A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 48 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Cinco

Ele a colocou na cadeira-executiva com rodinhas assim que retornaram ao Dogan e empurrou-a até o início do primeiro lance de degraus, Susannah segurando seus pertences e levando a sacola de Orizas no colo. No pata-mar da escada, Roland atirou a cadeira pelos degraus e pôs Susannah nos quadris, ambos estremecendo com os ecos da cadeira avançando aos tram-bolhões até lá embaixo.

— É o fim dela — disse Susannah quando os ecos finalmente cessa-ram. — Será tão inútil quanto se você a tivesse deixado aqui.

— Vamos verificar — disse Roland, começando a descer. — Talvez você se surpreenda.

— Aquela porra naum vai mais funciona e nós dois sabemos que naum — disse Detta. Oi soltou um latido curto, agudo, como a dizer é isso mesmo!

 

SEIS

A cadeira, no entanto, realmente sobreviveu à queda. E à próxima também. Mas quando Roland se curvou para examinar a pobre coisa depois que ela foi lançada por um terceiro (e extremamente longo) lance de degraus, viu que uma das rodas giratórias sofrerá uma torção definitiva. Isso trouxe um pouco à sua memória a aparência da velha cadeira de rodas de Susannah quando a encontraram depois da batalha com os Lobos na estrada do Les-te.

— Está vendo, eu não disse? — disse ela acrescentando num tom a-gudo: — Acho que tá na hora de tu começa a carrega o barco, Roland!

— Não pode se livrar de Detta? — ele perguntou ao encará-la.

Ela o olhou, surpresa, usando a memória para avaliar sua última frase. Ficou vermelha:

— Sim — disse ela num tom de voz notavelmente baixo. — Descul-pe, Roland.

Ele a levantou, instalando-a nos arreios. E eles continuaram. Por mais desagradável que fosse a passagem sob o Dogan (por mais arrepiante que fosse a passagem sob o Dogan), Susannah estava satisfeita por estarem deixando Fedic para trás. Porque isto significava que também estavam dei-xando todo o resto para trás: Lud, as Callas, Trovoada, Algul Siento e in-clusive a cidade de Nova York e o oeste do Maine. O castelo do Rei Ver-melho estava à frente, mas ela achava que não tinham de se preocupar mui-to com isso, porque seu mais famoso ocupante ficara louco e fugira para a Torre Negra.

O desimportante estava ficando para trás. Iam chegando ao fim da longa jornada e já não havia muita coisa dando motivo a preocupação. Isso era bom. E se ela cair naquela caminhada para a obsessão de Roland? Bem, se havia apenas escuridão do outro lado da existência (como ela acreditara durante quase toda a sua vida adulta), então nada estava perdido, desde que não acabassem na escuridão todash, num lugar cheio de monstros rastejan-tes. E, ei! Talvez houvesse uma vida após a morte, um céu, uma reencarna-ção, talvez até ressurreição na clareira do final do caminho. Gostava desta última idéia e já vira maravilhas suficientes para acreditar que pudesse a-contecer. Talvez Eddie e Jake estivessem lá, à espera dela, bem agasalhados e com os primeiros flocos da neve do inverno caindo e embranquecendo suas sobrancelhas: o sr. FELIZ e o sr. NATAL. Ao vê-la, iam lhe oferecer chocolate quente. Com espuma.

Chocolate quente no Central Park! O que era a Torre Negra compa-rada a isso?

 

SETE

Passaram pela rotunda com as portas levando para todo lado; finalmente chegaram à passagem larga com a placa na parede dizendo: SÓ PASSE LARANJA, PASSE AZUL NÃO ACEITO. Pouco à frente, no clarão de uma das lâmpadas fluorescentes que ainda não haviam queimado (e perto do esquecido mocassim de borracha), viram alguma coisa impressa na pa-rede de azulejos e se desviaram para ler.

Rol and, Susannah: estam os segui ndo nosso cam i nho! D eseje-nos

boa sorte!

B oa sorte para vocês!

Q ue D eus os abençoe!

J am ai s vam os esquecê-l os!

 

Sob a mensagem principal tinham escrito seus nomes: Fred Wor-thington, Dani Rostov, Ted Brautigan e Dinky Earnshaw. Sob os nomes havia mais duas linhas, escritas com outra caligrafia. Susannah achou que fossem de Ted e ler aquilo deixou-a com vontade de chorar:

Vam os procurar um m undo m el hor

Espero que tam bém encontrem um .

 

— Deus os ama — disse Susannah num tom de voz rouco. — Que o amor de Deus guarde a todos eles.

— Todos — disse uma voz fraca e um tanto tímida que vinha dos calcanhares de Roland. Olharam para baixo.

— Resolveu falar de novo, doce de coco? — Susannah perguntou, mas Oi não deu resposta. Passaram-se semanas antes que falasse de novo.

 

OITO

Duas vezes se perderam. Uma vez foi Oi quem tornou a achar o caminho deles através do labirinto de túneis e passagens — algumas gemendo com distantes correntes de ar, outras repletas de sons que pareciam mais próxi-mos e mais ameaçadores. E uma vez, Susannah redescobriu o caminho, atraída por uma embalagem de barra de chocolate que Dani deixara cair. O Algul estivera bem estocado de doces e a moça havia levado muitos com ela (“Embora nem uma única muda de roupas”, Susannah disse com uma risada e uma sacudida de cabeça). De repente, diante de uma antiga porta de pau-ferro que lembrava a Roland a que encontrara na praia, ouviram um desagradável ruído de mascar. Susannah tentou imaginar o que podia estar fazendo aquele barulho e só conseguiu pensar numa boca gigante e dis-forme cheia de presas amarelas com manchas de sujeira. Na porta havia um símbolo indecifrável. O simples fato de olhá-lo deixou-a inquieta.

— Sabe o que isto significa? — ela perguntou e Roland, embora fa-lasse mais de meia dúzia de idiomas e tivesse noções de muitos outros, ba-lançou a cabeça numa negativa. Susannah ficou aliviada. Desconfiava que se a pessoa conhecesse o som ligado àquele símbolo, ia querer dizê-lo. Tal-vez tivesse de dizer. E então a porta se abriria. Bem, você não ia querer cor-rer quando visse a coisa que estava mascando do outro lado? Provavelmen-te. Mas você ia conseguir correr?

Talvez não.

Logo após ver aquela porta desceram outro lance, agora mais curto, de escada.

— Acho que esqueci desta escada quando conversamos ontem, mas agora já me lembro — disse ela apontando para a poeira nos degraus, que mostrava marcas. — Olhe, são nossas pegadas! Fred carregou-me para bai-xo e Dinky para cima, quando voltamos. Agora estamos quase lá, Roland, posso lhe garantir!

Mas Susannah ficou de novo perdida no amontoado de galerias di-vergentes na base dos degraus e foi então que Oi os colocou no caminho certo, trotando por uma escura passagem tipo túnel, onde o pistoleiro ti-nha de andar curvado com Susannah agarrada ao pescoço dele.

— Não sei... — Susannah começou, e então Oi os levou para uma ga-leria mais clara (comparativamente mais clara: metade das lâmpadas fluores-centes do teto estavam apagadas e muitos azulejos tinham caído das pare-des, revelando a terra escura e cheia de limo que havia por baixo). O trapa-lhão sentou-se num confuso emaranhado de rastros e olhou-os como se dissesse: É isso que vocês queriam?

— É — disse ela, obviamente aliviada. — Tudo bem. Olhe, Roland, exatamente como eu disse a você. — Apontou para uma porta com a ins-crição: FORD’S THEATER, 1865, VEJA O ASSASSINATO DE LINCOLN. Ao lado dela, debaixo de um vidro, havia um cartaz do Nosso Primo Americano, que parecia ter sido impresso na véspera. — O que queremos está aqui perto. Duas viradas à esquerda e depois à direita... eu acho. De qualquer modo, na hora vou saber.

Roland estava sendo paciente com ela. Tinha uma idéia desagradável que não compartilhou com Susannah: que o labirinto de galerias e corredo-res ali embaixo podia estar à deriva, exatamente como estavam os pontos cardeais no que ele já começava a imaginar como “mundo de cima”. Se assim fosse, estavam numa encrenca.

Fazia calor lá embaixo e logo os dois suavam bastante. Oi arfava ás-pera e continuamente, como um motorzinho, mas mantinha a passada fir-me junto ao calcanhar esquerdo do pistoleiro. Não havia pó no chão e as pegadas que tinham visto aqui e ali haviam desaparecido. Os ruídos atrás das portas, no entanto, estavam mais altos e, quando passaram por uma delas, algo do outro lado deu uma pancada na madeira com força suficiente para fazer a porta estremecer na moldura. Oi latiu, estendendo as orelhas contra a cabeça e Susannah deixou escapar um pequeno grito.

— Tranqüila, ô! — disse Roland. — Ele não pode quebrá-la. Ne-nhum deles consegue.

— Tem certeza?

— Sim — disse o pistoleiro com firmeza. Mas não tinha certeza ne-nhuma. Uma frase de Eddie lhe ocorreu: Não vale mais nenhuma aposta.

Contornaram poças, tomando cuidado para não encostar de forma nenhuma nas que brilhavam, pois poderia ser radiação ou clarão de alguma feitiçaria. Aproximaram-se de um cano quebrado que exalava uma fraca nuvem de vapor verde e Susannah sugeriu que prendessem a respiração até o ultrapassarem completamente. Roland achou a idéia realmente muito boa.

Trinta ou 40 metros à frente, ela o fez parar.

— Não sei, Roland — disse, e ele viu como Susannah lutava para manter o pânico fora da voz. — Achei que estivéssemos na direção certa quando vi a porta de Lincoln, mas agora isto... isto aqui... — Sua voz fra-quejou e Roland sentiu como ela respirava fundo, lutando para se manter sob controle. — Tudo isto parece diferente. E os sons... eles entram mesmo em sua cabeça...

Ele sabia o que Susannah queria dizer. À esquerda havia uma porta sem inscrições que parecia muito mal encaixada nas dobradiças. De uma fenda no alto da porta vinha o toque atonal de sinos todash, um som que era ao mesmo tempo horrível e fascinante. Acompanhava os sinos uma firme corrente de ar fedorento. Roland desconfiou que Susannah estava a ponto de sugerir que dessem meia-volta enquanto ainda podiam, talvez para repensar toda aquela idéia de passar por baixo do castelo, e disse:

— Vamos ver o que há lá em cima. Está um pouco mais iluminado, sem dúvida.

Quando se aproximaram de uma interseção da qual túneis e corredo-res azulejados se irradiavam em todas as direções, Roland a sentiu se deslo-car contra ele, empinando o corpo.

— Ali! — ela gritou. — Aquele monte de entulho! Demos a volta ne-le! Demos a volta nele, Roland, eu me lembro!

Parte do teto havia caído no meio da interseção, criando uma mistu-rada de azulejos partidos, vidros quebrados, pontas de arame, e simples e pura sujeira. Pelo lado havia rastros.

— Por ali! — ela gritou. — Direto em frente!, Ted disse. Acho que é a rua que chamavam de rua Central e Dinky pensava o mesmo. Dani Ros-tov falou que muito tempo atrás, mais ou menos na época em que o Rei Rubro fez alguma coisa para escurecer Trovoada, um grande bando de pessoas usou aquele caminho para fugir. Só que deixaram alguns de seus pensamentos para trás. Perguntei a ela como era esta sensação e ela disse que era um pouco como ver espuma suja de sabão nos lados da banheira depois de você esvaziar a água. “Nada simpático”, ela disse. Fred fez a marca a giz e voltamos direto para a enfermaria. Não quero colocar o carro na frente dos bois, mas acho que vamos ficar OK.

E ficaram, pelo menos por algum tempo. A oitenta passos do monte de entulho se depararam com uma abertura em arco. Atrás dela, bolas brancas radiantes, tremulantes, pendiam do teto, seguindo num ângulo in-clinado para baixo. Na parede, em quatro traços feitos a giz, que já tinham começado a escorrer por causa da umidade que vertia dos azulejos, havia a última mensagem deixada para eles pelos Sapadores liberados:

 

Descansaram um pouco ali, comendo punhados de passas que tira-ram de uma lata fechada a vácuo. Mesmo Oi beliscou algumas, embora ficasse claro, pelo modo como comia, que não estava gostando muito de-las. Quando todos ficaram satisfeitos, Roland tornou a guardar a lata no saco de couro que encontrara ao longo do caminho e perguntou a Susan-nah:

— Está pronta para continuar?

— Sim. Agora mesmo, eu acho, antes de perder minha... meu Deus, Roland, o que foi isso?

De trás deles, provavelmente de uma das passagens saindo da interse-ção entupida de entulho, viera um baque surdo. Tinha uma qualidade lí-quida, como se um gigante em botas de borracha cheias d’água tivesse aca-bado de dar um passo.

— Não sei — disse ele.

Susannah olhava inquieta pelo ombro, mas só conseguia ver sombras. Algumas estavam se movendo, mas isto podia ser mero efeito do cintilar das luzes.

Podia ser.

— Sabe como é — disse ela. — Acho que pode ser uma boa idéia deixarmos esta área o mais depressa possível.

— Acho que tem razão — disse ele, pousado num joelho e nas pon-tas dos dedos abertos, como um corredor se preparando para o sinal de partida no início da raia. Quando ela se acomodou nos arreios, ele ficou de pé e ultrapassou a seta na parede, iniciando um passo que era quase correr.

 

NOVE

Há 15 minutos estavam se movendo naquele quase correr quando se depa-raram com um esqueleto vestindo os restos apodrecidos de um uniforme militar. Havia ainda um pedaço de couro cabeludo em sua cabeça, onde brotava um tufo despenteado de cabelo preto. O maxilar sorria, como se saudasse a chegada deles ao mundo subterrâneo. No chão, ao lado da pél-vis nua da coisa, havia um anel que escorregara de um dos dedos mofados da mão direita do morto. Susannah perguntou a Roland se podia olhar mais de perto. Ele pegou o anel e entregou a ela. Ela o examinou pelo tempo suficiente para confirmar o que havia pensado e atirou-o para o la-do. Ele fez um pequeno tilintar e depois só se ouviram ruídos de água pin-gando e os sinos todash, agora mais fracos, mas persistentes.

— O que eu pensei — disse ela.

— E o que foi? — ele perguntou, tornando a se mover.

— O cara era um rosa-cruz. Meu pai tinha o mesmo tipo de anel.

— Um rosa-cruz? O que é isso?

— Um membro de uma fraternidade. Uma espécie de ka-tet, o pesso-al se ajuda em tudo. Mas que diabo estaria um rosa-cruz fazendo aqui? Cla-ro, um templário ainda dava para entender... — E ela riu, um tanto espa-lhafatosamente.

As lâmpadas penduradas estavam cheias de um gás brilhante que pul-sava com uma batida rítmica, mas não de todo constante. Susannah sentiu que havia algo ali a ser captado e, após alguns momentos, ela conseguiu. Quando Roland acelerava o passo, o pulsar das luzes era rápido. Quando ele diminuía a marcha (não parando nunca, mas conservando energia), o pulsar dos globos também ficava mais lento. Não achava que as luzes esti-vessem exatamente respondendo à batida do coração dele ou do coração dela, mas tinha a ver (sem dúvida o termo biorritmo lhe teria sido útil, mas ela não o conhecia). Cerca de 50 metros à frente da posição onde estives-sem, não importa qual, a rua Central estava sempre escura. Então, uma a uma, as luzes iam se acendendo à medida que eles se aproximavam. A coisa era hipnotizante. Ela se virou para olhar para trás — só uma vez, pois não queria desequilibrar o passo de Roland — e viu que, sim, as luzes iam se apagando também 50 metros atrás deles. Aquelas luzes eram muito mais brilhantes que os globos bruxuleantes na entrada da rua Central, e ela a-chava que os globos dependiam de alguma outra fonte de energia, uma fonte que (como quase tudo naquele mundo) estava começando a se esgo-tar. Então ela reparou que um dos globos de que estavam se aproximando continuava escuro. A medida que se aproximaram e depois passaram sob ele, Susannah viu que não estava completamente apagado; um vago núcleo iluminado ardia debilmente bem no seu interior, contraindo-se com a agi-tação de seus corpos e cérebros. Isso a lembrava de como a pessoa às ve-zes vê uma placa de néon com uma ou mais letras apagadas, transforman-do PASSADO em PASSO ou SABOROSO PRATO em SABOROSO RATO. Mais ou menos 30 metros à frente havia outra lâmpada queimada, depois outra, depois duas em sucessão.

— Temos grandes possibilidades de ficar no escuro daqui a pouco — disse ela sombriamente.

— Eu sei — disse Roland, que estava começando a perder o fôlego.

O ar continuava úmido e uma friagem ia gradualmente substituindo o calor. Havia cartazes nos muros, a maioria apodrecidos bem além do ponto em que pudessem se manter legíveis. No trecho seco de um muro ela viu um que mostrava uma arena onde um homem acabara de perder uma bata-lha de arena com um tigre. O grande felino estava arrancando um pedaço sangrento dos intestinos da barriga do homem. Ele gritava enquanto a mul-tidão caía numa agitação frenética. Havia uma linha de texto em meia dúzia de idiomas. A versão inglesa era a segunda de cima para baixo. VISITE O CIRCUS MAXIMUS! VOCÊ VAI VIBRAR!, dizia a inscrição.

— Cristo, Roland — disse Susannah. — Cristo Todo-Poderoso, o que eram?

Roland não respondeu, embora soubesse a resposta: eles eram folken que enlouqueceram.

 

DEZ

De 100 em 100 metros, pequenos lances de degraus — o mais longo tinha apenas dez degraus de cima a baixo — foram, gradualmente, fazendo os dois penetrarem cada vez mais profundamente nas entranhas da terra. De-pois de terem avançado um trecho que Susannah estimou em 400 metros, atingiram um portão que fora arrancado, talvez por algum tipo de veículo, e reduzido a estilhaços. Ali havia mais esqueletos, tantos que Roland teve de pisar em alguns para passar. O barulho não foi de ossos quebrando; foi um ruído um tanto pior, abafado e úmido. O cheiro que subia deles era salobro e molhado. A maioria dos azulejos acima daqueles corpos tinham sido arrancados e os que permaneciam nas paredes estavam cravejados de buracos de balas. Um tiroteio, então. Susannah abriu a boca para fazer um comentário, mas antes de conseguir fazê-lo, o baque surdo se fez nova-mente ouvir. Ela achou que, desta vez, estava um pouco mais alto. Um pouco mais perto. Olhou novamente para trás e nada viu. As luzes conti-nuavam a escurecer em sucessão, sempre a uns 50 metros atrás deles.

— Não gosto de parecer paranóica, Roland, mas acho que estamos sendo seguidos.

— Sei que estamos.

— Quer que eu dê um tiro? Ou jogue um prato? Só o assobio do pra-to já pode ser bastante assustador.

— Não.

— Por que não?

— Ele pode não saber o que nós somos. Se você atirar... ele saberá.

Susannah demorou um pouco para perceber o que ele estava real-mente dizendo: Roland não tinha certeza se balas — ou um Oriza — con-seguiriam deter o que quer que estivesse lá atrás. Ou, pior, talvez ele tivesse certeza de que não.

Quando falou de novo, Susannah teve de fazer um grande esforço para parecer calma e achou que estava sendo razoavelmente bem-sucedida:

— Será alguma coisa saída daquela falha na terra, você acha possível?

— Pode ser — disse Roland. — Ou pode ser algo que veio do espaço todash. Agora cale.

O pistoleiro apertou o passo, finalmente atingindo um verdadeiro tro-te acelerado e logo ultrapassando-o. Ela estava espantada com a agilidade dele, agora que a dor no quadril havia passado. Podia ouvir sua respiração, assim como podia senti-la no subir e descer das costas: rápida, ofegantes sugadas de ar seguidas de ásperas expulsões que soavam quase como gritos de irritação. Susannah daria qualquer coisa para poder correr ao lado dele com suas próprias pernas, as fortes, que Jack Mort lhe roubara.

Os globos sobre eles pulsavam agora mais rápido, uma pulsação mais fácil de ver porque o número de globos ficara menor. No espaço entre um e outro, a sombra combinada dos dois se estendia por uma longa extensão à frente; depois, à medida que se aproximavam do próximo ponto de luz, ia se encurtando pouco a pouco. O ar estava mais frio; a coisa de cerâmica que forrava o piso ficava cada vez menos regular. Em certos pontos as la-jotas já estavam partidas e pedaços delas tinham sido atirados para o lado, formando armadilhas para um pé distraído. Oi se esquivava com facilidade dos buracos e, até aquele momento, Roland também fora capaz de evitá-los.

Susannah ia dizer a ele que já há algum tempo não ouvia o persegui-dor quando algo lá atrás se manifestou por uma grande respiração ofegan-te. Ela sentiu o ar em volta mudar de direção; sentiu os pequenos caracóis do cabelo repuxarem furiosos quando o ar foi sugado para trás. Houve um tremendo barulho rouco que a deixou com vontade de gritar. O que estava atrás deles, fosse o que fosse, era grande.

Não.

Enorme.

 

ONZE

Atiraram-se por outro daqueles curtos lances de escadas. Cinqüenta metros à frente, três novos globos pulsantes ganharam vida com uma luz instável, mas depois houve apenas escuridão. As arruinadas paredes de azulejo da galeria e o piso deteriorado, irregular, se dissolveram num vácuo tão pro-fundo que era como uma substância física: grandes nuvens de feltro preto frouxamente agrupadas. Entrariam correndo nelas, ela pensou, e a princí-pio o impulso continuaria carregando-os à frente. Então a coisa os lançaria para trás, como uma espécie de mola, e logo o que houvesse lá atrás ia cair em cima. Susannah veria a coisa de relance, algo terrível, tão exótico que sua mente não seria capaz de identificar, o que poderia ser uma bênção. Aí a coisa ia atacar e...

Roland penetrou na escuridão sem diminuir a marcha e é claro que não foram impelidos para trás. A princípio ainda houve um pouco de luz, parte vindo de trás deles e parte dos globos no alto (alguns ainda propor-cionavam um último toque de radiância), só o bastante para ver outra es-cada curta, o patamar ladeado por esqueletos que já começavam a se esfa-relar entre alguns miseráveis farrapos de roupas. Roland desceu correndo os degraus — nove naquela escada — sem parar. Oi corria do seu lado, quase dançando, as orelhas encostadas no crânio, o pêlo ondulando macio. De repente estavam em absoluta escuridão.

— Lata, Oi, para não darmos cabeçadas uns nos outros! — Roland berrou. — Comece a latir!

Oi latiu. Uns trinta segundos mais tarde, Roland berrou a mesma or-dem e Oi tornou a latir.

— E se tivermos de descer outra escada, Roland?

— Vamos ter — disse ele e, daí a uns noventa segundos, lá estava. Susannah sentiu quando ele se inclinou para a frente, os pés sem firmeza. Sentiu os músculos saltarem nos ombros quando ele estendeu as mãos, mas não caíram. Susannah não pôde deixar de se maravilhar com seus re-flexos. E as botas de Roland foram avançando sem hesitar pela escuridão. Doze degraus desta vez? Quatorze? Estavam de volta a outra superfície plana antes que ela pudesse chegar a uma conclusão sobre a contagem. Mas Susannah descobrira que Roland era capaz de lidar com escadas mes-mo no escuro, mesmo no meio de uma corrida plena.

E se ele enfiasse o pé em algum buraco? Deus sabia que era possível, porque o piso estava muito deteriorado. E se esbarrasse numa barreira de esqueletos empilhados? Na velocidade em que agora corria pela superfície plana, isto resultaria, na melhor das hipóteses, num tombo desagradável. Ou suponhamos que topassem com um monte de ossos no alto de uma das escadinhas? Susannah tentou afastar a imagem de Roland mergulhando no escuro, como um mergulhador aleijado, e não conseguiu. Quantos os-sos os dois quebrariam quando se esborrachassem no fundo? Merda, docinho, escolha um número, diria Eddie. Aquela corrida no vazio era insana!

Mas não havia opção. Agora podia ouvir a coisa atrás deles com abso-luta clareza, não apenas o bafo da respiração mas um som raspante de lixa, alguma coisa resvalando por uma parede da galeria... ou talvez pelas duas. De vez em quando ela também ouvia um tilintar e um ruído de rachar quando algum azulejo era arrancado. Era impossível não construir uma imagem a partir desse sons e, na imagem que Susannah começou a ver, havia um grande verme negro, o corpo segmentado preenchendo a galeria de um lado a outro. De vez em quando a grande minhoca passava por lajo-tas soltas e as esmagava com aquele corpo gelatinoso que continuava a se lançar para a frente — faminto, diminuindo o intervalo que o separava dos dois.

Diminuindo-o agora com muito mais rapidez. Susannah achou que sabia por quê. Há pouco tinham corrido por ilhas iluminadas num contí-nuo jogo de luzes. Fosse o que fosse a coisa que vinha atrás, ela certamente não gostava de luz. Susannah pensou na lanterna que Roland tinha acres-centado à bagagem. Sem pilhas, no entanto, era praticamente inútil. Vinte segundos depois de ligado, o comprido corpo da lanterna ia se apagar.

Exceto... espere um minuto.

O corpo.

O corpo comprido!

Susannah estendeu a mão para a bolsa de couro que balançava do la-do de Roland, sentiu as latas de comida, mas a lata que ela queria era outra. Finalmente encontrou, reconhecendo-a pela calha em volta da tampa. Não havia tempo para se perguntar por que a lata pareceu tão imediata e inti-mamente familiar; Detta tinha seus segredos e algum fato relacionado com o uso do Sterno era provavelmente um deles. Quando ergueu a lata para cheirar e ter certeza, a ponta de seu nariz foi golpeada, pois Roland havia tropeçado em alguma coisa — talvez num pedaço do piso, talvez num ou-tro esqueleto. Ele teve de fazer força para manter o equilíbrio. Também foi bem-sucedido desta vez, mas em algum momento ia falhar e a coisa lá atrás estaria em cima deles antes de Roland se levantar. Susannah sentiu o san-gue quente começar a descer pelo rosto e a coisa que os seguia, sentindo talvez o cheiro desse mesmo sangue, deixou escapar um enorme grito rou-co. Susannah imaginou um crocodilo gigante num pântano da Flórida le-vantando a cabeça escamosa e uivando para a lua. E estava tão perto!

Oh, meu bom Deus, me dê tempo, ela pensou. Não quero acabar assim. Levar um tiro é uma coisa, mas ser comida viva no escuro...

Era outra.

— Mais depressa. — ela grasnou a Roland, batendo do lado do corpo dele com as coxas, como um cavaleiro atiçando um cavalo cansado.

De alguma forma, Roland obedeceu. Agora a respiração dele era um ronco de agonia. Nem depois de dançar a commala Roland havia respirado daquela maneira. Se continuasse, o coração explodiria em seu peito. Mas...

— Mais depressa, alazão! Dê tudo que tem, porra! Talvez eu tenha um truque na manga, mas use as reservas até o fim!

E ali, na escuridão sob o Castelo Discórdia, Roland obedeceu.

 

DOZE

Ela mergulhou mais uma vez a mão livre na sacola e fechou-a no corpo da lanterna. Puxou a lanterna, enfiando-a debaixo do braço (e sabendo que, se a deixasse cair, estariam realmente perdidos). Então empurrou a lingüeta da lata de Sterno e ficou aliviada com o assobio rápido quando o lacre se rompeu. Aliviada, mas não surpresa — se o lacre tivesse sido quebrado, o gel inflamável que havia lá dentro teria há muito se evaporado e a lata teria sido mais leve.

— Roland! — ela gritou. — Roland, preciso de fósforos!

— Camisa... bolso! — ele arfou. — Pegue!

Mas primeiro Susannah deixou cair a lanterna para dentro do espaço onde o meio de suas pernas encontrava o meio das costas, daí agarrou-a um instante antes de ela escorregar. Agora, segurando bem, mergulhou o corpo da lanterna na lata de Sterno. Pegar um fósforo enquanto estivesse segurando a lata e a lanterna coberta de gel teria exigido uma terceira mão, por isso ela jogou fora a lata. Havia mais duas na saca, mas, se aquela não funcionasse, ela não teria oportunidade de tentar pegar outra.

A coisa tornou a berrar, parecendo estar bem atrás. Ela já podia sentir o cheiro, o aroma como um monte de peixe apodrecendo no sol.

Passando a mão pelo ombro de Roland, tirou um fósforo do bolso dele. Talvez desse tempo para acender um; não dois. Roland e Eddie eram capazes de acendê-los com as unhas dos polegares, mas Detta Walker co-nhecia um truque que valia por dois daquele, já recorrera a ele em mais de uma ocasião para impressionar suas vítimas branquelas nos bordéis de bei-ra de estrada por onde rodara. Fez uma careta no escuro, afastando os lá-bios dos dentes e pôs a ponta do fósforo entre dois dentes da frente. Eddie, se está aí, me ajude, docinho... me ajude a fazer direito.

Riscou o fósforo. Algo quente queimou o céu de sua boca e ela sentiu gosto de enxofre na língua. A chama do fósforo quase cegou os olhos já adaptados ao escuro, mas ela conseguiu ver o suficiente para encostá-la no tubo coberto de gel da lanterna. O Sterno se inflamou de imediato, trans-formando a lanterna numa tocha. Era uma tocha fraca, mas era alguma coisa.

— Vire! — ela gritou.

Numa derrapada, Roland parou de imediato (sem perguntas, sem pro-testo) e girou nos calcanhares. Ela segurava a lanterna chamejante na frente dela e, por um momento, ambos viram a cabeça de uma coisa úmida e co-berta de olhos albinos de cor rosada. Embaixo dos olhos havia uma boca do tamanho de um alçapão, cheia de tentáculos se contorcendo. Parecia que o Sterno não ardia com muito brilho mas, naquele negrume infernal, tinha brilho suficiente para fazer a coisa recuar. E antes que a criatura de-saparecesse na escuridão, Susannah viu todos aqueles olhos se contraindo e teve um momento para imaginar como deviam ser sensíveis, pois se uma chama fraquinha como essa podia...

O chão da galeria estava forrado por uma misturada de ossos. Na mão de Susannah, a ponta da lanterna com a lâmpada já estava ficando quente. Oi latia freneticamente, olhando para trás no escuro de cabeça bai-xa e as pernas curtas bem abertas, cada pêlo arrepiado na ponta.

— Abaixe-se, Roland, abaixe-se!

Ele obedeceu e ela lhe entregou a tocha improvisada, que já começava a se apagar. As chamas amarelas que subiam e desciam pelo corpo de aço inox iam ficando azuis. A coisa no escuro soltou outro ronco ensurdecedor e Susannah, então, pôde novamente ver sua forma, que ondulava de um lado para o outro. E a criatura rastejava para mais perto à medida que a luz ia faltando.

Se o chão estiver molhado, estamos muito provavelmente acabados, ela pensou, mas o toque dos dedos apalpando um fêmur sugeriu que estava seco. Tal-vez fosse uma mensagem falsa enviada por sentidos esperançosos (sem dúvida ouvia água gotejando de algum lugar no teto à frente), mas achava que não.

Pôs a mão na bolsa e encontrou outra lata de Sterno, mas a princípio a lingüeta a desafiou. A coisa estava se aproximando e agora ela podia ver um monte de pernas curtas, disformes sob o caroço erguido de uma cabe-ça. Não um verme, afinal, mas uma espécie de centopéia gigante. Oi se co-locou na frente dela, sempre latindo, mostrando cada um dos dentes. Seria Oi quem a coisa ia pegar primeiro se Susannah não conseguisse...

Então seu dedo deslizou para a parte da lingüeta quase encostada na tampa da lata. Houve um som tipo pop-sssss. Roland sacudia a lanterna de um lado para o outro, tentando atiçar um pouco de vida nas chamas bru-xuleantes (o que teria dado certo se ainda houvesse combustível para ali-mentá-las) e ela viu suas sombras enfraquecidas se agitarem delirantemente de um lado para outro pelas deterioradas paredes de azulejos.

A circunferência do osso era grande demais para a lata. Equilibrando-se numa desajeitada posição de lado, metade dentro e metade fora dos ar-reios, ela mergulhou a mão na lata, ensopou-a de gel e lambuzou o osso de cima a baixo. Se o osso estivesse molhado, só ganhariam mais alguns se-gundos de horror. Se no entanto estivesse seco, então talvez... apenas tal-vez...

A coisa rastejava cada vez mais perto. Entre os tentáculos que brota-vam da boca, Susannah via grandes presas se projetando. Mais um momen-to e a coisa estaria próxima o bastante para se lançar contra Oi, pegando-o com a velocidade de um lagarto abocanhando uma mosca no ar. O cheiro de peixe podre era forte, nauseante. E o que poderia haver por trás dela? Que outras abominações?

Não era hora de pensar nisso.

Quando Susannah encostou o fêmur nas últimas chamas que lambi-am o corpo da lanterna, o osso se transformou em tocha. O fogo brotou de forma mais intensa — bem mais intensa — do que ela havia esperado e, desta vez, o grito da coisa foi cheio de dor, não apenas de espanto. Houve um horrível som borrachoso, como lama sendo espremida numa capa de plástico, e a coisa se precipitou para trás.

— Tu me arranja mais osso — disse ela quando Roland se livrou da lanterna. — E vê se consegue mermo um osso seção! — Riu com seu dito espirituoso (já que ninguém mais ia rir); foi o sujo e debochado cacarejar de Detta.

Sempre ansiando por ar, Roland fez o que ela mandou.

 

TREZE

Retomaram o avanço pela galeria, Susannah viajando agora de costas, uma posição difícil, mas não impossível de manter. Se saíssem vivos de lá, suas costas doeriam como o diabo nos próximos dias. E vou comemorar cada pon-tada, ela disse a si mesma. Roland ainda tinha a camiseta da Exposição Comemorativa de Bridgton que Irene Tassenbaum lhe comprara. Passou a camiseta a Susannah. Ela a enrolou na ponta quente do osso, que estendeu o mais que pôde, sempre atenta ao equilíbrio que tinha de manter. Roland não podia correr (Susannah certamente ia cair dos arreios se ele o fizesse), mas mantinha um passo bem rápido, mesmo parando de vez em quando para pegar um osso de perna ou braço que pudessem usar. Oi logo captou a idéia e começou a levar os ossos com a boca para o pistoleiro. A coisa continuava a segui-los. De vez em quando Susannah via de relance um pe-daço da pele oleosa, brilhante, e mesmo quando algum recuo da criatura a tirava da luz incerta das tochas, continuavam a ouvir aquelas pisadas líqui-das, como passos de um gigante em botas cheias de lodo. Susannah come-çou a pensar que era o som da cauda. Isto a encheu de um horror ilógico e particular, quase suficientemente poderoso para desarticular sua mente.

Tem uma cauda!, insistia sua mente num semidelírio. Uma cauda que soa como se estivesse cheia de água, geléia ou sangue meio coagulado! Cristo! Meu Deus! Meu Cristo!

Não era apenas a luz que impedia a coisa de atacá-los, Susannah ima-ginava, mas medo do fogo. A coisa devia ter ficado mais para trás enquan-to eles ainda seguiam pela parte da galeria onde os globos brilhantes fun-cionavam, pensando (se pudesse pensar) que era melhor esperar para pegá-los assim que entrassem no escuro. Susannah desconfiava que, se a criatura soubesse que teriam acesso a fogo, poderia ter fechado alguns ou todos de seus muitos olhos e investido contra eles num ponto onde houvesse glo-bos apagados e a luz fosse mais suave. A coisa agora parecia, ao menos temporariamente, sem sorte, porque era espantoso como os ossos davam boas tochas (a idéia de que estivessem sendo ajudados pelo Feixe em recu-peração não passou pela cabeça de Susannah). A única dúvida era saber até que ponto o Sterno ia durar. Susannah conseguia conservar o combustível pois os ossos continuavam queimando sozinhos depois que eram acesos (exceto alguns mais úmidos, que ela atirava para o lado após acender a próxima tocha nas pontas que iam se apagando), mas era realmente preciso continuar a acendê-los e ela já estava no fundo da terceira e última lata. Lamentou amargamente ter jogado uma fora quando a coisa chegou muito perto, mas não sabia o que mais poderia ter feito. Também queria que Ro-land fosse mais depressa, mas agora imaginava que ele não podia exagerar na velocidade, mesmo que ela estivesse virada para o lado certo e agarrada nele. Quem sabe uma curta arrancada, embora certamente não mais que isso... Podia sentir a musculatura de Roland tremendo embaixo da camisa. Ele estava perto de desabar.

Cinco minutos depois, quando pegavam um punhado do calor enla-tado para lambuzar a curvatura de um joelho na ponta de uma tíbia, os de-dos de Susannah encostaram no fundo da lata de Sterno. Da escuridão a-trás deles veio outra daquelas pancadas molhadas. A cauda da nova amiga, insistia a mente de Susannah. A criatura mantinha o passo. Esperava que ficassem sem combustível e que o mundo ficasse novamente escuro. Aí ela ia avançar.

Aí ela ia comer.

 

QUATORZE

Iam precisar de um plano B. Susannah teve certeza disso quase no mo-mento exato em que as pontas dos seus dedos encostaram no fundo da lata. Dez minutos e três tochas mais tarde, Susannah preparou-se para mandar o pistoleiro parar quando — e se — chegassem a outro ossário bastante grande. Poderiam fazer uma fogueira com trapos e ossos e, assim que o fogo estivesse realmente ficando quente e brilhante, sairiam corren-do como malucos. Quando — e se — ouvissem a coisa cruzando a barrei-ra de fogo, Roland podia aliviar sua carga e ganhar velocidade ao deixá-la para trás. Não via esta idéia como um gesto de auto-sacrifício, mas como pura lógica — não havia por que a monstruosa centopéia pegar os dois se isto pudesse ser evitado. Além do mais, Susannah não tinha planos para se deixar pegar, por mais que isso parecesse inevitável. Certamente não a pe-garia viva. Tinha o revólver de Roland e saberia usá-lo. Cinco tiros para sai Centopéia; e, se a criatura continuasse avançando, um sexto tiro para si própria.

Antes, contudo, que Susannah pudesse dizer qualquer uma dessas coisas, Roland soltou quatro palavras que detiveram todas as palavras dela.

— Luz! — gritou ofegante. — Bem à frente!

Susannah virou a cabeça e a princípio não viu nada, provavelmente por causa da tocha que estava segurando. Então conseguiu: um leve clarão branco.

— Mais globos daqueles? — ela perguntou. — Uma fileira deles ain-da funcionando?

— Talvez. Mas acho que não.

Cinco minutos depois ela percebeu que podia ver o chão e as paredes na luz de sua última tocha. O chão estava coberto por uma fina camada de poeira e pedras, que só podiam ter vindo de fora. Susannah jogou os bra-ços para cima, uma das mãos ainda enrolada na camiseta, segurando a pon-ta de um osso em chamas. Soltou um grito de triunfo. A coisa lá atrás res-pondeu com um ronco de fúria e frustração que deliciou seu coração, mesmo que tenha salpicado sua pele de arrepios.

— Adeus, querida! — ela gritou. — Adeus, sua puta caolha!

A coisa tornou a roncar e se jogou para a frente. Por um momento, Susannah a viu claramente: uma enorme massa arredondada que, apesar da boca caída, não podia ser chamada de face; o corpo segmentado, arranha-do e pingando alguma coisa devido ao contato com as paredes ásperas; um quarteto de apêndices atarracados, como se fossem braços, dois de cada lado. Os apêndices acabavam em garras tenazes. Susannah deu um grito agudo e atirou a tocha contra a coisa, que recuou com outro ronco ensur-decedor.

— Sua mãe nunca lhe ensinou que não é certo torturar os animais? — Roland perguntou, e o tom foi tão seco que Susannah não saberia dizer se ele estava brincando ou não.

Cinco minutos depois, tinham saído.