A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 35 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Parte Três · Nesta Névoa de Verde e Dourado

 

 

VES’-KA GAN

CAPÍTULO I

 

A SRA. TASSENBAUM DIRIGE PARA O SUL

 

UM

O fato de sua quase absurda velocidade de reflexo jamais ocorreu a Jake Chambers. Só sabia que, quando ele cambaleou para fora do Devar-Toi, voltando à América, sua camisa — projetando-se numa curva de gravidez pelo contorno de Oi — estava saindo da calça jeans. O trapalhão, que nunca tinha muita sorte quando se tratava de passar entre os mundos (da última vez fora quase esmagado por um táxi), se soltou. Talvez qualquer outra pessoa no mundo tivesse sido incapaz de evitar que o animal caísse (o que, aliás, muito provavelmente não teria de modo algum machucado Oi), mas Jake não era qualquer outra pessoa. Ka o queria com tal intensi-dade que contornara a própria morte para colocá-lo ao lado de Roland. Agora suas mãos saltaram com uma velocidade tão grande que, por um momento, não foram mais que um borrão vazio. Quando reapareceram, uma delas se enroscava atrás do pescoço peludo de Oi e a outra num pêlo mais curto, na traseira do lombo comprido. Jake pousou o amigo na calça-da. Oi olhou-o lá de baixo e deu um curto latido que parecia expressar não uma idéia única, mas duas: obrigado e não faça isso de novo.

— Vamos — disse Roland. — Temos de correr.

Jake seguiu-o em direção ao mercado, Oi se encaixando na posição habitual junto ao calcanhar esquerdo do garoto. Na porta havia uma tabu-leta pendurada numa pequena ventosa de borracha. A tabuleta dizia: ES-TAMOS ABERTOS, VENHA NOS VISITAR, exatamente como em 1977. Afixado na vitrine à esquerda da porta havia isto:

VENHAM TODOS

À

CEIA-FEIJOADA À MODA DE BOSTON DA

PRIMEIRA IGREJA CONGREGACIONAL

sábado 19 de junho de 1999 no

cruzamento da rota 7 com a estrada Klatt

CASA PAROQUIAL (Fundos)

17-19:30 horas

NA PRIMEIRA CONGO

“ESTAMOS SEMPRE FELIZES EM VÊ-LO, VIZINHO”

Jake pensou: A ceia-feijoada vai começar mais ou menos daqui a uma hora. Já devem estar esticando as toalhas nas mesas e colocando os talheres e pratos.

A mensagem ao público afixada à direita da porta era mais inquietan-te:

Primeiro Templo dos Aparecidos de Lovell-Stoneham

Por que VOCÊ não vem ao Culto?

Serviços dominicais: 10:00 horas

Serviços das quintas-feiras: 07:00 horas

NOITE JOVEM TODA A QUARTA-FEIRA!!! 19-21 horas!

Jogos! Música! Escritura!

∗∗∗ E ∗∗∗

NOTÍCIAS DOS APARECIDOS!

Ei, Rapaziada!

“QUEM NÃO FOR NÃO SABE O QUE PERDE!!!”

“Procuramos o Portal para o Céu — Não Quer Procurar Conosco?”

De repente Jake estava se lembrando de Harrigan, o pastor de rua na esquina da Segunda Avenida com a rua 46 e se perguntando para qual des-sas duas igrejas ele poderia se sentir atraído. Talvez a cabeça tivesse dito a Primeira Congo, mas o coração...

— Depressa, Jake — Roland repetiu e houve um tilintar quando o pistoleiro abriu a porta. Cheiros bons pairavam no ar, lembrando a Jake (como haviam lembrado a Eddie) o Took’s na rua Alta de Calla: café e ba-las de hortelã, tabaco e salame, azeite de oliva, o aroma forte da salmoura, do açúcar, dos temperos e de muita coisa boa.

Ele seguiu Roland para dentro do mercado, consciente de que, afinal, tinha trazido pelo menos duas coisas: a pistola automática Coyote estava enfiada no cinto da calça jeans e a saca de Orizas ainda pendia do ombro, do lado esquerdo (para que a meia dúzia de pratos restantes pudesse estar facilmente ao alcance da mão direita).

 

DOIS

Wendell “Chip” McAvoy estava no balcão de frios, pesando uma conside-rável porção de peru fatiado curado no mel para a sra. Tassenbaum. Até o sino da porta tilintar, virando mais uma vez a vida de Chip de cabeça para baixo (virou tartaruga, costumavam dizer os antigos quando o carro entrava capotando no acostamento), eles estavam falando sobre a crescente pre-sença de jet skis no lago Keywadin... ou melhor, a sra. Tassenbaum estava falando nisso.

Chip considerava a sra. T. uma veranista mais ou menos típica: rica como um Creso (ou pelo menos o marido era, com um daqueles novos negócios ponto com), tagarela como um papagaio bêbado de uísque e ma-luca como Howard Hughes depois de uma dose de morfina. Ela podia se dar ao luxo de um iate com cabine (e duas dúzias de jet skis para rebocá-lo, se fosse essa sua fantasia), mas vinha ao mercado naquela extremidade do lago num surrado e velho barco a remo, que ficava amarrado no mesmo lugar onde John Cullum costumava amarrar o seu, pelo menos até Aquele Dia (depois que os anos refinaram a história, proporcionando um grau de pureza ainda maior, dando o brilho de uma peça de mobília de teca fre-qüentemente polida, Chip passara a transmitir cada vez mais um status de letra maiúscula com sua voz, falando d’Aquele Dia com os mesmos tons reverentes que o reverendo Conveigh usava quando se referia a Nosso Se-nhor). La Tassenbaum era falante, intrometida, bonitona (mais ou menos... ele supôs... se você não se importava com a maquiagem e o laquê no cabe-lo), cheia das verdinhas e republicana. Naquelas circunstâncias, Chip McA-voy achara perfeitamente justificado introduzir o polegar na ponta da ba-lança... um truque que aprendera do pai, que o instruíra do quase-dever de trapacear pessoas de fora se eles podiam pagar mais, mas de nunca trapa-cear gente de sua terra natal, nem mesmo se fossem ricos como aquele es-critor, King, de Lovell. Por quê? Porque a notícia de qualquer trapaça cor-ria e daí, a freguesia dos veranistas seria a única fonte de renda, e tente de-pender disto no mês de fevereiro, quando os bancos de neve nas margens da rota 7 chegavam a 3 metros de altura. Não era fevereiro, mas sem dúvi-da a sra. Tassenbaum — uma Filha de Abraão, ele tinha certeza — não era daqueles lados. Não, a sra. Tassenbaum e seu marido ponto com, rico co-mo um Creso, voltariam à Nova York judia assim que vissem a primeira folha colorida cair. Era por isso que Chip se sentia perfeitamente à vontade em transformar, graças à ponta do polegar na balança, seis dólares de peru em sete dólares e oitenta cents. Nem lhe custava concordar com a sra. Tas-senbaum quando mudou de assunto e começou a dizer como Bill Clinton era um homem terrível, embora Chip tivesse votado duas vezes em Bubba e fosse capaz de votar nele uma terceira vez se a constituição permitisse que Clinton concorresse a outro mandato. Bubba era esperto, capaz de persuadir os cabeça-de-toalha a fazer o que ele queria. Além disso não ti-nha se esquecido inteiramente do trabalhador e, por Lorde Harry, conseguia mais bucetas que um assento de vaso sanitário.

— E agora Gore espera simplesmente... pegar uma carona! — disse a sra. Tassenbaum revirando a bolsa atrás do talão de cheques (o peru na balança ganhou magicamente outros 50 gramas, mas Chip achou prudente ficar por aí). — Diz ele que inventou a internet! Hum! Não foi bem assim! Na realidade, conheço o homem que realmente inventou a internet! — Ela ergueu os olhos e concedeu a Chip um sorrisinho travesso (agora o polegar de Chip estava bem longe dos pratos da balança; ele tinha um instinto para perceber quando a coisa deixava de ser segura, o diabo que não tinha). A freguesa baixou a voz para um confidencial isto-fica-entre-nós. — Não é de admirar, venho dormindo na mesma cama que ele há quase vinte anos!

Chip deu uma risada sincera, tirou o peru fatiado da balança e colo-cou-o numa folha de papel branco. Ficou satisfeito em deixar para trás o tema dos jet skis, até porque estava comprando um na Viking Motors (“Brinquedo para o Garoto”) de Oxford.

— Sei o que quer dizer! Esse tal de Gore é muito matreiro! — A sra. Tassenbaum estava abanando entusiasticamente a cabeça e Chip decidiu investir um pouco mais. Mal não ia fazer, por Cristo. — O cabelo dele, por exemplo... como se pode confiar num homem que põe todo aquele gel no...

Foi nesse momento que o sino tilintou sobre a porta. Chip ergueu os olhos. Viu. E ficou imóvel. Uma verdadeira torrente de água havia passado sob a ponte desde Aquele Dia, mas Wendell “Chip” McAvoy reconheceu o homem que havia causado toda a confusão no momento em que ele pas-sou pela porta. A pessoa simplesmente nunca se esquece de certos rostos. E afinal ele não sabia, nas profundezas mais secretas do coração, que o homem com os terríveis olhos azuis ainda não havia terminado seu traba-lho e ia voltar?

Para procurá-lo?

Essa idéia rompeu sua paralisia. Chip se virou e correu. Não deu mais que três passos pelo lado de dentro do balcão quando um tiro espocou no mercado, alto como trovão — o lugar estava maior e mais chique que em 1977, graças a Deus e à insistência do pai de Chip numa extravagante apó-lice de seguro. A sra. Tassenbaum deu um grito estridente. Três ou quatro pessoas que caminhavam pelos corredores se viraram com expressões de assombro e uma delas perdeu os sentidos, caindo no chão. Chip teve tem-po de registrar que era Rhoda Beemer, filha mais velha de uma das duas mulheres que tinham sido mortas ali n’Aquele Dia. De repente ele teve im-pressão de que o tempo se voltara sobre si mesmo e que era a própria Ruth desmaiando com uma lata de creme de milho escorregando na mão agora relaxada. Ouviu uma bala passar zumbindo rente à sua cabeça, como abe-lha furiosa, e parou de imediato, mãos no alto.

— Não atire, senhor! — ele se ouviu berrar com a voz fina, trêmula de um homem velho. — Tire o que quiser da caixa, mas não me mate!

— Vire — disse a voz do homem que fizera o mundo de Chip virar tartaruga n’Aquele Dia, o homem que quase acabara com ele (passara duas semanas no hospital de Bridgton, pelo amor de Jesus!) e que tinha agora reaparecido como um velho monstro saindo do armário de alguma criança. — Os outros no chão, mas você, que é o dono da coisa, se vira. Se vira e me olha.

“Me olha com atenção.”

 

TRÊS

O homem oscilou de um lado para o outro e, por um momento, Roland achou que ele fosse desmaiar em vez de se virar. Talvez alguma parte do cérebro dele, orientada para a sobrevivência, sugerisse que desmaiar era um modo mais provável de fazê-lo morrer, pois o dono do mercado conseguiu se manter de pé e acabar se virando para encarar o pistoleiro. A roupa de Chip era estranhamente similar à que usava da última vez que Roland esti-vera lá; podia ser a mesma gravata preta e o mesmo avental de açougueiro, amarrado bem acima do diafragma. O cabelo continuava penteado para trás no crânio, só que agora era todo branco em vez de grisalho-prateado. Roland recordou o modo como o sangue tinha corrido para trás do lado esquerdo da têmpora do dono do mercado quando uma bala — pelo que o pistoleiro sabia, uma bala atirada pelo próprio Andolini — o raspara. Ago-ra havia ali um nó cinza de tecido cicatrizado. Roland achou que o homem penteava o cabelo de um modo que em vez de esconder essa marca a tor-nava visível. Ou ele tivera uma sorte absurda naquele dia ou fora salvo por ka. Roland achava mais provável que tivesse sido o ka.

A julgar pelo aflito ar de reconhecimento nos olhos do dono do mer-cado, ele também pensava assim.

— Você tem um cartomóbile, um trucamóbile ou um tack-see (téc-si)? — Roland perguntou, mantendo o cano do revólver contra a cintura do dono do mercado.

Jake deu um passo à frente, emparelhando com Roland.

— Que coisa você dirige? — ele perguntou ao dono do mercado. — É o que ele quer saber.

— Caminhão! — o homem conseguiu dizer. — International Harves-ter! Está aí fora no estacionamento! — Pôs a mão sob o avental tão subi-tamente que Roland ficou a um triz de baleá-lo. O homem (graças a Deus para ele) não pareceu reparar. Todos os fregueses do mercado estavam a-gora deitados de bruços no chão, incluindo a mulher que estivera no bal-cão. Roland podia sentir o cheiro da carne que ela estava em vias de com-prar e seu estômago roncou. Estava cansado, faminto, arrasado pela dor e tinha coisas demais em que pensar, um número absurdo delas. Sua mente parecia no limite. Jake teria dito que ele precisava “dar uma desligada”, mas ele não via qualquer possibilidade de desligadas no futuro imediato deles.

O dono do mercado estava oferecendo um molho de chaves. Seus dedos tremiam e as chaves tilintavam. O sol do final de tarde entrando de lado pelas vitrines caiu sobre elas, fazendo ricochetear complicados refle-xos para os olhos do pistoleiro. Primeiro o homem de avental branco tinha tirado uma das mãos de vista sem pedir permissão (e nada devagar); agora aquilo, segurando um molho de objetos metálicos cheios de reflexos, como se quisesse cegar o adversário. Era como se estivesse tentando ser morto. Mas também fora desse jeito no dia da emboscada, não é? O dono do mer-cado (na época de pés mais velozes e sem aquela corcunda de velho nas costas) havia seguido a ele e a Eddie, passando de um ponto a outro como um gato que não pára de seguir os pés do dono, aparentemente indiferente às balas que voavam ao seu redor (assim como parecera indiferente à que raspara pelo lado de sua cabeça). Nessa altura, Roland recordara, ele havia falado sobre o filho, quase como um homem conversando num salão de barbeiro enquanto espera a vez de se sentar sob as tesouras. Um ka-mai, em suma, e gente assim estava com freqüência protegida contra qualquer mal. Pelo menos até que o ka se cansasse de suas palhaçadas e resolvesse tirá-los da face da Terra com um tapa.

— Pegue o caminhão, pegue e vá embora! — estava dizendo o dono do mercado. — É seu! Estou dando para você! É verdade!

— Se não parar de jogar o maldito reflexo dessas chaves nos meus olhos, sai, o que vou pegar é seu último sopro de vida — disse Roland. Havia outro relógio atrás do balcão. Ele já havia reparado como aquele mundo era cheio de relógios, como se as pessoas que morassem ali achas-sem que tendo muitos poderiam engaiolar o tempo. Dez para as quatro, o que significava que já estavam há nove minutos do lado-América. O tempo estava correndo, correndo. Em algum lugar por perto, Stephen King estava quase certamente em seu passeio vespertino, sob extremo perigo, embora não soubesse disso. Ou será que já acontecera? Eles — pelo menos, Ro-land — tinham sempre presumido que a morte do escritor iria atingi-los em cheio, como outro feixemoto, mas talvez não. Talvez o impacto da morte dele fosse mais gradual.

— Estamos muito longe da Via do Casco da Tartaruga? — Roland perguntou asperamente ao dono do mercado.

O idoso sai se limitava a encará-lo, olhos arregalados e vidrados de terror. Nunca em sua vida Roland tivera tanta vontade de atirar num ho-mem... ou pelo menos dar-lhe um golpe com a coronha do revólver. O sujeito parecia estúpido como um bode com a pata presa numa fenda de rocha.

Então a mulher deitada na frente do balcão de frios falou. Estava de cabeça erguida para Roland e Jake, as mãos entrelaçadas atrás das costas.

— Fica em Lovell, senhor. A uns oito quilômetros daqui.

Um olhar nos olhos dela (grandes e castanhos, com temor mas não em pânico) e Roland concluiu que a mulher, não o dono do mercado, era a pessoa de quem precisava. A menos, é claro, que...

Ele se virou para Jake.

—É capaz de dirigir o caminhão por oito quilômetros?

Roland viu o garoto querendo dizer que sim, mas logo percebendo que não podia arriscar o fracasso tentando fazer uma coisa que, menino de cidade, nunca tinha feito na vida.

— Não — disse Jake. — Acho que não. E você?

Roland vira Eddie dirigindo o carro de John Cullum. A coisa não pa-recia assim tão difícil... mas havia seu quadril a considerar. Rosa tinha lhe dito que uma torção no quadril piorava rápido — como um incêndio toca-do por ventos fortes, Rosa dissera — e agora ele sabia o que Rosa preten-dera dizer. No caminho para Calla Bryn Sturgis, a dor no quadril não fora mais que uma eventual pontada. Agora era como se a junta tivesse sido injetada com chumbo incandescente e daí envolvida por fileiras de arame farpado. A dor se irradiava, descia por toda a perna até o tornozelo direito. Ele observara como Eddie manipulava os pedais, alternando entre aquele que fazia o carro avançar e aquele que o fazia diminuir a marcha, sempre usando o pé direito. O que significava que as articulações do quadril direito estariam sempre rolando na junta.

Não achava que fosse capaz de fazer aquilo. Não com algum grau de segurança.

— Acho que não — disse ele. Tirou as chaves do dono do mercado e olhou para a mulher deitada na frente do balcão. — Fique de pé, sai.

A sra. Tassenbaum fez o que lhe era mandado e quando ficou de pé Roland entregou-lhe as chaves. Continuo encontrando pessoas habilidosas aqui, ele pensou. Se esta se mostrar tão habilidosa quanto Cullum, tudo ainda pode ficar muito bem.

— Você vai levar a mim e ao meu jovem amigo a Lovell — disse Ro-land.

— A Via do Casco da Tartaruga —- disse ela.

— Você diz a verdade, eu digo obrigado.

— Você vai me matar depois de chegar aonde está querendo ir?

— Não, a não ser que você demore demais — disse Roland.

Ela pensou no assunto e abanou a cabeça.

— Então eu não faço isso. Vamos.

— Boa sorte, sra. Tassenbaum — o homem disse em voz baixa quando ela começou a avançar para a porta.

— Se eu não voltar — disse ela —, não se esqueça de uma coisa: foi meu marido quem inventou a internet... ele e seus amigos, em parte na CalTech e em parte em suas próprias garagens. Não Albert Gore!

O estômago de Roland tornou a roncar. Ele se estendeu pelo balcão (o dono do mercado se encolhendo como se Roland fosse portador da peste vermelha), viu o peru fatiado que a mulher ia levar e dobrou três fati-as na boca. Passou o resto a Jake, que comeu duas fatias e depois olhou para Oi, que erguia a cabeça para a carne com grande interesse.

— Vou dar sua parte quando entrarmos no caminhão — Jake prome-teu.

— Hão — disse Oi; depois, com muito mais ênfase: — Parte!

— Sagrado e solene Jesus! — disse o dono mercado.

 

QUATRO

O sotaque do norte do dono do mercado podia ser divertido, mas seu ca-minhão não era. Para começar, caixa de marcha manual. Irene Tassenbaum de Manhattan não dirigia um carro de câmbio manual desde seus tempos como Irene Cantora de Staten Island. Era também um modelo de alavanca e com esses ela não tivera nenhuma experiência.

Jake estava sentado a seu lado com os pés colocados em volta da dita alavanca e Oi (ainda mastigando o peru) em seu colo. Roland arriara no banco do carona, tentando não rosnar com a dor na perna. Irene esqueceu de colocar o veículo em ponto morto quando virou a chave. O I-H deu um pulo para a frente e morreu. Felizmente a picape estava rodando pelas es-tradas do Maine ocidental desde o meio dos anos 1960 e foi o pulo tran-qüilo de uma égua idosa em vez do coice alucinado de um potro; senão Chip McAvoy teria mais uma vez perdido pelo menos uma das vidraças de sua fachada. Oi se debateu no colo de Jake para manter o equilíbrio e, de-pois de borrifar uma boca cheia de peru, soltou uma palavra que aprendera de Eddie.

Irene se virou para o trapalhão com olhos arregalados, sobressaltados.

— Essa criatura disse mesmo porra, meu jovem?

— Deixa pra lá — Jake respondeu. Sua voz estava trêmula. Os pon-teiros do relógio Cabeça de Javali na vitrine marcavam agora cinco minutos para as quatro. Como Roland, o garoto nunca sentira o tempo como algo tão fora de controle. — Use o pedal da embreagem e nos tire daqui!

Felizmente, o esquema de câmbio fora gravado no alto da alavanca de marcha e ainda era meio visível. A sra. Tassenbaum pisou na embreagem com o tênis, arranhou a marcha fazendo um barulho infernal e finalmente conseguiu engatar a ré. A picape recuou para a rota 7 numa série de arran-cos, depois tornou a morrer no meio da linha branca divisória. Ela virou a ignição, percebendo, um pouco tarde demais para impedir outra série de saltos espasmódicos, que se esquecera de novo de pisar na embreagem. Roland e Jake estavam agora se apoiando nervosamente no empoeirado painel metálico, onde um adesivo desbotado proclamava AMÉRICA! AME-A OU DEIXE-A!, em vermelho, branco e azul. A série de solavan-cos acabou sendo uma boa coisa, pois nesse momento um caminhão car-regado de toras de madeira — Roland achou impossível não pensar naque-le que batera da última vez que tinham estado ali — surgiu na crista da su-bida ao norte do mercado. Se a picape não tivesse voltado aos solavancos para o estacionamento do mercado (amassando o pára-lama de um carro estacionado quando parou), teria sido atingida pelo meio. E muito prova-velmente estariam mortos. O caminhão de madeira deu uma guinada, bu-zina tocando, rodas traseiras levantando poeira.

A criatura no colo do garoto — que parecia à sra. Tassenbaum uma estranha mistura de cão e quati — tornou a latir.

Porra. Ela tinha quase certeza.

O dono do mercado e os fregueses estavam enfileirados do outro la-do do vidro e, de repente, ela percebeu como devia se sentir um peixe num aquário.

— Senhora, sabe ou não dirigir esta coisa? — o garoto gritou. Ele le-vava uma espécie de bolsa sobre o ombro. Ela achou parecida com as sa-colas daqueles meninos-jornaleiros, só que era de couro, não de lona. Apa-rentemente carregava pratos.

— Sei dirigir esta coisa, rapaz, não se preocupe. — Estava aterroriza-da e, no entanto, ao mesmo tempo... será que estava gostando daquilo? Ela quase achou que estava. Nos últimos 18 anos fora pouco mais que um or-namento do grande David Tassenbaum, uma personagem coadjuvante de sua vida cada vez mais famosa, a senhora que dizia “experimente um des-tes” enquanto oferecia uma bandeja de hors d’oeuvres nas festas. Agora, de repente, estava no centro de alguma coisa e desconfiava que fosse algo de fato muito importante.

— Respire fundo — disse o homem com o rosto áspero e queimado de sol. Os brilhantes olhos azuis se cravaram nos dela e quando o fizeram foi difícil pensar em qualquer outra coisa. Além disso, a sensação foi agra-dável. Se isto for hipnose, ela pensou, deviam ensiná-la nas escolas públicas. — Prenda o ar, depois solte. E nos leve, pelo bem de seu pai!

Ela inspirou profundamente de acordo com a instrução e de repente o dia pareceu mais claro — quase brilhante. E ela ouvia vozes cantando baixo. Vozes incríveis. Estaria o rádio do caminhão ligado, sintonizado em algum programa de ópera? Não dava tempo para verificar. Mas era bonito, fosse o que fosse. Tão tranqüilamente como respirar fundo.

A sra. Tassenbaum pisou na embreagem e ligou o motor de novo. Desta vez encontrou a marcha a ré na primeira tentativa e recuou quase suavemente para a estrada. Num primeiro esforço para avançar, engrenou a segunda em vez da primeira e o motor quase morreu quando ela soltou a embreagem, mas então o motor pareceu ficar com pena dela. Com um as-sobio de pistões soltos e uma acelerada pancada seca embaixo do capo, começou a rodar para a frente, na direção da divisa Stoneham-Lovell.

— Sabe onde fica a Via do Casco da Tartaruga? — Roland pergun-tou. Na frente deles, junto a uma placa dizendo ÁREA DE CAMPING MILHÃO DE DÓLARES, uma minivan azul e velha entrou de repente na estrada.

— Sim — disse ela.

— Tem certeza? — A última coisa que o pistoleiro queria era perder um tempo precioso catando a estrada vicinal onde King morava.

— Sim. Temos amigos que moram lá. Os Beckhardt.

Por um instante a mente de Roland apenas tateou, sabendo que ouvi-ra o nome mas sem saber onde. Então sacou. Beckhardt era o nome do dono do chalé onde ele e Eddie tiveram sua palestra final com John Cul-lum. Roland sentiu uma nova pontada de dor no coração lembrando-se de como Eddie estava naquela tarde trovejante, ainda tão forte e cheio de vi-da.

— Tudo bem — disse ele. — Acredito em você.

Tassenbaum o olhou acima do garoto sentado no meio.

— O senhor está com uma pressa infernal... como o coelho branco em Alice no País das Maravilhas. Que encontro tão importante o deixa com tanto medo de chegar atrasado?

Roland balançou a cabeça.

— Não importa, apenas dirija. — Olhou para o relógio no mostra-dor, mas ele não funcionava, tinha parado há muito tempo com os pontei-ros marcando (é claro) 9:19. — Talvez ainda não seja tarde demais.

À frente, ignorada, a van azul começou a se afastar. De repente cru-zou a linha divisória da rota 7 para a pista em sentido sul e a sra. Tassen-baum quase cometeu um bon mot — algum comentário sobre quem começa a beber antes das cinco —, mas então a van azul voltou à pista sentido nor-te e passou pela próxima subida, dirigindo-se para a cidade de Lovell.

A sra. Tassenbaum não ligou para aquilo. Tinha coisa mais importan-tes em que pensar. Por exemplo...

— Se não quiserem, vocês não têm de responder ao que vou pergun-tar — disse ela —, mas admito que estou curiosa: vocês são aparecidos, rapazes?

 

CINCO

Bryan Smith passou as últimas duas noites — juntamente com seus rottweilers, gêmeos idênticos de ninhada que ele batizou de Bala e Pistola — no Camping Milhão de Dó-lares, logo depois da divisa Lovell-Stoneham. Um lugar bonito, junto ao rio (os habitan-tes locais chamam de ponte Milhão de Dólares a precaria estrutura de madeira sobre a água, o que Bryan entende como piada e, por Deus, muito engraçada). Além disso, as pessoas — tipos hippie em geral vindos das áreas rurais de Sweden, Harrison e Water-ford — às vezes aparecem ali com drogas para vender. Bryan gosta de ficar doidão, gosta de ficar chapado, que bom conseguir isso, e ele está chapado naquela tarde de sábado... não muito, não do modo como gostaria de estar, mas o suficiente para bater uma larica. No Center Lovell Store tem aquelas barras Mars. Nada melhor que aquilo para a larica.

Ele sai do camping e pega a rota 7 sem se preocupar muito em olhar. E diz: “U-au, esqueci de novo!” Mas não há tráfego. Mais tarde — especialmente após o Quatro de Julho e até o Dia do Trabalho — haverá bastante tráfego, mesmo ali nos cantões, e ele provavelmente ficará mais perto de casa. Sabe que não é lá muito bom motorista; mais uma multa por excesso de velocidade ou uma batidinha e provavelmente vai ficar com a carteira de motorista suspensa por seis meses. De novo.

Nenhum problema desta vez, contudo; nada vindo a não ser uma ve-lha picape, e o cara está quase um quilômetro atrás.

“Venha comer minha poeira, caubói!”, ele diz com uma risadinha. Não sabe por que diz caubói quando as palavras em sua mente eram filho-da-puta, como em ve-nha comer minha poeira, filho-da-puta, mas a coisa soa bem. E parece certa. Ele vê que passou para a pista da contramão e corrige o curso. “De volta para a estrada!”, grita e acaba soltando outro risinho estridente. De volta para a estrada é uma boa e ele sempre a usa com as garotas. Outra boa é quando se joga o volante de um lado para o outro, fazendo o carro começar a guinar, e você diz: Ah, cara, exagerei no xarope pra tosse! Conhece um monte de tiradas como esta, um dia chegou a pensar em escrever um livro chamado As Mais Loucas Piadas de Estrada, seria mesmo um fenôme-no, Bryan Smith escrevendo um livro como o tal de King que mora em Lovell!

Liga o rádio (a van guinando para o acostamento da esquerda, junto à pista de contramão, levantando um rastilho de poeira, mas sem chegar a cair na vala) e pega Steely Dan cantando “Hey Nineteen”. Boa! Sim senhor, uma tremenda! Dirige um pouco mais rápido em resposta à música. Olha pelo retrovisor e vê seus cachorros, Bala e Pistola, a encará-lo por cima do banco traseiro, olhos brilhantes. Por um momento Br-yan acha que estão olhando para ele, talvez pensando que cara incrível ele é; depois se pergunta como pode ser tão burro. Há um isopor atrás do banco do motorista com meio quilo de carne moída fresca. Pretende cozinhá-la mais tarde numa fogueira, quando vol-tarem ao Milhão de Dólares. Sim, e com mais duas barras Mars de sobremessa, pelo velho Jesus cabeludo! Barras Mars são uma coisa tremenda!

— Ei, garotos, não mexam neste isopor! — diz Bryan Smith falando com os ca-chorros que pode ver no retrovisor. Desta vez a minivan dá um arranco em vez de uma guinada, cruzando a linha branca e escalando uma subida cega a 80 quilômetros por hora. Felizmente (ou infelizmente, dependendo do ponto de vista) não vem nada pelo outro lado; nada põe um paradeiro ao avanço de Bryan Smith para o norte.

— Não mexam nessa carne moída, é o meu jantar. — Ele diz jatá, como John Cullum diria, mas no retrovisor, a cara que olha para trás e vê os olhos brilhantes dos cachorros é a cara de Sheemie Ruiz. Quase exatamente a dele.

Sheemie poderia ser o gêmeo idêntico de ninhada de Bryan Smith.

 

SEIS

Irene Tassenbaum estava dirigindo o caminhão com mais segurança agora, modelo de marcha manual ou não. Já quase lamentava que tivesse de virar à direita 400 metros à frente, até porque com isso teria de usar novamente a embreagem, desta vez para reduzir. Mas era lá que ficava a Via do Casco da Tartaruga e era para lá que aqueles rapazes queriam ir.

Aparecidos! Foi o que disseram e ela acreditava nisso, mas quem mais acreditaria? Chip McAvoy talvez e certamente o reverendo Peterson da-quele maluco Templo dos Aparecidos lá em Stoneham Corners, mas quem mais? Seu marido, por exemplo? Negativo. Nunca. David Tassenbaum só aceitava como real o que estava gravado em microchip. Ela se perguntava — não pela primeira vez — se uma pessoa de 47 anos estaria velha demais para pensar em divórcio.

Reduziu para a segunda sem arranhar demais as marchas, mas logo, ao sair da rodovia, teve de engrenar a primeira quando a velha picape come-çou a engasgar e dar estouros no escapamento. Achou que um de seus pas-sageiros faria algum tipo de comentário espirituoso (talvez o cachorro mu-tante do garoto resolvesse dizer novamente porra), mas tudo que o homem no banco do carona disse foi:

— Isto aqui está meio diferente.

— Esteve aqui há muito tempo? — Irene Tassenbaum perguntou. Ela pensou em engrenar de novo a segunda, mas achou melhor deixar as coisas no ponto em que estavam. “Se não quebrou, não tente consertar”, David gostava de dizer.

— Já foi há algum tempo — o homem admitiu. Ela continuava ten-tando observá-lo pelo canto do olho. Havia alguma coisa estranha e exóti-ca nele... especialmente nos olhos. Era como se tivessem visto coisas com as quais ela jamais sonhara.

Pare com isso, disse a si mesma. Ele é provavelmente um caubói falso vindo de Portsmouth, em New Hampsbire.

Mas não acreditava muito nisso. O garoto também era esquisito — ele e seu exótico cachorro mestiço —, embora não pudesse se comparar ao homem de rosto gasto e estranhos olhos azuis.

— Eddie disse que a rua dá a volta — falou o garoto. — Talvez da úl-tima vez vocês tenham entrado pela outra ponta.

O homem refletiu um instante e assentiu.

— A outra ponta ficaria em Bridgton? — ele perguntou à mulher.

— Fica, sim.

O homem de estranhos olhos azuis abanou a cabeça.

— Vamos para a casa do escritor.

— Cara Ri — ela disse de imediato. — É uma bela casa. Já vi do lago, mas não sei qual seria a entrada...

— É o acesso 19 — disse o homem. Naquele momento estavam pas-sando pela entrada 27. A partir daquela ponta da Via do Casco da Tartaru-ga, os números começariam a diminuir.

— O que querem dele, se posso ter a coragem de perguntar?

Foi o garoto que respondeu.

— Queremos salvar sua vida.

 

SETE

Roland reconheceu de imediato a descida acentuada, embora da última vez que a vira o ar estivesse muito escuro, tempestuoso, e grande parte de sua atenção tivesse se concentrado no brilhante taheen voador. Agora não ha-via sinal de taheen nem de qualquer outra exótica forma de vida selvagem. A certa altura, durante os últimos anos, o telhado da casa fora forrado de cobre em vez das telhas tradicionais e a área de bosque ao fundo se trans-formara num gramado, mas a estradinha de acesso era a mesma, com uma placa dizendo CARA RI à esquerda e outra, à direita, exibindo o número 19 em grandes algarismos. Mais além ficava o lago, com cintilações azuis na tarde muito clara.

Do gramado veio o barulho de um pequeno motor trabalhando duro. Roland olhou para Jake e ficou desanimado pelo rosto pálido e os olhos arregalados, assustados.

— O que é? Qual é o problema?

— Ele não está aqui, Roland. Nem ele, nem ninguém da família. Só o homem cortando a grama.

— Absurdo, como pode... — começou a sra. Tassenbaum.

— Eu sei! — Jake gritou para ela. — Eu sei, senhora!

Roland estava olhando para Jake com um franco e horrorizado tipo de fascínio... mas em seu atual estado, o garoto não compreendeu o olhar ou nem o percebeu.

Por que está mentindo, Jake?, o pistoleiro pensou. E então, na esteira dis-so: Ele não está.

— E se já aconteceu? — Jake perguntou, e sim, estava preocupado com King, mas Roland achou que isso não era tudo que o estava preocu-pando. — E se ele já morreu e a família não está aqui porque a polícia os chamou e...

— Ainda não aconteceu — disse Roland, mas não tinha certeza de mais nada. O que você sabe, Jake, e por que não quer me contar?

Não havia tempo para se perguntar sobre isso agora.

 

OITO

O homem de olhos azuis falava com calma com o garoto, mas não parecia calmo a Irene Tassenbaum; de modo algum. E as vozes cantantes que ela ouviu pela primeira vez na frente do mercado de East Stoneham tinham se alterado. A melodia continuava doce, mas será que agora não havia tam-bém uma nota de desespero? Ela achava que sim. Um elevado tom de sú-plica que fazia suas têmporas latejarem.

— Como pode saber disso? — o garoto chamado Jake gritou para o homem... seu pai, ela presumia. — Como pode ter toda a porra dessa cer-teza?

Em vez de responder à pergunta do garoto, o sujeito chamado Ro-land olhou para ela. A sra. Tassenbaum sentiu um arrepio irrompendo na pele dos braços e das costas.

— Dirija, sai, por favor faça isso.

Ela olhou em dúvida para o acentuado aclive da estradinha de acesso a Cara Ri.

— Se eu fizer isso, talvez não consiga subir novamente com esta ca-çamba de parafusos soltos.

— Vai ter de subir — disse Roland.

 

NOVE

Roland supôs que o homem cortando a grama fosse um lacaio de King ou seja lá o que for que passasse por isto naquele mundo. Tinha cabelo branco sob o chapéu de palha, mas estava em boa forma, o porte reto, como quem ia passando os anos sem grande esforço. Quando a picape começou a des-cer o íngreme acesso para a casa, o homem fez uma pausa com o braço apoiado no cabo do cortador de grama. Quando a porta do carona se abriu e o pistoleiro saltou, ele usou um botão para desligar a máquina. Também tirou o chapéu — sem estar exatamente consciente do que estava fazendo, Roland pensou. Então seus olhos registraram a arma que pendia do quadril de Roland e se arregalaram até fazerem desaparecer os pés de galinha que tinham em volta.

— Como vai, senhor — ele disse cauteloso. Está pensando que sou um aparecido, Roland pensou. Como ela.

E de certa forma eram aparecidos, ele e Jake; afinal por acaso chega-ram a um tempo e lugar onde tais coisas eram comuns. E onde o tempo estava disparando. Roland falou antes que o homem pudesse continuar.

— Onde eles estão? Onde está ele? Stephen King? Fale, homem, e me diga a verdade!

O chapéu escorregou dos dedos em repouso do velho e caiu ao lado de seus pés na grama recentemente aparada. Os olhos nublados encararam os de Roland, fascinados: o passarinho olhando a cobra.

— A família tá na outra margem do lago, na casa que eles têm d’outro lado — disse. — A que era dos Schindler. Tá havendo uma espécie de fes-ta, tá. O Steve disse que ia pra lá de carro, dispois da caminhada. — E ele indicou a ponta de um pequeno carro preto estacionado ao lado do acesso, aparecendo na quina da casa.

— Onde ele está andando? Diga a esta senhora o que sabe!

O velho olhou brevemente por cima do ombro de Roland, depois voltou a encarar o pistoleiro.

— Seria mais fácil eu mesmo levar vocês lá.

Roland pensou no assunto, mas brevemente. Mais fácil para começar, sim. Talvez mais complicado mais adiante, depois que King fosse salvo ou perdido de vez. Porque a mulher tinha sido encontrada no caminho do ka. Por menor que pudesse ser o seu papel na coisa, fora encontrada antes dele no Caminho do Feixe. No fundo tudo era simples assim. Quanto ao tama-nho do papel que ia desempenhar, era melhor não tentar avaliar essas coi-sas antes da hora. Não tinham ele e Eddie acreditado que John Cullum, com quem esbarraram naquele mesmo mercado de beira de estrada cerca de três rodas ao norte, teria apenas um papel muito secundário na história? Mas Cullum acabou se mostrando muito mais importante na coisa.

Tudo isto cruzou em menos de um segundo a consciência de Roland, informações (sacados, Eddie teria dito) entregues numa espécie de brilhante taquigrafia mental.

— Não — disse ele, sacudindo um polegar pelo ombro. — Diga a e-la. Agora.

 

DEZ

O garoto — Jake — tinha caído para trás contra as costas do banco com as mãos estendidas ao lado do corpo. O curioso cachorro olhava ansioso para o rosto do garoto, mas o garoto não o via. Seus olhos estavam fecha-dos e Irene Tassenbaum chegou a pensar que ele tivesse desmaiado.

— Filho?... Jake?

— Eu o tenho — disse o garoto sem abrir os olhos. — Não Stephen King... não consigo tocá-lo... mas o outro. Preciso retardá-lo. Como posso retardá-lo?

A sra. Tassenbaum ouvira bastante o marido trabalhando (mantendo longos diálogos murmurados consigo mesmo) para reconhecer uma auto-indagação quando ouvisse uma. Além disso, não fazia idéia de quem o ra-paz estava falando, mas sabia que não era de Stephen King. O que deixava, em termos globais, uns seis bilhões de outras possibilidades.

Não obstante, ela respondeu sim, porque sabia o que sempre podia re-tardar a ela.

— Pena que ele não precise ir ao banheiro — disse.

 

ONZE

Os morangos ainda não saíram no Maine, a estação ainda está muito no início, mas há framboesas. Justine Anderson (de Baybrook, Nova York) e elvira Toothaker (sua ami-ga de Lovell) estão caminhando pelo acostamento da rota 7 (que Elvira ainda chama de “Velha Estrada de Fryeburg”). Com seus baldes de plástico, vão colhendo os frutos dos arbustos que se estendem por cerca de um quilômetro ao lado de um velho murinho de pedra. Garrett McKeen construíra aquele muro cem anos atrás e é com o bisneto de Garrett que Roland Deschain de Gilead está falando naquele exato momento. Ka é uma roda, você não sabe?

As duas mulheres têm desfrutado sua hora de caminhada, não porque alguma de-las morra de amores por framboesas (Justine reconhece que nem vai comê-las; as sementes ficam presas nos dentes) mas porque isso lhes dera uma oportunidade de conversar sobre as respectivas famílias e rir um pouco dos anos em que a amizade das duas era recente e era, provavelmente, a coisa mais importante em suas vidas. Tinham se encontrado no Vassar College (há mil anos, parece) e, no penúltimo ano, carregaram a guirlanda de margaridas no dia da formatura. É sobre isso que estão falando quando a minivan azul (uma Dodge Caravan 1985, Justine reconhece a marca e o modelo porque o filho mais velho teve uma exatamente igual quando sua tribo começou a aumentar) aparece na cur-va perto de Melder’s German Restauram e Brathaus. Anda por toda a estrada, costu-rando de um lado para o outro, primeiro fazendo a poeira borrifar do acostamento da esquerda, depois investindo vertiginosamente pelo asfalto e borrifando mais poeira, agora do acostamento da direita. Da segunda vez que faz isto — agora rolando na direção delas e numa velocidade consideravelmente diabólica —, Justine pensa que a van pode realmente acabar no valão e capotar (“virar tartaruga”, costumavam dizer nos anos 1940, quando ela e Elvira estavam no Vassar), mas o motorista puxa a traseira do carro para a estrada pouco antes que isso possa acontecer.

— Cuidado, essa pessoa está bêbada ou drogada! — diz Justine, alarmada. Pu-xa Elvira para trás, mas vêem o caminho bloqueado pelo velho muro com sua fileira de pés de framboesa. Os espinhos se agarram em suas calças (graças a deus nenhuma de nós estava de bermuda, Justine pensará mais tarde... quando tiver tempo para pensar) e arrancam pequenas pontinhas de tecido.

Justine está pensando se não devia pôr um braço em volta do ombro da amiga jo-gando ambas para o outro lado daquele muro da altura das coxas — dar uma camba-lhota para trás, como na aula de educação física tantos anos atrás. Antes que tenha tempo de se decidir a fazê-lo, a van azul está junto delas, e no momento que as ultrapas-sa, está mais ou menos na pista, sem oferecer perigo.

Justine vê a van passar com um ruído abafado de rock. Ela sente o coração marte-lando com força no peito e o gosto metálico de alguma coisa que o corpo despejou — a-drenalina seria a hipótese mais plausível — diretamente na língua. Na metade da subi-da, a pequena van azul guina mais uma vez sobre a faixa central. O motorista corrige o desvio... ou melhor, substitui a guinada por outra. Novamente, porém, a van azul aca-ba voltando para o acostamento da direita, borrifando por mais 50 metros uma poeira amarelada.

— Deus, espero que Stephen King veja este babaca — diz Elvira. Cruzaram com o escritor um quilômetro mais ou menos atrás e o saudaram. Provavelmente todos na cidade já o viram alguma vez em seu passeio vespertino.

Como se o motorista da van azul tivesse ouvido Elvira Toothaker chamá-lo de babaca, as luzes do freio da van se acendem. O veículo vai guinando de repente pelo acos-tamento e pára. Quando a porta se abre, as duas senhoras ouvem um estrondo mais alto de rock. Ouvem também o motorista — um homem —gritando com alguém (Elvira e Justine sentem pena de quem estiver condenado a viajar com tal sujeito numa tarde tão bonita de junho).

— Deixem isso em paz! — ele grita. — Não é de vocês, estão ouvindo? — E então o motorista estende a mão para dentro da van, pega uma bengala e se apóia nela para pular o muro de pedra e mergulhar nos arbustos. O motor da van continua ron-cando na beira do acostamento, a porta aberta. A van deixa escapar uma descarga azu-lada por uma ponta, rock pela outra.

— O que ele está fazendo? —Justine pergunta, um tanto nervosa.

— Dando uma mijada seria o meu palpite — responde a amiga. — Mas se o sr. King lá atrás tiver sorte, talvez esteja fazendo o número dois. Isto poderia dar a King tempo de sair da rota 7 e voltar a Via do Casco da Tartaruga.

De repente Justine não tem mais vontade de colher framboesas. Quer voltar para casa e tomar uma xícara de chá forte.

O homem sai mancando rapidamente do meio dos arbustos e se apóia de novo na bengala para transpor o muro de pedra.

— Acho que ele não teve vontade de fazer o número dois — diz Elvira e, quan-do o mau motorista volta a subir na van azul, as duas caminhantes quase idosas olham uma para a outra e explodem em risadinhas.

 

DOZE

Roland viu o velho dando instruções à mulher — algo sobre usar a estrada de Warrington para cortar caminho — e então Jake abriu os olhos. Roland achou o garoto extremamente cansado.

— Consegui fazê-lo parar para dar uma mijada — disse Jake. — Ago-ra ele está mexendo em alguma coisa atrás do banco. Não sei o que é, mas não vai mantê-lo ocupado por muito tempo. Roland, isso é ruim. Estamos tremendamente atrasados. Temos que ir!

Roland olhou para a mulher, esperando que a decisão de não substitu-í-la ao volante tivesse sido acertada.

— Sabe para onde tem de ir? Está compreendendo?

— Sim — disse ela. — Tenho de subir a Warrington até a rota 7. Às vezes jantamos na Warrington. Conheço a estrada.

— Não posso garantir que cruzem com ele, seguindo esse caminho — disse o jardineiro —, mas parece provável. — Ele se curvou para pegar o chapéu e começou a limpá-lo das pontas da grama recém-cortada. Faz isto com golpes longos e lentos, como um homem pego num sonho. — Ié, me parece provável. — E então, ainda como um homem que sonha acor-dado, enfiou o chapéu debaixo do braço, ergueu um punho para a testa e curvou uma perna para o estranho com o grande revólver na cinta. Por que não faria isso?

O estranho estava cercado de luz branca.

 

TREZE

Quando Roland tornou a subir na cabine do pequeno caminhão do dono do mercado — uma tarefa dificultada pela dor no quadril direito, que au-mentava rapidamente —, sua mão desceu pela perna de Jake e ele de re-pente ficou sabendo o que Jake estava ocultando e por quê. O garoto tinha medo que o pistoleiro perdesse o foco se viesse a saber. Não era ka-shume o que o garoto tinha sentido ou Roland teria sentido também. Como pode-ria haver ka-shume entre eles, com o tet já quebrado? Seu poder especial — alguma coisa maior que todos eles, talvez derivada do próprio Feixe — sumira. Agora eram apenas três amigos (quatro, contando o trapalhão) u-nidos por um mesmo objetivo. E podiam salvar King. Jake sabia disso. Podiam salvar o escritor e assim avançar mais um passo para salvar a Tor-re. Mas um deles ia morrer ao fazê-lo. Jake também sabia disso.

 

QUATORZE

Um velho ditado — que lhe fora ensinado pelo pai — ocorreu então a Ro-land: Se o ka disser assim, que seja assim. Sim; tudo bem; que fosse assim.

Durante os longos anos que passara no rastro do homem de preto, o pistoleiro teria jurado que nada no universo seria capaz de fazer com que renunciasse à Torre; não matara literalmente a própria mãe nessa busca, logo no início de sua terrível trajetória? Mas naqueles anos não tinha ami-gos nem filhos, e (não gostava de admitir, mas era verdade) não tinha cora-ção. Fora enfeitiçado por um frio romance que confundira com amor. A-gora tinha um filho, lhe fora dada uma segunda chance e ele havia mudado. Saber que um deles teria de morrer para salvar o escritor — saber que sua irmandade tinha de ser outra vez reduzida, e tão breve — não ia fazê-lo desistir. Mas queria se certificar que, desta vez, seria Roland de Gilead, não Jake de Nova York, o objeto do sacrifício.

O garoto percebera que seu segredo já fora violado? Não dava tempo para se preocupar com isso agora.

Roland bateu a porta do trucamóbile e olhou para a mulher.

— Você se chama Irene? — ele perguntou.

Ela assentiu.

— Dirija, Irene. Faça isso como se o Senhor Supremo do Casco Fen-dido estivesse na sua cola com estupro na mente, faça, eu peço! Pegue a estrada de Warrington. Se não o virmos ali, pegue a rota 7. Vamos lá?

— Vamos, porra! — disse a sra. Tassenbaum empurrando a alavanca de câmbio para a primeira com verdadeira autoridade.

O motor berrou, mas a picape começou a rolar para trás. Como se de tão apavorada pelo que vinha à frente preferisse acabar dentro do lago. En-tão Irene se lembrou de soltar a embreagem e o velho International Har-vester deu um salto à frente, enfrentando o íngreme aclive da entradinha e deixando para trás um rastro de fumaça azulada e borracha queimada.

O bisneto de Garrett McKeen viu, com o queixo caído, a partida do grupo. Não sabia muito bem o que acabara de acontecer, mas teve certeza de que muita coisa dependeria do que viesse a acontecer a seguir.

Talvez tudo.