o que esteve ali (algum tipo de cicatriz, talvez... ela não consegue se lembrar muito bem) já não está mais.

— Docinho — diz a ele —, foi o que eu falei: é uma longa história. Com o tempo, vai saber uma parte dela... a parte de que eu puder me lem-brar. E pode ser que ainda tenhamos algum trabalho a fazer. Por uma em-presa chamada Tet Corporation. — Olha ao redor e pergunta: — Em que ano estamos?

— Em 1987 — ele diz.

— E você mora no Brooklyn? Ou quem sabe no Bronx?

O jovem, cujos sonhos e vozes em altercação o levaram até ali — com um copo de chocolate quente na mão e um chapéu com os dizeres FELIZ NATAL no bolso de trás —, explode numa risada.

— Deus, não! Sou de White Plains! Vim de trem com meu irmão. Ele está logo ali. Quis ver mais de perto os ursos polares.

O irmão. Henry. O grande sábio e viciado eminente. O coração dela se aperta.

— Quero apresentar você — diz ele.

— Não, realmente, eu...

— Ei, se vamos ser amigos, tem de ser amiga também do meu irmão caçula. Somos grudados. Jake! Ei, Jake!

Ela nao havia reparado no garoto parado junto ao parapeito que isola a instalação rebaixada dos ursos polares do resto do parque, mas agora ele se vira, e o coração de Susannah dá um grande e vertiginoso salto. Jake a-cena e marcha para eles.

— Jake também anda sonhando com você — diz Eddie. — É só por isso que sei que não estou ficando louco. Pelo menos não mais louco do que já sou.

Ela pega a mão de Eddie — a mão familiar, tão amada. E quando os dedos de Eddie se fecham sobre os dela, Susannah acha que vai morrer de alegria. Terá muitas perguntas — e eles também —, mas por enquanto só uma parece importante. Quando a neve começa a cair mais densamente, pousando em seu cabelo, em suas pestanas e nos ombros do moletom, ela a faz.

— Você e Jake, qual o sobrenome de vocês?

— Toren — diz Eddie. — É alemão.

Antes que qualquer um dos dois possa dizer mais alguma coisa, Jake se junta à dupla. E vou dizer que os três viveram felizes para sempre? Não vou, pois isso não acontece com ninguém. Mas houve felicidade.

E eles de fato viveram.

Sob o fluir, às vezes percebido de relance, do encanto do Feixe que conecta Shardik, o Urso, com Maturin, a Tartaruga, por meio da Torre Negra, eles de fato viveram.

É tudo.

E é o bastante.

Digam obrigado.